União e legado. As entidades árabes em São Paulo

Os primeiros árabes chegaram a São Paulo no início do século XIX e, sem saber falar a língua de uma terra distante na geografia e costumes, naturalmente começaram a se agregar grupos, associações e clubes. Fundaram igrejas, hospitais e entidades que, cumprida a função inicial do acolhimento, extrapolaram os círculos da comunidade e hoje são de grande importância para a cidade.

Voltemos ao século XIX. Diametralmente separados no Globo Terrestre, estavam o Oriente, composto por centenas de etnias e povos de ancestralidade diversa, cultura milenar e conhecimento científico avançado, porém, unidos forçosamente sob o domínio de um império, o Turco Otomano.

Comitiva de Dom Pedro II no Egito, durante viagem as países árabes.
Comitiva de Dom Pedro II no Egito, durante viagem as países árabes.

Quase literalmente no outro lado do Mundo, as Américas. Terras descobertas há pouco (considerando a história milenar dos árabes), local de oportunidades. Distante do epicentro europeu, região mais próxima da península arábica, era também um local completamente desconhecido dos povos do oriente.

Uma ponte, entretanto, se fez entre estes dois mundos, quando um brasileiro culto, estudioso, curioso, progressista, articulado e ligado às ciências, empreendeu uma viagem pelos países do oriente “levando notícias do lado de cá”.

Esse homem era ninguém menos do que o Imperador do Brasil.

Dom Pedro II visitou a região em duas ocasiões: 1871 e, de forma mais marcante, no final de 1876. O imperador era um intelectual que falava (um pouco) o árabe e tinha profundo respeito pela cultura local. 

Suas viagens, não eram de turismo. As missões diplomáticas que empreendeu pelos países árabes pretendiam difundir a imagem de um Brasil próspero, seguro, acolhedor, sem preconceitos religiosos. Uma terra de oportunidades.

Nestas visitas, não fez distinção em apresentar o Brasil a reis, governantes, intelectuais ou às pessoas mais simples daquelas terras.

Sua presença carismática colocou o Brasil “no mapa” do Oriente Médio em um momento em que todas aquelas pessoas, oriundas de várias etnias, localidades e ancestralidades se viam subjugadas em todos os aspectos, por um Império invasor. 

Não é exagero afirmar que, de um modo geral, os árabes, em muitos aspectos, formavam um povo muito mais avançado do que aqueles que então ocupavam as Américas.

A despeito disso, a dominação turco-otomana não deixava grandes espaços na economia e na política para o crescimento individual. Mas, na América de Dom Pedro II, tudo indicava que sim.

Imigração voluntária

Embora associados a uma função mais "simples", como o ofício de mascate, os árabes que imigraram para o Brasil o fizerm por sua própria conta e muitos cinham com capital para empreender no país.
Embora associados a uma função mais “simples”, como o ofício de mascate, os árabes que imigraram para o Brasil o fizerm por sua própria conta e muitos tinham certo capital para empreender no país.

O Brasil vivia o período da subvenção aos imigrantes europeus, principalmente aos Italianos. Havia uma política de estado, financiada principalmente pelos cafeicultores, que recrutava trabalhadores europeus, financiava sua viagem e lhes garantia ocupação certa nas lavouras do então maior produto agrícola brasileiro.

Com os árabes não. A migração destes povos, majoritariamente sírios e libaneses, não contou com um plano de estado. Não foi subvencionada.

Esses imigrantes chegaram às nossas terras por seus próprios meios e investimento. A família Jafet, por exemplo, cujos primeiros membros chegaram a São Paulo em 1887, era formada por intelectuais, professor universitário (Nami Jafet) e comerciantes já com alguma projeção no Líbano.

Rizkallah Jorge Tahan, o fundador da Casa da Boia, apesar de ter apenas 26 anos quando chegou ao Brasil, em 1895, já era uma pessoa letrada, com profundo saber técnico e, igualmente, imigrou por sua conta própria.

Porém, sejam os imigrantes europeus subvencionados ou os árabes, “autônomos”, as dificuldades inicias com a língua, os costumes, comidas e ingredientes muito diferentes dos sabores da terra natal, esse conjunto de fatores adversos, naturalmente fazia com que estas comunidades passassem a se agrupar, tanto territorialmente, quanto em atividades que lhes garantisse ao mesmo tempo autoproteção e a manutenção de suas raízes culturais.

Assim surgem os bairros predominantemente de imigrantes, com a Moóca dos Italianos, o Bom Retiro dos Judeus e a região da 25 de março, onde se fixaram os árabes.

