Às vésperas de completar 472 anos, a cidade de São Paulo apresenta para seus habitantes e visitantes incontáveis opções de lazer, gastronomia, cultura, história e diversão. Um equipamento público, que em princípio seria um simples entreposto de alimentos, ao longo de mais de um século de existência se tornou a síntese de tudo isso acima mencionado. Conheça a história do Mercado Municipal de São Paulo.
Antes de ser a maior cidade da América Latina a São Paulo da primeira metade do Séc. XIX era uma vila com características rurais. Uma cidade que tinha a mancha urbanizada restrita ao chamado “triângulo histórico”, as ruas Quinze de Novembro, Direita e São Bento.

Na “periferia” da cidade, no antigo Largo da Figueira (atual a região do Parque Dom Pedro II), estabeleceu-se na primeira metade do Séc. XIX o chamado “Mercado dos Caipiras”, na verdade um Um mercado a céu aberto onde tropeiros e agricultores vendiam produtos vindos do interior em carroças. Sua “sede” era um simples barracão, que não comportava a quantidade de vendedores, daí a ocupação das áreas externas.
A partir da segunda metade do Séc. XIX a cidade passaria por um período frenético de crescimento (veja nosso post A São Paulo do primeiro censo e o crescimento que impulsionou a Casa da Boia) e a municipalidade passaria a atuar para adequar os espaços públicos a esta cidade crescente.
Em 1907 foi inaugurado na área da atual rua Barão de Duprat (então a rua 25 de Março) um novo mercado, chamado de “Mercado 25 de Março”, também conhecido como “Mercado Central”.
Junto com o “Mercado dos Caipiras” formavam os equipamentos públicos de abastecimento de alimentos, ovos e aves da capital.
Saneamento provocou mudanças e debates

Tudo seguia sua normalidade quando, em 1925, surgiu um problema: a Prefeitura, alegando questões de higiene, determinou que os comerciantes de aves e ovos passassem a vender seus produtos no Mercado dos Caipiras, que ficava nas proximidades e tinha menos estrutura.
Os comerciantes não gostaram da ideia e apelaram aos vereadores. Uma petição com 109 assinaturas de atacadistas e varejistas dos mais diversos produtos vendidos no Mercado Central solicitava a intermediação da Câmara Municipal de São Paulo (CMSP) para que o prefeito Firmiano de Morais Pinto revogasse a decisão.
Os vendedores sugeriam uma solução intermediária: continuariam no Mercado 25 de Março, mas as aves ficariam em gaiolas e viveiros construídos “por conta, naturalmente, da Prefeitura”, para que os comerciantes ficassem “melhor e mais higienicamente instalados”. O fato de pagarem pontualmente o Imposto de Indústria e Profissão também foi lembrado na petição. E aproveitaram para pedir providências (multa e apreensão das mercadorias) contra os vendedores ambulantes que “não pagam imposto de espécie alguma e nem sequer o lugar que ocupam, pois vendem as mercadorias nas calçadas, carroças, carros e autocaminhões em frente ao portão do mercado”.
Apesar de toda a argumentação dos comerciantes, Morais Pinto foi inflexível: os vendedores de aves e ovos teriam de ir para o Mercado dos Caipiras.
No ofício de resposta, enviado ao vereador Júlio Silva, o prefeito anexou um documento do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, no qual se afirmava que “a venda de aves, cabritos, leitões e outros animais no Mercado Central é feita em franca promiscuidade com os compartimentos de carne conservada, que lhes ficam fronteiros, os açougues da carne verde, que os flanqueiam, e as bancas de cereais, que estão colocadas a sua retaguarda”. Segundo a vigilância sanitária, “tal estado de coisa, além do aspecto desagradável, deixa o ambiente impregnado de emanações repugnantes”.
A Prefeitura também anexou no processo um relatório manuscrito segundo o qual o médico do Serviço Sanitário havia feito uma vistoria no mercado e constatara que “as aves até defecavam nos queijos”. No texto, as autoridades sanitárias reconhecem que “as barracas (do Mercado dos Caipiras) são toscas, inegavelmente, mas estão em melhores condições de higiene” do que as do Mercado 25 de Março, “onde falta luz e ar”.
Surge a ideia de um novo mercado

