Zarzur, Kogan e a engenharia paulistana nas alturas

Se a virada do século XIX para o XX representou uma radical mudança nas edificações paulistanas, antes em estilo colonial, para em grande parte abraçar o ecletismo, os anos posteriores do novo século não pararam de trazer novidades para a engenharia, que erguia edifícios cada vez mais altos. Filhos de imigrantes, os engenheiros Waldomiro Zarzur e Aron Kogan levaram esta tendência, literalmente, às alturas e ergueram o edifício que por quase 50 anos foi o mais alto prédio paulistano.

O edifício Martinelli (em construção), assustou os paulistanos com seus 50 metros de altura.
O edifício Martinelli (em construção), assustou os paulistanos com seus 106 metros de altura.

A São Paulo de edificações coloniais, que dominavam a paisagem urbana até o século XIX vivenciava uma radical mudança nas construções quando nasceram Waldomiro Zarzur e Aron Kogan, descendentes de libaneses e de judeus europeus, respectivamente, nos anos 1920.

Os paulistanos viram espantados, primeiro, a construção do edifício Sampaio Moreira, construído entre 1924 e 1929, com seus 50 metros de altura. Depois, o Martinelli, erguido entre 1934 e 1943, com incríveis 106 metros de altura.

Enquanto a maioria da população observava com apreensão e certo medo essa verticalização, nas escolas de engenharia se estudavam novas técnicas construtivas que logo seriam responsáveis pelo surgimento de edifícios ainda mais altos.

Possivelmente era desta forma que os dois alunos do curso de Engenharia da Universidade Mackenzie (Zarzur e Kogan) vivenciavam as aulas e, não com espanto, mas com curiosidade estudantil, viam o crescimento vertical da cidade.

Não demorou para os dois amigos fundarem a construtora que batizaram com o nome da faculdade onde estudaram: “Construtora Mackenzie”, depois denominada “Construtora Zarzur & Kogan”.

Logo os dois engenheiros começaram a fazer obras que marcariam a história urbana da cidade, ao mesmo tempo em que foram ávidos pesquisadores de técnicas para construir melhor e mais alto.

A Zarzur & Kogan construiu o hospital Albert Einsten, entre outras obras, em São Paulo.
A Zarzur & Kogan construiu o hospital Albert Einsten, entre outras obras, em São Paulo.

São obras dos dois, por exemplo, a Mesquita Nossa Senhora do Paraíso; a estrutura que sustenta a escultura de Victor Brecheret, em homenagem a Duque de Caxias, na avenida de mesmo nome; o edifício do Hospital Albert Einstein (projeto de Rino Levi), o velódromo do Ibirapuera e muitas outras obras em todos todos os bairros da cidade.

Dentre estas obras, dois ícones paulistanos nasceram das pranchetas da dupla.

Cerca de uma década após formados e várias edificações construídas, a construtora dos amigos Zarzur e Kogan ergueu seu primeiro projeto que se tornaria icônico na história paulista. Primeiro por sua grandiosidade, segundo, por aquilo que se tornou com o passar dos anos: o Edifício São Vito.

Projetado por Aron Kogan, o São Vito foi uma construção erguida entre 1954 e 1959, no Parque Dom Pedro II, região central de São Paulo.

A arquitetura do edifício, inspirada no modernismo, foi inicialmente concebida como uma solução para habitação popular, embora também tivesse espaço para estabelecimentos comerciais no térreo.

Era destinada a profissionais liberais, imigrantes e viajantes que chegavam à cidade, algo próximo com os atualmente denominados “studios”. Tinha 27 andares, 624 apartamentos de cerca de 28 m² e 112 metros de altura. Imponente, foi logo ocupado. 

Construído pela Zarzur & Kogan o São Vito infelizmente virou símbolo de favela vertical na cidade.
Construído pela Zarzur & Kogan o São Vito infelizmente virou símbolo de favela vertical na cidade.

