Liberdade de escolha e a imigração de Rizkallah Jorge

Liberdade! Liberdade! Assim gritavam as pessoas no antigo Largo da Forca, em São Paulo, naquele 20 de setembro de 1821, ao presenciarem um condenado à morte escapar da forca porque a corda que executaria a sentença fatal arrebentou por três vezes. O fato acabou por batizar o bairro de mesmo nome no centro da cidade e, acontecido há mais de 200 anos, nos ajuda a refletir sobre o tema da liberdade.

Capela dos Aflitos, onde ficava o cemitério de mesmo nome, no bairro que ganhou o nome de Liberdade, em razão de uma violência do império contra um brasileiro.
Capela dos Aflitos, onde ficava o cemitério de mesmo nome, no bairro que ganhou o nome de Liberdade, em razão de uma violência do império contra um brasileiro.

Francisco José das Chagas, conhecido como Chaguinhas, era cabo do Primeiro Batalhão de Santos, cidade litorânea do estado de São Paulo, nos últimos anos do Brasil imperial. Após liderar, com o também soldado José Joaquim Cotindiba, uma revolta dos soldados reivindicando, entre outras pautas, a igualdade de valores no pagamento para os militares brasileiros e portugueses, foi sentenciado à morte por sua insubordinação.

Ele e Cotindiba foram enviados a São Paulo, onde seriam enforcados no chamado Largo da Forca, uma prática comum do império português, com o objetivo de amedrontar a população contra atos de insurgência.

Em 20 de setembro,  dia da execução, Cotindiba foi morto, mas quando chegou a vez de Chaguinhas, algo inesperado aconteceu: a corda se rompe e o cabo sobrevive.

O então padre Feijó, que viria a ser regente do Brasil, presenciou o assassinato do soldado Chaguinhas.
O então padre Feijó, que viria a ser regente do Brasil, presenciou o assassinato do soldado Chaguinhas.

Isso aconteceria ainda mais duas vezes, levando o povo a acreditar em uma intervenção divina e a clamar por “liberdade”. Mas, irredutíveis em sua determinação, os soldados da corte matam Chaguinhas a pauladas.

Mais do que uma lenda popular, o relato mais contundente do acontecido foi escrito por uma pessoa de reputação na corte. O então padre Feijó.

Feijó disse ter sido testemunha do evento e descreveu o episódio dez anos depois, afirmando que o cabo caiu no chão semivivo e teve o corpo “retalhado” na então Ladeira da Forca.

O padre Feijó foi o regente do Brasil após a abdicação de Dom Pedro I até que seu filho, Pedro II, atingisse a maioridade e pudesse assumir a regência da nação.

A história de Chaguinhas e do passado do bairro da Liberdade, surgido da ocupação do povo negro foi sendo apagada durante o século seguinte, quando o local passou a ser associado à imigração japonesa. Hoje, integrantes de movimentos sociais diversos lutam pelo resgate da história do local antes da imigração nipônica, que só ocorreu no início do Séc. XX.

Libertas quae sera tamen

A frase em grego antigo, que estampa a bandeira do Estado de Minas Gerais, é uma apropriação dos inconfidentes (movimento que pretendia derrubar a monarquia no Brasil no Séc. XVIII) de um verso de Virgílio, um poeta da Roma antiga, retirada de uma “Écogla” (poema) de sua autoria.

A frase completa,  “Libertas quae sera tamen respexit inertem” (A liberdade que, embora tardia, se apiedou de mim na minha inércia) é proferida pelo personagem Títiro, que expressa a alegria de ter sua liberdade restaurada após um período de incerteza e opressão, mesmo que essa liberdade tenha demorado a chegar, como em uma situação de exílio ou conflito civil em Roma.

Estampada na bandeira de Minas Gerism "Liberdade Ainda que Tardia" foi o lema dos inconfidentes.
Estampada na bandeira de Minas Gerism “Liberdade Ainda que Tardia” foi o lema dos inconfidentes.

