Breve história dos cemitérios de São Paulo

Em 2 de novembro celebra-se o Dia de Finados, de origem na doutrina católica para recordar e rezar pelos mortos. Neste dia os cemitérios se recobrem de flores e homenagens daqueles que, na cidade de São Paulo, visitam seus mortos enterrados nos cerca de 35 cemitérios públicos e privados da capital.

A origem do Dia de Finados está ligada ao Dia de Todos os Santos, tradição da Igreja Cristã primitiva para celebrar os mártires que morreram por sua fé. Na Igreja Cristã Ocidental, o Papa Gregório III (731-741) é frequentemente creditado por estabelecer o dia 1º de novembro como o Dia de Todos os Santos. 

Essa data foi escolhida para coincidir com a dedicação de uma capela na Basílica de São Pedro, em Roma, a “Todos os Santos”. Uma tentativa de unificar as diversas celebrações locais e festas dedicadas aos santos e estabelecer uma data universal para honrar todos os santos.

Desta tradição originou-se o Dia de Finados. A celebração foi estabelecida no século X (por volta do ano 998 d.C.) pelo abade beneditino Santo Odilon de Cluny, na França. Ele determinou que os mosteiros sob sua jurisdição dedicassem o dia seguinte ao Dia de Todos os Santos (1º de novembro) para rezar pelos mortos que, segundo a doutrina, estariam no Purgatório, esperando a purificação para entrar no Paraíso.

A prática de Cluny foi gradualmente adotada por toda a Igreja Católica, tornando-se uma festa litúrgica oficial e universalmente celebrada.

Do sepultamento intramuros ao primeiro cemitério da cidade

Na época colonial e imperial, o costume vigente era o sepultamento intramuros, ou seja, dentro das igrejas ou nas suas imediações (nos adros e porões).

Cripta da Catedral da Sé. Religiosos e personagens históricos, como o Cacique Tibiriçá, estão sepultados "intramuros", ou seja, dentro da área do templo.
Cripta da Catedral da Sé. Religiosos e personagens históricos, como o Cacique Tibiriçá, estão sepultados “intramuros”, ou seja, dentro da área do templo.

Ser sepultado dentro da igreja era um símbolo de status social e poder aquisitivo. Membros do clero e das elites eram enterrados próximos ao altar ou no chão da nave principal em criptas e catacumbas enquanto as demais pessoas eram sepultadas em valas comuns, nos fundos dos templos ou nos adros (pátios).

Este costume durou séculos, mas à medida que a cidade crescia esta prática trazia um problema sanitário. A decomposição dos corpos em locais fechados e próximos aos centros urbanos causava um forte odor e era vista como uma fonte de doenças, como a febre amarela e a cólera.

A necessidade de afastar os mortos do convívio dos vivos por questões sanitárias (influenciada por tendências europeias) levou à criação dos primeiros cemitérios públicos, fora dos muros da igreja.

Assim, o primeiro cemitério público da cidade de São Paulo foi criado entre 1775 e 1780. Ficou conhecido como “Cemitério dos Aflitos” e estava localizado onde hoje está a Praça da Liberdade, no bairro do mesmo nome, no centro da capital.

Alí eram enterradas as pessoas pobres, os escravizados, criminosos e a todos que não tinham jazigos nas igrejas.

O cemitério foi desativado na metade do século XIX, por volta de 1858,  e o terreno ocupado por novas edificações, inclusive a Capela Nossa Senhora dos Aflitos, que marca o local do antigo cemitério.

São Paulo precisava de um novo cemitério

Estudo de implantação do Cemitério da Consolação.
Estudo de implantação do Cemitério da Consolação.

Ainda que inaugurado oficialmente no ano de 1858, o atual Cemitério da Consolação tem uma história anterior. Foi em meados de 1829, que o então vereador Joaquim Antonio Alves Alvim defendeu a construção de um cemitério público na cidade.

A proposta resultou em imensa discussão que durou cerca de trinta anos e nesse período o projeto foi sofrendo alterações sobre sua localização: ao lado da igreja da Consolação, no bairro da Luz, ou no bairro Campos Elísios. 

Em 1855, o engenheiro Carlos Rath elaborou um estudo indicando que o melhor local era a região da Consolação, pois ficava em altitude elevada, era favorecida pela direção dos ventos dominantes (que seguiam para a periferia), tinha qualidade do solo adequada e tinha boa distância da cidade.

Quando se deu o surto de varíola na cidade de São Paulo, em 1858, os corpos ainda estavam sendo enterrados nas igrejas. O presidente da província ordenou então à Câmara Municipal de São Paulo, em 7 de julho de 1858, que proibisse a partir de então as práticas de sepultamento nos templos. 

Dessa forma o Cemitério da Consolação passaria a receber os primeiros corpos das vítimas dessa epidemia, antes mesmo que as obras estivessem totalmente concluídas. Assim, no dia 15 de agosto de 1858, quando aconteceu o primeiro sepultamento, foi oficialmente inaugurado o cemitério público de São Paulo.

