Greves, revoluções e a USP. Os Mesquita no centro dos acontecimentos políticos do início do Séc. XX

Nos conturbados anos iniciais do Século XX em São Paulo, muitos acontecimentos mexeram profundamente com a sociedade e política da cidade e do Estado. Por sua proeminência na sociedade de então, a família Mesquita por vezes teve participação importante nos fatos que moldaram a São Paulo da época.

Em 9 de julho, os paulistas celebram os 94 anos da chamada Revolução de 1932. Já abordamos os fatos relacionados ao maior levante cívil-militar da Velha República, assim como recentemente contamos a história do jornais O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo.

Imprensa, política e sociedade sempre tiveram relações estreitas desde que Johannes Gutenberg inventou a prensa de tipos móveis reduzindo custos e trazendo agilidade à produção gráfica, consequentemente, à edição de periódicos informativos.

Logo as elites perceberam que jornais poderiam ser ao mesmo tempo, um problema para a manutenção de seu “status” de poder político e um aliado a esses projetos. Jornalistas e, principalmente, os donos dos jornais poderiam ser inimigos ou aliados dos poderosos.

Em épocas em que nem se sonhava em comunicação digital, jornais em seus diversos formatos, tamanhos, tiragens e periodicidades eram instrumentos perfeitos para difusão de ideologias. Seja a dos próprios editores, seja a daqueles que por incontáveis caminhos, pudessem exercer influência nas linhas editoriais.

No recente post “ A história de dois ícones do jornalismo paulistano”, falamos sobre o surgimento dos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, ambos controlados por gerações da mesma família. Por ter suas raízes ainda no Séc. XIX, o “Estadão” e a família Mesquita tiveram grande participação nos fatos políticos mais relevantes do início do século, culminando na Revolução de 1932 e na criação da Universidade de São Paulo.

Júlio de Mesquita Filho teve participação fundamental nos principais fatos políticos do início do Séc. XX.

Nascido no bojo do Manifesto Republicano de 1870 e da Convenção de Itu de 1873, o Jornal A Província de São Paulo firmou-se como  porta-voz do movimento republicano, que defendia o fim da monarquia. 

Logo após a proclamação da República brasileira (1889), não fazia mais sentido manter o termo “Província” no nome do jornal, que foi alterado para “Estado”. A Província de São Paulo, dava lugar ao “Estado de São Paulo”.

Ainda na esteira do movimento republicano, o então redator do jornal, Francisco Rangel Pestana, se afastou do periódico para ser um dos redatores da nova Constituição Republicana, e assumiu a direção do jornal o jovem Julio de Mesquita.

No ano de 1902 Mesquita comprou o jornal e deu início à dinastia familiar que controla o Estado de São Paulo desde então.

A greve de 1917 e a paz do “Estadão”

Operários grevistas, em 1917, em frente ao Cotonifício Crespi.
Operários grevistas, em 1917, em frente ao Cotonifício Crespi.

A São Paulo de 1917 era um pólo de crescimento industrial, atraindo milhares de imigrantes e migrantes em busca de oportunidades nas pequenas e, sobretudo, nas grandes indústrias que se formavam na capital. 

A prosperidade econômica de poucos e a imagem de uma cidade moldada ao progresso, contrastava duramente com as condições de vida e trabalho da classe operária. Jornadas exaustivas de 12 a 16 horas diárias, salários irrisórios que mal garantiam a subsistência, a exploração do trabalho infantil e feminino, muitas vezes em condições análogas à escravidão, e a completa ausência de direitos trabalhistas eram a “normalidade” das relações de trabalho.

Nesse contexto econômico/social todo o mundo vivia uma nova ordem e uma ordem que trazia tensão às relações. Se caiam senhores feudais, reis, e a sociedade de castas, surgia uma nova classe dominante, a dos industriais e uma nova dominada, a dos proletários.

No início de 1917, na capital paulista, paralisações de trabalhadores já apareciam em diversas fábricas e setores. Em 9 de julho, entretanto, uma carga de cavalaria foi lançada contra os operários que protestavam na porta da fábrica Mariângela, no Brás, e a ação resultou na morte do jovem anarquista espanhol José Martinez. 

Seu funeral atraiu uma multidão que atravessou a cidade acompanhando o corpo até o cemitério do Araçá onde foi sepultado. Indignados e já preparados para a paralisação, os operários da indústria têxtil Cotonifício Crespi, com sede na Mooca entraram em greve, e logo foram seguidos por outras fábricas e bairros operários.

Três dias depois, mais de 70 mil trabalhadores já aderiram à greve. Armazéns foram saqueados, bondes e outros veículos foram incendiados e barricadas foram erguidas em meio às ruas.

Entre 10 e 16 de julho, a paralisação se alastrou como um incêndio pela cidade de São Paulo. Milhares de trabalhadores se uniram em comícios, marchas e manifestações, enfrentando a repressão policial e a milícia do estado, que agia violentamente para desmobilizar o movimento.