E a frase de séculos se encaixa no tema deste post por ser talvez um tema universal e atemporal. Quase como uma esperança de que, tardiamente, em algum momento, a “liberdade abrirá as asas sobre nós”, como aliás, expressa o Hino da Proclamação da República, de autoria de José Joaquim Medeiros e Albuquerque (letra) e Leopoldo Miguez (música).

Liberdade é um tema universal. Várias nações e organizações pelo mundo celebram as várias formas de liberdade.

3 de maio é Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, proclamado pela ONU para alertar sobre a importância da imprensa livre e independente. O Dia Mundial da Liberdade de Pensamento, escolhido por representar o marco inicial da Revolução Francesa e a Queda da Bastilha é celebrado em 14 de julho.

25 de abril, em Portugal, é o Dia da Liberdade (feriado nacional), que marca a Revolução dos Cravos. 7 de janeiro, no Brasil, é o Dia da Liberdade de Culto, data que lembra o decreto de 1890 que garantiu a liberdade religiosa no país.

Os dias de independência das nações, (liberdade em relação a um dominador) são geralmente os dias mais exaltados na história destes países.

Mas, finalmente chegamos ao 23 de janeiro, considerado o Dia Mundial da Liberdade, principalmente comemorado nos países de língua portuguesa. Qualquer pesquisa na internet indica a data como um “Dia Mundial da Liberdade”, “criado pela ONU e a Unesco”.

Soldados chineses capturados durante a Guerra da Coreia, ao serem libertados decidiram ir para Tawian, ao invés de retornar à China, o gesto simbolizou a liberdade de escolha.
Soldados chineses capturados durante a Guerra da Coreia, ao serem libertados decidiram ir para Tawian, ao invés de retornar à China, o gesto simbolizou a liberdade de escolha.

Mas a verdade é que a afirmação não se ancora em uma resolução da Organização das Nações Unidas e embora muitas entidades, prefeituras, governos de fato celebrem a data, sua origem pode estar distante de qualquer resolução.

O fato mais provável para a disseminação da data como Dia Mundial da Liberdade aconteceu no ano de 1954, em Taiwan.

Naquele 23 de janeiro, 22.000 prisioneiros de guerra (ex-soldados comunistas chineses e norte-coreanos) escolheram ir para Taiwan em vez de retornar aos seus países de origem após a Guerra da Coreia. Este movimento foi propagado pela “World League for Freedom and Democracy” e associado à liberdade de escolha.

Imigração como opção

Embora sendo um dos mais importantes centros econômicos da Síria, Alepo vivia sob o domínio turco no final do Séc. XIX.
Embora sendo um dos mais importantes centros econômicos da Síria, Alepo vivia sob o domínio turco no final do Séc. XIX.

Motivos econômicos e geopolíticos sempre foram os principais gatilhos das migrações, principalmente das migrações em massa. Vale lembrar a origem nômade do homem. Vagar territorialmente fez parte da humanidade até que nossa espécie aprendeu a cultivar a terra, iniciando então a ocupação perene de territórios.

Isso trouxe algumas questões. Alguns territórios eram mais propícios à ocupação humana do que outros. O que eram movimentos nômades por uma “Terra” sem divisões em “territórios”, com a formação de domínios territoriais, os impérios, posteriormente as nações, os grupos humanos passaram a ter uma “origem”. Europeus, Asiáticos, Ameríndios e por aí vai.

As movimentações humanas ao redor do globo agora eram controladas. “Só entra em meu território quem eu quero”. Por outro lado, a busca por melhores condições de vida sempre motivou o deslocamento humano.

Nesse contexto complexo, chegamos a questões de dominação. Geralmente um pequeno grupo com poder – econômico, bélico, religioso ou outra forma –  domina outro maior. Foi assim nos antigos impérios, é assim atualmente, ainda que a humanidade hoje se acomode em “nações”.

Com o surgimento do capitalismo como modelo econômico vigente e após a revolução industrial a discrepância entre nações que já vinha se acentuando desde o período das grandes navegações e ocupações do “Novo Mundo” as terras além da Europa, passa a registrar índices cada vez mais elásticos. Nações enriquecem à custa do empobrecimento de outras.

