O dia mundial da criatividade e a criatividade na Casa da Boia

No último dia 21 de abril foi celebrado ao redor do mundo o Dia Mundial da Criatividade, uma iniciativa recente, oficializada pela ONU em 2017 para reflexão sobre a criatividade no progresso das sociedades. Criatividade é algo que nunca faltou aqui na Casa da Boia.

O mundo no final do século XIX  vivenciava um “boom” criativo até antes nunca visto em quantidade e velocidade. O desenvolvimento da ciência se acelerava e com ele uma infinidade de possibilidades criativas que nunca antes puderam ser viabilizadas, ainda que tenham sido sonhadas, ou concebidas.

É certo que a criatividade surge junto com a espécie humana, não fosse isso ainda viveríamos em cavernas, mas criatividade sem possibilidade técnica, não passam de ideias no papel.

Quantos projetos de um dos maiores gênios da humanidade, Leonardo Da Vinci, não ficaram apenas no papel por séculos, por falta de tecnologias ou materiais que os trouxessem à realidade?

Nesse aspecto, nenhuma outra era foi tão produtiva quanto o período de aproximadamente cem anos entre a virada do Século XIX e o decorrer do Século XX.

Descoberta de novas tecnologias que permitiram a criação de novos materiais, como os plásticos, novas ligas metálicas, vidros de resistência e precisão, pesquisas sobre a física que possibilitou a comunicação em massa, o domínio de técnicas industriais que permitiram a fabricação de uma infinidade de produtos que, por sua vez, alimentavam novas descobertas, em um ciclo de aceleração constante.

O progresso e a criatividade se expandiram não apenas na ciência estritamente falando-se. As artes, a música, a moda, a gastronomia, os costumes, a educação. Tudo, absolutamente, passa pela criatividade.

A criatividade nas origens da Casa da Boia

"Executa-se qualquer trabalho pertencente a estar arte". Criatividade no "DNA" da Casa da Boia.
“Executa-se qualquer trabalho pertencente a esta arte”. Criatividade no “DNA” da Casa da Boia.

Quando o fundador da nossa empresa, Rizkallah Jorge Tahan, chegou a São Paulo, em 1895, encontrou uma cidade em plena transição de um modelo colonial, (a república havia sido implantada a apenas seis anos) para o de uma cidade em expansão, muito em razão do comércio do café, produzido em seu entorno.

Havia um caminho “óbvio” para aqueles primeiros imigrantes árabes que aqui chegavam: “mascatear”. Ou seja, sair pelas ruas das cidades, vendendo um pouco de tudo.

Mas definitivamente não era essa a ideia de Rizkallah Jorge.

Contam aqueles que o conheceram, que, ao chegar ao Brasil, mesmo sem saber falar a língua do novo país, Rizkallah veio decidido a empreender no ramo que tinha conhecimento. A manipulação do cobre.

Ao chegar a São Paulo empregou-se como faxineiro em uma pequena metalúrgica no centro da capital.

Criatividade e saber técnico foram fundamentais para que, em determinada passagem lembrada por seu contemporâneos, Rizkallah pudesse dar, digamos, seu “primeiro passo” de crescimento por aqui.

Conta Mário Rizkallah, neto do fundador, que esse passo fundamental aconteceu quando “um cliente do dono da empresa onde Rizkallah Jorge havia se empregado, chegou no local querendo desenvolver uma peça metálica sob medida. O dono da metalúrgica já estava dispensando o cliente, porque ele não sabia forjar a peça, mas, meu avô, mesmo com a dificuldade da língua, convenceu os dois que faria a tal peça e assim o fez. Isso impressionou tanto o dono do lugar quanto o cliente”.

Em 1898, ao fundar a sua própria empresa em São Paulo, Rizkallah Jorge levaria a questão da criatividade a sério em seu negócio. Tanto assim que até hoje, na entrada de nossa loja está ainda a pintura original dos tempos do fundador que diz “Executa-se qualquer serviço pertencente a esta arte”.

À medida que a empresa crescia, essa máxima mostrava-se não apenas uma retórica, mas uma prática cotidiana.

Em um catálogo comercial, cuja historiadora Renata Geraissati, pesquisadora da biografia de Rizkallah Jorge, estimou ser da década de 1920, trazia em quase 200 páginas uma enorme variedade de produtos que iam de simples arruelas, porcas e parafusos até produtos para carros, passando por lustres, torneiras, artigos para fogão, e claro, os materiais hidráulicos que deram fama à empresa, como a boia de caixa d’água.

