Conheça os caminhos de Dom Pedro I ao proclamar a independência

No próximo dia 7 o Brasil comemora 204 anos de independência, cujo brado, heróico e retumbante, foi ouvido às margens plácidas do riacho do Ipiranga. Mas, o que não se conta direito na escola é que a viagem que precedeu esse acontecimento histórico começou quase um mês antes e passou por locais que até hoje existem, muitos dos quais podem ser visitados.

No início do Século XIX a situação política da monarquia vinha se tornando a cada ano mais instável. Inúmeros são os fatores que tencionavam as relações entre Brasil colônia e Portugal e não caberiam aqui em uma simples postagem de um blog.

Vamos nos ater, então, à situação do ano de 1822.

A união do Brasil era um tema que estava sendo muito pensado e discutido depois que Dom João VI retornou a Portugal em 1821, deixando o Príncipe Regente Dom Pedro I no comando da colônia.

O historiador Diego Amaro de Almeida, pesquisador do Centro Salesiano de Pesquisas Regionais e vice-presidente do Instituto de Estudos Valeparaibanos, comenta que “não foi fácil para o jovem príncipe e futuro imperador do Brasil enfrentar os diferentes caminhos que os membros da elite do país pretendiam trilhar. Havia três possibilidades apontadas por lideranças influentes na colônia. 

Um caminho pretendido pelos portugueses, que desejavam que Dom Pedro I retornasse a Portugal e que todas as leis que possibilitavam ao Brasil algum tipo de emancipação fossem derrubadas.

Outro grupo, liderado por Joaquim Gonçalves Ledo, queria que o Brasil se tornasse independente, seguindo o rumo da América Espanhola, onde as províncias se tornaram repúblicas.

Entretanto, o modelo que prevaleceu foi o defendido por José Bonifácio de Andrada e Silva, que propunha que o Brasil se separasse de Portugal, mas que mantivesse a manutenção do regime monárquico constitucional, com a finalidade de preservar a unidade política e territorial”, conta o historiador.

Nesse contexto, a província de São Paulo vivia um momento conturbado, com um princípio de motim em que parte da elite intelectual, política e econômica ameaçava se recusar a cumprir ordens da capital.

Para evitar a submissão do Brasil à Portugal ou a fragmentação do território, Dom Pedro precisava se mostrar um líder capaz de realizar um plano ambicioso de independência de um território de proporções continentais. E ainda precisava de apoio financeiro. Na época, o Vale do Paraíba era um dos motores econômicos do País. “Todos aqueles que produziam o café prosperavam, e de maneira rápida”, lembra Almeida. “Ou seja: era o lugar ideal para firmar alianças.”

E assim começa a viagem

Com a missão de angariar apoio ao seu projeto de Brasil na bagagem, no dia 14 de agosto de 1822, o príncipe saiu da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, em direção à província de São Paulo . Tinha uma comitiva de 30 homens e um roteiro pré-determinado, com paradas estratégicas ao longo da rota.

O site da BBC, na postagem “A longa viagem de Dom Pedro 1º que culminou no Grito do Ipiranga”, descreve o roteiro da comitiva, bem como o faz matéria publicada no site do G1 “Caminho da Independência: veja a rota que Dom Pedro I fez no Vale do Paraíba até o 7 de setembro”. Outro artigo importante sobre essa viagem “Erros e acertos do caminho da Independência” foi publicado no site da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo, FAPESP.

Com base nessas e outras fontes a gente “remontou” esses caminhos que passam por locais e cidades, muitos dos quais que podem ser ainda hoje visitados.

Atual 1º Batalhão de Engenharia de Combate. Primeiro local por onde Dom Pedro I passou na viagem da indendência.
Atual 1º Batalhão de Engenharia de Combate. Primeiro local por onde Dom Pedro I passou na viagem da indendência.

A primeira parada, apenas para pernoitar, foi na Fazenda de Santa Cruz, de propriedade da família imperial, ainda no Rio.

Sua enorme área transformou-se no atual bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro e o prédio da sede (antigo convento dos jesuítas adaptado a palácio real/imperial) hoje abriga o 1º Batalhão de Engenharia de Combate – Batalhão Villagran Cabrita, do Exército.

Apesar de ser uma instalação militar, o local abriga o Parque Histórico Ten. Coronel Villagran Cabrita, que pode ser visitado mediante agendamento prévio por meio do e-mail: comsoc1becmbes@gmail.com.

