O que diferencia algo “velho” de um bem valioso? Dentre várias respostas possíveis, uma é fundamental: sua história. Mas, se tudo tem uma história, é sua interpretação, então, o que torna algo ordinário relevante, seja para um indivíduo, uma coletividade ou a humanidade.
Desde que o ser humano adquiriu a habilidade de se comunicar verbalmente, construindo uma linguagem complexa e analítica, histórias são contadas. Literatura conta histórias, cordéis contam histórias, a poesia é história pessoal traduzida em sentimentos. A arte das cavernas contavam histórias.
É fácil perceber que há maneiras incontáveis de contar histórias. E, neste sentido, como então saber diferenciar histórias inventadas, interpretações de um fato, da história mais próxima possível do que se pode denominar de “verdade”?
Se estabelecermos como ponto de partida o que se convencionou denominar como modelo cultural, político e filosófico para o desenvolvimento do mundo ocidental moderno, a civilização grega, a história oscilou entre estilos ou objetos muito diversos. A banal existência de um indivíduo qualquer, a política, a filosofia, a mitologia ou a teologia, o cotidiano, tudo podia ser “objeto” de história.
Com o advento da crítica racional no Renascimento e, mais particularmente, com o surgimento e a consolidação do Iluminismo no século XVIII, a história passou por uma discussão teórica e metodológica que culminou em métodos científicos que a ordenaram e lhe conferiu caráter de ciência.

Segundo Estevão de Rezende Martins, em seu livro A História Pensada: teoria e método na historiografia europeia do século XIX, “A evolução decisiva para a historiografia deu-se com o que se pode chamar de fundamentação metódico-documental, basilar para a disciplina “acadêmica” contemporânea, produzida pelos tratadistas do século XIX e da primeira década do século XX”.
Ainda segundo o autor, “Foi no século XIX que apareceram os primeiros grandes tratados do que se poderia chamar de normativismo histórico, um tipo de reflexão novo sobre a História, chamado de Historik por Johann Droysen. Essa reflexão definiu os parâmetros metódicos estipulados como obrigatórios para que a História se enquadrasse no que se tinha, então, por padrão de “ciência”.
Foi então a partir do Século XIX que os métodos científicos normalizaram e balizaram o trabalho daqueles que se dedicam a olhar o passado com a curiosidade de quem faz uma tradução, uma interpretação:

“Vejo o historiador como agente fundamental do entendimento do nosso cotidiano e da formação de uma sociedade crítica e analítica”, comenta o Doutor em História pela PUC-SP Diógenes Sousa, que junto com a também Dra. em História, Renata Geraissati, integra o núcleo de pesquisa e documentação histórica da Casa da Boia Cultural.
“Foi justamente essa possibilidade de investigar, questionar e construir interpretações sobre o passado que me fez querer seguir na profissão. Além disso, o campo de atuação profissional é muito mais amplo do que as pessoas imaginam, abrangendo também arquivos, museus e outras instituições”, comenta Renata Geraissati.
O despertar de uma consciência de preservação
Como qualquer outra, a cidade de São Paulo apresenta milhões de possibilidades de interpretações históricas em um amplo espectro que vai da arquitetura à agricultura, da economia às artes, do urbanismo à botânica, do folclore à tecnologia, do coletivo à vida privada.
Foi justamente deste cruzamento de possibilidades que a história ajudou a Casa da Boia a encontrar um protagonismo que, embora já se manifestasse desde o final dos anos 1990, só se consolidou com o método científico ampliando a visão sobre seu próprio passado.
Em 1997, quando Mario Roberto Rizkallah, neto de Rizkallah Jorge, fundador da empresa, decidiu realizar a restauração da fachada do sobrado sede da Casa da Boia, a primeira iniciativa de preservação da própria história começou a ser pensada.

“Estávamos no processo da restauração da fachada e de algumas salas do sobrado. Para isso precisávamos realocar as áreas da empresa que funcionavam nessas salas. Nessas mudanças de pessoas, móveis e objetos, acabamos achando vários documentos antigos, peças antigas fabricadas na empresa, ferramentas do início do século, algumas fotos também dos anos 1920, enfim um material que a gente sabia que tinha algum interesse, pelo menos para a nossa memória”, conta Mario Rizkallah.
“Mesmo sem nenhum rigor científico montamos nas salas recém-restauradas, uma mostra em que expunham estes materiais. Funcionou bem por vários anos. As pessoas gostavam de visitar, se interessavam, mas, de fato era isso, uma mostra que, posteriormente, a gente compreendeu que precisaria de uma curadoria mais apurada”, completa Mario.
Nesse ponto surge a presença da então graduanda em história Renata Geraissati, que escolheu estudar a história e a trajetória empresarial do fundador da Casa da Boia:

“Minha família também tem origem sírio-libanesa e, por isso, sempre tive uma curiosidade pessoal em entender melhor a história dessa comunidade, que muitas vezes não recebe a mesma visibilidade que outras comunidades imigrantes na história de São Paulo.
Quis compreender como foi o processo de inserção dessas pessoas na cidade, quais escolhas fizeram, como foram recebidas e de que maneira construíram suas trajetórias de vida, profissionais e comerciais em São Paulo.
A pesquisa sobre Rizkallah Jorge acabou sendo também uma maneira de olhar para uma experiência particular e, a partir dela, compreender processos mais amplos relacionados à imigração, à urbanização e à própria formação da cidade de São Paulo”, explica.
“Esse objeto de estudo me levou a conhecer o neto de Rizkallah Jorge, Mario, que foi completamente receptivo à pesquisa, me possibilitando acesso à documentação que dispunha.
Anos depois, a seu convite, iniciei um trabalho de identificação, higienização, acondicionamento e catalogação dessa documentação de forma sistemática, juntamente com o Diógenes”, conta a historiadora.
Novas possibilidades a partir da visão histórica
O tratamento histórico de uma vasta documentação como a do acervo da Casa da Boia (que conta hoje com mais de 5.000 documentos catalogados), prova que um conjunto documental não precisa necessariamente ser tratado como um conhecimento hermético, restrito ao círculo familiar ou aos técnicos responsáveis pelo acervo.
Ao contrário, à medida que o conjunto documental vem sendo sistematicamente identificado, catalogado e compreendido, o conhecimento adquirido por meio destas fontes geraram novas formas de difusão da história da empresa.

