Vilanova Artigas e a importância da “Escola Paulista” de arquitetura

Há quarenta anos falecia na capital paulista o arquiteto João Batista Vilanova Artigas, mentor de um movimento que transformou a arquitetura brasileira em um momento de transição entre uma estética ainda vinculada à influência europeia do início do Século para uma linguagem moderna e minimalista.

Fachada da Casa da Boia em estilo Eclético, uma estética que perderia força a partir de 1930.
Fachada da Casa da Boia em estilo Eclético, uma estética que perderia força a partir de 1930.

No início dos anos 1930, São Paulo ainda vivia a intensa transformação urbana das décadas anteriores, impulsionada pelo crescimento econômico proporcionado pelas indústrias, mas agora, diferente do que acontecera naquele período o final dos anos 1920 representava a novidade que era o processo de verticalização da cidade, até então majoritariamente formada por edifícios térreos ou sobrados.

O estilo arquitetônico que ainda dominava a paisagem da cidade era o Ecletismo, frequentemente associado a uma arquitetura suntuosa, com forte influência europeia e uso de ornamentos de fachada.

Se aqui você lembrou da linda fachada da Casa da Boia não relacionou errado. A sede da nossa empresa é até hoje um exemplar de edifício eclético no centro da cidade. E, podemos dizer, um dos mais bem conservados e que mantém sua função original até hoje.

Se você ainda não conhece vale a visita à nossa loja histórica onde você encontra uma variedade de produtos de cobre para a sua casa. Desde produtos para gastronomia, até decorativos. A gente promove toda a última quinta-feira do mês uma visita guiada por historiadores na qual você conhece melhor nossa história e a importância da Casa da Boia para a história de São Paulo.

Voltando ao nosso assunto, a partir dos anos 1930 começa a se formar nas escolas de arquitetura jovens que encaravam esta linguagem ultrapassada, pouco ligada a uma estética genuinamente brasileira.

Em 1928, já havia sido construída a Casa Modernista de Gregori Warchavchik, considerada a primeira construção modernista no Brasil. Mas a aceitação e edificação de projetos “modernistas”  se consolidariam gradualmente.

Edifício Esther, no centro de São Paulo. Considerado um dos primeiros edifícios modernistas da capital.
Edifício Esther, no centro de São Paulo. Considerado um dos primeiros edifícios modernistas da capital.

Um marco da transição foi o Edifício Esther (projetado em 1935, inaugurado em 1938), considerado um dos primeiros edifícios residenciais modernistas de São Paulo, que incorporava os chamados  “Cinco Pontos da Nova Arquitetura”, propostos pelo arquiteto franco-suiço Le Corbusier, ainda em 1926.

Esses cinco “pontos fundamentais” de uma arquitetura moderna seriam: pilotis, plantas livres, fachadas livres, janelas em fita (abertura horizontal longa e contínua, muitas vezes ocupando grande parte da fachada) e terraços-jardim.

O movimento que estava tomando forma na intelectualidade, nos urbanistas e arquitetos ganharia importância crescente a partir dos anos 1940, muito impulsionado pela figura de um  jovem arquiteto chamado João Batista Vilanova Artigas.

Artigas lidera o movimento modernista na arquitetura

O arquiteto João Batista Vilanova Artigas.
O arquiteto João Batista Vilanova Artigas.

O paranaense Vilanova Artigas cursou engenharia na Escola Politécnica, com manifesto interesse em arquitetura, à época uma extensão do curso em que se formou no ano de 1937.

Ainda estudante, fazia estágio no escritório de Oswaldo Bratke e Carlos Botti e ao mesmo tempo frequentava o curso livre de desenho com modelo vivo da Escola de Belas Artes de São Paulo. No ano seguinte, teria aulas de modelo vivo nos ateliês do Grupo Santa Helena, onde conheceu artistas como Francisco Rebolo, Fulvio Pennacchi, Mário Zanini, Aldo Bonadei, entre outros representantes da intelectualidade e da vanguarda do pensamento paulista.

O arquiteto logo cedo se envolveu em atividades acadêmicas, assumindo uma cadeira de professor na Poli já em 1940, onde articulou com outros acadêmicos a formação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, inaugurada em 1948 e da qual foi um de seus primeiros professores.

