Vozes da Memória: a Imprensa Imigrante

A criação de vínculos em uma terra estrangeira no momento das grandes imigrações para o Brasil, passou pela constituição de entidades, associações, clubes, sociedades de ajuda mútua e a construção de templos religiosos, por exemplo. A dificuldade de se adaptar à língua, assim como a necessidade de ampliar as redes de informações impulsionou a criação de uma imprensa imigrante.

Pode parecer mentira, olhando o tempo histórico, mas, embora os portugueses tenham chegado às terras brasileiras em 1500 até o ano de 1808 o Brasil não tinha uma imprensa regular.

Segundo o site da Biblioteca Nacional, na postagem “Origens da Imprensa no Brasil”: “Oficialmente, o primeiro jornal a ser publicado no Brasil foi a Gazeta do Rio de Janeiro, lançada na capital a 10 de setembro de 1808 pela Impressão Régia, instituída pelo reinado de Dom João VI.

Mas, apesar de oficial, sem liberdades críticas, na prática, ela foi apenas o segundo jornal da história da imprensa brasileira: o periódico pioneiro desta terra brasilis foi o Correio Braziliense, editado na Inglaterra pelo brasileiro Hipólito José da Costa, que o lançou apenas três meses antes da Gazeta…”

Durante pouco mais de 300 anos a Coroa Portuguesa proibia rigorosamente a instalação de tipografias e a circulação de impressos. Todo o material escrito circulava de forma manuscrita e os jornais só passaram a existir oficialmente com a chegada da Família Real e a criação da Impressão Régia.

A imprensa “livre” no Brasil já surge de forma independente e “burlando” o que já se poderia chamar de censura, ou uma perseguição às ideias que não fossem de interesse da Monarquia.

O primeiro jornal brasileiro era editado no "estrangeiro" e contrabandeado para o país por ser crítico à moarquia.
O primeiro jornal brasileiro era editado no “estrangeiro” e contrabandeado para o país por ser crítico à monarquia.

Os exemplares do Correio Braziliense eram impressos em Londres por Hipólito José da Costa e despachados de forma clandestina em navios mercantes ingleses e portugueses que viajavam rumo aos portos do Rio de Janeiro, Salvador e Recife.

Os pacotes de jornais eram escondidos nos porões dos navios, misturados a mercadorias autorizadas, tecidos ou guardados em fundos falsos de caixas de comércio.

Já aqui em terras brasileiras a distribuição no Brasil contava com o apoio de redes maçônicas e intelectuais simpáticos às ideias iluministas, que recebiam e redistribuíam os exemplares em reuniões secretas.

Mesmo com a proibição e a ameaça de prisão para quem fosse pego com um exemplar, o jornal circulou mensalmente de 1808 a 1822, tornando-se a principal voz de debate político sobre o futuro do Brasil.

As coisas foram caminhando até o momento do grande fluxo migratório de cidadãos, principalmente, europeus, para o Brasil, a partir de 1824, quando chegaram a São Leopoldo (RS) 39 imigrantes alemães.

Em São Paulo o fluxo migratório começou um pouco mais tarde. A primeira tentativa organizada ocorreu a partir de 1847 na Fazenda Ibicaba, em Limeira, trazendo os primeiros grupos de alemães e suíços.

A imigração ganhou força e escala a partir de 1887, quando o governo e os cafeicultores passaram a incentivar esse fluxo de pessoas para trabalhar nas lavouras de café.

Italianos foram pioneiros em periódicos

Os italianos formaram o maior contingente, chegando majoritariamente pelo Porto de Santos para substituir a mão de obra escrava.

Logo depois começavam a chegar os sírios e libaneses e já no início do Século XX, os japoneses.

No post aqui do blog da Casa da Boia, intitulado “União e legado. As entidades árabes em São Paulo” a gente conta como essa colônia em particular, formou redes de apoio e sociabilização na cidade que perduram até hoje.

Mas a imprensa étnica não foi exclusividade dos sírios-libaneses, ao contrário, o pioneirismo coube aos italianos.

Os primeiros jornais de caráter italiano publicados em São Paulo foram identificados a partir de 1870. “Garibaldi” e “Il Movimento” do mesmo ano.

