Reflexões sobre uma história de 128 anos

Hoje, 20 de maio, quando nossos colaboradores abriram as grandes portas de madeira do sobrado centenário da Rua Florêncio de Abreu, 123, para que o público pudesse acessar nossa loja, iniciou-se mais um dia comum em nossa atividade. Mas este gesto que se repete a mais de um século guarda sutilezas daquelas que só um olhar muito atento de um observador paciente e silencioso, o tempo, pode nos contar.

Rizkallah Jorge (ao centro) com funcionários da Casa da Boia em 1910.
Rizkallah Jorge (ao centro) com funcionários da Casa da Boia em 1910.

Muito já se escreveu, já se publicou a respeito da Casa da Boia. Muitas matérias na imprensa, muitas postagens em nosso blog, vários estudos acadêmicos, muitos posts em redes sociais. Várias matérias na TV.

Quase sempre, invariavelmente, essas abordagens se voltam a um passado distante, uma história de ousadia de um imigrante sírio, que no Brasil desembarcou em 1895 em busca de uma vida próspera.

A história de Rizkallah Jorge Tahan é, de fato, extraordinária. Uma pessoa ímpar, de personalidade determinada, que chegou a um país desconhecido, com poucos recursos, sem saber falar a língua do local em que escolhera para tentar progredir.

Vindo da cidade de Alepo,Síria, onde nascera em 25 de janeiro de 1869, o jovem artesão trazia consigo os conhecimentos da manipulação do cobre, arte que aprendera com seu pai, e a vontade de prosperar em um novo e distante país.

E assim o fez. Após três anos no Brasil, fundou a Rizkallah Jorge e Cia. para, como diz uma inscrição ainda nítida em nossa loja: “fazer qualquer serviço pertencente a esta arte”, a arte da fundição do cobre.

Executa-se qualquer trabalho. filosofia que segue se renovando128 anos depois da fundação da empresa.
Executa-se qualquer trabalho. filosofia que segue se renovando 128 anos depois da fundação da empresa.

A empresa prosperou, e muito, no final do Séc. XIX e Início do Séc. XX, ainda sob o comando do fundador.

E era fácil perceber o porquê, pois a São Paulo daqueles anos era uma cidade em (re)construção frenética.

Eram os anos das descobertas científicas, do avanço tecnológico, da mudança nos costumes, da urbanização que visava ordenar uma cidade até então de herança colonial.

Rizkallah Jorge, inicialmente com seu saber técnico, e no decorrer dos anos, com sua visão empresarial, soube observar este momento histórico e agir para consolidar a Casa da Boia, (nome dado à sua empresa pelos seus clientes), como a principal fornecedora de itens de cobre para toda a São Paulo do período.

Das empresas públicas, como a Light, a Cia. Cantareira, o Departamento de Água e Esgotos, às lojas como o Mappin, arquitetos, como Ernesto de Castro e o público anônimo que frequentava o já naquele momento belo sobrado sede da empresa, São Paulo comprava na Casa da Boia.

Possivelmente, nos 51 anos que se manteve à frente do negócio que fundou, Rizkallah Jorge tenha sido um empresário de seu tempo. Tempo de relações concretas, de objetivos claros. Tempos em que um lado necessitava, o outro produzia e o comércio se estabelecia.

Era a primeira metade do Século XX. Décadas em que apesar dos avanços da humanidade em todas as áreas do conhecimento, o tempo era favorável à convivência e, principalmente, a um ritmo de assimilação possível das mudanças.

Mas era de se supor que aqueles que diariamente abriam as portas da Casa da Boia, os responsáveis pelo atendimento, pela manufatura, pelas vendas, pelo estoque, pela cobrança, pelas entregas, enfim, por tudo o que faz uma empresa acontecer, o fizessem pela simples necessidade de assim ser.

Assim era o cotidiano.

Os três filhos de Rizkallah Jorge souberam dar continuidade ao legado do fundador.
Os três filhos de Rizkallah Jorge souberam dar continuidade ao legado do fundador.

Assim era, possivelmente, em 1949, quando Rizkallah Jorge faleceu e seus filhos assumiram a empresa.

51 anos haviam se passado. Tempo suficiente para que o tempo, testemunha silenciosa, já enxergasse o que só depois a segunda geração à frente da Casa da Boia iria perceber:

Os tempos mudam. 

Já não era mais o tempo do fazer quase artesanal. Não mais o tempo em que a Casa da Boia era uma indústria que conseguia atender a demanda de uma cidade inteira.

Eram os tempos de uma grande mudança comercial. E Salim, Jorge e Nagib, filhos de Rizkallah, souberam interpretar o novo momento.

Olharam o seu tempo e tomaram possivelmente a decisão difícil de encerrar a produção própria, tão cara à Rizkallah Jorge. Olharam o seu tempo e compreenderam que era o tempo da mudança. 

Da fábrica pioneira na cidade, levaram a Casa da Boia a ser a maior revendedora de materiais não ferrosos de São Paulo.

