A virada do Séc. XIX para o XX foi o momento das grandes transformações tecnológicas para a humanidade. São Paulo vivenciou essas mudanças de forma profunda, quando em poucos anos deixou de ser uma vila provincial para se tornar uma cidade cosmopolita, erguida com novas técnicas e materiais.
Tentemos imaginar a cidade de São Paulo antes da metade do Século XIX. Para quem nasceu e cresceu na metrópole de arranha-céus, trânsito caótico, transporte coletivo ineficiente, mas, com plena infra-estrutura urbana pode ser difícil pensar em uma localidade que não era mais do que o que podemos pensar hoje em uma cidadezinha do interior mais distante do país.
Casas baixas, construídas em taipa de pilão (barro socado) ou adobe (tijolos de terra crua, água, palha ou outras fibras naturais, moldados em fôrmas por processo artesanal) até traziam algum conforto com suas paredes grossas, mas extremamente vulneráveis à umidade crônica.
O calçamento em pedras e as ruas minimamente urbanizadas eram restritas à região central e é também nessa região que havia a pouca infra-estrutura de distribuição de água, que não chegava até as casas.

Havia nessa época os chafarizes públicos, nos quais escravos ou empregados mal remunerados, das famílias mas abastadas recolhiam a água para uso.
O esgoto produzido? Transportado por esses mesmos escravos ou empregados em grandes recipientes e despejados nas águas do Tamanduateí ou do Anhangabaú.
Não era difícil imaginar que esse cenário trazia para a cidade uma condição insalubre e São Paulo não poderia se orgulhar de ser uma localidade exemplar no saneamento.
Essa condição começa a mudar quando as autoridades percebem que, com o crescimento populacional, a cidade precisava de alguma ordenação.
A organização e o controle da saúde pública em São Paulo eram regidos por decretos pontuais e leis imperiais que lidavam com questões como sepultamentos, vacinação, organização policial e posturas municipais, mas até o final do Séc. XIX não havia uma legislação consolidada que regesse minimamente as diretrizes de uma cidade ambientalmente organizada.
O Código Sanitário de 1894 e o impacto para a Casa da Boia
Quando da proclamação da República Brasileira, em novembro de 1889, o legislativo passou a olhar a questão sanitária, mas ainda de forma fragmentada. A Lei n.º 12, de outubro de 1891, extinguiu o antigo Conselho de Saúde e organizou o primeiro Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, dando os primeiros passos para centralizar a vigilância epidemiológica e combater epidemias, como a febre amarela.

A Lei n.º 43, de março de 1892, estruturou formalmente o Serviço Sanitário paulista, vinculando-o ao recém-criado Instituto Bacteriológico. Já a lei n.º 240, de setembro de 1893, determinou uma nova reestruturação nos serviços de saúde do estado e foi o marco jurídico que autorizou o governo a redigir e aplicar o extenso Código Sanitário de 1894.
Formulado sob o impacto das ideias de Emílio Ribas e Victor Godinho, o Decreto n.º 233, de 2 de março de 1894, foi a primeira legislação consolidada que trazia um regramento à questão da sanidade urbana.
Pela primeira vez o Código consolidou centenas de regras em uma única legislação, com 520 artigos focados em saneamento, drenagem, exigências estruturais para habitações e controle rigoroso de espaços públicos e doenças.
Ele proibiu, por exemplo, o uso de poços e fossas nas áreas servidas pela rede pública. Entre tantas outras medidas, o código determinava que toda edificação era obrigada a se conectar à rede de água e esgoto e a possuir vasos sanitários com fecho hidráulico (sifões) e caixas de descarga.
Vale lembrar que a Casa da Boia foi fundada pelo imigrante Sírio Rizkallah Jorge Tahan no ano de 1898, apenas quatro anos depois da promulgação do código sanitário, mas importante também recordar que Rizkallh Jorge chegara ao Brasil em 1895 e entre sua chegada e a fundação de sua empresa, o empreendedor possivelmente enxergava no crescimento da cidade e na legislação uma oportunidade de negócios.
Rizkallah chegou ao país trazendo um importante capital pessoal, o conhecimento das técnicas de manipulação do cobre. Em seus anos iniciais, esse conhecimento foi aplicado na fabricação de objetos de uso doméstico, com foco em decoração, como lustres, arandelas e grades para portões, por exemplo.
Possivelmente à medida que conseguia juntar capital com suas vendas foi investindo em sua fábrica para conseguir suprir a demanda da infra-estrutura urbana que se criava com o crescimento populacional e regida pelos códigos Sanitário e de Posturas, que, basicamente, determinavam com a “nova” São Paulo deveria ser construída.
Isso impactou diretamente o crescimento de sua empresa.
As tecnologias e o controle da municipalidade no crescimento da cidade
Tudo caminhava junto naquele momento histórico.