No dia seguinte, a comitiva adentrava em terras paulistas. O futuro imperador visitou o capitão Hilário Gomes de Almeida em suas terras, a então Fazenda Três Barras, em Bananal. O local funcionou como um hotel fazenda até 2019, quando foi vendido e hoje não pode mais ser visitado.

Um almoço inusitado em São José do Barreiro

Fazenda Pau D'alho, onde, contam, Dom Pedro almoçou com criados.
Fazenda Pau D’alho, onde, contam, Dom Pedro almoçou com criados.

A parada seguinte foi na Fazenda Pau D’Alho, em São José do Barreiro, onde, conta-se, Dom Pedro teria almoçado só, com os empregados da casa. Isto porque o príncipe teria apostado corrida com os demais membros da comitiva, chegando antes do previsto, sozinho, à fazenda.

Sem se identificar como príncipe, pediu comida para a proprietária da casa, que o atendeu, mas pediu para que comesse na cozinha “porque a sala de jantar estava sendo preparada para receber o príncipe regente”.

A Pau d’Alho chegou a ser referência em turismo histórico na região, tinha entrada gratuita e monitores para visitas guiadas. Entretanto, desde o início de 2025, a visitação pública foi suspensa por tempo indeterminado pelo IPHAN, já que ela é um bem tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional.

Existe um projeto em andamento que busca conceder o território da Pau d’Alho para a iniciativa privada por cerca de 45 anos. O plano é a construção de um hotel de luxo de 60 quartos na área ao redor da propriedade.

No mesmo dia, a comitiva do príncipe chegou à casa do capitão-mor Domingos da Silva, em Areias. O imóvel ainda existe, atualmente se chama Fazenda São Domingos, mas é de propriedade particular e não recebe visitas. 

No dia seguinte, uma parada rápida, apenas para almoço, em Porto Cachoeira, hoje Cachoeira Paulista. Na noite do dia 18, Dom Pedro chegou a Lorena, onde o  futuro imperador cumpriu uma agenda pública na cidade. 

A Rua das Palmeiras em Lorena

Em Lorena Dom Pedro teria plantado uma das palmeiras, que dão nome à rua da cidade.
Em Lorena Dom Pedro teria plantado uma das palmeiras, que dão nome à rua da cidade.

Teria plantado uma palmeira no que se tornaria a rua das Palmeiras, no centro do município, e visitou a antiga Casa de Câmara e Cadeia e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

No dia 19 de agosto, o grupo partiu para Guaratinguetá, onde Dom Pedro foi hóspede do capitão-mor Manoel José de Melo, em um imóvel que não existe mais.

Dom Pedro tinha alí novo compromisso público: visitar a então capela de Nossa Senhora Aparecida, que já abrigava a famosa imagem que teria sido encontrada por pescadores no Rio Paraíba, em 1717.

O prédio original daquela época não existe mais; ele deu lugar à Basílica Histórica, inaugurada em 1888 na atual cidade de Aparecida (até 1928 Aparecida era um bairro/território de Guaratinguetá) para comportar a forte devoção popular e que fica bem próxima do Santuário Nacional de Aparecida.

Uma promessa em Aparecida

Relatos afirmam que Dom Pedro teria rezado na igrejinha e feito uma promessa: se tudo corresse bem, ele faria de Nossa Senhora Aparecida a padroeira do Brasil independente. Na realidade, depois de se tornar imperador, Pedro I escolheu São Pedro de Alcântara como padroeiro.

"Basília Velha" de Aparecida. Construída no local onde Dom Pedro teria feito a promessa de tornar a santa padroeira da independência.
“Basília Velha” de Aparecida. Construída no local onde Dom Pedro teria feito a promessa de tornar a santa padroeira da independência.

De lá, a comitiva partiu para Pindamonhangaba, onde teria se hospedado no sobrado do monsenhor Ignácio Marcondes de Oliveira Cabral, irmão do então capitão-mor. A residência não existe mais, porém a cidade guarda a memória dos homens que se ofereceram para integrar a chamada guarda de honra do príncipe.

Há um monumento na praça central da cidade em alusão a este fato. E a igreja de São José guarda um panteão onde estão enterrados todos os pindamonhangabenses que integraram a guarda do nobre.

A parada seguinte foi em Jacareí, onde Dom Pedro ficou hospedado na casa do capitão-mor Cláudio José Machado.

Em Mogi das Cruzes, onde a comitiva chegou em 23 de agosto, Dom Pedro hospedou-se na casa do capitão-mor Francisco de Mello e assistiu à missa na então Igreja de Sant’Ana, hoje catedral homônima na cidade.

