A importância do Viaduto Augusto Velloso na integração da rua Florêncio de Abreu

Durante séculos bandeirantes e colonizadores precisavam descer as colinas que circundam o Rio Anhangabaú, no centro da capital paulista. O chamado Caminho do Guaré, a atual rua Florêncio de Abreu, também enfrentava essa questão, solucionada com a construção de um viaduto quase centenário de pouco mais de 15 metros, fundamentais para a integração da via.

Caminho do Guaré, Rua da Constituição, Rua Florêncio de Abreu. Vários nomes de uma rua de grande importância para São Paulo.
Caminho do Guaré, Rua da Constituição, Rua Florêncio de Abreu. Vários nomes de uma rua de grande importância para São Paulo.

Um dos caminhos mais importantes do início da colonização de São Paulo, a atual rua Florêncio de Abreu, fazia a ligação do núcleo urbano onde a cidade foi fundada com os campos ao norte, conhecidos como Campos do Guaré, mas o caminho tinha um inconveniente. Era interrompido por um grande desnível, ao fundo do qual corria o Rio Anhangabaú em direção ao rio Tamanduateí.

No início não havia muito a fazer senão contornar esse desnível, descendo e subindo em seguida, após cruzar o leito do rio, o outro lado do então chamado Caminho do Guaré (a rua Florêncio de Abreu).

Ainda em tempos coloniais a travessia das águas do Anhangabaú era feita por pontes improvisadas a cavalo ou até mesmo a pé em seus pontos mais rasos.

Mas de fato o Caminho do Guaré, embora o mais rápido para se chegar àquele ponto da cidade, tinha um desnível considerável e neste ponto foi necessário erguer uma estrutura de passagem um pouco mais robusta, ainda que extremamente simples.

Os trilhos mudam as necessidades

Essa estrutura mais “simples” sobre o Rio Anhangabaú ligando os dois lados da rua Florêncio de Abreu permaneceu a mesma por muito tempo. 

Só a partir da expansão das linhas de bonde uma outra estrutura mais reforçada foi necessária. 

Vale lembrar que a circulação de bondes de tração animal começou em São Paulo no ano de 1872. Mais precisamente no dia 27 de março daquele ano.

Foi a partir de então que uma primeira estrutura mais adequada a suportar os veículos foi construída no local. A Companhia Carril, que operava os primeiros bondes da capital, foi quem implantou os trilhos na rua Florêncio de Abreu, que foi, aliás, uma das primeiras a receber a estrutura na capital.

A rua se chamava à época “Rua da Constituição”. Só em 25 de julho de 1881 passou a se chamar oficialmente Florêncio de Abreu. O nome foi uma homenagem da Câmara de Vereadores ao então presidente da província de São Paulo, Florêncio Carlos de Abreu e Silva.

Mesmo com a chegada dos bondes elétricos, em 1900 a estrutura do viaduto permanecia a mesma e isso iria perdurar ainda por cerca de 35 anos mais.

Foi em janeiro de 1935 que a municipalidade finalmente abriu uma licitação para a construção de uma nova estrutura, conforme noticiou o jornal “Correio Paulistano”, em sua edição de 31 de janeiro de 1935:

Em 1935 foi publicado o edital para a construção do "Viaducto da Florêncio de Abreu".
Em 1935 foi publicado o edital para a construção do “Viaducto da Florêncio de Abreu”.

“A Prefeitura da Capital abriu concorrencia publica para a construcção de um novo viaducto, na rua Florencio de Abreu, sobre a rua Anhangabahu’, de accôrdo com o edital que, nesse sentido, será publicado hoje no “Diario Official”.

O novo viaducto, substituindo o actualmente existente, deve ser de concreto armado, occupando um vão de 15 metros.

Assim que terminar a concorrencia publica, e se der inicio ás obras esperadas, o velho viaducto será demolido. Os concorrentes devem mencionar o preço unitario de cada serviço ou obra, declarando prazo para inicio e conclusão das obras. No dia 19 de fevereiro, termina o prazo para a entrega de propostas.

Para o financiamento das obras foi destinada uma verba orçamentaria de 222:490$000 no exercicio de 1935.

“A prefeitura da capital abriu concorrência publica para a construcção de um novo viaducto na Rua Florêncio de Abreu, sobre a Rua Anhangabahu, de acôrdo com o edital, que nesse sentido será publicado hoje no Diário Official”.

Para fins contextuais, uma verba municipal de 222 contos de réis em 1935 equivaleria a um orçamento de obra pública entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões em valores de hoje, a depender se a métrica considera estritamente a inflação de insumos/serviços da construção no período ou o custo equivalente de mão de obra.

A obra começa e enfrenta resistência

Embora quase nenhuma documentação esteja disponível em meios digitais, é possível acompanhar pelos jornais da época que a obra enfrentou alguns problemas em sua execução. 

Mal começaram e as obras foram embargadas.
Mal começaram e as obras foram embargadas.

Em janeiro de 1936 o mesmo jornal Correio Paulistano trazia a notícia: “Embargadas as obras do viaducto da rua Florêncio de Abreu”.

No texto o redator explicava que o morador da casa 92 da rua Florêncio de Abreu havia solicitado o embargo da obra porque o Departamento de Obras estava realizando a demolição do imóvel 94 da rua e isto estava abalando a estrutura de seu imóvel.

O texto ainda finalizava dizendo que o caso estava nas mãos da 5ª Vara do judiciário, que daria o veredito sobre o assunto. Embora não tenha sido possível encontrar a sentença a respeito do caso, o fato é que algum tempo depois a obra foi retomada e o viaduto foi finalizado no ano de 1936.

Mas o término das obras do viaduto em si não “aliviou” a situação dos comerciantes da rua Anhangabahu.

Em 3 de dezembro de 1936 o jornal Folha da Noite relatou:

Mesmo depois de terminado o viaduto a falta de urbanização da "Rua Anhangabahu" provocou a ira dos comerciantes locais.
Mesmo depois de terminado o viaduto a falta de urbanização da “Rua Anhangabahu” provocou a ira dos comerciantes locais.

“…é precário o estado da Rua Anhangabahu. As casas comerciaes estão impossibilitadas de realizar o carregamento e descarregamento de mercadorias e o trânsito difficultado. O lamaçal tomou conta do leito da rua e do local onde já foi calçada. Algumas guias são utilizadas pelos pedestres, com grave risco de perder o equilíbrio e cahirem nas enormes poças d’água”.

O texto segue: “os prejuizos decorrentes deste estado de coisas, para os commerciantes estabelecidos no local, vêm num crescendo assustador desde o início das obras do Viaducto Florencio de Abreu, isto ha 18 mezes. Uma casa de calçados viu-se obrigada a cerrar as portas. outras estão nessa imminência”.

A matéria trazia três fotos, na quais se podia de fato constatar um grande canteiro de obras sobre o viaduto já construído.

Estrutura completa 90 anos com outro nome e o desafio da preservação

Menos famoso que outros viadutos da capital, como o Viaduto do Chá ou o Viaduto Santa Ifigênia, o Viaduto Florêncio de Abreu completará 90 anos em 2026.

O vencedor da licitação para sua construção, em 1936 foi a Construtora Augusto Ferreira Velloso e Cia.

Augusto Velloso foi o fundador da construtora que leva seu nome e que foi responsável pela obra do viaduto.
Augusto Velloso foi o fundador da construtora que leva seu nome e que foi responsável pela obra do viaduto…

Nascido em maio de 1892 na cidade de Botucatu, interior de São Paulo, Augusto Ferreira Velloso mudou-se para a capital aos 10 anos para estudar na então Escola Americana – hoje Mackenzie.

Augusto fundou a Augusto Velloso & Cia. Ltda em 1928 com os sócios  Rosendo Bento Martinez, seu sogro, e Jarbas Cardoso Franco, seu amigo, ocupando uma pequena sala comercial na Rua São Bento, 47.

Além do viaduto Florêncio de Abreu, mais ou menos no mesmo período a construtora foi responsável pela construção de um importante trecho da Rodovia São Paulo-Paraná, a implantação da Avenida Pacaembu e a realização do Viaduto Martinho Prado sobre a Avenida 9 de Julho.

A Construtora expandiu suas fronteiras ao se especializar em Engenharia Militar durante o período da Segunda Guerra Mundial. Quartéis, ferrovias e hospitais militares foram construídos em diversos estados brasileiros. Com o fim da guerra a construtora se dedicou a construir unidades fabris, redes de saneamento básico, subestações elétricas, gasodutos, oleodutos e todo o tipo de infraestrutura civil.

Em 2 de janeiro de 2019 o então prefeito de São Paulo, Bruno Covas, sancionou a Lei Municipal nº 17.028, que determinava a mudança do nome do viaduto:

Art. 1º Fica alterada a denominação do Viaduto Florêncio de Abreu, codlog 36.604-2, para Viaduto Augusto Ferreira Velloso, situado no Setor 1, Quadras 40, 41, 49 e 50, localizado no Distrito da Sé, Subprefeitura da Sé.

Restaurado em 2008 o viaduto passou a se chamar Augusto Velloso em 2019.
Restaurado em 2008 o viaduto passou a se chamar Augusto Velloso em 2019.

Desde então o viaduto passou a ser denominado com o nome do responsável por sua construção.

Embora sendo fundamental para a estrutura viária do centro, o viaduto, que é tombado pelo patrimônio histórico municipal desde 1992, enfrenta desafios para se manter preservado.

Em 2003 a Folha de São Paulo trazia a matéria “Em estado crítico, viaduto espera restauro”.

O texto informava que “Quem passa pelo local sente o cheiro de urina enquanto desvia de camelôs, buracos e fios da rede elétrica, que está a céu aberto…

Na parte superior, os camelôs colocaram tablados de madeira no piso, cuja pavimentação foi removida em alguns pontos, para nivelar as barracas. Os pedestres têm de andar no meio da rua.

Apesar da restauração a estrutura de ferro sofre impacto frequente de caminhões.
Apesar de restaurada em 2008 a estrutura do viaduto sofre impacto frequente de caminhões.

Na parte de baixo, na rua Carlos de Souza Nazaré, como a altura do viaduto é de 3,80 m (o Código de Trânsito Brasileiro prevê no mínimo 4,40 m), parte da viga metálica foi destruída, provavelmente após um caminhão atingir a estrutura. O único acesso do viaduto para a rua é por uma estreita escada lateral, cujo piso se encontra também em estado precário”.

A reforma da estrutura só viria a acontecer a partir de julho 2008 e levou cerca de 10 meses para ficar pronta.

Desde então, entretanto, o viaduto Augusto Velloso sofreu novamente danos em sua estrutura de ferro, contra a qual frequentemente caminhões se chocam ao trafegar pela rua Carlos de Souza Nazaré.

Florêncio de Abreu passa por requalificação

Obras de requalificação da Rua Florêncio de Abreu estão sendo realizadas.
Obras de requalificação da Rua Florêncio de Abreu estão sendo realizadas.

A rua Florêncio de Abreu atualmente está passando por um processo de requalificação dentro do “o Projeto Ruas Temáticas”, da Prefeitura de São Paulo.

A iniciativa prevê intervenções em vias tradicionais do Centro com histórico de especialização comercial. O projeto teve início na rua General Osório, conhecida pelo comércio de motos, e agora contempla a Florêncio de Abreu, referência no segmento de ferramentas, além das ruas Paula Souza, ligada ao setor de cozinha, e Santa Ifigênia, tradicional polo de eletrônicos.

Entre as intervenções previstas estão alargamento de calçadas, cruzamentos elevados, estreitamento das faixas de rolamento, implantação de mobiliário urbano, floreiras, áreas verdes, espaços de permanência e elementos de comunicação e identidade visual, como totens.

As obras já se iniciaram pela extremidade norte da rua, que termina na esquina da rua Mauá, bem próximo da Estação da Luz.

Apesar de positiva a intervenção na Florêncio de Abreu não contempla a recuperação da estrutura deste importante viaduto que, infelizmente, deverá continuar a sofrer com os choques frequentes dos caminhões.

Fontes:

https://www.augustovelloso.com.br/institucional

https://www.linkedin.com/posts/construtoraaugustovelloso-augustovelloso-share-7144405248483262464-fsDU

https://www.estadao.com.br/acervo/como-era-sao-paulo-sem-a-estacao-da-luz/?srsltid=AfmBOootAUCZ8epXXv1PTJHlSji5B_kbi9Qvt4AXjUVAMhvmfA_yOsj2

https://www.facebook.com/photo?fbid=3466538516818556&set=pcb.24982401638118925

https://legislacao.prefeitura.sp.gov.br/lei-17028-de-2-de-janeiro-de-2019/consolidado

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2806200314.htm

https://prefeitura.sp.gov.br/web/comunicacao/w/noticias/126883

https://prefeitura.sp.gov.br/web/comunicacao/w/noticias/130608

https://dcomercio.com.br/publicacao/s/memorias-de-32-o-legado-vivo-de-carlos-de-souza-nazareth

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