A cidade de São Paulo se estruturou a partir de um colégio de jesuítas, onde havia também uma pequena capela, dedicada à catequese. O centro religioso da Vila de Piratininga ficava há poucos metros, no Largo da Sé, local ao redor do qual a pequena vila se tornou a maior cidade do Brasil.
1554 marca a fundação da cidade de São Paulo, quando a missão jesuítica liderada pelo padre José de Anchieta inaugura um pequeno colégio, com uma simples capela anexa, ambos dedicados à catequização dos indígenas, os poucos colonos e seus filhos.
À medida que a vila crescia, a cidade necessitou de uma igreja maior para ser sede da Diocese (divisão territorial e administrativa da Igreja Católica) da região. Assim, em 1591, em um terreno próximo ao colégio dos Jesuítas, foi erguida em taipa de pilão a igreja matriz da vila, no largo da Sé, que, à época, se situava no meio do caminho entre o Páteo do Colégio e a atual catedral.

O espaço permaneceu por séculos, assim como a cidade, de uma forma geral, quase sem modificações, com a pequena igreja cercada por casarios coloniais, até 1745, quando São Paulo, que pertencia à então Diocese do Rio de Janeiro, foi elevada à sede do Bispado.
Com esse novo “status” foi construída uma nova igreja erguida em estilo barroco e finalizada por volta de 1764, permanecendo como a principal da Igreja na cidade, sede administrativa e eclesiástica, posto que jamais deixou de ter, aliás, até os dias atuais.
Mas, a São Paulo do final do Século XIX e início do XX vivia um crescimento acelerado e ssim como a cidade ao seu redor que via os casarões coloniais darem lugar a novos edifícios com inspiração europeia, o largo da Sé e sua catedral igualmente seriam diretamente afetados pela modernização.
No dia 7 de junho de 1908, o Papa São Pio X elevou a Diocese de São Paulo à sede metropolitana, criando a província eclesiástica homônima com mais outras cinco dioceses.
Surge uma nova Sé
O primeiro arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, foi quem capitaneou o projeto de construção de uma nova e imponente sede para a catedral, negociando com a prefeitura um terreno no centro da capital, em troca do terreno da Sé antiga e da igreja de São Pedro dos Clérigos e contratou o arquiteto e engenheiro alemão Maximilian Emil Hehl, então professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, para criar o projeto da nova igreja.
Hehl desenhou uma catedral em estilo gótico, inspirada nas grandes catedrais europeias, mas com a inclusão de uma cúpula de concreto sobre o cruzeiro, característica academicamente classificada como pertencendo à arquitetura religiosa renascentista.
Iniciada em 1913, as obras da igreja foram acompanhadas por Hehl até sua morte, em 1916, quando então passaram a ser supervisionadas por outros professores da Escola Politécnica, como Alexandre Albuquerque, e, a partir de 1940, por Luís Inácio de Anhaia Melo.

Todos os mosaicos, esculturas e mobiliário que compõem a igreja de acordo com o projeto de Hehl seriam trazidos da Itália, por meio de navios. Mas, vale lembrar que em 1914 eclode a primeira grande guerra mundial, que duraria até 1918. Em 1939, começa a Segunda Grande Guerra e o fornecimento dos materiais necessários à catedral ficou comprometido por anos, fazendo com que a obra se arrastasse até 1954, quando a Catedral da Sé foi finalmente inaugurada, mas ainda sem as torres.
Uma comissão responsável pela “Campanha das Torres para São Paulo”, foi organizada em 1956 com o objetivo de angariar fundos para a construção das torres e o término das obras, o que finalmente ocorreu em 1969.
Naturalmente a construção de uma catedral no local e a modernização da cidade haviam modificado a paisagem em torno da Sé.
Essa mudança começou já nas primeiras décadas do Séc. XX e um edifício em particular foi um marco desta fase.
O Palacete Santa Helena