Antiga Igreja da Penha onde Dom Pedro teria assistido uma missa ao chegar a São Paulo.
Antiga Igreja da Penha onde Dom Pedro teria assistido uma missa ao chegar a São Paulo.

Penha de França, hoje bairro do município de São Paulo, foi a última parada antes da capital paulista. Dom Pedro dormiu ali uma noite, do dia 24 para o dia 25 de agosto, e assistiu a outra missa na igreja matriz.

O grupo chegou a São Paulo na manhã do dia 25 de agosto, onde houve uma entrada oficial.

Dom Pedro foi recebido por vereadores, religiosos e a população em frente à Igreja do Carmo, a única edificação original restante desta passagem do príncipe pelo local.

A viagem ao litoral e o retorno pela Serra do Mar

Depois de ter costurado alianças pelas cidade do Vale do Paraíba, Dom Pedro I passou alguns dias articulando apoio entre a elite econômica da capital, recebendo a hospedagem hora na propriedade do coronel Antonio da Silva Prado (Barão de Iguape) e ora na casa de Manoel Rodrigues Jordão (Brigadeiro Jordão), no centro da capital.

De lá, em 5 de setembro de 1822, Dom Pedro partiu para o Litoral, pelo Caminho do Mar, que ligava o planalto à Cubatão, a fim de inspecionar os fortes do litoral paulista na região de Santos.

Foi na volta desta viagem que se precipitaram os acontecimentos que culminaram no famoso “grito do Ipiranga”.

Quadro de Oscar Pereira da Silva retrata tropeiros na Calçada do Lorena.
Quadro de Oscar Pereira da Silva retrata tropeiros na Calçada do Lorena.

Assim, na madrugada do dia 7 de setembro, Dom Pedro e cerca de 32 pessoas saíram de Cubatão para a capital de São Paulo subindo a Calçada do Lorena. O nome é uma homenagem ao governador da capitania de São Paulo, o português Bernardo José Maria de Lorena (1756-1818), que promoveu sua construção. A Calçada do Lorena foi o primeiro caminho pavimentado entre o planalto paulista e o litoral.

Este é outro local histórico que pode ser conhecido, pois está inserido dentro do Parque Estadual da Serra do Mar. O núcleo se chama “Caminhos do Mar”.

Em março de 2021 a Parquetur venceu a licitação de concessão do trecho, ficando responsável pela manutenção da área de uso público, assim como pelo restauro dos monumentos históricos, além da regulação das atividades turísticas.

Desta forma, o acesso agora é pago. Tem o valor de R$ 55,00 (inteira) e R$ 27,50 (meia entrada). O valor do estacionamento tanto em São Bernardo (no planalto) quanto em Cubatão (litoral) é de R$ 38,00 por veículo de passeio (valores de agosto de 2026).

O parque funciona de quarta-feira a domingo, das 8h às 17h e os ingressos podem ser adquiridos nesse link.

No planalto, a Calçada do Lorena passava em frente da capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, no centro da cidade de São Bernardo do Campo.

Igreja de São João Batista, em Rudge Ramos (1928). A comitiva passou pelo local antes de chegar à São Paulo.
Igreja de São João Batista, em Rudge Ramos (1928). A comitiva passou pelo local antes de chegar à São Paulo.

Após passar pelo Centro de São Bernardo, o caminho seguia pela Avenida Caminho do Mar. Na região, após passar pela Praça São João Batista, na época chamada Meninos, devido ao córrego, a trilha seguia pela Praça Mauá, em frente ao atual Instituto de Tecnologia Mauá, e cruzava duas vezes o ribeirão dos Meninos.

Dom Pedro I seguiu depois pela Estrada das Lágrimas, onde passou em frente à figueira da Estrada das Lágrimas, considerada a árvore mais antiga de São Paulo, e tida na época como o limite sul da área da cidade. 

Em 1822, toda essa região ainda era descampada, com locais de sesmarias, fazendas, sítios e chácaras.

A comitiva do imperador andou perto dos rios e riachos para facilitar a hidratação e o descanso dos animais. 

A carta recebida no Sacomã

Por uma ilustração antiga da época é possível localizar uma porção de água de um lago ou lagoa que ficava ao largo de onde os irmãos franceses Sacoman iriam montar uma olaria no final do Séc. XIX. Hoje no local está o Terminal Sacomã.

No local onde está o Terminal Sacomã, Dom Pedro teria recebido a carta de Maria Leopoldina e José Bonifácio.
No local onde está o Terminal Sacomã, Dom Pedro teria recebido a carta de Maria Leopoldina e José Bonifácio.

