Desde que o “mundo é mundo” a relação de pais e filhos sempre foi marcada pelo legado dos mais velhos aos mais novos. Uma herança financeira, cultural, empresarial, política muitas vezes se dá no âmbito privado, mas quando os personagens ganham notoriedade, influenciam a dinâmica de uma cidade.
Se formos recuar no tempo ao momento em que São Paulo nem era ainda sequer uma vila, encontraremos a figura de Bartira, filha do Cacique Tibiriçá, líder dos Tupiniquins, que a destinou a se casar com o náufrago português João Ramalho.
Desta relação consentida pelo maior líder indígena da região nasceu a aliança entre indígenas e europeus, que proporcionou a expansão do núcleo inicial da cidade de São Paulo.
Bartira e João Ramalho tiveram oito filhos, que, por sua vez, deram continuidade às alianças políticas e matrimoniais que geraram as primeiras gerações de paulistanos.
Mas a ideia não é recuar tanto no tempo, mas observar que a relação de pais e filhos, em alguns casos, ajudou a consolidar uma São Paulo como a conhecemos hoje.
O legado dos barões do café
É notório que o cultivo do café em terras paulistanas fez surgir os chamados “barões do café”, como ficaram conhecidos os fazendeiros que enriqueceram (muito) com o produto. Alguns legaram a São Paulo, por meios próprios e por seus descendentes, muito do que a cidade é atualmente.

Henrique Honoré Dumont, foi um dos que fizeram fortuna com o café. Era pai de Alberto Santos Dumont, que dispensa apresentação e mais sete filhos.
O próprio Henrique Dumont já foi uma das figuras mais influentes de São Paulo no final do século XIX, proprietário de vastas áreas de cultivo no interior do estado e possuía também grandes áreas de terras na zona oeste do triângulo central da capital.
O desmembramento de suas fazendas deu origem ao bairro de Campos Elíseos, um dos primeiros bairros da elite paulistana.
Seu filho Alberto Santos Dumont foi talvez o maior inventor brasileiro do período e simplesmente o criador do avião.
As irmãs mais velhas de Santos Dumont, que chamavam Maria Rosalina, Virgínia e Gabriela, casaram-se por coincidência, com três irmãos, respectivamente chamados Eduardo Villares, Guilherme Villares e Carlos Villares.
Outros descendentes de Henrique Dumont se destacaram ainda no urbanismo paulista. Talvez o menos conhecido, Henrique Dumont Villares, seu neto, teve importância fundamental na urbanização do bairro do Jaguaré.
Henrique Dumont Villares, proprietário da Sociedade Imobiliária Jaguaré, adquiriu cerca de 165 alqueires da antiga fazenda da Companhia Suburbana Paulista (de Ramos de Azevedo) e implementou um projeto urbanístico inovador para a época, estruturando o local como um dos primeiros bairros planejados da capital paulista.
Arnaldo Dumont Villares, filho de Virgínia Santos Dumont, se associou a Ramos de Azevedo e no escritório que construiu edifícios icônicos da capital deu continuidade ao trabalho do famoso arquiteto.
Por sua formação em engenharia elétrica, ramo ainda inexistente na Escola Politécnica e suas relações familiares (era, também, por parte de mãe, sobrinho de Ricardo Villares), ingressou no “Francisco de Paula Ramos de Azevedo & Cia”, convertendo-se em sócio do escritório em 1910 e casando-se com a filha de Azevedo, Laura, em 1912.
Após o falecimento de Ramos de Azevedo, Ricardo Severo assumiu a diretoria do escritório, momento em que passou a se chamar “F. P. Ramos de Azevedo, Severo & Villares” e, a partir de 1938, “Severo Villares & Cia”.
Por doze anos, Severo liderou o escritório, até falecer, em 1940. A partir de então, foi Villares que deu continuidade ao legado de Azevedo, ficando à frente da liderança do escritório até falecer, em 1965.
A influência dos “Prado”
Durante mais um século, ao longo do Brasil Imperial e da Primeira República, a dinastia empresarial dos Prado dominou boa parte da economia, da política e do universo cultural de São Paulo.

Em quatro gerações sucessivas – contadas a partir de Antonio Prado, o Barão de Iguape, até 1930 – os pioneiros e empreendedores da família atuaram como fazendeiros, comerciantes, banqueiros, exportadores, industriais, políticos e intelectuais, ocupando sempre o centro do palco.
O Barão de Iguape (Antonio Prado) fez fortuna no comércio e já era um rico membro da elite paulistana antes do ciclo do café.
O barão decidiu que sua filha Veridiana Valéria iria se casar com o meio-irmão dele, Martinho da Silva Prado, para que a riqueza da família não se dividisse. Décadas depois, Dona Veridiana se mostrou bastante independente para a época ao se separar do marido. Em seu palacete, na rua que hoje tem seu nome no centro de São Paulo, ela organizava saraus para a elite econômica e intelectual (veja o post “Veridiana Prado. Breve perfil da mulher que ousou viver como desejou”).

Filho de Veridiana e Martinho Prado, Antonio foi vereador na Câmara Municipal de São Paulo, deputado provincial (estadual), deputado geral (federal), senador, ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, ministro dos Negócios Estrangeiros (Relações Exteriores) e conselheiro (membro do Conselho do Império).
Por sua vez Paulo da Silva Prado foi um dos principais articuladores da Semana de Arte Moderna de 1922. Amigo dos modernistas, financiou a Semana, pagando as despesas de locação do Theatro Municipal, onde aconteceram os principais acontecimentos do movimento.
A arquitetura dos “Neves”
Se falamos das relações estreitas entre os Dumont, os Villares e Ramos de Azevedo, vale mencionar pai e filho que igualmente ajudaram a construir a São Paulo moderna do início do século XX.