Cemitério da Consolação à época de sua inauguração.
Cemitério da Consolação à época de sua inauguração.

Em seus primeiros anos era o lugar de sepultamento de pessoas de todas as classes sociais, incluídos os escravos, que foram posteriormente transferidos ao Cemitério dos Aflitos. 

Até o ano de 1893, era o único na cidade de São Paulo, quando foi aberto o Cemitério do Brás (atual Cemitério da Quarta Parada). Em 1897, foi inaugurado o Cemitério do Araçá. Com a construção dessas duas novas necrópoles, o local passou por um processo de elitização, recebendo quase que exclusivamente pessoas das classes média e alta, devido ao loteamento dos terrenos em jazigos perpétuos que passaram a ser vendidos pela prefeitura.

A elitização do Consolação e a herança artística que pode ser visitada

Ainda que público, com a venda dos terrenos por parte da municipalidade, o Cemitério da Consolação passou por um processo “natural” de elitização, tanto que o próprio poder público passou a reivindicar para o espaço melhor estrutura.

Após reforma Cemitério da Consolação ganha entrada monumental. Projeto de Ramos de Azevedo.
Após reforma Cemitério da Consolação ganha entrada monumental. Projeto de Ramos de Azevedo.

Em 1901, o então vereador José Oswald Nogueira de Andrade, pai do escritor Oswald de Andrade, propôs uma reforma geral nos muros e portões de entrada, com o argumento de que estava com um aspecto desagradável para a cidade. Um ano depois, as reformas foram aprovadas, com o projeto do arquiteto Ramos de Azevedo que se mantém até hoje.

São incontáveis os nomes de importantes personalidades da política, das ciências, das artes e representantes do setor produtivo, como empresários e empreendedores que estão sepultados no cemitério da Consolação.

Luís Gama, advogado, intelectual abolicionista; Washington Luiz, presidente da república, Victor Dubugras, arquiteto, Tarsila do Amaral, pintora, Monteiro Lobato, escritor, Paulo Vanzolini, cientista, Paulo Machado de Carvalho, empresário, a Marquesa de Santos, Olívia Guedes Penteado, Mario de Andrade, Líbero Badaró, Francisco Matarazzo, Ramos de Azevedo, Emílio Ribas e Caetano de Campos são apenas alguns nomes de pessoas que participaram da história e que foram sepultados no Consolação.

O Cemitério da Consolação abriga o maior mausoléu da cidade, o da Família Matarazzo.
O Cemitério da Consolação abriga o maior mausoléu da cidade, o da Família Matarazzo.

Por suas características pessoias e principalmente por sua colocação social, os túmulos destas personalidades e de outros, no Cemitério da Consolação,  se destacam por suas dimensões e/ou por conterem obras de arte compondo suas instalações.

O mausoléu da família Matarazzo, por exemplo, é o maior do cemitério e o maior da América Latina.

Esculturas de Alfredo Oliani, Amedeu Zani, Antelo Del Debbio, Armando Zago, Bruno Giorgi, Luigi Brizzolara e Victor Brecheret são apenas algumas das centenas de obras escultóricas que decoram túmulos e mausoléus do Cemitério da Consolação. 

Além destes, muitos túmulos trazem ornamentação em portas de ferro e bronze, de artistas desconhecidos, mas não menos significativos para o conjunto histórico representado pela arte tumular.

Vale mencionar que a família Rizkallah tem também no Cemitério da Consolação o túmulo de seus membros, incluindo o fundador da Casa da Boia, Rizkallah Jorge Tahan e sua esposa Zékie Naccache.

Além de centenas de obras como "O Sepultamento" de Victor Brecheret.
Além de centenas de obras como “O Sepultamento” de Victor Brecheret.

A concessionária de serviços funerários da cidade de São Paulo, a Consolare, promove visitas mediadas ao Cemitério da Consolação.A visita é gratuita e mediada por Francivaldo Gomes, conhecido como Popó,  funcionário da prefeitura que realiza o tour mediado há mais de 20 anos no cemitério da Consolação.

A visita é uma oportunidade de aprender e conhecer mais sobre as personalidades que fizeram parte da história de São Paulo e do país que estão sepultadas no cemitério. 

As inscrições são gratuitas e devem ser feitas pela plataforma Sympla, que traz os dias e horários disponíveis.

A relevância dos outros cemitérios

Referenciar o Cemitério da Consolação como um espaço também de legado cultural, artístico e arquitetônico é comum quando se fala da história da capital, mas outros cemitérios tem também relevância neste contexto.

É o caso do Cemitério do Araçá, bem próximo do Consolação, aberto em 1897. Nele estão os túmulos de personalidades como Cacilda Becker, Assis Chateaubriand, Adib Jatene e Nair Belo. Assim como no Consolação, o Araçá guarda um inestimável patrimônio cultural, com esculturas de anjos, serafins, querubins de mármore e bronze.

Cemitério São Paulo é também espaço de muitas obras escultóricas, como "O último adeus", de Alfredo Oliani.
Cemitério São Paulo é também espaço de muitas obras escultóricas, como “O último adeus”, de Alfredo Oliani.

