Uma cidade do tamanho de São Paulo para funcionar depende de uma série de serviços que seus moradores muitas vezes nem percebem em seu dia a dia. Um destes, as estações meteorológicas, fundamentais para a gestão de situações de emergência, são guardiãs discretas da segurança na metrópole, que, aliás, registrou seu dia mais frio em um mês de agosto… ou não… Entenda melhor essa história.
-2,1º. Esta temperatura abaixo de zero, “normal” em serras catarinenses ou gaúchas não foi registrada no sul do país. Foi a marca do dia 2 de agosto de 1955, na região sudeste, na maior cidade brasileira. Naquele dia, há pouco mais de sete décadas, São Paulo congelou. Ou quase.
Este dia é considerado o “dia mais frio de São Paulo”, na série histórica do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e a temperatura foi registrada no Mirante de Santana, uma estação meteorológica da maior importância para a capital que começou a coletar dados no ano de 1945 e está em pleno funcionamento até hoje.
O fato do Mirante de Santana ter iniciado suas medições naquele ano é o que provoca uma certa divergência quando se fala do dia mais frio da cidade.
Isso porque, no ano de 1918, foi registrada a temperatura de -3,2º na capital, mas, em outro local e por outra instituição. Assim, este teria sido o dia mais frio já registrado em São Paulo.
Estas foram as duas únicas temperaturas negativas já registradas na capital paulista ao longo de sua história. porém, a medição de 1918 não faz parte da série histórica do INMET, que naquele ano ainda não havia sido criado.
Possivelmente antes de que a ciência se instalasse aqui em terras paulistas temperaturas menores deveriam ocorrer, mas a história dos dados sistematizados começa com a instalação da Comissão Geográfica e Geológica, há 140 anos.
O café, a geologia e a meteorologia

Já abordamos em diversos textos de nosso blog o fato de que a grande transformação econômica do estado de São Paulo e particularmente da cidade de São Paulo aconteceu quando o ciclo de exploração do café se implantou nas fazendas do interior do estado, no século XIX e foi, mais uma vez, o grão vermelho (sim o café é vermelho antes da torra) o responsável pela implantação de um serviço de geologia (e posteriormene meteorologia) no estado.
Com a cafeicultura e o acelerado crescimento econômico, surgiu a necessidade de se conhecer melhor o território paulista em busca de terras mais propícias ao cultivo do café.
Difícil imaginar que, na primeira década do século XX, toda a região oeste do Estado de São Paulo, onde atualmente se localizam cidades de grande porte, era praticamente inexplorada, constando no mapa como “terrenos desconhecidos habitados por índios”.
Em consonância com os interesses da cafeicultura, o Presidente da Província de São Paulo, Conselheiro João Alfredo Corrêa de Oliveira, convidou o geólogo norte-americano Orville Adelbert Derby, Diretor da Seção de Geologia do Museu Nacional, para formular um plano para a exploração do território paulista. Na ocasião (1885), Derby, por iniciativa própria, já havia feito importantes estudos sobre a geologia e geografia da província.
Desta forma, em em 18 de janeiro de 1886, Derby encaminhou a João Alfredo o “Esboço de um plano para Exploração Geográfica e Geológica da Província de São Paulo”, ressaltando que o plano a ser adotado seria o mesmo que Charles Frederic Hartt apresentara para os trabalhos da Comissão Geográfica e Geológica do Império (1875-1878), a primeira instituição governamental de caráter geológico.
Aprovada a criação da Comissão paulista, ela foi ficou composta inicialmente por Orville Adelbert Derby na qualidade de chefe; Theodoro Fernandes Sampaio como primeiro ajudante e Francisco de Paula Oliveira e Luiz Felipe Gonzaga de Campos, como geólogos. Ainda em 1886, foram contratados o botânico Alberto Löfgren e o ajudante de primeira classe João Frederico Washington de Aguiar.

Com essa formação a CGG destinou-se a realizar pesquisas e levantamentos detalhados sobre o solo, clima, geomorfologia, geologia e hidrografia do Estado de São Paulo, produzindo uma vasta e fundamental literatura que orientou o processo de ocupação territorial no interior do Estado.
Por volta dos anos 1930 o governo do estado de São Paulo, por meio de uma reorganização administrativa, criou o Instituto Astronômico e Geográfico (IAG), unificando as atividades da Diretoria do Serviço Astronômico e Meteorológico e da Comissão Geográfica e Geológica. Aliás, parte dos membros da comissão foram os primeiros cientistas a formar o núcleo diretor do IAG.
O Observatório da Av. Paulista e a mudança para a Água Funda

Neste ponto a história da CGG se cruza com a história meteorologia na capital. Desde 1888 a CGG instalou no Parque da Luz uma estação meteorológica. Era conhecida como o ‘Canudo de João Teodoro’ em alusão ao presidente da província de São Paulo de 1982 a 1895. João Teodoro é considerado o primeiro urbanista a pensar a cidade de São Paulo de forma planejada, promovendo reformas importantes do traçado urbano da capital.
A partir de 1895, a estação foi instalada no teto do edifício da Escola Normal da Praça da República, hoje Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

Com o crescimento da cidade, era consenso de que a estação meteorológica precisava de um novo local, mais distante do centro e livre das interferências provocadas pelas edificações cada vez mais altas que se erguiam nas proximidades.
Então, em 1912, foi transferida para o local onde já havia um posto meteorológico da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo, que funcionava desde 1902 na residência do Dr. José Nunes Belfort Mattos (funcionário da Comissão e que mais tarde viria a ser o Diretor do Observatório de São Paulo), situada na Avenida Paulista nº 101, com o nome de “Observatório da Avenida”.
Ele se localizava exatamente onde hoje está situado o MASP – Museu de Artes de São Paulo.
O local também executava serviços como observações astronômicas, medição da hora oficial do estado de São Paulo, estudos de física solar, magnetismo terrestre e de sismologia.