O São Vito teve uma fase inicial vibrante, mas logo sofreu com o processo de esvaziamento do centro de São Paulo, com alta nos aluguéis e a degradação de seu entorno.

Acabou se tornando uma opção de moradia para uma população de pouca e precaria renda. Com baixa arrecadação condominial, começou a se degradar. Na década de 1980 já era conhecido como “treme-treme”, o maior cortiço vertical da capital.

Tornou-se uma “cidade” dentro da cidade, com mais de 3.000 moradores. Um território dominado por gangues onde só se entrava a convite e acompanhado de um morador, ou com a polícia. Roubos, furtos, tráfico de drogas, prostituição, assassinatos e outros crimes aconteciam com frequência nas unidades residenciais e o São Vito se tornou um dos locais mais perigosos da capital.

Sem manutenção adequada, princípios de incêndio não eram raros, e a estrutura, em si, apresentava sinais de que não suportaria muitos mais anos de descaso.

Após muita discussão em todos os âmbitos do poder público, a Prefeitura de São Paulo decidiu desapropriar o edifício para promover sua revitalização, reformar os apartamentos e revendê-los dentro de programas de apoio à moradia popular.

Mas a conclusão é de que os custos de tal processo seriam maiores do que os ganhos que seriam recebidos com a revitalização. Muita discussão aconteceu entre órgãos públicos de todas as esferas, movimentos de famílias sem teto, iniciativa privada,  ministério público, e membros da sociedade civil, sem que um acordo fosse firmado para uma nova e digna utilização do imóvel.

Ao final, o São Vito foi demolido, junto com outras edificações do entorno, a partir de 2010.

No terreno em que se localizava está sendo construída uma unidade do SESC.

O prédio mais alto de São Paulo

O Mirante do Vale, entregue poucos meses antes do fim de 1966, foi o maior edifício do Brasil por quase 50 anos.
O Mirante do Vale, entregue poucos meses antes do fim de 1966, foi o maior edifício do Brasil por quase 50 anos.

Se a experiência de ocupação do São Vito, infelizmente, teve um final melancólico, o mesmo não se pode dizer de outra edificação icônica de Zarzur e Kogan. O “Palácio Zarzur & Kogan”. 

Não sabe onde é? Pode ser porque ele se tornou muito mais conhecido como “Mirante do Vale”.

Essa obra foi projetada inicialmente pela dupla com 38 andares, porém Aron Kogan faleceu no ano de 1960 e não chegou a ver a construção do edifício comercial, que foi concluído em 1966.

Durante sua construção, foi reprojetado por Waldomiro Zarzur para que passasse a ter 51 andares.

O Engenheiro Zarzur contou em depoimentos que durante a construção do arranha-céu houve quem tentasse demovê-lo da ideia. “Os modelos da engenharia da época não permitiam um prédio tão grande de concreto. Tinha de ser uma estrutura metálica”, comenta. “Depois houve uma campanha desgraçada contra nós; insinuaram até que a construção iria derrubar o Viaduto Santa Ifigênia. Tudo sem qualquer base técnica”, afirma o engenheiro.

Waldomiro Zarzur

Segundo ele, em 1972, após o trágico incêndio que consumiu o Edifício Andraus, na avenida São João, dizia-se que a próxima vítima seria a “menina dos olhos” de Zarzur.

Assim, para dissociar o nome da conotação negativa, o engenheiro decidiu rebatizar o prédio como Mirante do Vale.

Em 2002, começou uma campanha interna dos condôminos para atribuir ao edifício o nome fantasia de W. Zarzur, em homenagem ao seu idealizador e construtor.

A questão foi apreciada em assembleia, que atribuiu ao edifício a denominação de W. Zarzur, seu nome “oficial”, que entretanto não supera a força do nome com o qual ficou conhecido.

Um prodígio da engenharia

O Mirante do Vale, ao ser finalizado, em 1966, se tornou o edifício mais alto de São Paulo. 