Criatividade na produção impulsionou o sucesso da empresa

Catálogo de 1920 mostrava a variedade de produtos destinados ao "lar", um diferencial criativo da empresa.
Catálogo de 1920 mostrava a variedade de produtos destinados ao “lar”, um diferencial criativo da empresa.

“Muitas pessoas questionam se a Casa da Boia era a única empresa a produzir produtos de cobre naquela época no Brasil. Olhando as fontes disponíveis, como os almanaques comerciais, a gente percebe que não era, mas a Casa da Boia trazia uma diferença fundamental em relação às outras” pondera Renata Geraissati.

“Enquanto as outras poucas empresas que manipulam cobre voltavam sua produção para produção de equipamentos para a lavoura e a indústria do café, que era então o ciclo econômico principal do período, Rizkallah Jorge voltou sua produção para o mercado doméstico. Para as casas mesmo, produzindo uma extensa linha de produtos voltados para o lar, o que diferenciou a Casa da Boia”.

No período em que funcionou como fábrica, sob o olhar criativo de Rizkallah Jorge, é possível perceber que tanto no design quanto na função, a linha de produtos abrangia “todos os gostos”. Produtos simples e peças rebuscadas, materiais com design modesto e outros bastante complexos dividiam o mesmo espaço na produção e certamente ajudavam a empresa a abranger grande número de pessoas.

Há um outro aspecto ao mesmo tempo interessante e não menos criativo na comunicação da Casa da Boia que também ajudaram a empresa a firmar sua marca no imaginário dos clientes.

Ao construir um novo sobrado, que seria a fundição, loja e também residência da família, Rizkallah Jorge opta por uma arquitetura eclética, contemporânea para sua época, alinhada à modernidade (não uma linguagem étnica, que remete às suas origens, como outros imigrantes fizeram).

Nada demais e coerente com um empresário de visão. O toque de criatividade fica pelo detalhe que destoa desta arquitetura, bastante evidente na fachada. A representação de uma grande boia de caixa d’água.

Vale lembrar que, apesar de produzir centenas de peças para uma infinidade de usos, a Rizkallah Jorge e Cia ficou logo conhecida como a “Casa que vendia boia” a “Casa da Boia”, por seu pioneirismo na venda deste produtos ao mesmo tempo simples, mas fundamental para o desenvolvimento da cidade.

Na fachada da empresa a representação da boia, ajudava a identificar o local.
Na fachada da empresa a representação da boia, ajudava a identificar o local.

“Como bem observou uma pessoa durante uma de nossas visitas monitoradas, colocar a representação da boia na fachada foi uma “sacada” de marketing em um tempo em que não existiam mapas interativos, sites ou redes sociais”, lembra Renata Geraissati.

“É preciso lembrar também que falamos de um tempo em que grande parte da população não sabia ler. Assim, ter a representação visual de seu principal produto na fachada tornava mais fácil para as pessoas encontrar o seu estabelecimento”, completa a historiadora.

Legado de criatividade permitiu a longevidade da empresa

É inegável a influência criativa do fundador da Casa da Boia na condução de seu negócio, principalmente naquilo que se refere às decisões do que produzir. A qualidade dos produtos, sua variedade e as possibilidades de mercado que conseguiam abranger levaram a Casa da Boia à posição de liderança absoluta em seu setor de atividade.

Porém, quando Rizkallah Jorge falece, no ano de 1949 e seus filhos assumem o negócio, nem São Paulo, nem o mundo eram o mesmo daquele que permitiu o crescimento exponencial da empresa nos seus 50 anos iniciais.

Rizkallah Jorge sempre prezou por uma produção de qualidade e variada. Algo que fazia sentido no final do Séc. XIX, mas não sustentava a empresa a partir da segunda metade do século XX, quando grandes indústrias já se estabeleciam no país.

Foi a observação criativa deste cenário que fez Salim, Jorge e Nagib, filhos de Rizkallah Jorge e a segunda geração da família no comando da empresa, a tomar uma decisão ousada: encerrar a fabricação dos produtos e passar a ser revendedora das usinas que se instalaram no país a partir da década de 40.

Embora a decisão possa ter sido um dissabor para os clientes mais assíduos da fábrica, se mostrou acertada, à medida que a Casa da Boia se tornou a principal e a mais conceituada distribuidora de metais não ferrosos de São Paulo.

Assim foi que, por mais de 30 anos, a segunda geração da família deu continuidade ao legado do fundador.

