A São Paulo do primeiro censo e o crescimento que impulsionou a Casa da Boia

Até mais da metade do século XIX, São Paulo era uma cidade pequena, com menos de 50 ruas e pouco mais de 20 mil habitantes. A atividade urbana limitava-se ao chamado Triângulo Histórico, formado pelas ruas São Bento, Direita e Quinze de Novembro. A então vila era pouco significativa no contexto econômico do país, muito diferente da metrópole de hoje. Um cenário que seria confirmado, oficialmente, pelo primeiro censo realizado no Brasil, há 150 anos.

Naqueles tempos o Brasil era uma monarquia governada por Dom Pedro II, a escravidão ainda existia e o meio mais eficiente de percorrer o país, de dimensões continentais, era no lombo de um burro ou cavalo.

Parte do decreto imperial que determinou a realização do primeiro censo.
Parte do decreto imperial que determinou a realização do primeiro censo.

Neste cenário, foi realizado em 1872 o primeiro Censo do país, cuja execução havia sido prevista em lei assinada em 1870, que criava um Diretório Geral de Estatística para conduzir a pesquisa.

A data-base estabelecida para a coleta de dados foi 1º de agosto de 1872, e os recenseadores saíram a campo distribuindo os formulários ou preenchendo-os, no caso de o entrevistado ser analfabeto (quase 70% da população).

Além dos recenseadores, as paróquias de todos os cantos do Império mandaram às casas das redondezas formulários de papel que deveriam ser preenchidos pelos chefes de família e depois devolvidos, para a tabulação das informações.

Em tempos sem internet e sem computadores, os resultados daquele levantamento só foram conhecidos quatro anos depois, em 1876, há exatos 150 anos.

Ficha de coleta de dados do recenceamento de 1872.
Ficha de coleta de dados do recenceamento de 1872.

O Censo de 1872 encontrou no país quase 10 milhões de “almas” (mais precisamente, 9.930.478). Hoje, só a cidade de São Paulo tem 12,4 milhões de habitantes e o Brasil todo conta 215 milhões (censo de 2022).

Pela contagem feita no Segundo Reinado, (esse foi o único recenseamento realizado na vigência da escravidão), havia no território nacional 1,5 milhão de escravizados (15% dos habitantes), entre africanos e brasileiros.

Do total da população, 58% foram declarados pretos ou pardos, 38% apareceram como brancos e 4% foram descritos como indígenas. O Brasil era quase todo católico (99,7%) e majoritariamente analfabeto (82% da população a partir dos 6 anos de idade).

A São Paulo de 1872

Em nosso post anterior, contamos a história do “Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo 1862-1877”, produzido pelo fotógrafo Militão Augusto de Azevedo. Nele as primeiras fotos da cidade foram feitas dez anos antes do censo e mostram uma São Paulo essencialmente rural.

Em Viagem pelo país no período de 1817-1820, os naturalistas alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius descreveram a cidade desta forma: “Acha-se a cidade de São Paulo situada numa elevação na extensa planície de Piratininga. A arquitetura de suas casas amiúde com sacadas de gradil, que ainda não desapareceram por aqui, como no Rio, indica mais de um século de existência; contudo, as ruas são muito largas, claras e asseadas, e as casas têm, na maioria, dois pavimentos. Aqui raramente se constrói com tijolo, ainda menos com cantaria: levantam-se as paredes com duas filas de fortes postes ou varame entrelaçado, entre os quais se calca o barro,sistema muito parecido com o pisé francês”.

Panorama da Cidade de São Paulo, de 1821. Autoria de Arnaud Julien Pallière.
Panorama da Cidade de São Paulo, de 1821. Autoria de Arnaud Julien Pallière.

O sistema descrito pelos naturalistas é a Taipa de Pilão, técnica construtiva milenar que usa terra úmida compactada em formas de madeira (taipais) para criar paredes espessas, sólidas e estruturais, sem uso de tijolos ou cimento.

A cidade de São Paulo não passava ainda do modesto centro administrativo de uma pequena província de 833.354 habitantes. Para se ter uma ideia a província de Minas Gerais registrava mais de 2 milhões de habitantes e os grandes focos econômicos, demográficos, políticos e intelectuais do Brasil eram o Rio de Janeiro e as grandes cidades coloniais da Bahia, Recife e São Luiz do Maranhão, estas beneficiadas pela riqueza do ciclo econômico da cana de açúcar (1530/1750).

A capital de São Paulo era então, segundo o censo de 1872, uma cidade de 31.385 residindo em aproximadamente 50 ruas e vivendo do comércio praticado com os bandeirantes, da circulação do café produzido no Vale do Paraíba e da pouca agricultura praticada nas chácaras do entorno da região central.