O prédio possui 170 metros de altura e 51 andares e chegou a ser 18º maior edifício do mundo. Por 48 anos, foi o maior edifício do país, sendo superado somente em 2014 pelo edifício Millennium Palace, em Santa Catarina e posteriormente por uma série de outras edificações, “gigantes” pelo Brasil.

Aron Kogan
Aron Kogan

Além de sua altura, suas dimensões internas também impressionam. São 75 mil metros quadrados de área, contendo 812 unidades de salas comerciais. Em seus três primeiros andares, para completar, ainda possui 146 unidades de lojas.

Cerca de 10 mil pessoas trabalham no edifício diariamente entre suas salas comerciais, lojas e funcionários do próprio Mirante, sem contar o fluxo de 30 mil pessoas que por ali circulam todos os dias. Para comportar o grande número de pessoas, o edifício conta com 3 entradas por três ruas diferentes, 12 elevadores e até mesmo um heliponto em seu topo.

Aventura radical em pleno centro de São Paulo

Assim como o São Vito, o Mirante do Vale também tem, atualmente, o poder de provocar “calafrios” nos seus visitantes. Felizmente não pelos mesmos motivos.

Se o edifício perdeu o status de mais alto do Brasil, ganhou, entretanto, um atrativo único na cidade, conhecido como “Sampa Sky”.

São plataformas de vidro que se projetam para fora do corpo principal da edificaão, em seu 42º andar, nas quais o visitante pode caminhar tendo abaixo nada menos do que 150 de altura até avistar o Vale do Anhangabaú.

As visitas ao Sampa Sky são pagas e o site oficial para vendas e informações é o https://www.ticketmaster.com.br/event/sampasky

A barreira dos 200m

Muita gente supunha que o Altino Arantes (esquerda) era o mais alto da cidade, mas ele tinha 5 metros a menos do que o Mirante.
Muita gente supunha que o Altino Arantes (esquerda) era o mais alto da cidade, mas ele tinha 5 metros a menos do que o Mirante.

Com seus 170 metros de altura, o Mirante do Vale passou quase meio século sendo o edifício mais alto do país, ainda que muitos achassem que este título fosse do Edifício Altino Arantes (atualmente conhecido como Farol Santander).

O Altino Arantes tem 161 metros, mais baixo ainda do que o Edifício Itália, com 165.

O recorde de edifício mais alto da capital só seria quebrado 56 anos depois da construção do Mirante do Vale pelo edifício residencial Platina 220, com 172 metros, entregue em 2022.

Mas foi só em 2025 que São Paulo teve uma edificação com mais de 200 metros, o “Alto das Nações”, com seus 219 metros de altura.

Vale o registro de que atualmente os prédios mais altos do Brasil se encontram no município de Balneário Camboriú, em Santa Catarina.

A cidade ostenta nada menos do que quatro torres de diferents empreendimentos com alturas que variam de 234 a 294 metros de altura.

O município litorâneo brasileiro deve abrigar nos próximos anos aquele que será o mais alto condomínio residencial do mundo.

Chamado de Senna Tower, o empreendimento deve contar com 228 unidades residenciais, dentre elas, 18 “mansões” suspensas de 420 a 563 m², 204 apartamentos de até 400 m², 4 coberturas duplex de 600 m², 2 coberturas triplex de 903 m².

O Yachthouse by Pininfarina, com 294 metros, é o atual edifício mais alto do país.
O Yachthouse by Pininfarina, com 294 metros, é o atual edifício mais alto do país.

Fontes:

https://arquivo.arq.br/profissionais/waldomiro-zarzur

https://www.saopaulo.sp.leg.br/iah/fulltext/justificativa/JPL0501-2014.pdf

https://arquivo.arq.br/profissionais/aron-kogan

https://pt.wikipedia.org/wiki/Mirante_do_Vale

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_dos_arranha-c%C3%A9us_mais_altos_do_Brasil

https://pt.wikipedia.org/wiki/Aron_Kogan

https://pt.wikipedia.org/wiki/Waldomiro_Zarzur

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