Em 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher, data para refletir sobre as questões que ainda envolvem a desigualdade de gênero em todas as esferas sociais, algo muito mais presente na sociedade do Séc. XIX, quando Veridiana da Silva Prado, personagem central de nosso post, ousou estar à frente do seu tempo.
O ano era 1825. Brasil imperial. São Paulo, uma pequena vila que ainda não havia se beneficiado da riqueza do café, que a transformaria anos mais tarde. No seio da família Silva Prado nascia a filha do patriarca, Antonio da Silva Prado e sua esposa, Maria Cândida de Moura Vaz. Seu nome, Veridiana. Veridiana Valéria da Silva Prado.

Antonio da Silva Prado, nascido em 1778 em São Paulo, começou suas atividades econômicas comercializando mulas (muares, para ser exato) com o lucro dessas transações investiu em plantações de café, se tornando um dos maiores cafeicultores e um dos homens mais ricos de seu período.
Conquistou boas relações no governo imperial, tendo sido amigo de Dom Pedro I e posteriormente Dom Pedro II, de quem recebeu o título de Barão de Iguape.Sua casa era frequentada pela intelectualidade, pela nobreza e pelos fazendeiros, elite econômica de então.
Veridiana recebeu a educação padrão das mulheres de elite. Estudou ciências, humanidades e “costumes” (ou etiqueta) aprendeu inglês, francês e alemão. Como outras mulheres de seu tempo, não escapou de um casamento de conveniência.
Aos 13 anos casou-se com seu próprio tio, Martinho da Silva Prado, 14 anos mais velho e com quem teve nada menos do que seis filhos (Antônio, Martinho, Anna Blandina, Anésia, Antonio Caio e Eduardo).
De personalidade marcante, Veridiana, apesar do casamento arranjado por conveniência econômica, não se deixou afastar dos negócios da família, permanecendo sempre atenta aos rumos de sua imensa fortuna, o que se mostraria fundamental quando se envolveria em um “escândalo” para a época.
O escândalo do divórcio

Sua transgressão foi tomar a atitude de se divorciar do marido, em 1878, em razão da divergência de ambos sobre o casamento da filha Anna Blandina. Veridiana apoiava o matrimônio com Antonio Pereira Pinto Neto mas Martinho Prado era contrário à união.
A divergência escancarou o fato de que Veridiana e Martinho tinham uma relação conturbada. O resultado é que, enquanto Ana e Antonio se casaram, Veridiana e Martinho se separaram, no ano de 1878.
Agora, vale lembrar que não existia divórcio no Brasil à época. A separação aconteceu na prática, mas não aos olhos da lei. Veridiana tinha já 53 anos de idade e o escândalo repercutiu na sociedade paulistana, que teve no assunto motivo para comentários maldosos por muito tempo.
Talvez aborrecida com essa exposição, Veridiana decide passar uma temporada em Paris, período de reflexão, que lhe trouxe inspiração para a construção da residência que iria ocupar em São Paulo, agora na condição de mulher só.
Ao retornar da “Cidade Luz”, em 1882, decide construir um palacete na chácara que havia adquirido anos antes de Francisco Rodrigues Pereira de Queirós, o Barão de Santa Cecília.
O Palacete imponente

Na chácara, então batizada por Veridiana como “Vila Maria”, foi erguido o casarão que, concluído em 1884, já à época, se mostrava diferente da arquitetura usual paulistana.
Enquanto a São Paulo colonial era feita de paredes grossas de terra e janelas simples, Veridiana encomendou um projeto que respirava a Belle Époque francesa.
A residência é um exemplo primoroso do Ecletismo (o mesmo estilo arquitetônico da Casa da Boia), que combinava elementos de diferentes períodos históricos (renascentistas, barrocos e neoclássicos) para criar algo novo e imponente.
Sua fachada apresenta linhas simétricas, com ornamentos em relevo e colunas que lhe conferem uma aura de “palácio urbano”.
Diferente das casas tradicionais construídas nos limites da calçada, o palacete era recuado, cercado por um vasto jardim arborizado — uma novidade que ajudou a definir o padrão de bairro-jardim de Higienópolis.
Seu interior foi projetado para a sociabilidade e a ostentação. Veridiana não queria apenas uma casa, mas um salão cultural onde pudesse receber a elite intelectual e econômica.
A casa possuí amplas salas de recepção e contava com um biblioteca vasta, refletindo o perfil intelectual da moradora. As áreas sociais eram nitidamente separadas das áreas de serviço, uma estrutura que espelhava a hierarquia social da época,como não poderia deixar de ser.
O uso de madeiras de lei, mármores e vitrais coloridos importados demonstrava a riqueza de sua proprietária.
Na chácara, a proprietária promovia encontros de intelectuais, frequentados por personalidades históricas para discutir sobre arte e política. Lá estiveram pessoas como Teodoro Sampaio, Joaquim Nabuco, Graça Aranha, D. Pedro II e a Princesa Isabel, que, segundo consta, elogiava muito o palacete, tendo registrado em seu diário pessoal que “a propriedade de D. Veridiana é lindíssima; casa à francesa, exterior e interior muitíssimo bonitos, de muito bom gosto”.

