O Porto Geral e o Tamanduateí. Memórias esquecidas da metrópole

O principal acesso ao maior centro de compras populares da cidade de São Paulo, a região da rua 25 de Março, é a conhecida ladeira Porto Geral, que deságua um mar de pessoas vindas, principalmente, da estação de metrô que nela tem uma de suas saídas. Poucas dessas pessoas se dão conta que, há pouco mais de cem anos, um “nada” no tempo histórico, ali funcionou o mais importante porto da cidade

Sim. São Paulo teve portos. Por mais estranho que isso possa parecer. Claro que, quando pensamos nos portos modernos, com navios gigantescos, não achamos que isso possa ter existido na capital.

Área do Porto Geral, a última "volta" do Tamanduateí, bem ao lado da rua 25 de Março. 1862.
Área do Porto Geral, a última “volta” do Tamanduateí, bem ao lado da rua 25 de Março. 1862.

De fato, o que estamos aqui tratando como portos eram estruturas muito menores, adequadas a receber não navios, mas canoas e pequenas chatas que foram fundamentais para o abastecimento da capital.

Hoje a relação das pessoas com os rios de São Paulo é de afastamento. “Esgotos a céu aberto” é o senso comum quando se pensa no Tietê, no Pinheiros e no Tamanduateí, possivelmente os três mais visíveis rios ainda remanescentes na paisagem urbana paulistana.

Dentre eles, o menor e o mais invisibilizado, foi, no início da cidade, o mais importante canal de abastecimento da São Paulo, dos tempos coloniais até quase o início do século XX.

O rio dos tamanduás verdadeiros

O Tamanduateí era rota de embarcações de suprimentos e também área de lazer da população paulistana.
O Tamanduateí era rota de embarcações de suprimentos e também área de lazer da população paulistana.

“Tamandûá  eté y”: rio de tamanduás verdadeiros. O nome tem raízes no tupi-guarani. Uma das interpretações etimológicas divide o termo em tamandûá (tamanduá), eté (verdadeiro, genuíno) e ‘y (rio). Há também uma versão apresentada por Plínio Ayrosa que sugere que o nome possa significar “rio de muitas voltas, cheio de meandros”.

Este curso d’água que nasce na cidade de Mauá, região metropolitana de São Paulo, às margens da serra do mar, observado nos dias de hoje, é um rio reto, com aproximadamente 35 km de extensão, que passa por Santo André e São Caetano do Sul, antes de chegar à São Paulo e desaguar no Rio Tietê, na região do Bom Retiro. Sua aparência é a de um grande canal. Sujo e malcheiroso, um local do qual é melhor manter distância. Em nada lembra o rio de muitas voltas, em seu curso natural.

O estado atual do rio reflete uma ingratidão enorme dos paulistanos para com aquele que foi o principal caminho de abastecimento da capital e que possibilitou seu crescimento, desde os tempos do Brasil colônia.

O rio teve papel fundamental no desenvolvimento da cidade de São Paulo, sendo via de transporte para mercadorias, local de pesca e ponto de encontro de lavadeiras. 

A várzea do Tamanduateí, assim como a Várzea do Carmo, era utilizada para banhos e fazia parte da vida social de São Paulo durante o período de urbanização da cidade. 

Em 1850, já se falava na retificação do rio, mas o mapa ainda mostra seu curso natural e suas curvas na região central.
Em 1850, já se falava na retificação do rio, mas o mapa ainda mostra seu curso natural e suas curvas na região central.

Artistas como Antonio Ferrigno, Arnaud Julien Palliè e Benedito Calixto retrataram entre o final do século XIX e início do século XX o rio Tamanduateí como integrado à paisagem de São Paulo, servindo à sua comunidade, à época ainda fosse um marco do limite geográfico de São Paulo, de onde podia se partir em direção ao Rio de Janeiro. 

Por ele mercadorias vindas do porto de Santos (que subiam a serra em muares até a sua nascente, na região da “Borda do Campo” chegavam ao centro da capital. Por ele, a produção agrícola do entorno da região central chegava e saía. Por ele, antes da via férrea, São Paulo se conectava ao mundo.

