Dos cordões ao corso as diferenças do Carnaval paulistano de acordo com a classe social

Desde que deixaram de ser nômades e se estabeleceram em grupos, as civilizações antigas tinham em suas culturas festas e celebrações ligadas ou regidas pelo ciclo da natureza, como as colheitas ou as fases da lua, comemorações muito anteriores ao Carnaval como o conhecemos hoje, mas que representaram os primórdios desta comemoração.

No Brasil, é aceito pelos historiadores e antropólogos que as folias de Carnaval chegam ao Brasil junto com os portugueses, que trouxeram para cá uma comemoração um tanto bizarra, chamada Entrudo.

Entrudo na visão de Jean-Baptiste Debret. 1834
Entrudo na visão de Jean-Baptiste Debret. 1834.

À semelhança do Carnaval, o Entrudo, (do latim intoitum) era um antigo folguedo realizado nos três dias que antecedem a entrada da Quaresma, no qual os foliões arremessavam baldes de água, limões de cheiro, ovos, tangerinas, pastelões, luvas cheias de areia, golpeavam-se com vassouras e colheres de pau e se sujavam com farinha. A brincadeira foi proibida a partir de 1854,mas ainda durou até o início do Séc. XX.

Digamos que o Entrudo não era lá uma festa muito civilizada, principalmente para a elite econômica e cultural que começou a se distanciar da festa passando a comemorar este período pré quaresma em bailes mais sofisticados.

À medida que a capital paulista experimenta a transformação urbana de uma simples vila comercial a meio caminho do Porto de Santos e o interior, para uma cidade com ares metropolitanos, inspirada nas cidades europeias, na segunda metade do Séc. XIX o Entrudo vai dando lugar a uma comemoração mais organizada.

Carnaval dos "ricos" na Rua Direita, 1905.
Carnaval dos “ricos” na Rua Direita, 1905.

Neste momento em que a cidade passa a ser ocupada, tanto por uma elite cafeeira e de “novos” industriais, quanto por um grande contingente de imigrantes que chegavam para trabalhar nas indústrias nascentes, inicia-se um processo claro de divisão social.

No topo a elite econômica, dona dos meios de produção (fazendas e fábricas), na base, uma grande massa proletária. Entre os dois, um grupo de pequenos lojistas e prestadores de serviços, como barbeiros e alfaiates.

Uns frequentavam as lojas e estabelecimentos luxuosos das ruas Direita, XV de novembro e São Bento. Outros o pouco comércio dos bairros em que moravam. Alguns privilegiados circulavam pela cidade de automóvel, enquanto a maioria dependia dos bondes.

Geograficamente também era possível identificar as diferenças sociais. Enquanto a elite residia nos palacetes dos Campos Elísios ou da Avenida Paulista, os demais ocupavam as áreas periféricas do centro e os bairros operários, como o Brás e a Barra Funda.

Assim era a São Paulo do final do Séc. XIX, período em que a festa de Carnaval ganha força na sociedade igualmente refletindo essas diferenças sociais.

Influências da Europa e da África

Baile de elite no início do Séc. XX.
Baile de elite no início do Séc. XX.

Enquanto os membros da elite se inspiraram no que acontecia na Europa e para cá trouxeram os bailes de máscaras realizados em clubes sofisticados, ao som de orquestras, e realizavam o desfile de automóveis na Paulista, conhecido como “corso”, a massa proletária se inspirava na herança dos negros sob forte influência dos instrumentos de percursão.

Assim, cresciam em paralelo os bailes de clubes, uma resposta direta ao “Entrudo”, visto pela classe alta como “bárbaro” e os “cordões”, manifestações quase sempre nascidas espontaneamente entres os grupos proletários, que, não tendo os espaços confinados e luxuosos dos clubes, ocupavam as ruas dos bairros.

Enquanto o Império aparentemente não se importava com os movimentos populares, o estabelecimento da República, movimento da elite político-econômica parecia trazer um certo incômodo com essas manifestações.

Principalmente no momento em que não apenas São Paulo, mas outras cidades dentre elas a do Rio de Janeiro, capital federal, se tornavam urbanizadas tendo como inspiração a Europa. 

O Corso da Av. Paulista.
O Corso da Av. Paulista.

É quando se inicia uma discussão sobre o que deveria ser o carnaval. Na visão da elite, uma nova nação estava sendo construída, por isso o batuque e a pilhéria, (Entrudo) que eram baseados na sinergia das tradições portuguesa e africana, deveriam dar lugar a desfiles de carros antigos em determinados espaços da cidade, ou então a bailes fechados. 

Por volta da década de 1910, os corsos que já existiam desde o final do Séc. XIX ganharam força após a inauguração da Avenida Paulista, onde os carros conversíveis da elite passaram a desfilar.