Rua Cruz Preta, atual Quintino Bocaúva, em pleno centro da cidade, mostra o caráter rural da São Paulo próximo do primeiro censo brasileiro.
Rua Cruz Preta, atual Quintino Bocaúva, em pleno centro da cidade, mostra o caráter rural da São Paulo próximo do primeiro censo brasileiro.

A forte presença da religião católica se fazia notar inclusive na divisão da cidade em paróquias.
Cinco eram as paróquias da cidade: Norte da Sé (Sé), N. S. da Conceição de Santa Ifigênia, N. S. da Consolação e São João Baptista, Brás e a mais distante, São Bernardo.

Havia na capital da província apenas 20 escolas públicas, mantidas pelo império, embora a capital já contasse com a Faculdade de Direito do Largo São Francisco (11 de agosto de 1827). O ensino particular se limitava a colégios confessionais (ligados à igreja católica) e a algumas poucas “casas de ensino”, geralmente estabelecimentos em que pessoas de “notório saber” se dedicavam a compartilhar conhecimento filosófico, histórico, de artes e costumes.

Em 1872, a assistência à saúde em São Paulo era precária e descentralizada, dependendo fortemente da filantropia (Santas Casas), da caridade, e para os mais abastados, dos médicos particulares. Havia pouca ou quase nenhuma estrutura pública, sendo as doenças tratadas em casa.

O saneamento básico era algo inexistente na cidade. A população se abastecia principalmente de rios próximos (como o Tamanduateí e o Anhangabaú), ou por meio de chafarizes e fontes públicas e a água era transportada até as residências por “aguadeiros”, (frequentemente pessoas escravizadas), em barris ou outros recipientes.

Aliás, para os mais ricos, os dejetos humanos por eles produzidos eram transportados também para os mesmos rios e cursos d’água pelos escravizados.

Aos mais pobres, restava mesmo abrir valas no fundo das casas para usar como “banheiro”.
O primeiro sistema de abastecimento de água encanada estava em fase inicial de construção pelo governo provincial, com obras que ocorreram entre 1857 e 1877, mas ainda não atendia a cidade plenamente em 1872.

Detalhe de foto de Militão Augusto de Azevedo de 1862 mostra o sistema de iluminação à óleo (na edificação em primeiro plano e na rua, mais abaixo).
Detalhe de foto de Militão Augusto de Azevedo de 1862 mostra o sistema de iluminação à óleo (na edificação em primeiro plano e na rua, mais abaixo).

Em um aspecto a cidade começava a ver algum ar de modernidade naquele ano. Em 1872 a “São Paulo Gaz Company” recebeu autorização do Império para explorar os serviços de iluminação pública na cidade e a partir de então passou a substituir o antigo sistema de iluminação em que os postes usavam óleo como combustível e pessoas (os acendedores) passavam por eles todas as noites para colocar fogo no combustível, por um sistema à gás encanado.

1872 também marcou a chegada de uma novidade para a sede da província, o bonde de tração animal, o primeiro sistema de transporte coletivo da cidade que circundava a área central. Quem tinha necessidades individuais recorria a seus próprios meios. Ou fazia o trajeto a pé, ou se utilizava de carroças (próprias, para os mais ricos) ou de carroceiros.

A pavimentação das poucas ruas que dispunham deste luxo era feita com pedras irregulares, muito mais para dar alguma proteção às casas da lama (sob chuva) ou da poeira em tempos secos que as ruas de terra geravam.

Esse era resumidamente o panorama da cidade, no momento do primeiro censo do Brasil. Mas a vila com ares rurais do início dos anos 1870 chegaria já ao final da década com mudanças significativas que se acelerariam nos anos seguintes.

A riqueza do café finalmente chega à capital

Embora o plantio de café no Vale do Paraíba a partir do final do Séc. XVIII tenha se tornado a principal fonte de riqueza para o país (e para um reduzido grupo de fazendeiros) a riqueza deste grão ainda não se fazia sentir na cidade, pois era mais fácil e economicamente viável fazer o escoamento da produção pelo porto do Rio de Janeiro, mais próximo dos centros produtivos do que pelo porto de Santos.

Essa situação começa a se modificar justamente à época do primeiro censo, mas esse movimento não foi ainda captado pelo levantamento.
Quando as plantações de café do Vale do Paraíba se exaurem em razão do pouco, ou nenhum cuidado, dos fazendeiros com técnicas adequadas para permitir a renovação do solo, um novo polo de lavouras passa a ocupar o interior do estado.

Montagem da estrutura da nova Estação da Luz, ampliada para acompanhar o desenvolvimento do comércio do café.
Montagem da estrutura da nova Estação da Luz, ampliada para acompanhar o desenvolvimento do comércio do café.