A construção de redes de apoio

Além da proximidade geográfica, estas comunidades começaram a constituir entidades formais de apoio.

No caso dos sírios e libaneses, uma das primeiras associações criadas foi a “Associação Beneficente A Mão Branca”.

Uma das primeiras associações dos imigrantes a "A Mão Branca" ainda presta auxílio a idosos em São Paulo.
Uma das primeiras associações dos imigrantes a “A Mão Branca” ainda presta auxílio a idosos em São Paulo.

Fundada em 1912 por um grupo de senhoras da comunidade sírio-libanesa de São Paulo, “A Mão Branca” ainda atua como uma associação beneficente de longa permanência para idosos, sua atividade original.

A entidade promovia reuniões semanais com a finalidade de assistir pessoas idosas, a quem distribuíam mantimentos e prestavam auxílio hospitalar.

Ao conquistar uma sede em Santo Amaro, a associação passou a oferecer hospedagem e tratamento para idosos desamparados logo em seus primeiros anos de atividade.

Atualmente a associação conta com 150 funcionários na prestação de serviços como atendimento médico e de enfermagem, assistência social, nutrição e dietética, terapia ocupacional, fisioterapia e até terapia com cães.

Outra entidade assistencial fundada por cidadãos sírios que imigraram da cidade de Homs foi o Lar Sírio Pró Infância, criado em 1923 por integrantes da Sociedade Mocidade Homcie, formada imigrantes sírios que atuavam em São Paulo como mascates e pequenos comerciantes.

O objetivo do grupo, quando de sua criação, era angariar fundos para remessa às famílias necessitadas de sua cidade natal. Os recursos vinham de contribuições pessoais e de bilheteria de peças teatrais que encenavam.

Diretoria do Lar Sírio em 1936.
Diretoria do Lar Sírio em 1936.

Em meados de 1923, com o aparecimento de três órfãos da própria colônia e sem ter onde abrigá-los tentaram encaminhar os meminos a um orfanato, mantido por um cidadão norte-americano no município de Suzano.

Incentivados e orientados pelo americano, o grupo aceitou o desafio de criar um orfanato próprio. Assim, angariando fundos junto à comunidade síria em São Paulo compraram uma chácara no bairro do Tatuapé.

O “Orphanato Syrio” foi fundado nesse mesmo ano de 1923 e a chácara transformou-se em sua atual sede.

Com o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) na década de 1990, a instituição deixou progressivamente o formato de internato/orfanato e passou a ser um centro de apoio socioeducativo diurno, mantendo os jovens integrados às suas famílias e comunidades, com atividades sociais, cursos abertos e profissionalizantes e atuando como apoio na formação de crianças e jovens socialmente vulneráveis.

Um clube para a comunidade

A ideia de criar em São Paulo um clube para a comunidade síria já corria entre os jovens imigrantes, e foi no dia 14 de julho de 1917, que um grupo de sírios e libaneses comemoravam o aniversário de Milhem Simão Racy, num quarto de pensão na rua Augusta. Lhe deram de “presente” a primeira presidência do, por eles naquele momento criado e batizado, “Sport Club Syrio”.

A brincadeira ficou séria e a ideia foi muito bem recebida por imigrantes mais velhos, que já haviam se estabelecido economicamente no Brasil e que contribuíram com a entidade.

A sede da Ponte Pequena do Esporte Clube Sírio, fundado em 1917.
A sede da Ponte Pequena do Esporte Clube Sírio, fundado em 1917.

O clube teve sua primeira sede em uma sala na Rua do Comércio, centro de São Paulo. No início de 1920, a sede social foi transferida para um conjunto na rua Florêncio de Abreu. Depois, o clube passaria por um terreno na Ponte Pequena e finalmente construiria a grande sede que ocupa hoje nas proximidades do Ibirapuera.

Assim como fizeram outros abnegados associados o fundador da Casa da Boia, Rizkallah Jorge, doou vultosa quantia em dinheiro e viabilizou a construção da sede social do clube, cujo salão principal, aliás, leva o seu nome até hoje.

Vários descendentes da família Rizkallah exerceram voluntariamente cargos na direção do clube, nos mais de cem anos de sua existência, como nosso diretor Mario Roberto Rizkallah, que presidiu o Síro entre 1991 e 1992; Antonio Jorge Rizkallah, seu primo, que também foi presidente por dois mandatos, 1967/1968 e 1973/1974 e Salim Rizkallah Jorge, filho de nosso fundador e pai de nosso diretor, que presidiu o Sírio entre 1959 e 1960.