Nas décadas de 20 e 30 do século passado, houve muitos debates sobre as questões higiênicas dos mercados e a necessidade da construção de um novo centro comercial.
Em novembro de 1920, a Câmara Municipal aprovou a Lei 2.346, promulgada no mês seguinte pelo prefeito Firmiano de Moraes Pinto, autorizando a Prefeitura “a entrar em acordo com a Companhia Parque da Várzea do Carmo para aquisição da área necessária à construção do mercado municipal”. Os vereadores ressaltaram que o projeto deveria cumprir “todas as exigências estéticas e higiênicas de edifícios desse gênero, capazes não só de satisfazer às necessidades atuais, como às de ampliação futura”.
Doze propostas foram apresentadas na concorrência pública, mas nenhuma foi aprovada pela Prefeitura. Depois da questão se “arrastar” por quase três anos, em 1924 os vereadores e o prefeito resolveram convocar o arquiteto Ramos de Azevedo, que apresentou um projeto aprovado pela municipalidade: “O projeto definitivo, organizado pelo provecto (experiente) engenheiro dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo, satisfaz às exigências”, apontava um parecer das Comissões reunidas de Justiça, Obras, Higiene e Finanças da Câmara.

O projeto do novo mercado era inspirado nos grandes mercados europeus (como, aliás, outras grandes obras públicas do período).
Aprovado pela prefeitura, o projeto começou a ser executado em 1928. Os paulistanos viam surgir na Várzea do Tamanduateí um edifício de arquitetura eclética (assim como é a Casa da Boia), com estrutura de alvenaria e ferro, pé direito gigantesco, iluminação natural fornecida pelo teto em lanternim e detalhes “luxuosos” como os belos vitrais constituídos de 72 painéis do artista Conrado Sorgenicht Filho, que com vidros trazidos da Alemanha, retratam cenas de agricultores brasileiros.
Mesmo com a imponência da obra houve quem questionasse sua localização e mesmo o tamanho do novo mercado.
Segundo o livro Mercado Municipal de São Paulo – 70 anos de cultura e sabor, o vereador Orlando de Almeida Prado achava que o local destinado ao novo mercado era muito pequeno, já que a cidade crescia rapidamente. “Não seria responsável prevenir esse mal aumentando a área, agora que os terrenos ainda estão sem a valorização natural que lhes dará a construção do mercado?”, indagava. Mas a Prefeitura manteve o projeto original.
Assim as obras continuavam até que, em 25 de janeiro de 1933, aniversário da cidade, o Mercado Municipal Paulistano, mais conhecido como Mercadão, foi inaugurado.
No novo local eram encontrados “laticínios, sementes, flores, pescados, etc.”, escreveu O Estado de S. Paulo. O jornal também informou que “foram criadas localidades para novos gêneros de artigos de economia doméstica que até agora não eram encontrados nos mercados, tais como massas finas, sorvetes, refrescos, garrafas e vidros, artigos para jardins, etc.”.
A nova estrutura conviveu ainda com os antigos mercados até que em 1939, os mercados 25 de Março e dos Caipiras foram demolidos, legando ao “Mercadão” a responsabilidade de ser o maior entreposto de alimentos da cidade.
Com o Ceagesp o Mercadão ganha uma nova dinâmica
Com o contínuo crescimento da cidade o Mercadão foi enfrentando alguns fatores que começaram a mostrar que se tornaria inviável manter o maior centro distribuidor de alimentos em pleno centro da capital.

Seu entorno havia crescido demais, as ruas não comportavam o trânsito de caminhões de fornecedores e os carros dos clientes, a logística de transporte e a degradação do local depois de mais de 30 anos de uso eram um problema.
Em 31 de maio de 1969 foi inaugurado, no bairro da Vila Leopoldina, o CEAGESP, com a fusão do Centro Estadual de Abastecimento (CEASA) e a Companhia de Armazéns Gerais do Estado de São Paulo (CAGESP), que se tornou o maior entreposto atacadista de alimentos da América Latina.
Com isso, grande parte dos comerciantes do Mercadão migraram para o novo centro de distribuição. O impacto foi tão significativo que com esse êxodo o mezanino do mercado foi esvaziado e ficou anos sem uso.
Houve até um movimento dentro da Câmara para a demolição do edifício, considerado velho, sujo e que sua localização atrapalhava o trânsito da região.
Os comerciantes remanescentes, entretanto, se unindo a arquitetos e intelectuais que reconheciam o valor histórico da edificação, conseguiram barrar o avanço de projetos de demolição.
O edifício foi tombado em fevereiro de 2004 pelo CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico,Artístico e Turístico do Estado de São Paulo e em abril de 2017 pelo CONPRESP – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo.