E havia uma razão para isso. Apesar de suas muitas voltas, o Tamanduateí era um rio que corria por um relevo relativamente plano, ao contrário, por exemplo, do Anhangabaú formado pela junção do Itororó e do Saracura, que desciam das regiões mais elevadas da vila e não eram navegáveis, ou do próprio Tietê, gigante então distante do centro geográfico da capital.

O Tamanduateí era quem fazia essa ligação fundamental

O casario da Várzea do Carmo, onde  lavadeiras usavam o rio para a limpeza das roupas da elite.
O casario da Várzea do Carmo, onde lavadeiras usavam o rio para a limpeza das roupas da elite.

A cidade cresceu em seu entorno e, inicialmente, respeitando seu espaço, suas voltas, suas cheias e vazantes. Suas várzeas eram as áreas naturais de movimento das águas.

Era originalmente um rio raso, típico de uma região de pouca inclinação, que, com suas muitas curvas, impunha a navegação de embarcações com pouco calado (profundidade abaixo da água). Canoas e chatas eram as típicas embarcações que cruzavam o rio levando mercadoria aos inúmeros portos espalhados ao longo de seu trajeto sinuoso.

Apenas nas proximidades da colina central da cidade eram quatro: Tabatingüera, Figueira, Coronel Paulo Gomes e o principal, o Porto Geral.

O Porto Geral e a temida ladeira

A esquina da Ladeira Porto Geral com a rua 25 de Março, depois da extinção do porto.
A esquina da Ladeira Porto Geral com a rua 25 de Março, depois da extinção do porto.

A vida da cidade de São Paulo esteve por séculos circunscrita ao chamado “triângulo histórico”, a área formada pelas ruas Direita, XV de novembro e São Bento. Nesta região central “alta” em relação à várzea do Tamanduateí e nas periferias deste triângulo, São Paulo se estruturou.

O caminho mais curto entre o Porto Geral e a parte alta da cidade era a pequena ladeira situada exatamente na última “volta” do rio, que ficou conhecida como “Ladeira do Porto Geral”.

É uma rua curta, com cerca de 90 metros, meio curva e com um desnível de cerca de 11 metros entre a parte baixa e alta. Se hoje, asfaltada, já é uma caminhada de colocar o fôlego à prova, imagine como era para os carroceiros da São Paulo colonial subir a ladeira. 

De qualquer forma era por alí que circulavam as mercadorias que abasteciam o Mercado dos Caipiras e o Mercado Grande (ou Mercado Velho).

A ladeira manteve o seu nome, mas nada nela, hoje, lembra os tempos em que era banhada pelo rio.

A retificação mudou a região

Em 1928, o progresso "exigiu" a retificação do Tamanduateí.
Em 1928, o progresso “exigiu” a retificação do Tamanduateí.

A região no entorno do Porto Geral, como dito anteriormente, era de várzea, e, obviamente, estava sujeita ao regime das águas. Inundada nas cheias e alagadiça nos momentos de pouco fluxo de água. Não era um problema. Era uma característica.

Mas, a cidade estava crescendo. O progresso chegando, principalmente com o ciclo do café. A ferrovia Santos-Jundiaí (de 1867) “retirou” da hidrovia do Tamanduateí boa parte da mercadoria transportada nas canoas e a região da várzea central do rio começava a ser ocupada pelos imigrantes.

Além disso tudo, alguns autores defendem a ideia de uma “higienização” de uma área associada a uma população pobre e periférica. A Várzea do Carmo era usada pelas lavadeiras (da elite paulistana), pelos escravos que alí se livravam dos dejetos de seus senhores e depois “pasme-se”, pelos os operários, trabalhadores dos mercados e periféricos em geral, para tomar banho…

Como se não fosse conhecido o ciclo das águas, edificações passaram a ser construídas no entorno das curvas do rio e, problemas das cheias “surgiram”.

