No dia 8 de janeiro, comemora-se no Brasil o Dia Nacional da Fotografia, em razão da chegada ao país do primeiro Daguerreótipo (o precursor da câmera fotográfica). São Paulo gerou ao longo dos anos grandes nomes desta arte e dela também se beneficiou como registro histórico em um dos momentos de maior dinamismo da futura metrópole, o final do Século XIX.
Foi no dia 19 de agosto de 1839 que Louis Daguerre apresentou ao mundo a sua invenção, o Daguerreótipo, um aparelho, que em uma câmara escura e por meio de uma lente foi capaz de registrar em uma superfície de cobre polido e tratado quimicamente, a imagem real a que a placa foi exposta.Posteriormente, por meio de reações químicas essa imagem era gravada na chapa, resultando na “captura” da realidade no primeiro processo completo de fotografia.
Menos de cinco meses depois de que o processo fora apresentado, na França, um exemplar do Daguerreótipo chegou ao Brasil.
A introdução da daguerreotipia em nosso país, se deu com a chegada do navio L’Oriental-Hydrographe, navio-escola da Marinha Mercante da França, em fins de 1839, sob o comando do capitão Augustin Lucas que havia estado no ateliê de Daguerre em 1839 e levou a bordo da viagem-escola de oficiais da Marinha francesa, um exemplar do aparelho.
O Abade Louis Compte, encarregado do ensino religioso aos integrantes da expedição era também entusiasta da nova invenção, tendo ele mesmo construído alguns daguerreótipos durante a viagem.

Consta que foi Compte que teria apresentado o aparelho a Dom Pedro II, um grande entusiasta da ciência, que teria sido, assim, o primeiro fotógrafo do Brasil.
Este encontro teria acontecido no dia 8 de janeiro de 1840, razão pela qual se comemora nesta data o Dia Nacional da Fotografia.
Militão Augusto de Azevedo
A introdução do daguerreótipo (e da fotografia) no Brasil incentivou inúmeros entusiastas a ingressarem na nova profissão de “fotógrafo” pelas grandes cidades do Brasil.
São Paulo não ficaria de fora e na capital inúmeros estúdios de fotografia se dedicavam a uma atividade que era de longe a mais praticada pelos profissionais, os retratos.
A elite econômica em princípio, e posteriormente as classes mais simples, frequentavam os estúdios para perpetuar momentos marcantes, principalmente os retratos de família.
Um profissional nascido praticamente junto com o daguerreótipo e radicado na cidade de São Paulo, posteriormente, desenvolveria um outro olhar para a fotografia e seria fundamental para o registro das mudanças da capital paulista no Século XIX.

Militão Augusto de Azevedo, nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de junho de 1837, iniciou sua carreira como ator de teatro, participando de espetáculos em grupos como a Companhia Joaquim Heliodoro e a Companhia Dramática Nacional, em 1860. Com este último grupo, viajou para a cidade de São Paulo em 1862, onde a partir de então passou a residir e iniciou sua carreira como fotógrafo.
Começou como retratista, no ateliê Carneiro & Gaspar. A partir de então, começou a construir um estilo próprio de fotografar: enquanto a maioria dos artistas da época se dedicava ao mercado de retratos, Militão criou uma liberdade artística e criativa exclusiva ao escolher as paisagens urbanas para serem registradas.
Quando chegou em São Paulo em 1862, a capital tinha uma atmosfera provinciana, mas era agitada, cheia de energia e de atividades voltadas para as realizações materiais. Uma cidade em franca mudança. Foi nesse contexto que Militão começou seu trabalho com fotografias, documentando a população e seus cotidianos.
Em 1875 o fotógrafo adquire o ateliê Carneiro & Gaspar e troca seu nome para Photographia Americana e em seus 20 anos de atuação, o estúdio recebeu tanto figuras famosas, como o imperador Dom Pedro II, a imperatriz Tereza Cristina, o jurista e político Ruy Barbosa, o poeta Castro Alves, os abolicionistas Luís Gama e Joaquim Nabuco, como uma clientela mais popular. O preço cobrado pelas fotos, segundo consta, era um dos mais baratos da cidade:cinco mil réis.
O ateliê ficava localizado em frente à Igreja do Rosário, frequentada principalmente pela população negra – esse fato explica a grande quantidade de negros fotografados e a maneira como estes aparecem nas fotos, não como escravos, mas como cidadãos comuns.
O álbum comparativo da capital
Reunindo imagens da cidade, produzidas no ano de 1862 e, 25 anos depois, em 1887, neste mesmo ano Militão lança o “Álbum Comparativo de Vistas da Cidade de São Paulo (1862-1887)”.
O álbum surge em um momento de valorização econômica da cidade, beneficiada pela riqueza do ciclo cafeeiro.