De acordo com o livro Dona Veridiana, de Luiz Felipe Ávila, quando recebeu D.Pedro II, ela fez questão de colocar todos os seus filhos e netos em fila, desde o porão de sua chácara até a porta principal do palácio, como se seus entes queridos fossem uma família real prestes a receber o monarca.
A família Prado foi, de fato, um alicerce para a monarquia. O Barão de Iguape ( pai de Veridiana) era amigo pessoal de D.Pedro I. Veridiana recebia a monarquia em sua residência e seu filho primogênito, Antônio Prado, foi ministro do Império em 1887.
Apesar da família e da própria Veridiana serem monarquistas, em seu palacete, ela mostrava nas rodas de conversa que era contra a escravidão, tendo defendido a libertação dos escravos mesmo após a Proclamação da República.
Empreendedora e benemerente
Reduzir a importância de Veridiana da Silva Prado apenas ao círculo intelectual que frequentava seu palacete não faz jus à sua memória.
Veridiana levou à frente os negócios da família, principalmente as fazendas herdadas do pai, mas não apenas isso.

Ela foi a primeira mulher do país a comandar um jornal: o Comércio de São Paulo.
O periódico pertencia ao filho Eduardo Prado, nas a matriarca teve de entrar no negócio para salvá-lo da falência, passando a administrar o jornal.
Foi ela também que criou o Velódromo de São Paulo, inaugurado em 1875, e que se tornou o primeiro estádio de futebol do Brasil, no início do século 20, na região onde hoje fica a Praça Roosevelt, à época sua propriedade.
Consta que em seu palacete ela promovia também atividades benemerentes.
Veridiana organizava eventos beneficentes e leilões benemerentes e ainda ajudava em obras paroquiais. Assim como seu pai, era provedora de recursos para a Santa Casa de Misericórdia e colaborava com diversas instituições religiosas, sobretudo com as Igrejas que frequentava, a Igreja da Consolação e a de Santa Cecília.
O legado de uma mulher a frente de seu tempo
Veridiana faleceu em seu palacete em 11 de junho de 1910, aos 85 anos, após ter vivido intensamente sua liberdade em um tempo em que isso não era lá muito bem visto.
Em seu testamento, deixou diversos legados para instituições de caridade, principalmente à Santa Casa de Misericórdia, para serviçais e netos.
Porém, uma particularidade chama atenção quando nos aproximamos do Dia Internacional das Mulheres.
Ela deixou doações de grande parte de sua herança para duas mulheres: 30 contos para sua sobrinha Carolina Prado e 16 contos para sua criada favorita, Maria das Dores.
Estas doações eram títulos inalienáveis com a condição de que as mulheres agraciadas não poderiam dividir o seu patrimônio com seus maridos. O rendimento dos bens herdados lhes garantiria assim uma vida independente, como a que tinha ela mesmo vivido.
Junto ao seu testamento, ela também deixou uma carta, que dizia: “A todas as pessoas a quem eu possa ter ofendido ou escandalizado, peço humildemente perdão, assim como perdoo de todo coração aos que me tenham ofendido ou caluniado”.

Seu palacete é hoje sede do Iate Clube de Santos, clube, aliás, fundado por iniciativa de Jorge da Silva Prado, bisneto de Veridiana.
O imóvel é tombado pela Resolução no 04/2001 do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP e pela Resolução SC-96, de 28/12/06, do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo).
A antiga residência de Veridiana Prado, assim como o sobrado histórico da Casa da Boia, encontra-se em excelente estado de conservação, perpetuando o legado Dona Veridiana, na história da cidade e do Brasil.
Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Veridiana_da_Silva_Prado
https://arquivo.arq.br/projetos/palacete-veridiana-da-silva-prado