Os jornais (como este exemplar de jornal operário de 1917) desde sempre foram ferramenta de mobilização.
Os jornais (como este exemplar de jornal operário de 1917) desde sempre foram ferramenta de mobilização.

O presidente Wenceslau Braz, o governador Altino Arantes e o prefeito Washington Luiz estavam mais preocupados com a repressão das passeatas, dos comícios e das depredações do que com a negociação com os trabalhadores.

Foram os jornalistas que tiveram papel fundamental nos acordos que colocaram fim à greve. Organizados na Comissão da Imprensa, eles levavam as propostas dos operários ao poder público e aos industriais.

Segundo a historiografia, Julio de Mesquita, dono e responsável editorial do Estado de São Paulo, a convite dos grevistas e tendo trânsito entre o empresariado, foi o principal articulador das negociações que viriam a colocar fim à greve.

Durante os dias de paralisação, o Estadão publicava em suas páginas os comunicados dos grevistas. Em editoriais e em artigos, o jornal reconhecia como legítimas as demandas defendidas pelo movimento, entendia que a melhoria salarial atuaria como um estímulo à industrialização e lembrava que “… a preocupação capital de todo o mundo civilizado é, nos dias que passam, resolver da melhor maneira possível a questão social…

Ao final de julho daquele ano, nas dependências da sede do Jornal O Estado de São Paulo sob atuação de Julio de Mesquita foi assinado o acordo que pôs fim à greve.

1924. Prisão e censura, apesar da neutralidade

Todos já ouviram falar na revolução de 1932, mas oito anos antes, em 1924, São Paulo viveu dias igualmente conturbados, durante o movimento revoltoso que surgiu anos antes no Rio de Janeiro, dentro dos quadros das forças armadas e insuflou integrantes da “Força Pública”, organização que precedeu a Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Manchete do "Estadão" sobre o levante de 1924.
Manchete do “Estadão” sobre o levante de 1924.

Inspirados nas ideias dos militares do Exército do Rio de Janeiro, os revoltosos paulistas se articulavam para convencer seus pares, civis e integrantes de outras forças, como a Força Pública.

Na madrugada de 5 de julho de 1924, os quartéis de Santana e da Luz foram tomados pelos revoltosos e neste último, o da Luz, foi instalado o centro de comando da operação do levante. Ainda naquela madrugada, foram tomadas as estações de trem Sorocabana (Júlio Prestes) e a Estação da Luz, assumindo assim os revoltosos o controle do tráfego ferroviário.

Houve luta ininterrupta de 5 a 8 de julho e os combates se concentravam nos bairros da Luz e dos Campos Elíseos, nas redondezas do vale do Anhangabaú e nos largos do Paissandu, Santa Ifigênia e São Bento.

As batalhas se intensificam pela cidade, inclusive com as tropas federais usando aviões para bombardear posições revoltosas. Durante todo o mês de julho as batalhas aconteceram, também em  bairros como a Mooca, Ipiranga e Cambuci.

Ao final de intensos entraves os revoltosos acabaram por decidir abandonar suas posições na capital e estabelecer sua resistência no interior. 

E o fizeram de maneira “discreta”. No dia 27 de julho, após embarcarem tropas, armas e munições em trens na Estação da Luz, ao mesmo tempo em que mantinham alguns focos de resistência para distrair as tropas do governo, abandonaram por completo suas posições na capital, pondo fim aos mais intensos combates na área urbana paulistana.

Apesar de ter mantido uma posição de neutralidade durante o conflito, mas não deixando de noticiar os acontecimentos, como talvez fosse desejo do governo Federal, o presidente da República, Artur Bernardes, que governava em estado de sítio e com mão de ferro, perseguiu a imprensa, particularmente O Estado de São Paulo.

Casas bombardeadas em 1924, na capital paulista.
Casas bombardeadas em 1924, na capital paulista.

Julio Mesquita acabou processado como subversivo e foi preso em agosto, sendo levado para o Rio de Janeiro. O Estado de São Paulo teve sua circulação suspensa por quase um mês.

Integrantes do que se pode chamar de elite intelectual (e econômica) da época, os Mesquita, desta vez por meio de Julio Mesquita Filho, insatisfeito com a chamada “República Velha”, foram ativos articuladores da fundação do Partido Democrático, capitaneada por Antônio da Silva Prado, em 1926.

Esta foi a primeira grande tentativa civil e organizada de quebrar as pernas das oligarquias do café com leite por vias institucionais, defendendo o voto secreto, a justiça eleitoral e o ensino público e gratuito.

Foi justamente esse partido, gestado na redação e nos círculos dos Mesquita, que rompeu com o governo paulista e deu apoio à candidatura de Getúlio Vargas na Aliança Liberal em 1930 (o que, ironicamente, desembocaria na decepção com Getúlio e na Revolução de 1932).

A revolução de 1932. Armas, exílio e a fundação da USP

Pode parecer impensável que integrantes da elite pudessem se alistar voluntariamente para combater nas trincheiras que os paulistas erguiam pelo estado para defender os ideais revolucionários em 1932, quando São Paulo se insurge contra o Governo Federal e vai às vias de fato. Mas foi o que fizeram os Mesquita.

