A montagem da Árvore de Natal da Casa da Boia já se tornou, digamos, uma tradição contemporânea em uma empresa de tantas tradições. Antes uma ação com pouco significado, atualmente a grande árvore que enfeita a loja carrega em si a magia de unir pessoas e representa um período de renovação, de despertar e compartilhar memórias.
O Natal é, em si, uma época de tradições. Aquela comida especial preparada especialmente para a ceia, o ritual da decoração da casa, a busca pelo presente ideal e a visita do Papai Noel que torna a noite de Natal mágica para as crianças são tradições herdadas “desde sempre”, cujas origens não nos atentamos e seguimos perpetuando esses rituais de final de ano.
É o caso da montagem da Árvore de Natal.
Desde crianças nos encantamos com o ritual, com as bolas coloridas, os cordões, enfeites e as luzes. Adultos, passamos a querer repetir esse encanto para as crianças e assim o ciclo do Natal vai se cumprindo ano a ano.
Mas, afinal, por que uma árvore enfeitada é um dos símbolos do Natal?
As origens
Segundo a historiadora Lorena Pérez Yarza, especialista em epigrafia (estudo dos escritos) do Império Romano, os primeiros registros da celebração do Natal datam do século IV depois de Cristo — um século fundamental para a história do cristianismo, pois foi quando o Império Romano se converteu oficialmente a essa religião.
Nesse período, as pessoas “começaram a discutir a origem e a humanidade de Jesus, e então começou a ser importante não apenas celebrar a morte e a crucificação, mas também o nascimento”, conta Lorena em entrevista concedida à CNN Brasil.
Ainda segundo a historiadora, embora celebrar o nascimento de Cristo já fosse algo consolidado a partir de então a tradição da decoração da árvore levaria ainda alguns séculos e teria origem nas guerras religiosas.

“Quando Carlos Magno (no século VII) conquistou o norte da Itália, grande parte da atual Alemanha, o sul da França, o norte da Espanha e territórios adjacentes, um dos grandes confrontos que teve foi com os povos saxões e os fenícios”, explicou Perez.
Essas cidades tinham suas próprias tradições, como por exemplo, o culto à divindade Frey, e isso incluía a decoração de árvores.
Na Alemanha a tradição de decorar a árvore também tinha outro elo: o culto à árvore da vida, o Yggdrasill , um freixo gigante que na mitologia nórdica sustentava o universo com três raízes que se estendiam até o submundo, a terra dos gigantes e dos deuses.
A história dos próprios cristãos sobre a origem da árvore de Natal é contada por São Bonifácio, evangelizador da região da Alemanha e Inglaterra, que segundo a tradição derrubou uma árvore dedicada ao deus Odin, da mitologia nórdica e em seu lugar plantou um pinheiro, “símbolo do amor perene de Deus”.
Outras fontes atribuem também a tradição de se enfeitar a àrvore à Alemanha, mas por outras razões, com raízes em costumes pagãos de decorar árvores perenes para celebrar o solstício de inverno.
O costume se fortaleceu no século XVI, possivelmente ligado a Martinho Lutero, e foi popularizado na Inglaterra pela Rainha Charlotte no século XVIII, tornando-se mundialmente popular após uma imagem da Rainha Vitória e do Príncipe Albert em frente a uma Árvore de Natal ser publicada em 1848.
Uma tradição surgida há pouco…

Voltando ao Brasil, a tradição da montagem e decoração da Árvore de Natal se intensificou ao longo das primeiras décadas do Séc. XX, quando muitos imigrantes europeus desembarcaram em nosso país, principalmente no sudeste e sul, para trabalhar nas lavouras, primeiramente, e depois nas fábricas.
Aqui na Casa da Boia, que sempre funcionou no mesmo edifício, o sobrado histórico da Rua Florêncio de Abreu, 123, não temos registros históricos de que a loja fazia uma decoração de Natal.
Funcionários mais antigos e mesmo nosso diretor, Mario Rikallah, contam que o que existia era a colocação na vitrine da loja de uma antiga maquete, trazida da Itália por Rizkallah Jorge, quando este participou da Feira Internacional de Turim, em 1911.