Agora, fazia mais sentido, economicamente falando, que a produção passasse a ser escoada pelo porto de Santos, ao invés da rota para o Rio de Janeiro e os meios para isso já existiam, pois a Estrada de Ferro Santos Jundiaí, operada pela São Paulo Railway começara a ser construída e 1867.

A cidade agora passava a ser não apenas uma mera “passagem” de bandeirantes como se estruturava em torno do negócio do café.

A necessidade de escoar a produção e a riqueza acumulada levaram a investimentos em infraestrutura na cidade de São Paulo, como a ampliação das ferrovias, a nova e maior Estação da Luz (inaugurada em 1901) e melhorias urbanas, como a retificação de rios e a abertura de novas ruas, expandindo a área urbana.

Os fazendeiros de café estabeleceram na capital escritórios financeiros e residências (palacetes, como nos bairros Campos Elíseos e na Avenida Paulista), transformando o centro em um ponto de negócios e comércio intenso, que passou a necessitar também de serviços (lojas, costureiros, alfaiates, farmácias, restaurantes, cafés…)

Vale lembrar que o sistema de trabalho havia mudado com o fim da escravidão. Imigrantes assalariados criaram um mercado consumidor interno dinâmico, estimulando o surgimento de pequenas indústrias, comércios (muitos deles próprios) e um sistema financeiro para atender à crescente economia.

O centro da cidade, especialmente a Rua XV de Novembro, tornou-se um vibrante centro financeiro, abrigando casas exportadoras, agências marítimas, bancos e a Bolsa Oficial de Café.
Esse crescimento foi registrado pelo segundo censo realizado no Brasil, em 1890, que registrou 64.931 habitantes na capital, mais do que o dobro do censo realizado apenas 18 anos antes. Ou seja, São Paulo dobrou a população em menos de 20 anos.

A cidade em crescimento exponencial alavanca os negócios da Casa da Boia

Detalhe do salão de vendas da Casa da Boia nos anos 1920 mostra a variedade de produtos que a empresa comercializava, acompanhando as demandas de uma cidade que crescia vertiginosamente.
Detalhe do salão de vendas da Casa da Boia nos anos 1920 mostra a variedade de produtos que a empresa comercializava, acompanhando as demandas de uma cidade que crescia vertiginosamente.

E se esse número é significativo o que dizer quando se olha o crescimento nos dez anos seguintes. Em 1900 a cidade já contava com 239.820 habitantes. O censo de 1920 já apontava 579.033 residentes. A cidade supera um milhão de habitantes antes de 1940.

Resumindo, a cidade provincial de que contava com aproximadamente 31.000 pessoas em 1872 atingiu mais de um milhão de habitantes cerca de 60 anos depois. Um crescimento populacional de 3.000%. Ou seja, a cidade cresceu 33 vezes em pouco mais de meio século.

É fácil perceber que havia uma enorme, incalculável, demanda por urbanização neste período da cidade.

É justamente quando o imigrante Sírio Rizkallah Jorge Tahan funda a sua metalúrgica, a Rizkallah Jorge e Cia, em 1898, para produzir produtos em cobre, inicialmente, e depois uma infinidade de produtos também para esta infraestrutura crescente.
Tendo sido a primeira empresa a manipular e produzir produtos de cobre na capital, sob a gestão atenta de Rizkallah Jorge, a empresa se transformou na maior fornecedora de material hidráulico (tubos, válvulas, torneiras, conexões, registros e a famosa boia para caixa d’água) tanto para os moradores quanto para o poder público e para os construtores de então.

Acompanhando a transição desta São Paulo de crescimento exponencial, a Casa da Boia foi fundamental naquele momento para a consolidação das transformações urbanas.
Tanto assim que, olhando o passado, a trajetória da empresa lhe rendeu inúmeros prêmios, inclusive o reconhecimento por parte da Prefeitura de São Paulo, por meio do Departamento de Patrimônio Histórico do município que conferiu à empresa o “Selo Valor Cultural da Cidade de São Paulo”.

Fontes:

https://biblioteca.ibge.gov.br/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=225477

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/33495-em-150-anos-conheca-a-historia-que-o-censo-conta

https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/1o-censo-do-brasil-feito-ha-150-anos-contou-1-5-milhao-de-escravizados

https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=296158

http://memoria.org.br/pub/meb000000359/recenseamento1872bras/ImperioDoBrazil1872.pdf

https://pt.wikipedia.org/wiki/Censo_demogr%C3%A1fico_do_Brasil_de_1872

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_munic%C3%ADpios_de_S%C3%A3o_Paulo_por_popula%C3%A7%C3%A3o_(1872)

https://dataspace.princeton.edu/handle/88435/dsp01h989r5980

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