Tradições imigrantes que moldaram a Páscoa brasileira

A Páscoa é, em essência, uma comemoração cristã. Logo, uma tradição que se inicia no Brasil há pouco mais de 500 anos, com a chegada dos Jesuítas portugueses. Desde então os imigrantes, suas receitas e tradições, foram os responsáveis por dar à Páscoa Brasileira os ritos e sabores incorporados à mesa brasileira. 

Antes da chegada dos portugueses, os povos originários do Brasil eram politeístas, cultuando as forças da natureza, antepassados e divindades ligadas ao cotidiano regido pelos fenômenos naturais, como o Deus Tupã (relacionado ao Trovão, o Criador), Guaraci (sol), Jaci (lua) e Anhangá (protetor dos animais). A espiritualidade era central, mediada pelos pajés (xamãs), e focada na relação com a natureza.

A Páscoa chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses a partir de 1500, trazendo a tradição católica da celebração da ressurreição de Jesus Cristo. As tradições europeias, como a Quaresma, Semana Santa e o consumo de ovos (simbolizando vida) eram celebrações muito distantes dos povos originários, mas a expansão da colonização e a catequização dos indígenas, aos poucos foram introduzindo esses ritos no território da colônia.

Possivelmente a primeira grande contribuição dos europeus para a celebração da Páscoa começa justamente com os portugueses.

Bacalhoada chega ao Brasil com os portugueses, em 1.500.
Bacalhoada chega ao Brasil com os portugueses, em 1.500.

A tradição do bacalhau remonta à Idade Média, quando o calendário católico impunha a abstenção de “carnes quentes” (aves e mamíferos) durante a Quaresma, o período compreendido entre a Quarta-feira de Cinzas e a Quinta-feira Santa.

O bacalhau, por ser um peixe que passava pelo processo de salga e secagem, era o único que suportava as longas viagens das regiões portuguesas do Alentejo ou do Minho até o interior do Brasil colonial sem estragar. 

Embora o Brasil tivesse abundância de pescados em sua imensa costa, originalmente o bacalhau era um peixe farto na Europa e, historicamente, mais barato e fácil de encontrar do que outras carnes.

O pescado era um dos produtos trazidos da metrópole (Portugal) para o Brasil, compondo o sistema de trocas comerciais da época colonial, onde a colônia consumia produtos industrializados ou processados na Europa.

O que nasceu como uma imposição religiosa de penitência e uma “solução logística” de conservação, tornou-se o prato principal da nossa celebração moderna.

Do Leste Europeu a arte nas cascas de ovos

Os Pêssankas, ucranianos...
Os Pêssankas, ucranianos…

Enquanto os portugueses cuidavam do prato salgado, imigrantes poloneses e ucranianos, que se estabeleceram em sua maioria no sul do país, majoritariamente no Paraná, trouxeram uma tradição visualmente deslumbrante: as Pêssankas.

Diferente do ovo que se come, a Pêssanka é um ovo de galinha transformado em amuleto. Pintados à mão com símbolos geométricos e cores naturais, esses ovos representam a vida e a proteção. 

Para essas comunidades, a Páscoa não é apenas um dia, mas um período para se “escrever” (do ucraniano pyssaty) desejos de boa colheita e saúde nas cascas, mantendo viva uma estética que sobrevive há séculos.

Esta arte tradicional dos ucranianos data de épocas muito antigas, quando eles eram preparados para presentear as divindades no início da primavera. Com a chegada do Cristianismo ele passou a simbolizar a Páscoa e a ressurreição de Cristo.

Durante o regime comunista e ateísta as pêssankas foram proibidas no país, mas continuaram a ser produzidas longe das grandes cidades. No Brasil, assim como em outros países em que há descendentes de ucranianos, são produzidos na época da páscoa. Depois da independência da Ucrânia em 1991 elas voltaram a ser produzidas no território original.

... e os Psanki, poloneses.
… e os Psanki, poloneses.

A tradição também é muito forte entre os poloneses. Na Polônia esses ovos são chamados de “pisanki” e são feitos de uma forma extremamente artesanal, seguindo uma técnica chamada “batik”.

Consiste no uso de um tipo de caneta especial para aplicar cera líquida sobre a casca e desenhar um darões no ovo, que depois é mergulhado em um corante e aquecido para remover a cera e revelar o desenho por baixo. 

Os corantes usados são de origem vegetal. Cascas de cebola são usadas para a cor vermelha, brotos de centeio para o verde, beterraba para o rosa e casca de macieira para o amarelo.

Na Antiguidade o ovo era visto pelos povos de diferentes culturas como símbolo de fertilidade. Eles representavam o nascimento. Por isso, criou-se o hábito de presentear as pessoas com ovos de galinhas.

Os italianos e a Colomba Pascal

A colomba pascal teve origem na Itália.
A colomba pascal teve origem na Itália.

A colomba pascal é um pão doce de origem italiana cujo formato de pomba simboliza paz e renovação. Foi criada na década de 1930 em Milão, pelo confeiteiro Angelo Motta para ser uma versão de Páscoa do panetone, a iguaria também é envolta por lendas medievais na região da Lombardia.

Diz a lenda que, em 572 d.C., um padeiro de Pavia ofereceu um pão em forma de pomba ao rei lombardo Alboíno como um presente de paz após a invasão da cidade, acalmando o monarca.

