Desde que há mais de 3.500 anos os mesopotâmicos desenvolveram a roda e esta foi adaptada para o transporte de cargas, a humanidade não foi a mesma. Sobre as rodas surgiram carriolas, carroças, trens, bondes, ônibus e automóveis. Foi dentro destes, entretanto, que o homem moderno achou sua comodidade no transporte e as cidades passaram a se adaptar ao veículo que, a partir do início do Séc. XX seria produzido aos milhões.
São Paulo. Há pouco mais de 140 anos as ruas da cidade eram cortadas apenas por carroças, bondes e carruagens, todas de tração animal. Os cidadãos daqueles idos de 1886 só viam um automóvel, talvez, nas notícias dos jornais, que reportavam a criação deste veículo na Alemanha, por Karl Benz.
Os paulistanos esperariam ainda alguns anos para ver o primeiro automóvel da cidade circular por ruas calçadas com britas ou paralelepípedos.
A monotonia matinal do bairro dos Campos Elíseos passou a ser quebrada, a partir de 1891 (algumas fontes citam 1893), quando o dono do “Peugeot Type 3”, ligava o motor de 3,7 cavalos do primeiro automóvel a circular na cidade. Seu proprietário, Alberto Santos Dumont, que importou o veículo da França.
A partir de então, São Paulo não seria mais a mesma e seu crescimento se daria em torno desta máquina de transporte individual, conforme já abordamos em postagem aqui no blog.
Os primórdios do abastecimento e a inauguração de um novo tipo de estabelecimento

Nesse início da tecnologia automotiva no Brasil, é preciso lembrar que, com o primeiro automóvel importado veio junto a necessidade de abastecê-lo com combustível.
Se hoje normalizamos a presença de “um posto a cada esquina” esse era um tipo de estabelecimento que inexistia na São Paulo do final do Século XIX.
O Peugeot Type 3 de Santos Dumont necessitava de gasolina para funcionar e o grande inventor não podia simplesmente se dirigir a um posto para abastecer pela simples razão de que São Paulo não possuía sequer um único local de abastecimento.
Naquela época a gasolina era importada, principalmente dos Estados Unidos. E não foi por outra razão que as primeiras empresas do setor a se estabelecerem no Brasil vieram do norte do Equador.
Autorizada por decreto do presidente presidente Hermes da Fonseca, em 1912, a então Standard Oil Company of Brazil, subsidiária da ExxonMobil norte americana, foi pioneira na distribuição de produtos como a gasolina e o querosene, comercializados em latas e tambores, vendidos em estabelecimentos como armazéns e até farmácias!
No ano seguinte, em 1913, foi a vez da Anglo-Mexican Petroleum Company Limited se instalar em solo brasileiro. A empresa, precursora da Shell, consolidou-se em São Paulo com a expansão automotiva iniciando suas atividades também na distribuição de combustíveis no varejo.
Apesar da chegada das empresas ao país entre 1912 e 1913, o Brasil só veria nascer um “posto de gasolina” no ano de 1919 e, ainda assim, fora da capital paulista.
O pioneirismo coube ao empresário Francisco de Paula Ribeiro, o maior responsável pela criação do Porto de Santos. “Chico de Paula”, como era conhecido, instalou na rua XV de novembro, região central da cidade de Santos e próxima ao porto, o primeiro posto de gasolina do Brasil, no ano de 1919.
A iniciativa de Francisco de Paula Ribeiro rapidamente demonstrou seu valor.
A crescente popularidade dos automóveis criou uma demanda constante por postos de abastecimento, e o pioneirismo do posto de Santos serviu de modelo para outras cidades e estados.
Em pouco tempo, postos de gasolina começaram a surgir em diversos pontos do país, acompanhando a expansão da malha rodoviária e o aumento do número de veículos.
Os primeiros postos de São Paulo e sua arquitetura peculiar
Apesar da ExxonMobil ter chegado ao país meses antes da Anglo-Mexican Petroleum, coube a esta inaugurar a era dos postos de “bandeira” na cidade e com uma arquitetura muito particular.
O primeiro posto inaugurado pela companhia em São Paulo chamava-se “Alferes Tiradentes” e foi inaugurado no ano de 1926. Funcionou na Av. Tiradentes, nº 1565, esquina com a rua Porto Seguro, no bairro da Luz.
A edificação ainda existe no local, infelizmente em péssimo estado de conservação. Foi transformada em estacionamento e apesar de ter sido tombada pelo CONPRESP – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, por meio da resolução nº 20, de 26 de junho de 2017, está em franca decadência.
A mesma resolução incluiu outro posto de combustíveis, o Posto “Dansa” ou “Posto Aclimação”, de 1929. Localizado na Av. Aclimação, 11, ao contrário do Alferes Tiradentes, este, felizmente, mantém sua atividade original e sua arquitetura bastante preservada.
Ambos foram projetos da Anglo-Mexican Petroleum e foram erguidos com uma identidade ligada às raízes mexicanas da petrolífera, apesar de São Paulo viver a “belle èpoque” da arquitetura e costumes, de fortes influências europeias.