A partir deste pioneiro, muitos outros periódicos foram editados pelos Italianos, como o “Il Corriere D’Italia”, “L’Emigrante” e “La Bestia Umana” Em 1886-1887: “Gli Italiani a San Paolo” e “Il Tevere”.

Em 1890 surgem “Il Progresso Italo-Brasiliano”, “Il Cittadino Italiano” e “Il Pensiero Italiano”

Il Fanfulla, jornal da comunidade italiala, foi editado por 125 anos.
Il Fanfulla, jornal da comunidade italiala, foi editado por 125 anos.

Mas foi o jornal “Il Fanfulla”, fundado pelo imigrante Vitaliano Rotellini, em 1893, na Rua Líbero Badaró, que obteve o maior sucesso na comunidade.

Chegou a rivalizar com grandes jornais paulistanos, como o “Estadão”, que em 1910 imprimia 20.000  exemplares diários, contra 15.000 do Il Fanfulla. 

Começou com perfil humorístico, engajando-se posteriormente em campanhas em defesa dos imigrantes italianos radicados no país. Os conteúdos eram produzidos para as seções de política, cultura, variedades e esportes.

Ao longo dos anos o jornal passou por diversas mudanças de periodicidade, número de páginas e orientação política. Mas sempre bem aceito pela comunidade. 

Em 1941 passou a ser editado em língua portuguesa, visando atender as determinações legais sobre publicações em língua estrangeira no Brasil. Deixou de circular durante a Segunda Guerra Mundial, voltando a ser publicado diariamente, e em italiano, em 1947. 

Em 1966 voltou a ser semanal, com o nome La Settimana. Em 1979 passou a chamar-se La Settimana del Fanfulla, retomando o nome original em 2001. Em 2011, tornou-se quinzenal e a partir de 2014 foi convertido em uma publicação unicamente digital, apresentando-se como “O jornal dos italianos no Brasil desde 1893”.

O Il Fanfulla Encerrou suas atividades em 2018.

Os veículos árabes

Al-Fayha, primeiro jornal editado em árabe no Brasil.
Al-Fayha, primeiro jornal editado em árabe no Brasil.

Segundo o site da Agência de Notícias Árabe Brasileira, ANBA, em matéria intitulada “Imprensa árabe no Brasil, um patrimônio da imigração”:

“A imigração árabe ao Brasil acontecia desde o século XVIII, tendo um dos primeiros imigrantes em Joseph Ibrahim Nehmé, que saiu de Deir El Kamar, no emirado do Monte Líbano, em 1795”.

O primeiro jornal publicado no Brasil e na América Latina em língua árabe foi o Al-Fayha, Mundo Largo. 

Feito por Salim Iuhana Balich, de Zahle, ele foi veiculado em Campinas, no estado de São Paulo, em 1894. Em 1896, Balich criou o segundo jornal, chamado Al-Barazili, que em português é O Brasil, em Santos, São Paulo, juntamente com Antun Najar, igualmente de Zahle. Depois o jornal Al-Fayha fundiu-se ao jornal Al-Barazili, em 1897.

A partir de 1894 o número de jornais, revistas e livros em idioma árabe e bilíngues árabe-português floresceu no Brasil. Eles eram para os árabes uma ligação social que ajudava a conservar a língua materna e costumes e a difundir as novidades do Oriente. 

Além do Al-Barazili, surgiram jornais como al-Rabik, de 1896 e que quer dizer O Observador; e al-Munázir “O Replicador”, de 1899. 

A Vinha, editado pela imigrante síria Salwa Atlas, considerada pioneira nas revistas voltadas à mulher.
A Vinha, editado pela imigrante síria Salwa Atlas, considerada pioneira nas revistas voltadas à mulher.

Em 1900 foi criado o grupo literário, cultura, social e político com o nome do grande poeta árabe de Alepo, Abū-l-ʿAlā’ al-Maʿarrī, em São Paulo, pelo jornalista e político Naun Labaki, no intuito de ser um local para encontro dos letrados árabes e para ensinar a ler e a escrever em língua árabe aos principiantes, a maioria mascates árabes.

Em seguida surgiram vários outros jornais e revistas árabes, como Al-Afkar, Os Pensamentos, 1903-1941 de Said Abujamra. Era, na verdade, o antigo jornal Al-Barazili que mudou de dono e nome.