Outra versão sugere que um monge irlandês criou o pão durante uma viagem a Pavia, por volta de 610 d. C.

Dos germânicos o coelho e da França o chocolate

Se o bacalhau veio de Portugal e a arte dos ovos como objetos de arte, da Polônia e Ucrânia, a figura do coelho têm origem germânica. 

Embalagem do ovo da inglesa Fry's, do início do Século XX.
Embalagem do ovo da inglesa Fry’s, do início do Século XX.

Na Alemanha do século XVIII, o coelho era o símbolo da deusa Ostara, celebrando a fertilidade e a chegada da primavera. O coelho é também considerado um símbolo de vida nova por ser um dos primeiros animais a sair da toca no final do inverno, marcando o início da primavera.

Quando os primeiros alemães começaram a chegar ao Brasil, no Séc. XIX, trouxeram a tradição de celebrar o coelho como símbolo de mudança e renascimento.

A transição do ovo de galinha para o de chocolate como símbolo da Páscoa, porém, foi possível graças ao progresso e ao marketing.

Vamos lembrar que o chocolate surgiu na região da América Central, que hoje abriga os territórios do México, Guatemala, El Salvador, Belize e Honduras, uma criação dos olmecas e maias. 

O alimento chegou à Europa por intermediação dos espanhóis, que conquistaram e colonizaram os povos dessas localidades. Da Espanha o chocolate “migrou” para outros países, como a Inglaterra e a França.

Propaganda da Cadbury's, da década de 1960.
Propaganda da Cadbury’s, da década de 1960.

Foi lá que os primeiros ovos de chocolate surgiram, por volta do século 18, quando confeiteiros franceses resolveram esvaziar os ovos e recheá-los com chocolate.

Era ainda um ovo sólido, pois as técnicas de moldagem que permitiram criar apenas uma camada fina de “casca” oval datam do início do Séc. XX.

O fato é que este modo de produção se espalhou e o ovo de chocolate (convenhamos, muito mais gostoso que o de galinha) se transformou em um dos grandes símbolos da Páscoa moderna.

O ovo de chocolate se populariza no Brasil

No Brasil, a industrialização da Páscoa tem um marco zero: a década de 1920. A Lacta, fundada em São Paulo por um grupo liderado pelo cônsul suíço no Brasil, Achilles Izella, foi a grande pioneira de sua fabricação. 

Ovos da Lacta, em 1989.
Ovos da Lacta, em 1989.

Em 1940, a marca deu um passo tão simples quando inovador. Lançou o primeiro ovo de Páscoa produzido em larga escala no país, embalado em papel celofane e numerado por tamanho.

Foi nessa época que nasceu uma das imagens mais icônicas do nosso varejo: a “Árvore de Ovos”. Para otimizar o espaço nas lojas e criar um impacto visual, a Lacta introduziu as estruturas de madeira acima das gôndolas. 

O objetivo era psicológico: o consumidor devia “colher” o ovo, como se fosse um fruto maduro em uma árvore de desejos.

O cardápio sirio

O imigrante sírio Rizkallah Jorge Tahan, fundador da Casa da Boia, chegou ao Brasil em 1895, período em que não era simples importar os ingredientes da típica comida síria, como o grão de bico, base do falafel e homus, o  trigo para quibe (bulgur), romã, o Za’atar (tomilho, sumagre, gergelim) e a pimenta de Aleppo, por exemplo.

Mas isso não impediu que à medida que os imigrantes de origem árabe se fixassem na região da rua 25 de março, uma rica culinária fosse sendo compartilhada com os moradores brasileiros.

Rizkallah Jorge era cristão ortodoxo, e legou à família os costumes típicos da Páscoa cristã, assim como é celebrada em comunidades cristãs ao redor do mundo.

Um típico almoço Sírio. (foto restaurante Talal Culinária Síria).
Um típico almoço Sírio. Foto do restaurante Talal.

Seu neto e atual diretor administrativo da Casa da Boia, Mario Roberto Rizkallah, lembra que as celebrações da Páscoa em família respeitavam esses ritos e como boa parte da culinária árabe é vegetariana, não era difícil seguir a abstinência de carne no período da quaresma.

Pratos como o homus (pasta de grão-de-bico), a coalhada seca com azeite, o babaganoush (pasta de berinjela) e o tabule (salada de salsa, trigo, tomate) sempre estiveram à mesa das famílias sírias no Brasil, assim como o tradicional pão sírio fresco.

No almoço de Páscoa um mosaico de sabores mundiais

Seja qual for a sua escolha para o almoço de Páscoa, dificilmente seu cardápio não contará com alguma das referências aqui trazidas e isso é a essência da formação cultural e gastronômica dos brasileiro.

A Páscoa brasileira é, acima de tudo, um tributo à resiliência dos imigrantes que não apenas trouxeram receitas e costumes de seus países como influenciaram de forma absoluta como celebramos a Páscoa no Brasil.

Fontes:

https://anba.com.br/pascoa-com-cardapio-arabe-2

https://www.npr.org/sections/thesalt/2017/04/11/522771745/maamoul-an-ancient-cookie-that-ushers-in-easter-and-eid-in-the-middle-east

https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2022-04/saiba-como-diferentes-culturas-se-relacionam-com-a-pascoa

https://wickbold.com.br/tradicao-da-pascoa-no-brasil/

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2024/03/31/confira-como-a-pascoa-e-celebrada-em-diferentes-religioes.htm

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