O Esporte Clube Sírio se tornou um marco na história de São Paulo não apenas pela arquitetura singular de sua sede social na região do Ibirapuera, mas por ter sido o primeiro clube brasileiro a ser campeão mundial de basquete, no ano de 1979. 

Apenas em 2014 outro time brasileiro viria a repetir o feito do Sírio. O Flamengo (também campeão em 2022). O time Franca, da cidade de mesmo nome, em São Paulo, venceu em 2023.

Origem gerou dois clubes em São Paulo

Se o Esporte Clube Sírio não tinha uma origem “geográfica”, contemplando a comunidade como um todo, duas outras entidades sociais criadas pouco depois, ao contrário, nasceram de imigrantes de cidades sírias e fizeram questão de deixar isso claro no nome dos clubes que fundaram.

Sede do Cub Homs em 1972.
Sede do Cub Homs em 1972.

O Clube Homs foi fundado em 2 de maio de 1920 por 22 imigrantes oriundos da cidade de mesmo nome, na Síria. Aliás, a última cidade em que Rizkallah Jorge morou antes de imigrar para o Brasil.

O Clube Homs teve sua primeira sede na rua 25 de Março e a partir de 1921 ocupou o número 357 da rua Florêncio de Abreu.

Na década de 1940 a diretoria adquiriu um terreno na Av. Paulista, onde, posteriormente, construiu o edifício que é sua sede até hoje.

O Homs surgiu desta necessidade de ser um ponto de encontro, onde os imigrantes pudessem se reunir para matar as saudades da terra, jogar Taule (gamão) e dominó e para terem notícias da cidade natal por meio de cartas recebidas pelos integrantes.

No início, só eram sócias do clube pessoas oriundas de Homs, depois a instituição começou a receber associados de outras cidades sírias e só por volta da terceira geração dos pioneiros, é que o clube passou a aceitar pessoas de outras comunidades.

Sem o porte de um clube como o Pinheiros ou mesmo o próprio Sírio, com milhares de associados, o Homs, para obter renda, usa a sua localização privilegiada e loca suas áreas para eventos corporativos e sociais, como formaturas ou feiras de negócios.

Nos anos 1970 e 1980 foi um dos principais salões de baile da capital, não apenas frequentado pelos imigrantes árabes, quanto por gerações de estudantes paulistanos que tiveram sua formatura nos belos salões do clube.

Clube Alepo, no bairro do Paraíso.
Clube Alepo, no bairro do Paraíso.

Não muito distante do Clube Homs está outro, fundado, igualmente, por sírios que tinha uma origem comum, a cidade de Alepo, onde nasceu Rizkallah Jorge.

O Clube Alepo, na rua Tomás Carvalhal, foi fundado em 1945 por imigrantes vindos desta cidade síria e há mais de 80 anos é também referência para os descendentes dos pioneiros alepinos em São Paulo.

Se os imigrantes sírios constituíram espaços identitários de acolhimento e fortalecimento de laços o mesmo foi feito pelos libaneses no ano de 1934, quando fundaram o Clube Atlético Monte Líbano.

O Clube Atlético Monte Líbano.
O Clube Atlético Monte Líbano.

Uma curiosidade, o primeiro nome escolhido para a agremiação  foi “Clube Athletico Syrio-Libanez”, passando a se chamar Clube “Athletico Libanez” entre 1936 e 1940 para, finalmente, receber o nome definitivo Clube Atlético Monte Líbano, em 1940.

Em 1935, o clube adquiriu um terreno próximo de onde seria construído o Parque do Ibirapuera. Este é o lugar onde a agremiação permanece até hoje. A sede social e as primeiras quadras foram inauguradas em 1936.

A preocupação com a assistência médica

Lançamento da pedra fundamental do Hospital Sírio Libanês, em 1931.
Lançamento da pedra fundamental do Hospital Sírio Libanês, em 1931.

Cultura, esporte e convívio social já eram realidade para os imigrantes com a fundação dos clubes, mas outro pilar do bem estar da comunidade em território paulista ainda precisaria ser constituído, a assistência médica aos membros das colônias árabes.

Assim, um grupo de mulheres da comunidade se reúne para idealizar e viabilizar a construção de um hospital, a exemplo do que haviam feito os imigrantes portugueses, com a Sociedade Portuguesa de Beneficência (1859) e os alemães, com o Hospital Alemão Oswaldo Cruz (1897).

A Sociedade Beneficente de Senhoras Hospital Sírio-Libanês, foi formada em 1921 e com a ajuda financeira de um grupo de doadores (dentre eles Rizkallah Jorge Tahan), as obras do primeiro prédio do Hospital Sírio-Libanês começaram em 1931, numa colina até então pouco habitada da região da Bela Vista.