Desde 2019 a Casa da Boia promove visitas monitoradas às suas instalações. Uma vez ao mês, em duas turmas, pela manhã e à tarde, Renata e Diógenes conduzem os visitantes pelas áreas restauradas da loja e outras dependências do casarão histórico.
Na visita, são repassados aos participantes o conhecimento adquirido pelas pesquisas e análises dos documentos do acervo, ajudando as pessoas a compreender a inter-relação entre as histórias de Rizkallah Jorge, da Casa da Boia e da cidade de São Paulo no final do século XIX e início do século XX.
Mensalmentetambém (e igualmente baseados nas interpretações possíveis do material do acervo), a Casa da Boia Cultural produz editoriais temáticos em formato digital que abordam inúmeras questões relativas ao período e seu relacionamento com a empresa.

Esses “produtos culturais” são fruto do método histórico que consegue identificar e extrair da documentação os temas nem sempre percebidos por outros olhares.
O patrimônio industrial paulista é objeto de estudo do pesquisador Diogenes Sousa para quem o conhecimento obtido em suas pesquisas “ajuda a entender o processo de urbanização de São Paulo, as decisões políticas e sociais e a cidade como um território em disputa. No trabalho para a Casa da Boia vemos como esse processo de urbanização é constante e está presente nas coisas aparentemente mais simples, como uma boia hidráulica, mas que demonstra toda uma mudança de mentalidade e de modos de viver na cidade na passagem do século XIX para o XX”, explica.
“Demonstrar isso ao público nas visitas, ou que lê nossos editoriais ajuda a ampliar o olhar sobre a história da cidade e, consequentemente, suas próprias vivências pessoais”.
Acervo interpretado e importância de sua difusão

“O historiador tem um papel extremamente importante na construção de uma sociedade capaz de refletir criticamente sobre o seu passado e de não esquecer temas sensíveis que, muitas vezes, são retomados a partir de perspectivas negacionistas ou distorcidas”, pondera Renata.
“Enquanto historiadora, destaco sempre a preciosidade do acervo da Casa da Bóia como um todo. São raras as iniciativas de preservação de um conjunto documental tão significativo como o que temos aqui e, mais raro ainda, são as empresas que se dispõem a abrir essa documentação para pesquisadores.
O tratamento arquivístico da documentação foi revelando uma série de informações importantes para a história de São Paulo. Os livros-caixa, preservados desde 1905, por exemplo, mostram quem eram os clientes da Casa da Bóia e indicam uma rede de empresas que tiveram participação importante na construção da infraestrutura urbana da cidade.

O conjunto de fichas de funcionários também é muito rico, porque dá materialidade aos processos migratórios e imigratórios. Por meio desses documentos conseguimos conhecer os rostos, os locais de nascimento, os locais de residência e diferentes aspectos das trajetórias dessas pessoas.
Os documentos preservados têm um potencial informativo enorme. É um acervo que, mesmo depois de todo o trabalho realizado, continua nos permitindo descobrir novas informações a cada dia.
Preservar essa documentação significa garantir que essas histórias possam ser pesquisadas, conhecidas e repassadas para as próximas gerações. É transformar uma memória que poderia permanecer restrita a uma instituição privada em um patrimônio capaz de contribuir para a compreensão da história da sociedade”, finaliza Renata.
Um final de semana para pensar o patrimônio histórico
O dia 19 de agosto é o “Dia do Historiador”. A celebração foi instituída pela Lei n° 12.130, de 17 de dezembro de 2009, e a data foi escolhida para homenagear Joaquim Nabuco. Nascido em 19 de agosto de 1849, no Recife, Joaquim Aurélio Barreto Nabuco Araújo foi historiador, diplomata, jornalista, jurista e deputado pela Província de Pernambuco.

Dois dias antes, em 17 de agosto, comemora-se o Dia Nacional do Patrimônio Histórico. A data homenageia Rodrigo Melo Franco de Andrade, nascido nesse dia em 1898 e fundador do antigo SPHAN, atual Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), criado para proteger os bens culturais do país.
Em 2018, o estado de São Paulo também instituiu o “Dia Estadual de Preservação, Proteção e Valorização do Patrimônio Histórico e Cultural, Material e Imaterial”, na mesma data.
Desde 2015 (neste ano de forma experimental) e a partir de 2016 de forma oficial, o município de São Paulo realiza a Jornada do Patrimônio, junto da Semana da Valorização do Patrimônio Histórico e Cultural da Cidade.
A Jornada acontece todos os terceiros sábados e domingos do mês de agosto. Neste ano, nos dias 15 e 16, com o tema “São Paulo: Cada Olhar, Uma História”.
Todas as atividades oficiais da Jornada, que incluem visitas a edifícios históricos, exposições, cursos, oficinas, palestras, apresentações artísticas e roteiros de memória são gratuitas (algumas precisam reservar ingressos antecipadamente) e podem ser consultadas no site da prefeitura de São Paulo:
Fontes:
https://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/ult10082u718380.shtml
https://legislacao.prefeitura.sp.gov.br/lei-16546-de-21-de-setembro-de-2016