Neste momento de sua carreira já era um profissional reconhecido, com escritório próprio e obras realizadas, sendo influência para os arquitetos de novas gerações. Pensador da arquitetura moderna, apesar de ter sido influenciado pelos preceitos de Le Corbisier, contestou os padrões rígidos de sua arquitetura em um artigo publicado em 1951 na revista Fundamentos, chamado “Le Corbusier e o Imperialismo”, no qual critica o sistema modular criado pelo arquiteto franco-suíço. Ao padronizar os sistemas de medidas, o princípio facilitava, de acordo com Artigas, a dominação dos Estados Unidos sobre os países menos desenvolvidos.

Com isso Artigas se colocava em uma posição não de negar o valor dos cinco pilares, mas sim que eles precisavam extrapolar as proporções “pré-fabricadas”.

O brutalismo no movimento modernista

Vilanova Artigas é reconhecido como um dos principais arquitetos brasileiros do século XX e provavelmente o mais influente no contexto da arquitetura paulista. 

Sua obra foi marcada por várias inflexões, decorrentes dos avanços tecnológicos, discussões das correntes artísticas nacionais e internacionais e questões políticas. 

No início de sua carreira, do período que vai de 1937 a 1945, seus projetos tiveram forte influência da obra de Frank Lloyd Wright. Nesse momento, o arquiteto se vale de grandes beirais, integração entre interior e exterior, volumes salientes da volumetria do conjunto e materiais aparentes, como madeira e tijolos. 

O estilo brutalista do estádio do Morumbi, aqui, em 1929, em construção.
O estilo brutalista do estádio do Morumbi, aqui, em 1929, em construção.

Em seguida, entre os anos de 1946 a 1952, seus projetos são marcados pela influência de Le Corbusier e Niemeyer. Passam a constar, no seu vocabulário construtivo, volumes geométricos puros apoiados sobre pilotis, grandes aberturas, brises e rampas. E, de 1952 até o final de sua carreira, caracteriza sua fase brutalista, na qual se encontram seus projetos de maior destaque e que encontrou simpatia de toda uma geração de arquitetos.

A característica visual mais evidente e duradoura do Brutalismo é a valorização do concreto armado aparente. O concreto “cru”, que mostra as marcas das fôrmas de madeira, é utilizado não apenas como elemento estrutural, mas como acabamento final, celebrando a “verdade construtiva”.

A preferência por poucos materiais, basicamente concreto, madeira, vidro, aço é característica fundamental do movimento, resultando em edifícios de estética rigorosa, menos propensos à ornamentação e mais focados na forma pura e na materialidade.

Outro projeto brutalista da capital é a sede do Cluba Atlético Paulistano.
Outro projeto brutalista da capital é a sede do Cluba Atlético Paulistano.

Esta estética “Brutalista” legou importantes edificações para a cidade de São Paulo, como o estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Estádio do Morumbi, o Santa Paula Iate Clube, na Represa do Guarapiranga, (ambos projetos de Artigas), o Museu de Artes de São Paulo, de Lina Bo Bardi,  o Tribunal de Contas do Município de São Paulo, de Plinio Croce, Roberto Aflalo e Giancarlo Gasperini, a Paróquia Santa Maria Madalena e São Miguel Arcanjo, de Joaquim Guedes, O Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE), projetado por Paulo Mendes da Rocha , o Centro Empresarial Itaú, no Jabaquara, projeto dos arquitetos Eduardo Martins Ferreira, Felipe Aflalo e Jaime Marcondes Cupertino.

Outro projeto de Arquitetura Brutalista é a Estação São Bento do Metrô, aqui, ao lado da Casa da Boia, projeto de Marcelo Accioly Fragelli.

FAU, Artigas e Rizkallah

O edifício da FAU teve construção da construtora ANR - Alfredo Nagib Rizkallah, descendente do fundador da Casa da Boia.
O edifício da FAU teve construção da construtora ANR – Alfredo Nagib Rizkallah, descendente do fundador da Casa da Boia.

Dentre tantas obras legadas por Artigas à cidade, uma das mais icônicas e importantes tem relação também com um integrante da família Rizkallah.

Vilanova Artigas, com Carlos Cascaldi, seu colaborador em diversas obras, conceberam o projeto de um edifício para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP a ser construído no Campus da Cidade Universitária, em 1961. A faculdade funcionava, então, na antiga Vila Penteado – casarão art nouveau localizado à rua Maranhão, no bairro de Higienópolis.

Edifício da FAU em construção.
Edifício da FAU em construção.

A nova sede da FAU seria um enorme edifício que evidencia as linhas mestras de sua concepção de arquitetura, bem como suas ideias a respeito da formação do arquiteto. 