Nesse mesmo tempo, entre as classes populares que já realizavam sua folia nos moldes do Entrudo, passaram a se organizar melhor nos “cordões”, uma forma de tornar a folia mais organizada e fugir do estigma de “arruaça e bagunça” que a festa carregava, além de cumprir com as primeiras exigências do poder público para organizar a festa.

As regras da Polícia para os desfiles de rua em 1900.
As regras da Polícia para os desfiles de rua em 1900.

A pesquisadora Maria Clementina Pereira Cunha, lembra que o final do século XIX foi o período em que o carnaval foi tratado com maior violência pelo Estado. 

Depois da abolição da escravidão, a elite perdeu o controle sobre os negros, e a festa era o momento em que eles conseguiam se manifestar. Uma das exigências dos políticos à época foi o registro oficial de grupos carnavalescos. 

“Ao analisarmos os registros históricos, é impressionante o número de assinaturas de analfabetos. Precisavam também registrar onde ficava a sede da agremiação, e, na falta de um local adequado, indicavam o endereço de um botequim”.

Ainda assim, as manifestações populares sofreram repressão pelo Estado. Houve um tempo que o samba era um ritmo marginalizado e perseguido no Brasil, especialmente no início do século XX. 

Tratado como caso de polícia, vadiagem e associado a preconceitos raciais contra a cultura de origem africana e proletária. Sambistas eram presos e instrumentos apreendidos nos cordões. Os bailes de clube, entretanto, nunca foram alvo de fiscalização ou repressão, evidenciando que a questão era muito mais sobre aquilo que “se achava que deveria ser o Carnaval”, do que o que efetivamente era.

Blocos e Escolas de samba surgem do povo

Integrantes do Grupo Carnavalesco da Barra Funda.
Integrantes do Grupo Carnavalesco da Barra Funda.

Neste contexto, não é à toa que os primeiros blocos e escolas de samba da capital nascem nos bairros proletários e foram fundados por pessoas negras e não nos clubes de elite.

O Grupo Carnavalesco da Barra Funda, fundado em 12 de março de 1914 por Dionísio Barbosa, é considerado o pioneiro bloco da cidade. Foi o embrião do que viria a ser a Escola de Samba Camisa Verde e Branco.

Nascido em Itirapina (SP), em 1891, herdou do pai a profissão de carpinteiro, ofício que o levou a mudar-se para o Rio de Janeiro, onde conheceu os ranchos carnavalescos. 

Em 1914, já de volta a São Paulo, fundou o “Grupo Carnavalesco Barra Funda”, que foi carinhosamente apelidado como Camisa Verde por conta do figurino. Homens vestidos com camisas verdes e calças brancas desfilavam pelas ruas do centro da cidade. O orgulho, para Dionísio, estava nos pés: “Sempre saímos de sapato”, afirma com gloriosa voz em entrevista ao Museu da Imagem e do Som, em 1976. 

Àquela altura, o sapato social não era simplesmente um item do traje sambista, mas sim motivo de honradez. Negros escravizados andavam descalços. 

Em 1914, o que este grupo de jovens negros liderados por Dionísio queria quando vestia camisa verde, calça branca e sapato social para desfilar era reivindicar o direito do negro de fazer Carnaval, algo que era reservado apenas à elite branca paulistana, rompendo com os estigmas herdados da escravidão”, relata o professor o professor Waldenyr Caldas, da ECA-USP.

Madrinha Eunice (esquerda) e integrantes da Lavapés.
Madrinha Eunice (esquerda) e integrantes da Lavapés.

A primeira escola de samba da cidade foi fundada por uma mulher, também negra, em 1937. Deolinda Madre, a “Madrinha Eunice”, criou em 1937 a “Lavapés”  é reconhecida como a escola de samba mais antiga da cidade de São Paulo.

Eunice nasceu em Piracicaba, em 1909, filha de escravos libertos. Mudou-se ainda criança para São Paulo, onde se estabeleceu no bairro da Liberdade e para ajudar os pais começou a  vender limões em uma pequena banca na praça.

Assídua frequentadora de festas religiosas, como a de Pirapora do Bom Jesus, e festejos carnavalescos, como o do Brás, Eunice conheceu o carnaval da Praça Onze, no Rio de Janeiro, em 1936. Impressionada com o carnaval, queria trazer o festejo para São Paulo. Juntando amigos e familiares, Eunice fundou a Lavapés, em 1937.

A Lavapés adotou o modelo estrutural inspirado nas escolas de samba cariocas, com desfiles mais organizados, enredos temáticos e uma bateria bem definida. Seu surgimento marcou o início da transição do Carnaval paulistano para um formato mais estruturado.