Um problema que, com criatividade, se tornou oportunidade

A terceira geração dos Rizkallah começam na empresa por volta dos anos 1970, época em que a Casa da Boia vivia momentos de prosperidade e também de mudanças administrativas. Com o passar dos anos, alguns familiares deixaram a sociedade, que hoje tem como diretor um único neto de Rizkallah Jorge, Mario Roberto Rizkallah.

Foi ele que de forma igualmente criativa transformou um problema em uma oportunidade que deu um novo significado à marca Casa da Boia. E essa fase da história começa com importantes mudanças no centro da capital.

No ano de 1992 a Prefeitura de São Paulo, no âmbito de uma grande remodelação do Vale do Anhangabaú promoveu o tombamento de diversas edificações no entorno do Vale. Dentre elas, o sobrado de 1909 da Casa da Boia.

Como é sabido, quando a municipalidade tomba um imóvel ele passa a ter restrições que variam de acordo com o nível de tombamento.

No caso da Casa da Boia, nada pode ser alterado em sua arquitetura sem a autorização do Departamento de Patrimônio Histórico. Isso causa enormes transtornos ao proprietário que perde autonomia na manutenção e reforma de seu imóvel, para, por exemplo, adequá-lo a novos usos, novas necessidades.

Isso representa um grande problema, pois o imóvel fica “congelado”. Como em uma fotografia, está “condenado” a permanecer do jeito que era no momento do tombamento.

Tombamento do imóvel deu a ele outros usos criativos, como a implementação de um museu.
Tombamento do imóvel deu a ele outros usos criativos, como a implementação de um museu.

Ninguém discute a importância de se preservar a memória arquitetônica e histórica das cidades, mas a realidade é que um imóvel tombado não tem qualquer incentivo por parte do poder público para sua manutenção.

“Quando eu descobri que o imóvel havia sido tombado não fiquei chateado, porque eu mesmo ‘tombei’ a Casa da Boia por minha conta. Quer dizer, eu decidi que não iria derrubar o imóvel e que o manteria sempre bem conservado”, comenta o neto de Rizkallah Jorge, Mario Roberto Rizkallah.

“Em 1997/1998 realizamos, com a autorização do DPH, uma restauração da fachada e de algumas salas do imóvel. Foi quando então decidimos, de uma maneira bem informal mesmo, fazer um pequeno museu, isso por ocasião dos 100 anos da Casa da Boia, em 1998”, explica Mario.

O que surgiu como uma mostra temporária de documentos e fotos antigas, com criatividade e ao longo dos anos, foi gerando na empresa um movimento de fomento a atividades culturais e, com a chegada de Adriana Rizkallah na administração da Casa da Boia, a partir de 2014, culminou na chamada “Casa da Boia Cultural”.

Adriana Rizkallah resignificou a ambientação da loja com grande criatividade, resgatando elementos da antiga fundição e o tubo de cobre como elemento decorativo.
Adriana Rizkallah resignificou a ambientação da loja com grande criatividade, resgatando elementos da antiga fundição e o tubo de cobre como elemento decorativo.

Adriana Rizkallah propôs uma série de interferências criativas na ambientação da loja, passando a usar moldes antigos da fundição como elementos decorativos, trouxe o tubo de cobre para dentro do ambiente da loja, ressignificando seu uso original e implementou uma dinâmica de campanhas comerciais integradas a aspectos culturais e que valorizam o fazer artesanal.

O  núcleo criativo da Casa da Boia Cultural promove palestras, workshops, lançamentos de livros, visitas guiadas, eventos relacionados à gastronomia, (geridos por Luiza Rizkallah quarta geração da família) e abriga o núcleo de pesquisa histórica, responsável pela guarda, identificação e armazenamento de mais de 5.000 documentos históricos da Casa da Boia.

Todas essas atividades são pensadas de forma a poder utilizar o espaço tombado da Casa da Boia, valorizando o imóvel e sua própria história. Se a legislação não permite que novos usos sejam possíveis ao imóvel a lógica foi reforçar a ligação histórica da Casa da Boia com a cidade e a memória paulistana por meio de atividades que se adequem ao sobrado.

Da fundação aos tempos atuais a criatividade foi e é fundamental para que, prestes a comemorar 128 anos de fundação, a Casa da Boia nunca tenha deixado de ser um patrimônio da cidade de São Paulo.

O espaço vem sendo utilizado de forma criativa pela quarta geração da família. Luiza Rizkallah (ao centro) trouxe uma dinâmica com eventos ligados aà gastronomia.
O espaço vem sendo utilizado de forma criativa pela quarta geração da família. Luiza Rizkallah (ao centro) trouxe nova dinâmica com eventos ligados à gastronomia.

Fontes:
https://worldcreativityday.com/en/brazil/

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