Também surgiram publicações como Al-Carmat, A Vinha, 1914-1948, de Salwa Atlas, que foi a primeira revista feminina nas Américas. 

Entre as muitas outras publicações que apareceram na época estiveram Suria Al-Jadidat, a Nova Síria, de 1918 e de Habib Hanun; a Revista Oriente, em 1928, de Mussa Kuraiem; Etapas, 1955-1983, de Mariana Dabul Fajuri; Al-Akhbar Al-Arabe, Notícias Árabes, de 1961 e de Nabih Abou El Hosn e Assaad Zaidan.

A busca pela identidade e o silenciamento forçado

Não apenas italianos e árabes tiveram seus veículos de comunicação em São Paulo.

Diario Español.
Diario Español.

O  “!Diario Español”, fundado em 1912 ditado por José Eiras Garcia na região central, era o principal elo da colônia espanhola na cidade.

Além das notícias políticas, o jornal ficou famoso pela seção “Personas Buscadas”, que ajudava famílias que haviam se desencontrado no tumulto da Hospedaria dos Imigrantes ou nas fazendas de café do interior paulista a se reunirem novamente.

O “Germania” (1877) e o Deutsche Zeitung für São Paulo (1897), publicados na capital paulista, atendiam a uma colônia com forte identidade cultural. Focavam em debates comunitários, na educação luterana e católica, no comércio local e em detalhadas crônicas da Europa contemporânea.

Essa efervescência cultural e linguística sofreu uma interrupção abrupta e violenta com a ascensão da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, em 1937. 

Sob o pretexto de garantir a segurança interna e combater a formação de “quistos étnicos” (comunidades isoladas e avessas à integração), o governo ditatorial instaurou a Campanha de Nacionalização, uma série de medidas que impactaram diretamente a imprensa étnica.

Deutsche Zeitung für São Paulo
Deutsche Zeitung für São Paulo

Getúlio decretou o fim das escolas estrangeiras, com o Decreto-Lei nº 406, de 1928, que proibiu qualquer escola de ensinar matérias em línguas estrangeiras. Escolas fundadas por colônias foram forçadas a adotar exclusivamente o português e a trocar seus professores por brasileiros natos.

Com o Decreto-Lei nº 3.536, de 1941, foi banida a publicação de periódicos em qualquer língua que não fosse o português. Apenas raras exceções comerciais sobreviviam sob a exigência de uma tradução literal linha por linha. 

Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial em 1942, a proibição de idiomas dos países do Eixo (alemão, italiano e japonês) tornou-se absoluta.

Para as redações paulistanas, o impacto foi demolidor. Jornais pioneiros fecharam as portas porque seu público, composto por imigrantes de primeira geração, não dominava o português formal. 

O próprio gigante Il Fanfulla teve de ser aportuguesado às pressas, passando a se chamar apenas Fanfulla e a escrever em português, perdendo grande parte de sua essência e leitores históricos. 

Pilhas de arquivos históricos de jornais de época foram destruídas ou queimadas pelas forças de segurança da época, enterrando décadas de registros da nossa memória urbana.

Estas medidas duraram até o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, quando também se encerra a ditadura Vargas.

Edital da Polícia ameaçava quem falasse os idiomas dos três países envolvidos na Segunda Guerra.
Edital da Polícia ameaçava quem falasse os idiomas dos três países envolvidos na Segunda Guerra.

Com o fim do conflito e a derrota dos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) — cujas línguas eram os principais alvos da repressão —, as medidas de exceção perderam seu sentido prático e político.

A queda da ditadura do Estado Novo permitiu a reorganização da sociedade civil e a retomada das liberdades democráticas e de imprensa garantidas pela Constituição de 1946.

Escolas e jornais de colônias (como as italianas, alemãs e japonesas) foram autorizados a reabrir e circular, desde que adequados às leis nacionais e ministrando o currículo básico em português.

Essas restrições atingiram em cheio os veículos da comunidade japonesa, a última a chegar ao país durante o período da grande imigração. Os nipônicos desembarcaram em Santos em 1908 apenas.

São Paulo Shinbun foi impresso em japonês por 102 anos e agora é um portal digital.
São Paulo Shimbun foi imprsso por 102 anos e agora é um portal digital.