Neste contexto, a Síria, do final do Séc. XIX apresentava inúmeras contradições. Ao mesmo tempo em que era herdeira de um passado de grande cultura e saberes milenares e uma economia pujante em centros urbanos vibrantes como Damasco e Alepo, se via sob o domínio do Império Turco-Otomano e sob influência dos interesses europeus cada vez mais presentes na região.

Um cenário de provável desalento, insegurança econômica e o “sequestro” do legado cultural incentivou ou provocou um fluxo significativo de imigração de sírios e libaneses para as Américas, buscando melhores condições econômicas e fugindo de tensões políticas e instabilidade econômica.

A questão da liberdade se apresenta novamente neste contexto. Permanecer nessa condição incerta ou partir para outra. Ainda que, também, incerta?

Provavelmente noites mal dormidas foram necessárias para que a decisão de emigrar fosse tomada por um jovem sírio de ascendência armênia, chamado Rizkallah Jorge Tahanian.

A coragem de exercer a liberdade de escolha

Escolhendo imigrar, Rizkallah Jorge pode construir uma vida de sucesso no Brasil.
Escolhendo imigrar, Rizkallah Jorge pôde construir uma vida de sucesso no Brasil.

Aos 26 anos de idade, recém-casado, com um negócio estabelecido em seu país de origem, o jovem sírio trocou esse cenário de vida pela incerteza de atravessar o Atlântico e iniciar uma nova trajetória em um país distante tanto geográfica quanto culturalmente falando.

Decisão tomada, deixou a esposa na Síria e chegou a São Paulo em 1895.

Ao contrário das emigrações subvencionadas pelo governo brasileiro e pelos capitalistas do café e das indústrias que começavam a se estabelecer no país, a imigração árabe do final do Séc. XIX não contava com apoio institucional.

Esses cidadãos do outro lado do mundo aqui chegavam com algum capital para iniciar suas atividades. A maioria como mascates. Comerciantes ambulantes que se embrenharam pelas cidades vendendo de tudo um pouco, mas principalmente tecidos e seus complementos.

Rizkallah Jorge, entretanto, trazia outros saberes e também aqui exerceu sua liberdade de escolher se manter naquele ramo de atuação que aprendera com seu pai na Síria: a manipulação do cobre.

Escolheu se empregar como faxineiro em uma metalúrgica no centro da capital paulista para estar próximo do seu ramo. Com determinação, aprendendo o idioma e mostrando suas habilidades, levou apenas três anos para comprar a metalúrgica e fundar a sua empresa.

Nascia em 1898 a “Rizkallah Jorge e Cia”. Trouxe a esposa que havia ficado na Síria e aqui ampliou a família, gerando três filhos brasileiros. A Rizkallah Jorge e Cia virou Rizkallah Jorge e Filhos.

Rizkallah jorge deixou a Síria para fundar a Casa da Boia, em 1898.
Rizkallah jorge deixou a Síria para fundar a Casa da Boia, em 1898.

E nesta altura São Paulo vivivia um ritmo vertiginoso de crescimento. Rizkallah Jorge, hábil nos negócios, ampliou a produção da empresa para atender a demanda de uma cidade que necessitava de infra-estrutura (tubos, conexões, equipamentos para gás, para hidráulica) e para os lares da nova metrópole (torneiras, encanamento residencial, lustres, equipamentos para fogões).

Dentre extensa gama de produtos, a introdução da “boia para caixa d’água” instrumento tão fundamental para aquela São Paulo, que a importância de seu pioneirismo viria a dar à empresa um novo nome: a “Casa da Boia”, atribuído pela população que encontrava na bela casa da rua Florêncio de Abreu, a boia que tanto necessitava para a modernização de seus lares.

Essa história real, tanto quanto milhares de outras, de imigrantes, empreendedores, trabalhadores que exercem sua liberdade de escolha, acertam, erram, prosperam, decaem, enriquecem, empobrecem, mas, fundamentalmente vivenciam suas decisões, só existem em razão da liberdade de poder decidir.

Preservar a liberdade como valor universal é, ou deveria ser, uma premissa de qualquer ser humano, de qualquer governo, de qualquer nação. Liberdade, ainda que tardia. Sempre.

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