Com o crescimento da cidade, o local que em 1912 era tido como ideal, já não satisfazia as condições adequadas para observações astronômicas regulares, nem para observações sismográficas, por causa dos abalos produzidos pelos bondes que trafegavam pela Avenida Paulista.
Em vista desse sério inconveniente, foi sugerida a mudança do Observatório de São Paulo para uma região mais adequada e assim, a escolha recaiu na área rural do então denominado Parque do Estado, (atual PEFI-Parque Estadual das Fontes do Ipiranga), localizado no bairro Água Funda.
Ainda sem os principais edifícios construídos, a partir de 1º de janeiro de 1933 iniciaram-se oficialmente as atividades da Estação Meteorológica, que passou a ser incorporada ao Instituto Astronômico e Geofísico (inaugurado em 25 de abril de 1941). Em 30 de dezembro de 1946, o IAG foi incorporado à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo como instituto anexo.
O INMET, o Mirante de Santana e a ameaça às suas atividades
A história da meteorologia em São Paulo ganharia novo capítulo a partir dos anos 1940, com as instalações do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) no local conhecido como Mirante de Santana.
O INMET foi criado em 18 de novembro de 1909, no Rio de Janeiro, com o nome de Diretoria de Meteorologia e Astronomia. Inicialmente focado na região da capital da república. Gradativamente o Instituto foi se instalando nos demais estados e compondo a rede de estações meteorológicas que proporcionam os dados nacionais que o Instituto consolida.
O INMET passou a consolidar os dados meteorológicos da capital e região a partir de 1943, quando passou a ocupar a edificação de 1929 onde instalou a estação meteorológica do Mirante de Santana.

O Mirante de Santana é a mais importante estação meteorológica da capital (que conta com dezenas de outras em todas as regiões), principalmente por sua localização privilegiada.
A estação meteorológica está localizada em uma colina a 792 metros do nível do mar, no bairro Jardim São Paulo, livre da interferência de outras edificações, mas não livre das ameças de ser prejudicada pela especulação imobiliária.
Uma lei municipal de 1971 impede que construções mais altas do que a estação sejam erguidas no entorno, mas, alegando alterações no plano diretor da Capital, a construtora Fao Building, anunciou a construção de um edifício de 23 andares na Rua Pedro Madureira, a cerca de 180 metros da praça Vaz Guaçu, onde está a estação meteorológica.
A construtora chegou a realizar a demolição das casas para preparar os alicerces do edifício, mas depois de sofrer muita pressão por parte dos moradores do entorno, do próprio INMET e de outras entidades a prefeitura disse que não autorizaria a construção, e o projeto não foi adiante.
Entretanto a incorporadora tem outros terrenos na região, assim como outras construtoras também, e, como em toda a capital, o processo de verticalização acelerado em áreas de casas térreas tem feito surgir grandes prédios no local de poucas casas em todos os bairros da cidade, o que deixa incerta a manutenção da integridade do Mirante.
As temperaturas mais baixas já registradas

Voltando ao início do texto, apenas duas vezes na história São Paulo registrou temperaturas abaixo de zero.
A primeira, em 1918, registrada pelo Observatório de São Paulo, foi relatada pela imprensa como a mais forte já vista na capital:
“Os velhos contam que nem em 1870 se registrou tal caso de frio e que nem em 1902 gelou tanto”, era parte do texto do jornal Correio Paulistano, de 25 de junho de 1918 que continua:
“Communica-nos o sr. dr. Belfort de Mattos director do Observatorio de São Paulo: ‘Tivemos de hontem para hoje uma das mais baixas temperaturas registradas nesta capital, marcando o thermometro abrigado a mínima de 1grau,2 abaixo de zero, quando os thermometros expostos acusavam 3graus,3 abaixo de zero”.
Apesar das baixas temperaturas da ocasião, a matéria do Correio Paulistano levava o assunto com um tom um tom leve, quase poético: “É no frio, indubitavelmente, que a cidade tem um aspecto mais europeo, que melhor assenta à feição de seus edifícios. Os sobretudos, os “boás” as peles, esses mil artifícios que a necessida adaptou à elegância e vice-versa, todos elles voltam, com o frio, o logar de direito que lhes cabe nessa capital, mais feita para a geada que para os ephemeros calores do verão”.

A abordagem do mesmo jornal, no ano de 1955, quando São Paulo, já era uma cidade de milhões de habitantes, com os contrastes sociais que isso traz, era mais sóbria e trazia a preocupação com os efeitos do frio sobre os menos assistidos:
“Se as geadas provenientes da massa de frio provocaram os prejuízos de ordem nacional a que nos referimos, mais tristes são outros aspectos da queda de temperatura. Nada menos de cinco mortes foram registradas até a madrugada de ontem. Trata-se de indigentes, ou mesmo pessoas cujas moradias ou agasalhos não fizeram frente à onda de frio que os assaltou… Nas ruas e nos locais de trabalho a população protege-se à sua maneira da tremenda onda de frio, para muitos até então desconhecida”.
Muita coisa mudou desde então na organização da cidade, que continua dependente das estações meteorológicas para seu planejamento,
Atualmente, quando a temperatura na capital tem previsão de ser mais baixa do que 13º é colocada em prática a chamada Operação Baixas Temperaturas, quando a prefeitura da capital organiza uma rede de apoio à população de rua, com tendas em que serve refeições quentes, distribuição de cobertores e ampliação temporária das vagas de acolhimento para esta população.
Fontes:
https://serieavenidapaulista.com.br/2020/09/12/o-observatorio-da-avenida/