Ao comparar os mesmos pontos da cidade de São Paulo em anos distintos e por meio de enquadramentos semelhantes, Militão exaltava o progresso de uma cidade antes com ares “interioranos”, que agora (em 1887) apresentava uma mudança radical.
Edifícios modernos, ruas largas, iluminação, gente elegante, praças, comércio, tudo se contrapunha à “vila” registrada 25 anos antes.
Como dito pelo próprio Militão, trata-se de “um álbum comparativo de São Paulo antigo e moderno”. O álbum fotográfico compara 60 fotografias da cidade de São Paulo, todas tiradas nos mesmos lugares, majoritariamente, pelos mesmos ângulos.
As fotografias possuem dimensão de 14x22cm e foram todas coladas em pranchas de papel cartão, distribuídas uma por página. Nas palavras de Militão, resumidamente, seu trabalho foi buscar “os clichês de 1862” e fazer “os comparativos atuais”.
O resultado do trabalho foi um registro visual “legitimador” de uma noção de modernidade construída em oposição ao passado de vilarejo da cidade.
As transformações sociais causadas pelo redirecionamento dos lucros da exportação cafeeira para São Paulo alteraram radicalmente a vida na cidade, gerando crescimento populacional, mudança das dinâmicas sociais antes rurais para dinâmicas mais urbanas, além de um aumento das atividades econômicas comerciais.


Registro comparativo do Largo do Braz.
Documento fundamental usado por pesquisadores para analisar as transformações da época
Quase 140 anos depois da publicação do álbum, várias são as análises feitas por historiadores e pesquisadores a partir das fotografias que integram a publicação.
Ao olhar para as comparações na obra, percebe-se um grande enfoque dado por Militão ao enquadramento dos asfaltos nas fotos de 1887. Em uma época em que o asfalto era tido como uma marca de desenvolvimento, a inclusão desse elemento pelo fotógrafo evidencia sua consciência do uso de uma separação qualitativa entre passado e presente.
“Três cidades em um século” é a metáfora utilizada pelo arquiteto Benedito Lima de Toledo para descrever o desenvolvimento urbano de São Paulo no boom da economia cafeeira e o Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo capta muitas das transformações que ocorreram nesse ciclo em suas comparações.
Em boa medida, parte das mudanças de ângulo foram feitas para enquadrar novos empreendimentos governamentais, o aumento nos andares nas casas, praças, asfaltos, alargamento das vias etc. Ou seja, uma reconfiguração dos signos associados à modernidade, junto do crescimento e alargamento dos objetos retratados, seriam causas da reconfiguração do ângulo adotado por Militão nas fotografias de 1887.
Nas fotos de 1887, ele se utilizou de outras convenções da fotografia para retratar os mesmos (e outros) pontos da capital provincial. A tomada de 1862, feita do chão da rua do Comércio, mostra a via contornada de poucos sobrados e de casas térreas com beirais (denunciando assim que, em sua feitura, a taipa foi utilizada amplamente).


Registro comparativo da Rua da Quitanda.
No artigo ”Arqueologia da paisagem urbana: histórico e mercado imobiliário. Reconstituição do centro histórico de São Paulo, (1809-1942) a arquiteta Iris Bueno analisa as imagens do álbum e ressalta o caráter de afirmação de uma cidade moderna por parte do autor, como por exemplo, “na abertura de praças modernas, em oposição aos antigos largos vinculados às igrejas das irmandades laicas”.
Essas praças podem ser percebidas nas fotografias da Igreja de N. S. dos Remédios, na página 16 e 17, onde há readaptação do ângulo da fotografia para dar conta da construção de uma praça moderna anexada à Igreja.
Nela, o pátio da cadeia, parte da foto de 1862, desaparece do enquadramento para que a nova praça pudesse ser centralizada na foto.
As praças, inclusive, são um dos signos de modernização constantemente empreendidos na obra de Militão.
Na página 15, figura uma praça na fotografia “Assembleia Provincial e Câmara Municipal”, de 1887; e fotos como as da Ladeira do Palácio, que viria a se tornar a Rua João Alfredo em 1887, mostram uma diminuição dos aspectos rurais na cidade de São Paulo através da construção de uma praça somada à ausência de burros de carga e cavalos.
A tendência, como dito antes, ao uso do asfaltamento como signo de modernidade é bastante aparente quando observamos o enquadramento das quatro fotos da Rua do Rosário e Rua Imperatriz (nome posterior), nas páginas 18 a 21, que mostram a tendência dada por Militão ao enquadramento “de cima para baixo” nas fotos de 1887.
Fotos como a da Ladeira do Palácio também tem seus ângulos alterados para privilegiar o chão e captar bem toda a praça e suas árvores.


Registro comparativo da Rua Florêncio de Abreu (em 1862, ainda Rua da Constituição).
Álbum pode ser consultado online
O Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo (1862-19887) pode ser consultado online, no site da Biblioteca Nacional. Ou no site do Instituto Moreira Salles, que detém a guarda física do álbum.
No mesmo estilo do Álbum Comparativo, o fotógrafo preparou outros álbuns com enfoque na paisagem urbana e na comparação entre diferentes épocas e suas mudanças, com destaque para: “Vistas da Cidade de São Paulo” (1863), “Álbum de vistas da Cidade de Santos” (1864-65) “Álbum de vistas da Estrada de Ferro Santos Jundiaí” (1868) e, seu projeto mais conhecido, o “Álbum Comparativo de Vistas da Cidade de São Paulo (1862-1887)”.
Fontes:
https://revistas.usp.br/pontourbe/article/view/217421/198848
https://ims.com.br/titular-colecao/militao-augusto-de-azevedo/
https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lbum_Comparativo_da_Cidade_de_S%C3%A3o_Paulo



