O inverno na cidade da garoa: dos cafés aristocráticos ao improviso dos cortiços

No último domingo, dia 21, entramos oficialmente no inverno e para quem caminha pelo centro histórico de São Paulo, com seus edifícios do início do século XX, a estação evoca as memórias de um tempo em que o local era centro da elegância em estilo europeu, nos vestimentos e nos costumes. O centro das lojas de luxo e dos cafés.

No início do século XX, a “São Paulo da Garoa” não era apenas uma força de expressão; era uma realidade climática rigorosa. Situada em um planalto a quase 800 metros de altitude e ainda desprovida do asfalto e dos arranha-céus que hoje criam ilhas de calor, e bloqueiam o fluxo do vento, São Paulo retinha a umidade que subia da Serra do Mar.

Rua Direita em noite de inverno por volta dos anos 1920.
Rua Direita em noite de inverno por volta dos anos 1920.

O resultado era um inverno marcado por uma névoa espessa e constante. À época, os paralelepípedos do “Triângulo Central” — formado pelas ruas São Bento, Direita e 15 de Novembro — viviam permanentemente brilhantes e úmidos.

Para a elite cafeeira, e a nova burguesia industrial, o clima hostil era a desculpa perfeita para ostentar uma sofisticação na moda e nos costumes, baseados naquilo que acontecia nas capitais europeias.

Não à toa, essa influência passou a ser conhecida posteriormente como “Bélle Époque Paulistana”, um período de surgimento de novos hábitos, vida social intensa, uma cena cultural vibrante com a chegada de novas vanguardas, difusão de novas tecnologias e o surgimento de espaços de sociabilidade e lazer.

Os homens desfilavam pesados ternos de lã, sobretudos ingleses e os indispensáveis chapéus da tradicional Chapelaria Ramenzoni. 

Anúncio dos Chapéus Ramenzoni, uma das muitas lojas de luxo do centro da cidade.
Anúncio dos Chapéus Ramenzoni, uma das muitas lojas de luxo do centro da cidade.

As mulheres exibiam longos vestidos de tecidos robustos, estolas de pele e luvas comprados no sofisticado Mappin. 

Nas mansões e nos comércios mais luxuosos, começavam a surgir os primeiros sistemas de calefação e imponentes aquecedores de ferro fundido e bronze.

Maria Punga pioneira dos cafés antes da “gourmetização”

Usando um termo muito comum hoje, o da “gourmetização”, que significa dotar algo simples de um revestimento sofisticado, é possível retroceder à história daquele que teria sido o primeiro café da cidade de São Paulo, o café de Maria Punga, antes do consumo da bebida se tornar um símbolo de distinção social.

Maria Punga, cujo nome real era Maria Emília Vieira, foi uma mulher negra, ex-escravizada que, quando liberta, contra todas as possibilidades, conseguiu estabelecer uma “taberna”, ou aquele que é considerado o primeiro local onde as pessoas poderiam se dirigir para tomar um café em São Paulo.

Entre os anos de 1850 e 1860, ela comandou seu célebre comércio no centro da cidade de São Paulo, bem antes da grande expansão dos barões do café.

O Café Maria Punga ficava na antiga Rua do Rosário (atual Rua Anchieta), bem próxima ao Pátio do Colégio e não muito distante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, motivo pelo qual o estabelecimento era frequentado pelos estudantes do local.

Apesar das descrições da época definirem o local como um estabelecimento simples, Maria Punga era descrita como extremamente rigorosa com a qualidade de seus produtos.

Ela mesma realizava a torra e a moagem do café que servia em seu estabelecimento, além de preparar famosos quitutes, como bolos de fubá, broinhas de polvilho e bolinhos de tapioca.

A bolsa informal do café no centro da capital

Quando o café se tornou a principal commodity produzida no estado de São Paulo, a riqueza proporcionada pelo grão a seus produtores ajudou a remodelar a capital, muito, também, pela razão de que vários destes produtores primeiro enviavam seus filhos aos colégios e faculdades da cidade e, posteriormente, eles mesmos começaram a construir suas mansões em bairros nobres da capital e estabelecer na região central, os seus escritórios comerciais.

Largo do Café, onde se localizavam vários empresários do ramo para negociar a produção do grão.
Largo do Café, onde se localizavam vários empresários do ramo para negociar a produção do grão.

Antes da formalização do mercado do café, com o estabelecimento de regras para a produção, qualidade dos grãos e sua comercialização, as negociações iniciais na capital paulista ocorriam de forma informal na região do Largo do Café (confluência das ruas São Bento e Álvares Penteado), onde comerciantes negociavam sacas de boca a boca.

Mas, à medida que o comércio crescia e o próprio governo passou a regulamentar a cadeia produtiva, uma Bolsa Oficial de Café do Estado de São Paulo foi criada na cidade de Santos, local que abriga o porto por onde a produção do café era exportada.

Fundada em 1917 na cidade de São Paulo, a Bolsa de Mercadorias surgiu para padronizar contratos e classificar o café e o algodão. Diferente da bolsa de café santista (focada em exportação física), São Paulo focou em liquidação financeira e contratos futuros das safras.

A Bolsa operou inicialmente no histórico edifício do “Palácio do Café”, localizado no Páteo do Colégio. Posteriormente, o pregão migrou para as sedes localizadas na Rua Álvares Penteado e, mais tarde, para o famoso prédio da Rua XV de Novembro, onde hoje funciona a B3.

Os cafés como vitrines da elite

O Café Girondino, frequentado pele elte paulistana.
O Café Girondino, frequentado pela elte paulistana.

O café não movimentava apenas a economia do centro, mas o grão inspirou inúmeras casas elegantes onde a elite econômica se encontrava.

Era sob o teto dos charmosos cafés do centro que a alta sociedade se protegia da umidade do frio paulistano. 

Locais como o Café Guarany, na Rua 15 de Novembro, com seus espelhos belgas e garçons fluentes em francês, funcionavam como o coração financeiro e político da cidade. Ali, entre uma xícara e outra, fechavam-se negócios de sacas de café e decidiam-se os rumos do país.

Café Brando, reduto de artistas e intelectuais.
Café Brando, reduto de artistas e intelectuais.

Pouco mais adiante, no Café Java, localizado no Largo do Rosário, o ambiente era tomado por estudantes de direito do Largo São Francisco e intelectuais, cujos debates inflamados começavam a desenhar as linhas modernistas que eclodiriam na Semana de Arte Moderna de 1922.

Mais antigo, o famoso Café Girondino, fundado em 1875 no coração do Triângulo Histórico, foi outro ponto de encontro da elite cafeeira e intelectual da época. 

O Café Brandão, inaugurado em setembro de 1896, por Souza Brandão, ficava na esquina das Ruas São João e São Bento e recebia também uma elite cultural formada por jornalistas, políticos, empresários, músicos e poetas que ali se reuniam.

O inverno nos cortiços: a engenhosidade operária

A poucos quilômetros do centro da cidade, em bairros operários como o Brás, Moóca, Ipiranga e Bom Retiro, a massa de trabalhadores imigrantes e a população negra recém-liberta enfrentavam a mesma garoa de forma muito mais cruel. 

Na propaganda da Cia de Gás (do Rio de Janeiro) a modernidade do novo sistema é ressaltada.
Na propaganda da Cia de Gás (do Rio de Janeiro) a modernidade do novo sistema é ressaltada.

Nas habitações populares e cortiços, frequentemente mal construídos sem isolamento térmico e geralmente em áreas de várzeas dos rios, o frio era combatido com improviso.

Na falta de espaço ou recursos para lenha que aquecia as casas da elite, os operários utilizavam o fogão a carvão e adaptavam grandes latas de metal de 20 litros cheias de brasa para aquecer os cômodos, desafiando o risco de incêndios e o resíduo tóxico. 

Nas madrugadas frias, antes de enfrentar jornadas de até 12 horas nas fábricas, o café da manhã era preparado às pressas nas “espiriteiras” — pequenos fogareiros a álcool instáveis e rudimentares, cujo nome vem do fato do álcool ser chamado à época de “espírito do vinho”.

Para essas famílias, o calor vinha do confinamento compartilhado e de pesados cobertores de retalhos. O refúgio social, por sua vez, não eram os salões de mármore, mas os balcões dos armazéns de secos e molhados das regiões periféricas, onde uma dose de cachaça ou um café forte ajudavam a combater o rigoroso inverno da capital.

A participação da Casa da Boia

Catálogo da Casa da Boia mostra produtos para fogões.
Catálogo da Casa da Boia mostra produtos para fogões.

A iluminação pública a gás de carvão mineral (hulha) foi inaugurada na capital a partir de 1872. O primeiro gasômetro e a usina de produção ficavam na região do atual bairro do Brás, na Rua do Gasômetro. O serviço foi trazido pela empresa inglesa The San Paulo Gas Company.

Já no século XX, Inicialmente restrito ao luxo das elites e iluminação pública, o gás passou a ser utilizado para cocção (fogões) e banho (aquecedores) nas novas residências e edificações que começavam a ser construídas a partir de 1912, quando o controle da companhia foi assumido pela Light. Os aquecedores de passagem a gás revolucionaram a higiene e o conforto nos casarões nos novos edifícios que começavam a surgir.

A Casa da Boia participou ativamente deste processo de transição da infra-estrutura urbana a medida que fornecia uma vasta gama de materiais como tubos de cobre para gás, válvulas, registros, conexões o itens para a instalação destes moderno sistema de aquecimento que mudaria o padrão de conforto das edificações da cidade.

Um giro pelos cafés do centro

Para vivenciar a cultura dos cafés na São Paulo de hoje, listamos quatro paradas obrigatórias no centro histórico que unem a nostalgia do passado, vistas arquitetônicas e, claro, excelentes grãos.

FlashBack Café
Instalado dentro do belíssimo palacete de 1901 (reforma de 1927) que abriga o Centro Cultural Banco do Brasil. Possui um ambiente interno imponente e mesas na calçada que permitem observar o movimento da efervescente Rua Álvares Penteado.
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico
Instagram @ccbbsp / Telefone: (11) 3131-3676

Café Martinelli
Localizado no térreo do Edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu de São Paulo, tem atmosfera que remete aos bistrôs parisienses, com cardápio recheado de quiches, doces e cafés premiados.

Endereço: Rua Líbero Badaró, 508 – Centro Histórico
Instagram @cafemartinelli / Telefone: (11) 3104-6825

Café do Pateo (Pateo do Collegio)
Um verdadeiro oásis de silêncio e história no marco zero da cidade. Perfeito para tomar um expresso e provar o famoso “Pão do Pateo” no pátio interno, cercado por jardins e pela arquitetura colonial de uma das primeiras edificações da capital

Praça Pátio do Colégio, 2 – Centro Histórico
Instagram @pateodocollegio / Telefone: (11) 3105-6899

Il Barista
Para quem busca cafés especiais de alta qualidade (grãos com pontuações elevadas e diferentes métodos de extração). Funciona no icônico prédio do antigo Banespa (hoje Farol Santander), um dos símbolos máximos do crescimento econômico de São Paulo.

Rua João Brícola, 24 (Dentro do Farol Santander) – Centro Histórico

Instagram @ilbaristacafes / (11) 3105-5922

Café Girondino
Localizado na confluência das ruas Boa Vista e São Bento, esquina com o largo de mesmo nome, não é o mesmo do início do Séc. XX. Herda apenas o seu nome, pois o original foi fechado ainda na década de 1920. Todavia, o local se esforça para manter uma atmosfera parecida com a daquele momento histórico.

Instagram @cafegirondino / (011) 95555-7443 / (011) 3312-5260

Fontes:

https://spcity.com.br/os-primeiros-cafes-cheios-de-charme-de-sao-paulo/

https://pungacafes.com.br/produto/cafe-maria-emilia/

https://museudocafe.org.br

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