O crescimento da cidade e o cumprimento das determinações das legislações dependiam da tecnologia. Ao mesmo tempo, não bastava a criação de uma legislação detalhada sem que a própria municipalidade tivesse condições de, no âmbito público, criar as condições para que os indivíduos se adequassem às normas.
Em outras palavras, como exigir que as edificações, por exemplo, se integrassem a uma rede de esgotos ou de distribuição de água, se esta não existisse?
As principais companhias de infra-estrutura da cidade surgem ainda antes da edição do Código Sanitário e mesmo da chegada de Rizkallah Jorge ao Brasil.
A San Paulo Gas Company (companhia de distribuição de gás), data de 1872, inaugurada por investidores ingleses para suprir a infra-estrutura de iluminação pública a gás.
Em 1877 a Companhia de Águas e Esgotos (Cantareira) inicia as obras do primeiro sistema de distribuição de água encanada e rede coletora do centro, embora de forma ainda muito incipiente.

Em 1899 a The San Paulo Tramway, Light and Power Co. é fundada com o objetivo de fornecer a infra-estrutura elétrica para a capital.
As três companhias que eram o tripé do desenvolvimento da cidade foram impactadas diretamente pelas tecnologias que se sucediam, exigindo em curto espaço de tempo, frequentes mudanças em seus serviços (e a infra-estrutura para eles) a medida da evolução tecnológica.
Utilizando uma expressão contemporânea, a Casa da Boia “surfou” essa onda de crescimento populacional e avanços tecnológicos.
Como observa a historiadora Renata Geraissati, pesquisadora da imigração árabe em São Paulo e responsável pelo tratamento do acervo histórico da Casa da Boia “Rizkallah Jorge soube ler o seu tempo e diferente de outras empresas do mesmo segmento que focaram sua produção em máquinas para a cafeicultura, levou a Casa da Boia a produzir, tanto para o espaço do lar, comercializando com o público privado, quando para a infra-estrutura urbana, fornecendo insumos para as companhias públicas à frente do desenvolvimento da cidade”.
A era do metal na tecnologia

Vale considerar que aquele momento histórico (a virada do Século XIX para o XX) pode ser considerado como a consolidação do metal na tecnologia.
A eletricidade trouxe a necessidade de estações de energia, cabos, postes, acessórios e fiação para o sistema de bondes, trilhos, pontes, viadutos, dutos para gás, instalações hidráulicas residenciais e comerciais, torneiras, válvulas, sifões, caixas d’água e as suas boias, registros de vapor e gás, quadros elétricos, fogões a gás, ferro para as construções… tudo naquela sociedade moderna exigia algum metal.
Embora os dados do crescimento da cidade possam ser interpretados de várias formas dependendo da fonte de pesquisa, é consensual que entre o final do século XIX e a década de 1930 a cidade de São Paulo quadruplicou de tamanho, o que mostra o imenso crescimento vivenciado pela Casa da Boia neste cenário.
O plástico entra em cena
O pioneirismo da Casa da Boia se deu não apenas pela sua fundação em um momento histórico em que a cidade de São Paulo vivia seu primeiro ciclo de crescimento vertiginoso, mas também porque o saber técnico de Rizkallah Jorge permitia que sob seu comando a empresa fosse capaz de adequar sua produção desenvolvendo ligas de cobre e seus derivados adequados às necessidades da época.
Foi somente muitos anos depois da consolidação da empresa que o Brasil viria a ter uma indústria de grande porte focada na manipulação deste metal.

Foi somente a partir de 1942 que a Termomecânica, fundada pelo engenheiro Salvador Arena na cidade de São Bernardo do Campo, tornou-se a grande pioneira e líder no setor de transformação de cobre e suas ligas (bronze, latão) em barras, tubos e fios no país.
Aliás, o Brasil, como nação, só teria uma refinaria de cobre a partir de 1969, com a fundação da Caraíba Metais, pelo governo federal, na Bahia.
Até hoje a Usina Caraíba, atualmente pertencente ao grupo Paranapanema, é a única a processar cobre eletrolítico no país.
A partir do desenvolvimento da química e a invenção do Policloreto de Vinila, o famoso (PVC) nos anos 1950, aliado a um projeto desenvolvimentista brasileiro que previa a construção de milhões de habitações “populares” no território nacional, o “plástico” foi ganhando corpo nos projetos de construção civil.
Afinal, a nova tecnologia era mais barata e rápida para a construção de casas populares. Hoje o PVC e demais polímeros plásticos são a opção padrão para os sistemas de água fria.
O metal, entretanto, não perdeu sua utilidade

O cobre é ainda a referência quando a necessidade são sistemas de água quente, de alta pressão, tubulações de gás, refrigeração, toda a cadeia de produção elétrica.
Enquanto o plástico substituiu os encanamentos metálicos, o cobre, o latão e suas ligas ainda são o metal padrão nos mecanismos internos de válvulas e torneiras.
Sendo o segundo melhor condutor elétrico na natureza (o primeiro é o ouro) e, quando aplicado de forma correta, um metal indestrutível, o cobre tem ainda papel fundamental para o desenvolvimento humano e, modestamente, ao comercializar o cobre há 128 anos, a Casa da Boia continua fiel ao produto que deu origem à sua história e ajudou a erguer a São Paulo do Século XX.