Em 1937, chegaram os primeiros equipamentos e no ano seguinte, a Sociedade realizou sua primeira reunião dentro do edifício.

Em 1941, já se marcava a data da inauguração, mas o mundo vivia a Segunda Guerra Mundial e o prédio do Sírio-Libanês foi requisitado pelo governo do estado para que ali fosse instalada a Escola Preparatória de Cadetes de São Paulo, frustrando as expectativas da comunidade.

Depois de uma série de negociações que duraram anos, finalmente o governo se comprometeu a construir uma nova escola de cadetes em Campinas (SP) e devolveu o espaço à Sociedade Beneficente de Senhoras, em 1959. O Sírio-Libanês foi finalmente inaugurado em 15 de agosto de 1965.

Até hoje é a Sociedade Beneficente de Senhoras a entidade responsável pela gestão deste que se tornou um dos mais importantes hospitais brasileiros.

Outro hospital de referência na cidade de São Paulo nasceu também da iniciativa de mulheres da comunidade árabe, que fundaram, em 1918, a Associação do Sanatório Sírio, para auxiliar órfãos da 1ª Guerra Mundial.

Com o passar dos anos, a associação migrou sua atenção aos pacientes tuberculosos, fundando uma unidade de referência em 1947. Felizmente a tuberculose foi erradicada na década de 1960, e com isso a entidade se volta para a criação de um hospital dedicado à cirurgia torácica, que viria a ser o HCor.

E finalmente, a religião

Catedral Metropolitana Ortodoxa, recém-construída.
Catedral Metropolitana Ortodoxa, recém-construída.

O último pilar desta rede de apoio constituída pelos imigrantes árabes se traduz no aspecto religioso, materializado nos dois mais importantes templos dos cristãos ortodoxos na cidade.

A Catedral Metropolitana Ortodoxa, no bairro do Paraíso, é a sede da Igreja Ortodoxa Antioquina no Brasil, englobando a comunidade árabe. Sua liturgia historicamente usa o árabe (e hoje o português) e celebra a identidade dos povos árabes cristãos.

A arquidiocese e as paróquias estão sob a jurisdição do Patriarcado da Antioquia, com sede em Damasco, na Síria.

A catedral, de 1954, sucedeu o primeiro templo ortodoxo da capital, a Igreja Ortodoxa Antioquina de Nossa Senhora, fundada em 1904, na atual rua Cavaleiro Basílio Jafet, bem próximo aqui da Casa da Boia.

Já a Catedral Armênia de São Jorge, no bairro do Bom Retiro, engloba a comunidade armênia, de origem caucasiana, com idioma e alfabeto próprios.

A Catedral Armênia tem uma relação fundamental com a história de Rizkallah Jorge, pois, embora fosse sírio, tinha ascendência armênia.

A primeira Catedral Armênia de São Jorge foi desapropriada e posteriormente, erguida novamente com incentivo de Rizkallah Jorge, no bairro da Luz.
A primeira Catedral Armênia de São Jorge foi desapropriada e posteriormente, erguida novamente com incentivo de Rizkallah Jorge, no bairro da Luz.

Rizkallah Jorge foi um dos primeiros imigrantes com essa ascendência a chegar ao Brasil e desde que conseguiu prosperidade financeira ajudou ativamente os imigrantes armênios que chegavam ao país, o que se intensificou após o Genocídio Armênio de 1915, perpetrado pelo Império Otomano.

O fundador da Casa da Boia doou o terreno e financiou a construção da primeira Catedral Armênia da cidade, inaugurada em 1938, na esquina da rua 25 de março com a avenida Senador Queirós. Poucos anos depois, a igreja foi desapropriada para o alargamento da avenida.

Rizkallah Jorge novamente se empenhou em negociar a compra de um novo terreno e financiar a construção do novo templo da comunidade, inaugurado na Av. Santos Dumont, em abril de 1949.

A construção desta rede de apoio inicial dos árabes em São Paulo acabou por legar à capital importantes entidades da vida paulistana, seja no lazer, na saúde ou na religião.

Fontes:

https://icarabe.org/noticias/historia/ha-90-anos-22-jovens-sirios-decidiram-se-reunir/

https://www.larsirio.org.br/historia

https://hospitalsiriolibanes.org.br/quem-somos

https://www.hcor.com.br/sobre-o-hcor/historia-do-hcor

https://clubealepo.com.br

https://caml.com.br/

https://sirio.org.br/

https://serieavenidapaulista.com.br/2023/07/17/homs-o-clube-na-avenida-paulista/

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