A história dos impressos em língua japonesa publicados no Brasil teve início em 1916, apenas oito anos após a chegada dos primeiros imigrantes e isso é interessante quando se olham dados da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, que mostram que dentre os imigrantes japoneses que desembarcaram no porto de Santos entre 1908 e 1932, quase 90% eram alfabetizados.

Isso explica o surgimento de uma grande quantidade e variedade de jornais e de revistas nikkeis no período pré-guerra e o alto índice de assinantes desses periódicos. Na década de 1930, somente no estado de São Paulo, havia cinco grandes impressos: o Burajiru Jihô (Notícias do Brasil, São Paulo, 1917-1941), o Nippak Shimbun (Jornal Nipo-Brasileiro, São Paulo, 1916-1939), o Seishu Shinpô (Semanário de São Paulo, São Paulo, 1921-1941), o Nippon Shimbun (Jornal do Japão, São Paulo, 1932-1941) e a Aliança Jihô (Notícias da Aliança, que circulou na colônia japonesa de mesmo nome no oeste do estado de São Paulo entre 1929-1937).

Surgem novas mídias

Conforme o século XX avançou e as proibições da era Vargas foram revogadas no pós-guerra, as comunidades imigrantes encontraram novas mídias para se conectar: primeiro as ondas do rádio e, depois, as telas da televisão.

Logo após a Segunda Guerra, o rádio paulistano assistiu ao nascimento de programas focados em canções, notícias e utilidade pública para as comunidades. 

Programas em italiano tocando óperas e músicas tradicionais (como “La Voce d’Italia” ou “Itália Nossa” em momentos posteriores) tornaram-se companhias diárias de milhares de famílias que almoçavam aos domingos em bairros como o Bixiga.

Notícia de jornal fala sobre as novidades do programa Imagens do Japão.
Notíca de jornal fala sobre as novidades do programa Imagens do Japão.

A comunidade japonesa, que havia sofrido enormemente com as perseguições e a censura nos anos 1940, encontrou na televisão de meados do século XX um espaço fundamental para resgatar sua dignidade e apresentar sua cultura ao público brasileiro em geral.

O programa Imagens do Japão,  lançado pelo produtor Mario Okuhara na TV Tupi e apresentado por Rosa Miyake (que ficou impressionantes 40 anos à frente da atração) foi um marco absoluto da televisão aberta em São Paulo. Ele começou na TV Tupi e depois passou por emissoras como Record, Bandeirantes e Gazeta.

Aos domingos, a atração chegava a ter várias horas de duração e exibia um panorama completo do universo nipônico: novelas dramáticas, desenhos animados e seriados japoneses de sucesso, musicais com estrelas do Japão que visitavam o Brasil e notícias diretamente de Tóquio.

Para os imigrantes e seus descendentes (os nikkeis), o Imagens do Japão era o elo dominical com as raízes culturais, além de ter sido um elemento decisivo para integrar e popularizar a rica cultura japonesa entre a própria população paulistana.

O Imagens do Japão fazia tanto sucesso que gerou um “concorrente” na década de 1980 o Japan Pop Show, que também ficou muito conhecido na TV aberta. 

E a Internet “encolheu” o mundo

A criação e ascensão dos veículos de imprensa de imigrantes quando de sua chegada ao Brasil, no século XIX foi fundamental para o estabelecimento de redes de relacionamentos e de difusão de notícias da terra natal e também sobre os acontecimentos aqui no “novo mundo”.

Vale uma reflexão final sobre se essa migração acontecesse nos dias de hoje, estes veículos cumpririam essa função? ou mesmo esses veículos existiriam?

Possivelmente não. Foram frutos de seu tempo e tiveram o seu grande valor, tanto que são objetos de estudo histórico.

Hoje pulverizadas em centenas de milhares de fontes, sites, blogs, posts de redes sociais, influenciadores, canais de notícias internacionais e grupos de WhatsApp, as notícias estão acessíveis ao clique de um celular, “pulando” a necessidade de um veículo de comunicação que fosse um agregador identitário.

Muda o mundo. Fica a história.

Fontes:

https://museudaimigracao.org.br/acervo/jornais

https://www.encontro2018.sp.anpuh.org/resources/anais/8/1533102261_ARQUIVO_TrabalhoCompleto-AEtnicidadedoImigranteItalianonosPeriodicosnaCidadedeSaoPaulo1870.pdf

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