Institucionalização da festa aproximou os extremos sociais…

Nos anos 1920/1930 já não era possível ignorar a força que a festa de carnaval tinha nas grandes cidades, como São Paulo e, principalmente, no Rio de Janeiro, então capital da República.

É o período das marchinhas de Chiquinha Gonzaga e de compositores como Noel Rosa, Sinhô, Pixinguinha e João da Baiana, que incorporam temas da brasilidade à festa, ampliando seu alcance e tornando o Carnaval o principal produto da cultura lúdica da época.

Percebendo esse movimento o então presidente Getúlio Vargas (lembrar que a capital da República era o Rio de Janeiro) coopta as escolas, que passam a receber ajuda governamental (apenas, porém, se os seus enredos fizessem a exaltação dos feitos oficiais). Não por acaso, é a época em que são compostos grandes sambas-exaltação, alguns populares até hoje, como Aquarela do Brasil, de Ary Barroso (de 1939).

O que acontecia no Rio refletia nas outras capitais. O poder público paulistano passa da repressão à organização da festa, delimitando áreas da região central para a realização dos desfiles, como a Avenida São João e a Tiradentes. Posteriormente, construindo o “Sambódromo do Anhembi”.

Último desfile na Av. Tiradentes, antes da inauguração do Sambódromo, construído pela prefeitura de São Paulo.
Último desfile na Av. Tiradentes, antes da inauguração do Sambódromo, construído pela prefeitura de São Paulo.

O Sambódromo começou a nascer em 4 de janeiro de 1990. Nesta data, foi sancionada a Lei Municipal 10.831/1990, que oficializou o Carnaval de São Paulo e atribuiu à prefeitura a organização das festividades por meio do Anhembi, na época gerido pela empresa municipal SP Turismo.

Nessa trajetória o Carnaval deixou de ser uma festa marginal para se tornar manifestação cultural e um negócio lucrativo para muitos, inclusive o poder público.

Em 1986 foi fundada a  Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, criada para organizar, estruturar e planejar os desfiles oficiais.

…e hoje provoca debates sobre a “privatização” da festa

Nascido da resistência popular contra a opressão das manifestações dos blocos, o Carnaval cresceu e se tornou um negócio que envolve grandes empresas, shows gigantescos, os desfiles, obviamente e os “Mega” e pequenos blocos.

No Carnaval 2026 a prefeitura de São Paulo pagou um subsídio de R$ 68,2 milhões às escolas de samba que desfilaram este ano na cidade.

O valor é mais de 27 vezes superior aos R$ 2,5 milhões reservados para ajudar os cerca de 600 blocos interessados em desfilar. Destes, apenas 100 conseguiram se habilitar a receber a verba, por meio de edital de fomento, o que resultou em cerca de R$ 25 mil por bloco. Segundo seus organizadores, insuficientes para arcar com as obrigações a eles impostas.

Kit "oficial" de bebidas dos mega blocos do Carnaval paulistano.
Kit “oficial” de bebidas dos mega blocos do Carnaval paulistano.

Por outro lado, os chamados Mega Blocos contaram com investimentos de R$ 30 milhões de empresas privadas, principalmente cervejarias, que impuseram a comercialização exclusiva de bebidas de suas marcas nos eventos, denotando um caráter privado a eles. 

Seja como for, a festa de caráter popular-operária é hoje uma das maiores, senão a maior, manifestação popular que literalmente para o Brasil durante dias e, ironia do destino, a despeito das tentativas iniciais de segregação, de lhe impor costumes e regras, é a festa mais anárquica festa do país.

Fontes:

https://oglobo.globo.com/brasil/a-resistencia-do-carnaval-observada-pela-historia-22387082

https://pt.wikipedia.org/wiki/Samb%C3%B3dromo_do_Anhembi

https://notthesamo.com/zine/a-hist%C3%B3ria-do-carnaval-em-s%C3%A3o-paulo

http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao40/materia06/#:~:text=O%20carnaval%20%C3%A9%20uma%20das,existente%20desde%20o%20s%C3%A9culo%20XV.

https://www5.usp.br/noticias/cultura/porque-o-carnaval-nao-e-mais-como-em-outros-carnavais/

https://ijusp.org.br/blog/carnaval-uma-experiencia-arquetipica/

https://www.metropoles.com/colunas/demetrio-vecchioli/subsidios-a-escolas-de-samba-custam-27-mais-que-apoio-a-blocos-em-sp

Este conteúdo é protegido por direitos autorais e seu uso comercial não é permitido sem autorização da Casa da Boia. Para compartilhamento, utilize o link da página.

Quer ser avisado quando tiver post novo?

Cadastre-se para receber avisos de novos posts, notícias e novidades sobre nossa atividades culturais.

Artigos relacionados

Veja outros assuntos que podem te interessar...