Quem acompanha nosso blog até pode estranhar o tema. O que Nutella tem a ver com a história ou cultura paulistana? À primeira vista nada, mas lembremos, São Paulo é uma cidade cosmopolita, e o que acontece no mundo, reflete também nas terras piratiningas…
Vamos voltar à São Paulo do início do Séc. XX. Se em 1900 o requinte era o marron-glacé, doce de origem francesa servido em pratos de porcelana, sobre toalhas de linho e degustado com talheres de prata, nas docerias requintadas da Rua Direita, hoje a cidade oferece incontáveis opções para se degustar um doce. Desde um prosaico “quebra-queixo” feito artesanalmente e vendido por doceiros ambulantes, passando por sorvetes e receitas autorais e mesmo os doces industrializados.
Dentre estes, um em especial habita o imaginário como “objeto de desejo” dos apreciadores de doces, a “Nutella”. E se você pode estar pensando que outros doces podem ocupar essa mesma posição de “desejo”. lembramos que poucos tem um “Dia Mundial” para chamar de seu…
A origem da Gianduia…

Vamos lá. Para falar da comemoração mundial em torno deste doce, vamos às suas origens. Voltemos a um mundo dominado por bloqueios econômicos na era napoleônica.
No Séc. XIX em seus planos expansionistas, Napoleão Bonaparte, que conquistara vários territórios do continente, impôs um bloqueio comercial a produtos que não se originavam em seus territórios. O cacau, que tinha suas plantações nos trópicos, foi um desses produtos que “sofria” para chegar à Europa.
Consta com algum grau de incerteza, que os confeiteiros Piemonteses Paul Caffarel e Michele Prochet, donos da Caffarel Prochet e Cia., decidiram adicionar ao escasso chocolate, uma pasta feita com um produto abundante na região, a avelã.
Nascia ali a “Gianduia”, uma pasta composta por 70% de chocolate e 30% de avelãs, usada em receitas de doces.
O produto caiu no gosto popular e seguiu como base de receitas até que, em meados da Segunda Guerra Mundial, sofreria uma modificação.
… e da Nutella

Mais uma vez o continente Europeu sofreu durante o período da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) e nos anos pós-guerra, com a escassez de diversos produtos, seja porque o parque industrial de vários países estava inoperante, seja por dificuldades de logística para fazê-los chegar ao continente.
Neste contexto, o cacau, essencial para a fabricação do chocolate, era escasso, caro, difícil de ser importado.
Assim, um confeiteiro italiano chamado Pietro Ferrero, que enfrentava dificuldades para produzir o chocolate, deu uma “mexida” nas proporções dos ingredientes da tradicional Gianduia e desenvolveu um produto chamado “Giandujot”, por conta de um personagem famoso do carnaval local daquela época. Era um doce sólido, vendido em fatias para ser comido com pão, lançado em 1946.

Pietro Ferrero faleceu em 1949 e seu filho, Michele Ferrero, assumiu os negócios da família e em 1951, conferiu à receita do Giandujot um aspecto mais maleável, transformando o doce em um creme que foi chamado de “SuperCrema”.
O produto vendia bem no mercado italiano, e os anos 1960 traziam a oportunidade de expandir o negócio para outros países. Em 1964, mais uma “mexidinha” na receita para tornar o paladar mais aceitável globalmente e um desafio, conferir ao produto um nome mais “universal”.
Daí surge a junção de “nut” (noz em inglês) e o sufixo “ella” que, nas línguas de origem no latim, tem uma conotação de “carinhoso”, “afetuoso”… Nascia a “Nuttella”.
Em 1965, já em seu pote icônico, o doce atravessa as fronteiras italianas e desembarca na Alemanha. Daí segue para a França (1966) e é lançado pela primeira vez fora da Europa em 1978, quando chega à Austrália, onde, aliás, a Ferrero abriu sua primeira fábrica fora do continente Europeu.
Surge a “Geração Nutella”…

Você certamente ouviu o termo atribuído a alguém com poucas habilidades, pouco conhecimento ou pouca aptidão para determinadas tarefas. “Esse ou essa é geração Nutella”…
Pois é… sabia que mais do que uma expressão popular, realmente existe uma “Geração Nutella”?
No ano de 1996 a Nutella organizou o mega evento chamado de “Geração Nutella” em Paris no “Carousel du Louvre”, um espaço de vendas de lembranças e convivência do Museu do Louvre.
O evento foi uma exposição de trabalhos criados entre 1966 e 1996 por artistas que cresceram tomando café da manhã com pão e Nutella… Curioso, mas verdadeiro!
O produto continuou a crescer no mercado mundial, tanto que, no ano de 2005, em 29 de maio, 27.854 pessoas se reuniram em Gelsenkirchen, Alemanha, para participar do maior “Café da Manhã Continental” de todos os tempos com Nutella. Foi um evento tão grande que entrou para o Guinness, o Livro dos Recordes.
… e o “Nutella Day”