Mudaram as relações de consumo, mudaram as escalas de negócio, mudou o perfil da empresa.

E o tempo mostrou que este tempo de mudanças deu continuidade ao legado de seu fundador.

Nas mãos da segunda geração, a Casa da Boia continuava relevante no comércio de metais.

Mas o tempo é testemunha imparcial. Vê o bem, vê o mal. Vê progresso e decadência.

Se impassível viu Rizkallah Jorge se estabelecer naquela que era uma das mais importantes ruas da capital, viu também o centro de São Paulo se esvaziar com o crescimento do comércio nos bairros.

Viu chegar e ir embora o progresso da região. Viu também o desinteresse das gerações futuras em continuar o que se iniciara ainda no século anterior e foi testemunha da obstinação do último Rizkallah a assumir para si, a responsabilidade de continuar algo que o tempo transformaria.

E o neto, Mario Rizkallah, inaugurou uma era de valorização da memória e da história.
E o neto, Mario Rizkallah, inaugurou uma era de valorização da memória e da história.

“Famílias crescem mais do que as empresas podem suportar”. Desta forma objetiva Mario Roberto Rizkallah, neto do fundador, explica o porquê é hoje o único de sua geração no comando da Casa da Boia.

Mais uma vez o tempo viu o já maltratado casarão de 1909, sede da empresa, caminhando para o que poderia ser o processo natural das coisas, de tantas outras edificações que não resistiram à sua passagem. Ainda mais quando, em 1992, o sobrado foi tombado por ser um dos poucos remanescentes do auge das construções do início do Século XX no centro.

Mas o tempo não precisou testemunhar essa ausência. Por iniciativa própria, o neto de Rizkallah Jorge assumiu para si a responsabilidade de devolver ao sobrado a dignidade de seus tempos primeiros.

No ano de 1998, concluiu a restauração da fachada e de salas da antiga residência da família, que jamais deixou também de abrigar a Casa da Boia.

A restauração da fachada representou o marco temporal de um novo olhar sobre o legado da Casa da Boia.
A restauração da fachada representou o marco temporal de um novo olhar sobre o legado da Casa da Boia.

Nascia um novo interesse da cidade no sobrado pioneiro. A iniciativa repercutiu na mídia, eram os anos iniciais da comunicação digital. Tempo de consolidar a memória dos antepassados e do imóvel central destas histórias.

Se o tempo observou toda esta trajetória de sutilezas que não deixaram a Casa da Boia sucumbir como tantas outras, ele também testemunhou uma forma de materialidade a algo imaterial.

Foi em um mês de agosto. Ano 2016. O Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) reconheceu a importância histórica da Casa da Boia, concedendo à empresa o selo “Valor Cultural da Cidade de São Paulo”.

Como que atestando algo muito sutil no cotidiano da empresa, algo que o dia a dia de características comerciais da loja encobria, esta distinção prestes a comemorar 10 anos, avalizou um movimento que começara de forma orgânica e despretensiosa, quando Mario Rizkallah, em 1998, tomou a primeira iniciativa de caráter cultural, quando, junto da restauração da fachada, criou uma mostra de documentos, objetos e fotos históricas.

E a cidade redescobriu o tesouro arquitetônico agora restaurado.
E a cidade redescobriu o tesouro arquitetônico agora restaurado.

E foi o tempo testemunha do crescimento de um movimento de valorização cultural. Do olhar lançado ao passado, agora materializado na ambientação da loja, quando Adriana Rizkallah recuperou antigos moldes da fundição e os trouxe como protagonistas do espaço, como elementos de conexão e reflexão.

Sem muito alarde, sem que muitos se dessem conta, crescia o tempo do saber. Das descobertas e de contar histórias. Ainda mais quando, a partir de 2018, um projeto de documentação, catalogação, sistematização e descrição de um extenso acervo documental se iniciou, sob os cuidados da historiadora Renata Geraissati.

Adriana Rizkallah ressignificou a concepção da loja.
Adriana Rizkallah ressignificou a concepção da loja.

Vieram os editoriais temáticos, textos analíticos publicados mensalmente; as visitas monitoradas pelos espaços históricos; workshops; palestras; exposições de arte; lançamentos de livros; apresentações musicais; a criação de um blog; os eventos que valorizam a cultura e a gastronomia brasileira, coordenados agora por Luiza Rizkallah, quarta geração da família, à frente de um novo negócio para a empresa.

O tempo que viu, impassível, tantas e tão sutis mudanças, assistiu o surgimento de uma Casa da Boia Cultural, movimento tão sutil quanto fundamental de um novo tempo que consolida um passado comercial e pavimenta o caminho de um novo futuro de infinitas possibilidades.

E Luiza Rizkallah, quarta geração, dá continuidade a um legado ao perpetuar a memória.
E Luiza Rizkallah, quarta geração, dá continuidade a um legado ao perpetuar a memória.

Tomando emprestadas as palavras do poeta cearense: tudo muda. E com toda razão.

Casa da Boia, 128 anos. Reverenciar o passado construindo o futuro.

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