Em 1º de janeiro de 1850, um temporal alagou às margens dos rios Tamanduateí e Anhangabaú causando a destruição de 14 casas de taipas de pilão. Não foi a primeira enchente e nem seria a última, mas deu motivos para ampliar a discussão sobre a necessidade de se “retificar” o rio, o que foi de fato feito em etapas, principalmente durante a gestão do intendente (prefeito) João Theodoro.

Segundo o arquiteto, urbanista e professor Benedito Lima de Toledo, o urbanismo nasce em São Paulo, justamente na Várzea do Carmo, já que a necessidade de uma intervenção na área era considerada urgente devido às constantes inundações do Rio Tamanduateí.

Entre 1873 e 1875 a área da Várzea do Carmo foi drenada e o curso do rio modificado, dando lugar a uma nova ocupação e decretando o fim das atividades do Porto Geral, que, de fato, foi extinto em 1896.

área passou então por um processo de “embelezamento”… teve até mesmo uma ilha artificial, conhecida como Ilha dos Amores, um popular local de lazer ajardinado no rio Tamanduateí.

Entre as décadas de 1870 e 1880, localizado próximo à atual Rua 25 de Março/Parque D. Pedro II, oferecia quiosques, casas de banho e natureza, sendo considerada uma alternativa de lazer para a população que só contava com o Jardim da Luz.

A Ilha dos Amores foi erguida no leito modificado do rio. O local hoje abriga o Parque Dom Pedro II.
A Ilha dos Amores foi erguida no leito modificado do rio. O local hoje abriga o Parque Dom Pedro II.

Na sequência, essa vocação para transformar a antiga várzea em um grande local de lazer teve continuidade com a implementação do Parque Dom Pedro II, inaugurado oficialmente em 1922 como um grande boulevard de convivência. 

Neste momento, nada mais restava do traçado original do Rio Tamanduateí e o “Porto Geral” era apenas uma lembrança dos antigos moradores da capital.

O que se torna um rio quando morre?

Século XXI. Região da Av. dos Estados. Sem sua vázea natural, o Tamanduateí lembra a todos que ainda resiste.
Século XXI. Região da Av. dos Estados. Sem sua vázea natural, o Tamanduateí lembra a todos que ainda resiste.

Em nosso blog trazemos histórias da transformação de São Paulo e, nem sempre elas tem um fim positivo. Mas histórias são pontos de reflexão.

Qual nossa relação atual com o rio que possibilitou o desenvolvimento da cidade? Afastado de nossas vistas, inacessível e ignorado, o Tamanduateí, não apenas em sua porção central, mas em toda sua extensão, é apenas um leito que divide avenidas. Nem mesmo em sua nascente, na cidade de Mauá, sua água é considerada boa.

Nada mais resta dele enquanto rio, em seu significado natural. Do Porto Geral que dá nome à ladeira, resta apenas isso. A memória esquecida de um porto em pleno centro da capital paulista.

Para quem quiser refletir mais sobre a questão o Instituto Rios e Ruas se dedica a pesquisar, explorar, trazer à discussão, e promover conhecimento e refletir sobre como nos relacionamos com os rios escondidos da cidade de São Paulo: https://www.instagram.com/rioseruas

Fontes:

https://www.saopauloinfoco.com.br/rio-tamanduatei/

https://www.museudacidade.prefeitura.sp.gov.br/wp-content/uploads/2025/06/Tamanduatei_corpo_identidade_memoria.pdf

https://carlosfatorelli27013.blogspot.com/2014/05/o-porto-geral-da-rua-vinte-e-cinco-de.html

Este conteúdo é protegido por direitos autorais e seu uso comercial não é permitido sem autorização da Casa da Boia. Para compartilhamento, utilize o link da página.

Quer ser avisado quando tiver post novo?

Cadastre-se para receber avisos de novos posts, notícias e novidades sobre nossa atividades culturais.

Artigos relacionados

Veja outros assuntos que podem te interessar...