Não era um presépio e sim uma maquete que simulava uma fundição. Movida por um pequeno motor elétrico e com “metalúrgicos” que se moviam, sobre uma plataforma iluminada, simulando um forno de metais, a maquete fazia sucesso na vitrine.
Por seu caráter histórico, hoje esta maquete faz parte do acervo do Museu da Casa da Boia e não é mais utilizada para fins decorativos.
Mas, hoje, a loja conta com uma outra atração natalina. A enorme árvore que chega a mais de quatro metros de altura e que há quase uma década enfeita o salão de vendas da Casa da Boia.
“Essa história começou quase por acaso”, relembra Orestes Galeriano, artista responsável pela montagem da Árvore.
“Eu já trabalhava para a Adriana (Rizkallah) decorando a Árvore de sua casa, quando ela me propôs criar uma para a Casa da Boia. Sob a sua orientação, a gente fez a primeira há nove anos e o resultado ficou muito bonito”, lembra Orestes.
“Curioso é que eu começo a montagem pela parte de cima da árvore, claro, pois senão ficaria muito difícil de fazer o acabamento. “As pessoas, clientes, olham… e comentam ‘que pequenina essa árvore’. Digo para aguardarem uns dias para verem o quanto ela cresce”, diverte-se Orestes.
Ao final de alguns dias de trabalho a arvore pequenina chega aos seus mais de quatro metros de altura, carregando em seus galhos o “fazer artesanal”, em cada detalhe.

A começar pelos itens que decoram a árvore. Ao invés de apenas bolas natalinas, e as tradicionais luzes, a árvore da Casa da Boia traz referências inequívocas ao artesanal, ao ofício.
Em sua decoração são utilizadas miniaturas de panelas, tachos, taças e canecas em cobre. Objetos que remetem a uma memória afetiva, um cuidado com a reprodução em miniatura e uma referência aos metais que sempre estiveram à frente do desenvolvolvimento da empresa, o cobre, o latão, o bronze.
Contrastando com esses elementos, o papel machê traz uma identidade sustentável e criativa.
As pequenas guirlandas, detalhes da decoração e a grande estrela ao topo da árvore são feitas com a técnica de papel machê pela artista plástica Adriana Rizkallah, também diretora de projetos e diretora cultural da Casa da Boia e responsável pelo início desta já denominada “tradição contemporânea”.
“Quando passei a atuar na Casa da Boia tive a percepção do valor que seria ter uma Árvore de Natal no espaço de nossa loja, que é permeado pela dureza dos metais que comercializamos, mas, ao mesmo tempo, é composto de inúmeras e belas referências arquitetônicas, conferindo ao espaço esse caráter único na rua Florêncio de Abreu”, comenta Adriana Rizkallah.

“A árvore foi ganhando cada vez mais significado a cada ano, já que não a montamos, simplesmente, mas criamos uma ambientação que ‘convida’ as pessoas a sentarem, a aproveitar esse momento de pausa, a criar uma lembrança, fotografar, registrar, enviar aos familiares esse registro e mesmo refletir sobre esse período tão especial do Natal.
A cada ano discutimos como propor uma identidade nova à árvore, que, afinal, é a mesma, mas ganha contornos diferentes graças à habilidade do Orestes”, comenta a mentora da ideia da Árvore.
“A estrela que encabeça a árvore traz esta representatividade. Assim como o metal, ao ser fundido, se transforma em diversas possibilidades, assim é a estrela que representa a fusão entre a tecnologia, o artesanal, pessoas, ofícios, relações, história, memória e pertencimento”.
É Tempo de Transformar

Se a cada ano a Árvore de Natal da Casa da Boia se transforma ao refletir uma abordagem diferente para cada período natalino, em 2025 ela representa ainda mais, pois ao abrigar em seus galhos as borboletas de cobre e papel de sua decoração deste ano, convida a uma nova atitude cujo objetivo é se estender durante todo o ano de 2026.
É tempo de transformar. Este é o tema não de uma campanha comercial, um plano de incentivo, um discurso motivacional, mas sim a proposta de uma reflexão sobre atitudes, sobre como podemos transformar a nós mesmos e assim transformar o ambiente que nos circunda.
A lagarta, transformada em borboleta, simboliza essa atitude proposta pela Casa da Boia.
O que desejamos transormar? O que queremos transformar? O que devemos transformar? O que podemos transformar? O faremos para transformar?
Assim como a cada ano nossa Árvore de Natal se transforma, ainda que mantendo sua essência, assim convidamos todos a vivenciar a experiência de conhecê-la, de se sentar a seu lado, de contemplar o tempo que parece ter parado nos detalhes dos móveis, objetos e construção original de nosso sobrado histórico.
E, neste tempo de contemplação, desejamos que você se encontre na transformação.