Talvez pelo sucesso do evento e a repercussão na Internet “pré-redes sociais”, dominada pelos blogs, em 5 de fevereiro de 2007, todos os amantes de Nutella foram chamados para se unirem e declararem seu amor pelo creme de avelã mais famoso do mundo pela blogueira ítalo-americana Sara Rosso.
Desde então, com o crescimento das redes sociais, o Dia Mundial de Nutella é comemorado todos os anos.
A Nutella no Brasil chegou tarde
A Nutella começou a aparecer no Brasil de forma muito tímida nos anos 70 e 80, quase exclusivamente via importação direta, vendida em empórios de luxo como a Casa Santa Luzia, aqui em São Paulo, ou consumida por brasileiros que viajavam ao exterior e traziam o produto.
Foi somente em 1994 que a Ferrero se estabeleceu no Brasil, abrindo um escritório em São Paulo e, posteriormente, uma fábrica em Poços de Caldas (MG).
Curiosamente a empresa centrou seu marketing em outros produtos, em detrimento da Nutella. Ao desembarcar no país, a Ferrero focou em outros dois produtos icônicos: o bombom Ferrero Rocher e o Kinder Ovo, mais associados a “guloseimas” do que ao creme que, ao redor do mundo, as pessoas passavam no pão no café da manhã.

Como tudo é marketing, principalmente quando se fala nas gigantes produtoras de alimentos globalizados, ainda que tenha demorado mais de dez anos desde sua chegada ao Brasil, em 2015 a Ferrero lançou a primeira campanha publicitária do produto no mercado nacional.
Àquela altura a marca percebeu que, apesar de ser famosa em São Paulo e nos grandes centros, precisava de uma campanha de massa para “ensinar” o brasileiro a usar o famoso creme.
Para convencer as pessoas, a propaganda de 2015 teve que fazer algo muito específico: mostrar a Nutella sendo usada com pão de queijo, tapioca e banana, produtos típicos de nosso país. Foi a forma de “abrasileirar” um produto que, na Europa, é estritamente ligado ao pão baguete ou ao crepe.
Não sabemos se funcionou, até porque é ainda um hábito pouco usual em nosso país o uso de doces com pão no café da manhã e o sucesso da Nutella por aqui vem do seu uso como coadjuvante de outros doces.
De sorvete a recheio de bolo a Nutella por aqui se tornou um complemento, mais do que o ingrediente principal como em outros países, embora, convenhamos, tenha gente que se “derreta” por mergulhar um colher e comer a iguaria diretamente de seu pote.

Uma receita com Nutella!
Brincadeiras e delícias à parte, vale lembrar que a Nutella é um produto industrializado, muito distante da receita original da Gianduia. Açúcar adicionado, emulsificantes, conservantes, corantes e estabilizantes fazem parte do creme que contém incríveis 540 calorias a cada 100g. Gostoso, mas nada recomendado em sua dieta.
Então aprecie com moderação! E para mostrar que dá para se deliciar com o doce sem acabar com sua dieta a chef confeiteira Luiza Rizkallah, da Parlu Doces, elaborou uma receita de torta com Nutella fácil de preparar e que fica uma delícia com o famoso creme italiano.
Aproveite e deleite-se!
Torta de Nutella, por Luiza Rizkallah

Massa da torta:
- 140g de manteiga sem sal
- 100g de açúcar refinado
- 1 ovo e 1 gema (de preferência, peneirados)
- 30g de cacau em pó (prefira o 100% cacau – que não leva açúcar adicionado)
- 250g de farinha de trigo
Impermeabilização:
- 80g de chocolate ao leite nobre
Recheio:
- 120g de Nutella amolecida
- 320g de chocolate ao leite nobre
- 273g de creme de leite (prefira o fresco)
Modo de Preparo:
Retire a torta da geladeira 1 hora antes de servir
Na batedeira, adicione a manteiga e o açúcar. Bata até incorporar tudo.
Adicione o ovo e a gema peneirado e bata até icnorporar.
Adicione o cacau em pó 100% e farinha de trigo.
Bata somente incorporar – não deixe ficar batendo.
Abra a massa com um saco de freezer e rolo.
Assente a massa sob a forma da torta.
Deixe descansar na geladeira por 1h30min.
Asse a 180C e por cerca de 15 min, até que você note a massa desgrudando a forma.
Depois que estiver assada, deixe esfriar e derreta os 80g de chocolate ao leite nobre e despeje por cima da massa da torta assada.
Pincele o chocolate por toda a base e subindo nas laterais da massa.
Deixe na geladeira somente até o chocolate endurecer.
Pese a Nutella, e coloque 30 segundos no microondas para amolecer (não é para derreter, somente amolecer).
Despeje por cima do chocolate na torta e pincele por toda a base.
Faça o ganache: junte o chocolate ao leite nobre e o creme de leite e coloque para derreter de 40 em 40 segundos no microondas. Mexa cada vez que encerrar o tempo no micro. Quando estiver todo derretido e incorporado, despeje em cima da torta.
Coloque a torta na geladeira por 2 horas, ou, até que endureça o ganache por completo.
Aproveitem em boa companhia!