Os irmãos Julio, Francisco e Alfredo Mesquita não apenas defendiam os ideais revolucionários nas páginas de O Estado de São Paulo, como se alistaram como soldados voluntários, chegando a combater na linha de resistência do Vale do Paraíba.

Intelectuais e líderes revolucionárioos, entre eles Julio e Francisco Mesquita foram deportados para Portugal.
Intelectuais e líderes revolucionárioos, entre eles Julio e Francisco Mesquita foram deportados para Portugal.

Em consequência da derrota dos paulistas após quase três meses do conflito, os líderes democráticos foram quase todos exilados. Julio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita partiram para o exílio em Portugal e só voltariam ao Brasil, com a anistia concedida aos revoltosos em julho de 1934.

Ao retornarem, imprimiram ao jornal um tom combativo ao crescente autoritarismo de Vargas, consolidado com o golpe que instalou a ditadura do Estado Novo, em 1937. 

A partir daí, cresceu a repressão ao Estadão. Julio Filho, então diretor, foi preso 17 vezes e afastado para o exílio novamente, e o jornal ficou sob intervenção estatal.

No período em que permaneceu no exílio, Julio de Mesquita Filho aproveitou para articular a intelectualidade paulistana em torno de um antigo desejo seu, criar uma universidade em São Paulo.

Em dezembro de 1933, Julio de Mesquita tem o encontro final com o educador Fernando de Azevedo, no qual acerta os últimos detalhes para a redação de um decreto-lei que iria criar a Universidade de São Paulo.

Detalhe do decreto de criação da Universidade de São Paulo, gestada por Julo de Mesquita Filho nos anos de exílio.
Detalhe do decreto de criação da Universidade de São Paulo, gestada por Julo de Mesquita Filho nos anos de exílio.

Vale lembrar um importante detalhe histórico. Julio de Mesquita Filho era sogro de Armando Salles de Oliveira, então interventor federal no Estado de São Paulo. Apesar das desavenças com Getúlio Vargas, isso permitiu a Mesquita força suficiente para levar a ideia da fundação da universidade adiante.

 “Pus mãos à obra e, em menos de uma semana, estava concluído o projeto do decreto-lei que nos pareceu conveniente e do maior interesse político submeter ao exame de uma comissão, judiciosamente escolhida, antes de encaminhar à apreciação do interventor do estado”, relatou Azevedo em artigo publicado no Jornal O Estado de São Paulo, em 25 de janeiro de 1934.

A comissão era composta, além do autor do projeto, pelos professores Almeida Júnior (Instituto de Educação), Teodoro Ramos e Francisco Fonseca Teles (Escola Politécnica), Raul Briquet e André Dreyfus (Faculdade de Medicina), Vicente Ráo e Waldemar Ferreira (Faculdade de Direito), Henrique Rocha Lima e Agesilau Bitancourt (Instituto Biológico) e Julio de Mesquita Filho. 

Após uma semana de debates, o projeto recebeu algumas modificações e seguiu para Salles Oliveira. Como desejava o governador, o decreto de criação da USP foi assinado no dia do aniversário da cidade de São Paulo, 25 de janeiro de 1934. “Estava ele (Salles Oliveira) disposto a remover todos os obstáculos a fim de abrir, em São Paulo, a maior forja que se aparelhou em nossa terra para a renovação da cultura e para os progressos das ciências no Brasil”, lembrou Azevedo no artigo escrito há 60 anos.

O Estado de São Paulo dá grande destaque à formatura da primeira turma da USP.
O Estado de São Paulo dá grande destaque à formatura da primeira turma da USP.

Ao ser criada a Universidade de São Paulo englobou de imediato dentro de sua estrutura as faculdades de Direito, de Medicina, de Farmácia e Odontologia, a Escola Politécnica e Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. 

Junto com a criação da USP foi criada a FFCL, (Faculdade de Filosofia Ciências e Letras).

Ironicamente, a maior universidade pública do país nasceu do empenho de um intelectual da elite econômica, apoiado por um interventor federal de um governo ditatorial em uma das mais conturbadas eras da história recente do Brasil.

https://www.estadao.com.br/150-anos/150-momentos/estadao-teve-papel-ativo-direto-do-front-durante-a-revolucao-de-32

https://www.estadao.com.br/educacao/julio-de-mesquita-filho-inspirou-criacao-da-usp

https://revistapesquisa.fapesp.br/um-caminho-de-pedras/

http://netleland.net/hsampa/epopeia1924/Epopeia1924.html

Este conteúdo é protegido por direitos autorais e seu uso comercial não é permitido sem autorização da Casa da Boia. Para compartilhamento, utilize o link da página.

Quer ser avisado quando tiver post novo?

Cadastre-se para receber avisos de novos posts, notícias e novidades sobre nossa atividades culturais.

Artigos relacionados

Veja outros assuntos que podem te interessar...