O Cemitério São Paulo, também conhecido como Necrópole São Paulo, foi inaugurado em 1926 na região de Pinheiros. Ele foi concebido para atender à demanda da elite econômica e social que não encontrava mais espaço para grandes mausoléus nas áreas mais nobres do Consolação.

Assim, tanto quanto o Consolação e o Araçá, o Cemitério São Paulo guarda um grande acervo de arte tumular, além de abrigar os túmulos de personalidades históricas.

O escultor modernista Victor Brecheret está sepultado no cemitério, que conta com várias esculturas de sua autoria em outros túmulos. O também modernista, Menotti Del Picchia, o ex-prefeito da cidade Prestes Maia e o empresário Abilio Diniz são outras personalidades sepultadas no Cemitério São Paulo.

Já no século XX, a cidade em expansão necessitava de espaços maiores para ampliar a oferta de jazigos. Assim, em 1949 é inaugurado o Cemitério da Vila Formosa.

Maior cemitério da América Latina, o Vila Formosa, data de 1949.
Maior cemitério da América Latina, o Vila Formosa, data de 1949.

Ele ocupa uma área de 763.175 m². É considerado o maior cemitério da América Latina e o segundo maior do mundo. Para se ter uma noção da dimensão do local, ele é a quarta maior área verde do município, sendo superado apenas pelos parques Anhanguera, Ibirapuera e Carmo. 

Desde a sua inauguração, já foram realizados mais de 1,5 milhão de sepultamentos. É uma necrópole voltada sobretudo para pessoas menos abastadas, embora abrigue túmulos de personalidades como o compositor Adoniran Barbosa e da atriz pioneira do teatro brasileiro, Maria Della Costa.

Cemitérios particulares surgiram praticamente junto com os públicos

Cemitério dos Protestantes. Um dos primeiros cemitérios particulares de São Paulo, do Séc. XIX.
Cemitério dos Protestantes. Um dos primeiros cemitérios particulares de São Paulo, do Séc. XIX.

É preciso lembrar que o Brasil colonial e mesmo Republicano tinha a predominância do Catolicismo como religião. Neste contexto, nos cemitérios públicos invariavelmente predominava os ritos de sepultamento dos católicos. Neste contexto histórico surgiu o primeiro cemitério particular da cidade.

Os Protestantes (principalmente imigrantes alemães e ingleses, como luteranos e presbiterianos), judeus e outras religiões sentiam-se preteridos, quando não rejeitados, nos cemitérios públicos.Seus túmulos sempre ficavam em áreas periféricas destes cemitérios e os sepultamentos não respeitavam os ritos de suas crenças.

Desta forma, em 1844, por iniciativa de grupos como o de imigrantes alemães e com apoio de cônsules (como o da Prússia), foi criada a ACEMPRO (Associação Cemitério dos Protestantes), que estabeleceu o primeiro cemitério em 1844 na área contígua à do Cemitério da Consolação.

Em 1968 o Cemitério do Morumbi, particular. traz para o Brasil o conceito de "cemitéro-parque".
Em 1968 o Cemitério do Morumbi, particular. traz para o Brasil o conceito de “cemitéro-parque”.

A ACEMPRO hoje administra outros cemitérios, como o da Paz, no Morumbi, o do Redentor, na Av. Dr. Arnaldo e o da Colônia, em Parelheiros.

A partir dos anos 1960, surgem na cidade os cemitérios-parque, áreas em que não existem construções sobre os jazigos, como os túmulos e mausoléus dos cemitérios convencionais, e sim extensas áreas ajardinadas, um conceito trazido dos Estados Unidos e Europa.

O Cemitério do Morumbi, inaugurado em 1968 é tido como o primeiro da América do Sul. Depois vieram outros, como Gethsemani, também no Morumbi, o Memorial Parque Jaraguá e o Cemitério Memorial Parque das Cerejeiras, dentre outros.

Fontes:

https://prefeitura.sp.gov.br/web/spregula/w/cemiterios

http://condephaat.sp.gov.br/benstombados/cemiterio-da-consolacao-dos-protestantes-e-da-ordem-terceira-do-carmo/

https://www.cemiterioconsolacao.com/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cemit%C3%A9rio_da_Consola%C3%A7%C3%A3o

https://www.cartacapital.com.br/blogs/32xsp/quais-sao-e-onde-estao-os-cemiterios-publicos-em-sp/

https://www.descubrasampa.com.br/2024/01/arte-tumular-do-cemiterio-da-consolacao-parte-1.html

https://www.descubrasampa.com.br/2024/01/arte-tumular-do-cemiterio-da-consolacao-parte-2.html

Este conteúdo é protegido por direitos autorais e seu uso comercial não é permitido sem autorização da Casa da Boia. Para compartilhamento, utilize o link da página.

Quer ser avisado quando tiver post novo?

Cadastre-se para receber avisos de novos posts, notícias e novidades sobre nossa atividades culturais.

Artigos relacionados

Veja outros assuntos que podem te interessar...