No terreno plano da cidade universitária, o arquiteto se valeu de soluções já experimentadas em dois colégios estaduais paulistas, o de Itanhaém (1960-1961) e o de Guarulhos (1961), realizados também em parceria com Cascaldi. 

O uso do concreto bruto, do vidro, a simplicidade de suas linhas, assim como a ênfase na integração dos espaços caracterizam esses edifícios, econômicos, funcionais e plasticamente originais.

Vão livre no interior do edifício da FAU. Simplicidade proporcionando interação.
Vão livre no interior do edifício da FAU. Simplicidade proporcionando interação.

O edifício, cuja construção foi iniciada em 1966 e concluída em 1969, mostra-se externamente como um grande paralelepípedo em concreto, sustentado por pilares em forma de trapézios duplos, apoiados levemente sobre o solo. 

Ao contraste entre os leves pontos de apoio e o peso do volume que sustentam, combina-se o jogo entre planos fechados e superfícies envidraçadas ou abertas da parte inferior e de acesso ao prédio.

É justamente na construção do edifício da FAU que a história de Artigas tangencia a história de Alberto Nagib Rizkallah, um dos descendentes do fundador da Casa da Boia, Rizkallah Jorge Tahan.

A construtora ANR (Alberto Nagib Rizkallah) foi a escolhida para realizar as obras de concretagem do novo edifício e realizou o trabalho sob supervisão de Artigas.

40 anos sem Vilanova Artigas e o legado do arquiteto.

Vilanova Artigas em evento no interior do edifício da FAU, que aliás, leva o seu nome.
Vilanova Artigas em evento no interior do edifício da FAU, que aliás, leva o seu nome.

Pensador contemporâneo, progressista que enxergava também na arquitetura uma função social, integrante de grupos intelectuais de vanguarda, liderança de entidades como a FAU e o Instituto dos Arquitetos do Brasil e filiado ao Partido Comunista Brasileiro, fica fácil perceber que Artigas não era uma pessoa que a ditadura militar brasileira queria como personalidade de destaque.

Foi uma das primeiras pessoas a ser presas pelo regime após o golpe de 1964. Liberado, passou a viver no Uruguai por um tempo e voltou ao Brasil na clandestinidade, passando a viver na casa de amigos. Em 1968, junto com outros professores da USP foi aposentado compulsoriamente por meio do Ato Institucional nº 5.

Com a anistia, em 1979 voltou à FAU, mas na condição de auxiliar de ensino, cargo inicial da carreira universitária. A congregação da FAU não aprovou a reabilitação de seu cargo de professor titular, causando protestos e apoio de outras instituições e de amigos. 

Em 1983, Artigas foi obrigado a prestar um concurso para recuperar o cargo de professor titular da Faculdade, onde lecionou até falecer, em 1985.

Esta passagem da vida do arquiteto foi tão marcante que quando de seu velório, sua esposa, Virginia, não permitiu que o velório ocorresse no prédio da FAU, como muitos queriam. Ela estava certa de que Artigas morreu de desgosto e decepção pela forma como foi tratado pela comunidade universitária no momento de sua reintegração. O velório ocorreu no salão da Câmara Municipal de São Paulo.

Junto de outros profissionais de sua geração, como Lina Bo Bardi, Rino Levi, Abelardo de Souza, Paulo Mendes da Rocha, Vilanova Artigas deixou um legado que ainda hoje encontra referência na arquitetura contemporânea em obra de profissionais como Ruy Ohtake (já falecido) Pedro Mendes da Rocha, Francisco Spadoni e Angelo Bucci.

Fontes:

https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/14.165/5675

https://www.archdaily.com.br/br/01-12942/classicos-da-arquitetura-faculdade-de-arquitetura-e-urbanismo-da-universidade-de-sao-paulo-fau-usp-joao-vilanova-artigas-e-carlos-cascaldi

https://revistacasaejardim.globo.com/colunistas/luiz-sobral-fernandes/coluna/2023/08/brutalismo-paulista-a-arquitetura-marcada-pelo-concreto-aparente.ghtml

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vilanova_Artigas

https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/4318-vilanova-artigas

https://www.archdaily.com.br/br/01-12942/classicos-da-arquitetura-faculdade-de-arquitetura-e-urbanismo-da-universidade-de-sao-paulo-fau-usp-joao-vilanova-artigas-e-carlos-cascaldi

https://www.nelsonkon.com.br/faculdade-de-arquitetura-e-urbanismo-usp/

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