O príncipe-regente parou nesse ponto para receber dos mensageiros as cartas vindas da Côrte Real determinando que ele voltasse urgentemente para Portugal. 

Historiadores relatam que ali teria acontecido o “primeiro grito de independência”. A partir de então, Dom Pedro teria seguido pensativo pelas margens do Ipiranga pelos poucos quilômetros restantes até a colina onde hoje se encontra o famoso “Museu do Ipiranga” (na realidade Museu Paulista).

Lá no alto deste morro ele deu, então, o Grito da Independência.

O engenheiro especializado em cartografia histórica Jorge Pimentel Cintra, da Escola Politécnica e do Museu Paulista, ambos da Universidade de São Paulo (USP), refez durante três anos a cartografia dos 64 km percorridos naquele dia por dom Pedro desde Santos até o Pátio do Colégio.

Ele concluiu que o famoso grito foi dado próximo a uma antiga ponte que já não existe mais. 

E o grito em local impreciso

Após anos de pesquisa o cartógrafo Jorge Pimentel Cintra aponto o local exato do "Grito do Ipiranga".
Após anos de pesquisa o cartógrafo Jorge Pimentel Cintra aponto o local exato do “Grito do Ipiranga”.

Em 1825, como resultado de uma sessão da Câmara Municipal de São Paulo  feita em campo e com a ajuda de topógrafos e de pessoas que testemunharam a proclamação, uma baliza foi colocada a 405 m da ponte. 

Por alguma razão desconhecida, 40 dias depois, sem considerar o local da baliza, provavelmente arrancada, implantou-se um marco – uma pedra –, colocado a 200 m do ponto determinado pela medição inicial.

Segundo o pesquisador, esse fato mostra que o local é incorreto, algo que o alemão Hermann Von Ihering (1850-1930), primeiro diretor do Museu Paulista, já havia suposto, em 1902. 

Como resultado das inquietações de Von Ihering, uma comissão coordenada pelo engenheiro Antonio de Toledo Piza e Almeida (1848-1905), confirmou o equívoco da medição anterior. Fez outra e instalou, agora em local correto, (naqueles 405 m da antiga ponte do Ipiranga, local da primeira baliza), um mastro, ao lado de outra pedra indicativa.

Mastro e pedra foram removidos em 1922 durante uma reforma do parque da Independência, não foram mais repostos e o marco está hoje no acervo do museu. “Desde 1922 nada mais se fez”, comenta Cintra, “permanecendo ignorado ou pouco destacado o lugar mais preciso da Independência”.

Atualmente, esse ponto exato fica dentro do perímetro do Parque da Independência, mas não possui nenhuma placa ou demarcação visível.

Parque da Independência traz referências ao 7 de setembro.
Parque da Independência traz referências ao 7 de setembro.

O Parque da Independência fica na Avenida Nazareth, s/n – Ipiranga. Possuí uma área de aproximadamente 209 mil metros quadrados e é aberto à visitação gratuita todos os dias das 5h às 20h.

Possui praça para eventos, pista de corrida, aparelhos de ginástica, playground, área de estar, sanitários, chafariz com fonte e cascata.

Em sua área há equipamentos administrados por outros órgãos, como a Casa do Grito (SMC), o Monumento da Independência e Cripta Imperial e o Museu Paulista, conhecido popularmente como Museu do Ipiranga, administrado pela USP e que cobra ingresso para visitação.

Atualmente os valores são de R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia). Confira as condições e a forma de aquisição dos ingressos nesse link.

A visão épica e romanceada de Pedro Américo do momento da independência.
A visão épica e romanceada de Pedro Américo do momento da independência.

Fontes:

https://revistapesquisa.fapesp.br/erros-e-acertos-dos-caminhos-da-independencia/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cw56kkzgnq6o

https://revistas.usp.br/anaismp/pt_BR/article/view/212890

https://www.al.sp.gov.br/noticia/?id=285344

https://www.scielo.br/j/anaismp/a/4v3qzDnMxw58gSBBjhgcdfx/?format=html&lang=pt&ilang=en

https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2022/09/07/caminho-da-independencia-veja-a-rota-que-dom-pedro-i-fez-no-vale-do-paraiba-ate-o-7-de-setembro.ghtml

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/veja-como-conhecer-o-caminho-feito-por-d-pedro-i-e-monumentos-da-independencia,566571adc6c9605b58e0eb659cd986f7w0ijfsne.html

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