Erguido na Sé, no ano de 1925, o Palacete Santa Helena foi um marco da arquitetura e verticalização da cidade. Um símbolo de luxo e progresso na capital.
O edifício foi uma idealização de Manuel Joaquim de Albuquerque Lins, fazendeiro e político paulistano, ex-governador de São Paulo.
Projetado pelos arquitetos Giacomo Corberi e Giuseppe Sacchetti tinha arquitetura eclética, com influência do art déco. Sua fachada era ornamentada por figuras de anjos esculpidas em cimento e seu interior possuía mármores e decoração em estilo barroco.
O projeto original previa um hotel, sendo posteriormente alterado para uso de escritórios e um cine-teatro, constituindo o primeiro edifício multifuncional da cidade de São Paulo.
As lojas situadas no subsolo tinham suas próprias instalações sanitárias, arejadas por meio de poços de ventilação. Os elevadores do edifício foram fabricados pela empresa Graham, divulgados na época como os de mais avançada tecnologia. Sua estrutura era dividida em cinco blocos e sete andares, comportando duas sobrelojas, quatro lojas e 276 escritórios.

Na edificação também funcionava o Theatro Santa Helena, que ocupava os três primeiros pavimentos do bloco central e tinha capacidade para acomodar 1500 pessoas distribuídas na plateia, galeria, 36 frisas e 42 camarotes.
Em seu teto havia uma pintura de autoria do artista italiano Adolfo Fonzari. A obra representava no céu a História e a Fama no carro de Apolo, puxado por cavalos, tendo ao alto musas e outras figuras simbólicas, cupidos e a Glória com uma coroa de louros.
Ainda existia no prédio um salão no subsolo (sob a plateia do teatro) chamado Salão Egípcio, destinado a festas, banquetes e outros eventos sociais. Posteriormente o salão foi transformado em uma sala de cinema, o Cinemundi.
Concebido originalmente como um edifício de luxo, o Santa Helena precisou se adequar à realidade da cidade que se desenvolvia à sua volta.
A Praça da Sé e a Praça Clóvis Bevilácqua, nas proximidades, formaram o principal terminal de transporte coletivo da cidade e impulsionando a ocupação comercial da área central.
A elite, para a qual o Santa Helena fora pensado, migrou para a zona mais “nobre”, o chamado “Centro Novo”, do outro lado do Vale do Anhangabaú.
O que havia sido pensado como quartos de hotel se tornaram escritórios, mas muitos tinham como característica um amplo espaço e uma ampla área de luz natural. Essas características chamaram a atenção de artistas.
O Grupo Santa Helena
Em meados de 1934 a sala 231 foi convertida em ateliê para uso do pintor Francisco Rebolo, que iniciou suas atividades em 1935.
No mesmo ano, o também pintor Mario Zanini divide a sala com o artista e posteriormente aluga a sala 233, compondo a célula inicial de um movimento significativo da história das artes plásticas de São Paulo pós movimento de 1922: o Grupo Santa Helena.

A partir de Rebolo e Zanini o grupo Santa Helena foi se formando a partir da ocupação das salas do edifício por outros pintores, como Alfredo Volpi, Fúlvio Penacchi, Aldo Bonadei, Alfredo Rizzotti, Clóvis Graciano, Humberto Rosa e Manuel Martins.
Em comum a origem proletária de todos, em sua maioria filhos de imigrantes, trabalhadores que encontraram no edifício aluguéis baratos e uma atmosfera propícia à criação artística e o fato de que não integravam a elite intelectual ou econômica paulistana.
Isso os deixava longe dos circuitos mais elitizados das artes e coabitar o mesmo espaço foi para eles fundamental para levarem adiante sua arte, até a participação na exposição “Família Artística Paulista”, em 1937.
A exposição foi uma coletiva de vários artistas, incluindo todos os do Grupo Santa Helena, cujas obras impactaram Mario de Andrade, que teria reconhecido no grupo uma verdadeira “escola paulista” de pintura.
O fim do edifício e as implosões