Samuel Augusto das Neves e Christiano Stockler das Neves eram pai e filho e juntos lideravam o Escritório Técnico Samuel e Christiano das Neves, que atuou fortemente na cidade no final do século XIX, projetando edifícios residenciais, comerciais, públicos, religiosos, hospitais, educacionais, para lazer e transporte; Infraestrutura e planejamento urbano.
É do escritório de pai e filho, por exemplo, os edifícios da Estação Júlio Prestes, o Museu de Zoologia da USP e o edifício Sampaio Moreira.
O jornalismo dos “Mesquita” e dos “Frias”
Recentemente publicamos o post “A história de dois ícones do jornalismo paulistano”, outro exemplo de legados importantes deixados de pai para filho.

O primeiro é a história de pioneirismo do jornalista Julio de Mesquita, que em 1902 comprou o jornal “O Estado de São Paulo” e deu início à dinastia familiar que controla o “Estadão” desde então.
Com a morte de Júlio Mesquita em 1927, seu filho Júlio de Mesquita Filho assumiu a direção do jornal, onde ficou até falecer, em 1969.
Com o falecimento de Júlio de Mesquita Filho, a direção do jornal foi dividida entre seus filhos: Júlio de Mesquita Neto assumiu como diretor responsável. Ruy Mesquita dirigiu o Jornal da Tarde e assumiu a linha de opinião do Estadão.

Em 1962, o jornalista Octavio Frias de Oliveira, adquiriu, junto com Carlos Caldeira Filho, o jornal “Folha dde São Paulo”, assumindo a direção do periódico, onde permaneceu até 2007, quando faleceu; Seu filho, Otávio Frias Filho assumiu o posto de secretário-geral do recém criado Conselho Editorial da empresa em 1978, dando início à segunda geração da família à frente dos negócios.
Assumiu a Direção de Redação em 1984, até falecer em 2018. A partir de então, assumiu a direção do Grupo Folha (que engloba empresas como o UOL e o PagSeguro) seu irmão, Luiz Frias de Oliveira.
A gigante dos Ermírio de Moraes

Em 1918, o imigrante português Antonio Pereira Inácio comprou uma fábrica de tecidos em Sorocaba. Nos anos 1920, o engenheiro José Ermírio de Moraes casou-se com a filha de Pereira Inácio e assumiu a direção do negócio, transformando a pequena fábrica têxtil em um gigante da industrialização brasileira com foco em cimento, metalurgia e alumínio, denominada Votorantim.
José Ermírio se manteve à frente do grupo empresarial até a metade dos anos 1950, quando passou o comando do conglomerado a seu filho Antônio Ermírio de Moraes. O carismático sucessor, benfeitor da Beneficência Portuguesa, esteve à frente da Votorantim até 2001, deixando o comando das operações para os filhos, terceira geração da família no negócio.
O desafio da sucessão nas empresas e as gerações na Casa da Boia
Dados de uma recente matéria publicada no site da revista Veja mostram que 90% das empresas brasileiras tem perfil familiar. Ou seja, são legados de uma geração a outra.
Porém, poucas conseguem sobreviver à própria sucessão. Dados de consultorias do setor indicam que apenas 30% chegam à segunda geração, índice que cai para 12% na terceira e menos de 3% na quarta.
Como bem resume o diretor da Casa da Boia, Mario Roberto Rizkallah, “As empresas crescem mais devagar do que as famílias”. O que dificulta, ou, ao menos, exige, planejamento para a sucessão.
A Casa da Boia foi fundada por Rizkallah Jorge Tahan em 1898 e o empresário teve três filhos. Jorge Rizkallah Jorge, Nagib Rizkallah Jorge e Salim Rizkallah Jorge.

Destes Salim Rizkallah Jorge foi o que mais tempo esteve à frente da direção da Casa da Boia (cerca de 60 anos) após o falecimento de seu pai, Rizkallah Jorge.
No decorrer de sua história a terceira geração da família Rizkallah começou a assumir a gestão da empresa nos anos 1960, primeiro com Alfredo Rizkallah, filho de Nagib e neto de Rizkallah Jorge, posteriormente com os irmãos Mario e Tereza Rizkallah.
Mario Rizkallah foi então adquirindo a parte dos familiares no negócio até se tornar hoje o único proprietário da empresa, que já prepara a sucessão para mais uma descendente de Rizkallah Jorge.
Luiza Rizkallah, empresária do ramo de confeitaria, é a quarta geração dos Rizkallah e entrar no negócio, dividindo atualmente, a gestão do núcleo cultural da Casa da Boia com o pai e a mãe, Adriana Rizkallah.
Sucessões famosas e nem tanto…

É claro que em apenas um post não seria possível abranger tantas outras famílias, pais e filhos, que moldaram as feições da cidade.
Francisco Matarazzo e seus filhos, os Jafet e seus dependentes, os Klabin, os Setúbal, a família Diniz, os Moreira Salles, os Lundgreen, os Goldfarb, são outros exemplos de gerações de famosos que transformaram São Paulo.
Mas há uma imensa quantidade de pioneiros do comércio, das indústria, das artes, cultura, política, que igualmente legaram à cidade seus negócios, suas ideias, suas atitudes com as quais há gerações, de pai para filho e filhas, constroem São Paulo.
Fontes:
https://www.memoriasinsurgentes.org/images/vol2/Garcia.pdf
https://repositorio.unesp.br/bitstreams/2c03b5a4-5382-460a-a88d-5b209f15c037/download
https://amigosdavillares.no.comunidades.net/familia-villares
https://www.escritoriodearte.com/artista/christiano-stockler-das-neves