O Mercado Municipal, desde a inauguração do CEAGESP passou a se reorganizar focado em produtos de caráter mais exclusivo, como frutas exóticas, queijos, temperos, conservas, bebidas, importados…ou seja, mercadorias que não concorriam diretamente com o centro de distribuição gigante.
Isso foi dando ao local uma fama de mercado “gourmet” para usar uma palavra atual.
No ano de 1995, um fato curioso ajudou a dar visibilidade ao local.
O “Mercadão” foi cenário do núcleo do comerciante “Juca”, interpretado pelo ator Tony Ramos, na novela “A Próxima Vítima”, da Rede Globo.
Isso ajudou a reforçar o local como uma opção de turismo, além da função essencial de um mercado.
O personagem evidenciou outra característica bem peculiar dos vendedores do local, que alardeiam seus produtos tentando convencer os clientes literalmente “no grito”, entoando frases de efeito, “provocando” as pessoas, tentando chamar a atenção dos clientes para que entrem em suas barracas.
Polêmicas também fazem parte de sua história
Fora as polêmicas iniciais que já mencionamos e a questão envolvendo sua demolição, o Mercadão não ficou fora de algumas outras, sendo a que mais repercurte negativamente é a chamada “Máfia das Frutas”.
Há variações da prática, mas, resumindo, vendedores ofertam frutas exóticas para os clientes provarem, alardeando os valores convidativos sem deixar claro que estão falando de “gramas”, como, por exemplo, o pequi, que sai a R$ 12,00 (100 gramos). Depois que o cliente é empolgado pelo vendedor, que monta bandejas generosas de frutas, descobre que o valor do quilo é muito maior do que o anunciado. Muitos acabam, constrangidos, levando as frutas. Os que questionam são também coagidos pelos vendedores que aplicam “descontos” na compra final que ainda assim fica muito mais cara do que o alardeado na abordagem inicial.

Há também a questão polêmica dos famosos sanduíches de mortadela e dos pastéis de bacalhau.
Ambos recebem porções exageradas dos recheios (cerca de 500 gramas) e tem um preço bastante elevado.
O que para alguns é algo “inusitado” para muitos é um símbolo de mau gosto e desperdício.
Outras polêmicas em relação ao local se deram quando a gestão do espaço foi concedido à iniciativa privada em abril de 2021, durante a gestão do prefeito Bruno Covas, com a transferência oficial para o Consórcio Novo Mercado Municipal por um período de 25 anos e com investimentos previstos em restauração e reformas.
Comerciantes reclamaram muito das novas regras e valores para se manterem no local, dos termos da concessão, da demora para a realização de obras de revitalização dos boxes e valores do estacionamento, por exemplo.
Um símbolo da cidade que vale a visita

Seja como for, o Mercado Municipal de São Paulo se transformou nesses 93 anos de existência, mas permanece com síntese da metrópole onde abastecimento, arquitetura, história, cultura, lazer e gastronomia se unem em um espaço icônico no “berço” da cidade.
Na grande restauração pela qual o espaço passou no ano de 2004, o mezanino foi transformado em um espaço gastronômico. Com uma estrutura relativamente simples, com mesas e cadeiras de madeira, é possível degustar não apenas os famosos pastéis e sanduíches com outras iguarias, drinks e cervejas.
Ao comemorar seus 472 anos, São Paulo revela inúmeros espaços em que estes aspectos podem ser conhecidos, poucos, entretanto, os reúnem em um único local. O Mercado Municipal de São Paulo simboliza esse amálgama paulistano e uma visita a suas instalações nos convida ao mesmo tempo a refletir sobre o crescimento da cidade, e a desfrutar das opções de um espaço que, preservado, soube se ressignificar, algo muito parecido com o que acontece com a Casa da Boia.
O Mercado Municipal fica na rua da Cantareira, 306 – Centro Histórico de São Paulo.
Funciona todos os dias da semana (segunda a sábado, das 06h às 18h. Domingos e Feriados: das 06h às 16h).
A melhor forma de se chegar ao local é pela linha 1-azul, do Metrô de São Paulo. A partir da Estação São Bento chega-se fácil à Rua da Cantareira. Aliás, quem decidir seguir pelo caminho da Rua Florêncio de Abreu e Carlos de Souza Nazaré (um dos mais fáceis caminhos), pode também apreciar o nosso sobrado histórico, no nº 123 da Rua Florêncio de Abreu.
Site oficial: https://www.mercadomunicipalsp.com/
Fontes:
https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=
https://prefeitura.sp.gov.br/w/servico/mercado-municipal-paulistano
https://arquivo.arq.br/projetos/mercado-municipal-de-sao-paulo
https://pt.wikipedia.org/wiki/Mercado_Municipal_de_S%C3%A3o_Paulo