Voltando ao Palacete Santa Helena, assim como outros do centro, ele foi se degradando com o tempo, até ser adquirido pelo Metrô, no início da década de 1970. Foi demolido no ano seguinte junto com todo o quarteirão para construção de uma nova praça no local.
Aliás, vale ressaltar, que o marco urbanístico paulistano nasceu no local onde foi realizada a primeira implosão de um edifício na América Latina.
Em 16 de novembro de 1975, o Edifício Mendes Caldeira, um prédio de 30 andares e 364 escritórios, veio abaixo com a detonação controlada de 360 quilos de explosivos.
Na época, chegou-se a temer que o edifício caísse sobre a Catedral da Sé ou a prejudicasse estruturalmente e para provar que a implosão era segura o Metrô de São Paulo convidou a população e a imprensa para assistir ao ocorrido.
Apenas três meses depois da implosão do edifício Mendes Caldeira, outras duas construções no centro de São Paulo foram demolidas para que o Metrô ocupasse a área: o Palacete Tina e o edifício Irmãos Conzo. Ambos ficavam na Praça Bevilacqua, Sé.

A demolição do Tina aconteceu no dia 22 de fevereiro de 1976, Naquela segunda implosão da cidade, o prédio de doze andares, construído em 1939, ruiu em apenas 5,7 segundos.
O Palacete Tina era bonito, tanto por dentro quanto por fora. Abrigava escritório de diversas empresas, uma delas era o escritório da Viação Cometa
Depois, foi a vez do edifício Irmãos Conzo ser destruído. Em apenas seis segundos, 35 quilos de dinamite puseram abaixo o prédio de doze andares.
Uma nova praça é construída
As demolições abriram espaço para uma nova Sé. A atual praça é resultado de um projeto paisagístico conduzido na década de 1970 por um grupo de profissionais da Prefeitura de São Paulo liderados pelo arquiteto José Eduardo de Assis Lefèvre.

A praça é caracterizada por um geometrismo rigoroso e pelo domínio do terreno através de um jogo de patamares, espelhos d’água, fontes e volumes de concreto.
A área de aproximadamente 50.000 m2 abriga diversas esculturas e monumentos, incluindo o famoso marco zero da cidade de São Paulo.
O prisma hexagonal de concreto, revestido de mármore, representa o centro geográfico da cidade, onde todas as medições de distância situadas nas placas toponímicas são estabelecidas.
Assim, quanto mais próxima do monumento (ou do centro da cidade), mais baixa será a numeração das casas de uma rua.
No totem hexagonal, a cidade de Santos (sudeste) é representada por um navio a vapor, o Estado do Paraná (sul) uma Araucária, Rio de Janeiro (nordeste) com uma bananeira e o Pão de Açúcar, Minas Gerais (norte) com equipamento de mineração, Goiás (noroeste) instrumento usado no garimpo e Mato Grosso (sudoeste) com os bandeirantes.

Ponto central da cidade, a Praça da Sé tem simbologia multifacetada no imaginário paulistano e brasileiro.
Ao mesmo tempo que representa uma ruptura estética com o passado colonial, simbolizando o modernismo da cidade, é espaço de contradição social. Muitas pessoas sem moradia vivem precariamente no local, frequentemente em conflito com a repressão do poder público, enquanto milhões de pessoas passam por ela diariamente, seja saindo do Metrô, seja cortando caminhos pelas ruas centrais.
Palco das grandes manifestações pelo fim da ditadura no Brasil e pela abertura democrática, de shows, manifestações artísticas, devoção católica e espaço público de convivência, a Sé é, literalmente, o centro das contradições que formam a cidade de São Paulo.
Fontes:
https://prefeitura.sp.gov.br/web/sao_miguel_paulista/w/noticias/2377
https://dcomercio.com.br/publicacao/s/a-praca-da-se-resiste-e-se-renova
https://pt.wikipedia.org/wiki/Largo_da_S%C3%A9_e_Rua_do_Imperador