O estilo neocolonial hispânico predomina na arquitetura de paredes grossas e telhado de telhas de barro.
A área de serviços, emoldurada por colunas e arcos que sustentam a construção, suas janelas de duas folhas, colunas com base em pedra e forro em estuque lembram mais uma capela do interior do que os modernos e enormes postos de abastecimento de hoje.
O Auto Posto Dansa é o mais antigo da cidade ainda em funcionamento e ainda com a bandeira “Shell”, um verdadeiro guardião da memória automotiva da capital.
A Energina e sua curiosa marca

Ainda que tenha iniciado suas operações no Brasil distribuindo gasolina ironicamente em carros movidos por tração animal, a Mexican Petroleum não demorou a lançar uma marca própria de gasolina, igualmente importada.
A gasolina “Energina”, conforme anunciava a empresa nos jornais da época, era a “melhor gasolina, pura e poderosa, que dava partida instantânea e tinha rápida aceleração”.
Junto com a Energina a empresa lançou um óleo lubrificante, cujo nome era “Swastika” “o óleo que forma uma camada indestrutível entre os pistões e o cilindro”.
Se você lembrou do símbolo nazista ao ler o nome do óleo, não se enganou. Ou quase.
Antes da escalada nazista, que se intensificou nos anos 1930, e contaminou o mundo com sua ideologia e atitudes desprezíveis a suástica, símbolo frequentemente associado ao nazismo tinha outro significado, ironicamente associado a coisas belas e positivas.
A suástica é um símbolo milenar e sagrado de boa sorte, prosperidade e bem-estar de origem sânscrita (svastika), usado por diversas culturas como hindus, budistas, jainistas, gregos antigos, celtas e povos nórdicos. O símbolo representava o sol, o martelo de Tor ou passos de Buda.
No hinduísmo e no budismo, representa auspicidade, divindade e equilíbrio, sendo usada em templos, casas e rituais.
No início do século XX, era popular no Ocidente (Europa e EUA) como símbolo de boa sorte, usado em cartões postais, joias e produtos.
Assim, com a intenção de representar características de positividade, a suástica não apenas dava nome aos lubrificantes da empresa como sua representação gráfica era parte de toda a comunicação da marca.
Quando os nazistas se apropriaram da suástica, denotaram a ela outro sentido completamente antagônico ao seu significado milenar.

Para o nazismo, a suástica passou a representar a superioridade da suposta “raça ariana”, o nacionalismo alemão e a luta antissemita. Adotada por Hitler como símbolo central do partido em 1920, ela foi distorcida de seu sentido milenar de boa sorte (origem sânscrita) para se tornar o emblema do ódio, da purificação racial e do Terceiro Reich.
A medida que o uso deste símbolo passou a se tornar algo relacionado a sentimentos e atitudes desprezíveis a Mexican Petroleum (que havia sido fundada em 1908 por Weetman Pearson, um magnata britânico que teve grande atuação no México e, em 1919, já pertencia à anglo-holandesa Royal Dutch Shell) decidiu fazer um “rebranding”, ou seja, modificar a sua marca, excluindo a suástica e incorporando a famosa concha vermelha e amarela.
O Brasil entra no jogo na década de 1930 e pelo sul
Observando o crescimento do mercado nacional de automóveis, no ano de 1934 um grupo de empresários do Rio Grande do Sul e também argentinos fundou a Destilaria Rio-Grandense de Petróleo, a primeira destilaria brasileira, que passou a produzir em grande escala gasolina, querosene, óleo diesel e óleo combustível.
Em agosto de 1936, a destilaria se uniu a investidores uruguaios e assim surgiu a Ipiranga S.A., Companhia Brasileira de Petróleos.
A nova empresa foi constituída em Rio Grande, RS. Em 7 de setembro de 1937 foi fundada a Refinaria de Petróleo Riograndense na cidade de Rio Grande, marcando a fundação da Petróleo Ipiranga.
No ano seguinte, 1938, a Ipiranga inaugurou o primeiro posto de combustíveis com a bandeira da empresa, também na cidade de Rio Grande.
No mesmo ano, o Presidente Getúlio Vargas assinou um decreto que nacionalizou a indústria de refinação de petróleo. As ações controladas por estrangeiros foram, então, negociadas entre brasileiros que já tinham um vínculo com a refinaria e a Ipiranga se tornou a primeira empresa de petróleo cem por cento brasileira.
Rizkallah Jorge amplia sua produção de olho nos automóveis
Sagaz em sua observação de mercado, não demorou muito para que o empresário Rizkallah Jorge incorporasse à produção de sua empresa, a Casa da Boia, itens usados nos automóveis que, cada vez mais, eram vistos pela cidade, e cada vez mais precisavam de manutenção.
No catálogo comercial da Casa da Boia, dos anos 1920, já havia uma seção dedicada a “itens para carros”, em que mostrava que a empresa produzia porcas, contraporcas, argolas para cubos de carros, buchas de ferro e manilhas, por exemplo.
O advento da chegada do automóvel moldou uma nova São Paulo, a partir dos anos 1930, e ganhou ainda mais impulso com as instalações das montadoras, com a General Motors (Chevrolet), Volkswagen, Mercedes Benz e Ford, em São Bernardo do Campo.
Neste mercado dinâmico dos automóveis, em tempos de eletrificação e do susto com os preços dos combustíveis fósseis em razão das guerras no Oriente e na caótica metrópole, parar para abastecer seu automóvel na Avenida Aclimação, 11, é colocar no tanque do seu carro um pouco da memória dos combustíveis na cidade.
Fontes:








