A história de dois ícones do jornalismo paulistano

No dia 1 de junho é comemorado no Brasil o Dia Nacional da Imprensa. Em todos os estados brasileiros ao longo de nossa história, surgiram grandes veículos de comunicação e em São Paulo, dentre tantos outros, dois jornais se tornaram emblemáticos: O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo.

A Gazeta do Rio de Janeiro. Jornal da Monarquia.
A Gazeta do Rio de Janeiro. Jornal da Monarquia.

O Dia Nacional da Imprensa, por muito tempo, foi comemorado em setembro, em alusão à Gazeta do Rio de Janeiro (o jornal oficial da Corte), fundado em 10 de setembro de 1808. 

Porém, a Lei Federal nº 9.831, de 13 de setembro de 1999, alterou a data de forma que a comemoração passasse a homenagear o Correio Braziliense ou Armazém Literário (não confundir com o Correio Braziliense, fundado por Assis Chateaubriand, em 1960) um jornal mensal fundado em 1 de junho de 1808 e publicado por Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça em Londres. 

Apesar de não ter sido editado em solo da colônia portuguesa, é considerado o primeiro jornal brasileiro. Circulou de 1 de junho de 1808 a 1 de dezembro de 1822.

Primeiro exemplar do independente Correio Braziliense.
Primeiro exemplar do independente Correio Braziliense.

Enquanto a Gazeta só publicava aquilo que agradava ao Rei, o Correio foi um jornal crítico ao governo imperial. Debatia ideias iluministas e circulava clandestinamente no Brasil. Nasceu praticamente junto com a chegada da família imperial ao Brasil, seu primeiro jornal de opinião e fiscalização do poder.

No período imperial, São Paulo, apesar de estar distante da corte, teve grandes periódicos, principalmente no Séc. XIX:

O Farol Paulistano de 1827 foi o primeiro jornal impresso da província de São Paulo. Era de cunho liberal e combatia o absolutismo de D. Pedro I.

Lançado em junho de 1854, o Correio Paulistano foi o primeiro jornal diário publicado na cidade e o terceiro do Brasil. Teve como fundador Joaquim Roberto de Azevedo Marques, e como primeiro redator Pedro Taques de Almeida Alvim.

Foi um dos mais importantes diários do Séc. XIX, retratando a vida da cidade no final do império e início da República.

O Diário Popular, de 1884, foi o primeiro a dialogar de uma forma menos elitizada com a população mais simples da cidade. Atravessou mais de um século com essa filosofia.

Dentre outros, A Província de São Paulo, fundada em 1875 por um grupo de republicanos e abolicionistas foi o embrião do jornal O Estado de São Paulo.

O contexto da transformação da imprensa no Séc. XIX

Antes provinciana, à medida que corriam as décadas da segunda metade do Séc. XIX, a cidade de São Paulo cada vez ganhava ares cosmopolitas, com o crescimento acelerado trazido pela riqueza do café, que não apenas impulsionava a construção civil e patrocinava a vinda de muitos trabalhadores, como também incentivava a intelectualidade frequentadora da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, por exemplo.

Essa elite econômica e intelectual precisa de um espaço para a discussão de suas ideias e os veículos de comunicação impressa eram o caminho natural desta expressão.

Nesse contexto surgem os jornais, mensais, semanais ou diários, cada qual alinhado a uma posição política e social.

Voltamos ao jornal A Província de São Paulo.

Último exemplar da Província de São Paulo. o Próximo seria "O Estado de São Paulo".
Último exemplar da Província de São Paulo. o Próximo seria “O Estado de São Paulo”.

Como descreve o historiador Rubens Arantes Correa, em sua Tese de Doutorado intitulada A Província de São Paulo (1875-1889):

…a trajetória de um jornal na transição monarquia-república, “desde sua fundação em 4 de janeiro de 1875 até sua última edição antes da mudança para O Estado de S. Paulo, em 31 de dezembro de 1889, (o jornal) passou por diversas fases mantendo-se, contudo, fiel à característica básica do jornalismo praticado no século XIX: o seu caráter político-partidário…

… nascido no bojo do Manifesto Republicano de 1870 e da Convenção de Itu de 1873, A Província de São Paulo colocou-se no campo da imprensa paulistana  como  porta-voz  de  um  movimento  político  em  ascensão, contando, a seu favor, com o apoio de setores emergentes da elite cafeeira que, descontentes com o regime monárquico e ávidos por prestígio político e social, patrocinaram a causa republicana.” 

Logo após a proclamação da República brasileira, não fazia mais sentido manter o termo “Província” no nome do jornal, que foi alterado para “Estado”. A Província de São Paulo, dava lugar ao “Estado de São Paulo”.

Ainda na esteira do movimento republicano, o então redator do jornal, Francisco Rangel Pestana, se afastou do periódico para ser um dos redatores da nova Constituição Republicana, e assumiu a direção do jornal o jovem Júlio de Mesquita.

No ano de 1902 Mesquita comprou o jornal e deu início à dinastia familiar que controla o Estado de São Paulo desde então.

No ano de 1921 o “Estadão” já era o maior periódico da cidade, suplantando o Correio Paulistano.

Foi neste ano que outro grupo de intelectuais e jornalistas liderados por Olival Costa e Pedro Ferraz do Amaral, fundou o jornal Folha da Noite.

O jornal surgiu como um veículo de oposição ao Partido Republicano Paulista (PRP), que dominava a política estadual e cujos membros encontravam farto espaço para propagar suas ideias no jornal controlado por Júlio de Mesquita.

A proposta inicial da Folha da Noite era criar um periódico vespertino com linguagem mais acessível, focado em notícias policiais, crônicas urbanas e apelo popular, diferenciando-se da imprensa tradicional voltada para a elite.

A aposta foi bem sucedida e o sucesso do formato popular levou o grupo jornalístico à criação da Folha da Manhã, no ano de 1925 e da Folha da Tarde, em 1949.

Os três jornais do “Grupo Folha” foram editados continuamente até dezembro de 1959. Em primeiro de janeiro de 1960, os títulos foram unificados em um novo jornal chamado “Folha de São Paulo”.

Dois anos depois, os jornalistas Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho assumiram o controle da empresa Folha da Manhã, que editava o jornal. Começava ali a dinastia “Frias”.

Dois grupos familiares no domínio dos principais jornais

Júlio Mesquita.
Júlio Mesquita.

A trajetória da família Mesquita está intrinsecamente ligada à direção do jornal O Estado de S. Paulo, desde o pioneiro Júlio Mesquita. Desde o início da República e sob a sua direção, o veículo consolidou-se como porta-voz da oligarquia e da política do café com leite, defendendo a livre iniciativa e o republicanismo.

Com a morte de Júlio Mesquita em 1927, seu filho Júlio de Mesquita Filho assumiu a direção do jornal e a família teve papel central na articulação ideológica e no apoio à Revolução Constitucionalista de 1932 contra o governo Vargas.

Com a derrota do movimento paulista, assim como outros intelectuais, os Mesquita foram exilados e, em março de 1940, durante o Estado Novo, o jornal foi confiscado por Getúlio Vargas, sendo devolvido à família apenas em dezembro de 1945.

Em 1969, com o falecimento de Júlio de Mesquita Filho, a direção foi dividida entre seus filhos: Júlio de Mesquita Neto assumiu como diretor responsável. Ruy Mesquita dirigiu o Jornal da Tarde e assumiu a linha de opinião do Estadão. 

A gestão familiar no comando empresarial do Grupo Estado perdurou até 2003, quando as operações foram reestruturadas e profissionais de mercado passaram a integrar o comando executivo do grupo.

A família Mesquita, entretanto, continua a exercer forte influência na linha editorial do jornal. Francisco de Mesquita Neto e à quarta geração de membros da família no comando do grupo. 

Octavio Frias.
Octavio Frias.

A família Frias controla a Folha da Manhã S. A. há duas gerações. Octávio Frias de Oliveira comandou o jornal como publisher e proprietário de 1962 até a sua morte em 2007 e seu filho Otávio Frias Filho assumiu o posto de secretário-geral do recém criado Conselho Editorial da empresa em 1978, dando início à segunda geração da família à frente dos negócios. 

Assumiu a Direção de Redação em 1984, liderando o projeto de modernização editorial por 34 anos, até falecer em 2018. A partir de então, assumiu a direção do Grupo Folha (que engloba empresas como o UOL e o PagSeguro seu irmão, Luiz Frias de Oliveira.

Juntas, as famílias Mesquita e Frias controlam dois dos maiores conglomerados de mídia do país. No caso do Grupo Folha, que tem alcance digital expressivo com o portal UOL, frequentemente tem uma audiência que passa de 20 milhões de leitores mensais nas plataformas digitais.

Ainda que os números do Grupo Estado sejam mais modestos, o jornal O Estado de São Paulo, em sua versão impressa, tem tiragem diária de cerca de 216 mil exemplares.

O portal de notícias do grupo é o sexto mais acessado do Brasil e a Agência Estado é uma das mais conceituadas e atuantes na divulgação de notícias para outros canais de mídia.

Duas empresas ligadas ao centro de São Paulo

O Grupo Estado ocupou oito sedes ao longo de sua história e a maioria delas no centro de São Paulo, sendo a sede da rua Major Quedinho a mais significativa.

O edifíco do Estado de São Paulo na rua Major Quedinho.
O edifíco do Estado de São Paulo na rua Major Quedinho.

Projetada inicialmente por Jacques Pilon e refeita pelo arquiteto Franz Heep, foi inaugurada em 18 de agosto de 1953. O edifício modernista foi o mais famoso do grupo, abrigando o Estadão e, mais tarde, o Jornal da Tarde e o Diário Popular. 

Ficou marcado historicamente por ser o local onde censores da Ditadura Militar atuaram diretamente dentro da redação e onde o jornal funcionou até 1979. 

Após deixar o centro, em 1979, o grupo transferiu suas operações para a Marginal Tietê e, posteriormente, em meados dos anos 70, construiu o seu complexo gráfico e administrativo no bairro do Limão, onde permanece até hoje.

O edifício da rua Major Quedinho, depois de um período de certa decadência, hoje abriga Hotel Nacional Inn Jaraguá e a presença do jornal na região legou aos paulistanos, também, um dos mais icônicos bares da capital, o “Estadão”.

O estabelecimento consolidou-se como um verdadeiro marco da cidade por sua tradição e peculiaridades.

Para atender os jornalistas de plantão e os funcionários do jornal, o bar foi um dos primeiros da capital a funcionar ininterruptamente, tornando-se o ponto de encontro clássico do fim de noite paulistano para jornalistas, políticos, artistas e boêmios.

Em maio de 1974, o espaço foi comprado pela família Zonta que até hoje administra o negócio e prepara centenas de sanduíches de pernil.

Assim como o famoso bauru do Ponto Chic, o sanduíche de pernil do Estadão é considerado um dos melhores e mais tradicionais da cidade.

Há alguns quarteirões de onde funcionou os jornais do Grupo Estado ainda funciona a sede do Grupo Folha.

A sede do Grupo Folha, em primeiro plano.
A sede do Grupo Folha, em primeiro plano.

Quando foi fundada em 1921, a Folha da Noite operava em uma modesta sala na Rua São Bento, no centro de São Paulo. 

Naquela época, o jornal não possuía impressora própria e precisava rodar seus exemplares nas oficinas do concorrente (O Estado de S. Paulo).

Com o rápido crescimento da circulação a partir dos anos 1950, a administração, as redações e as oficinas de impressão foram centralizadas em um prédio na Alameda Barão de Campinas, que representou o primeiro grande passo para a consolidação física do grupo. No final da década de 1960, um segundo prédio foi construído e conectado ao complexo, desta vez na Alameda Barão de Limeira. 

Este edifício tornou-se a entrada principal e a sede definitiva do jornal, abrigando também as operações de publicações como o Notícias Populares e o Agora São Paulo.

O edifício situado no meio do quarteirão, já chama atenção por sua fachada de pastilhas vítreas amarelas, mas o maior símbolo do jornal, ficava no imenso salão ao lado da entrada principal.

Primeiro a imensa impressora rotativa Goss Urbanite, comprada pela Folha em 1968 e logo substituída pela ainda maior Goss Metro, a segunda maior rotativa do mundo, inaugurada em 1970.

 A impressora, que tinha o tamanho de um edifício de três andares foi a responsável pela impressão de milhões de páginas do jornal ao longo de 70 anos.

Na década de 1960, seis caminhões trazem peças para a nova impressora da Folha.
Na década de 1960, seis caminhões trazem peças para a nova impressora da Folha.

Em um só dia, em 12 de março de 1995, a impressora gerou 1.613.872 exemplares da Folha, recorde do jornal, por ocasião do lançamento do encarte “Atlas da História do Mundo”. Naquele dia, foi superada apenas pela edição dominical do “The New York Tmes”.

Entrar na sede da Folha e poder ver a gigantesca impressora de quase 700m² trabalhando impressionava qualquer visitante e mostrava a imponência do grupo editorial.

O último exemplar da Folha de São Paulo impresso no centro da capital foi em 30 de outubro de 2014, após a Folha inaugurar um novo parque gráfico em Santana do Parnaíba.

Ao contrário do Grupo Estado, que se transferiu para o bairro do Limão, a Folha ainda ocupa o icônico edifício da Barão de Limeira com as áreas de tecnologia, as redações de seus veículos, como o UOL e as operações do instituto de pesquisa DataFolha.

Fontes

https://www1.folha.uol.com.br/folha-100-anos/2021/02/pioneira-grafica-na-sede-da-folha-e-desmontada-apos-70-anos.shtml

https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/62183/43687

https://brazil.mom-gmr.org/br/proprietarios/pessoas/detail/owner/owner/show/mesquita-family

https://brazil.mom-gmr.org/br/proprietarios/pessoas/detail/owner/owner/show/frias-family

https://todospelocentro.prefeitura.sp.gov.br/noticias/estadao-bar-e-lanches-conheca-a-iconica-casa-do-centro-de-sao-paulo-que-venceu-o-premio-de-melhor-sanduiche-da-cidade

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/3/12/brasil/25.html

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