Felisberto Ranzini, o mestre do traço do escritório Ramos de Azevedo

O arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo foi protagonista da mudança das edificações de São Paulo, na virada do século XIX para o Século XX. Seu escritório de arquitetura foi o principal do período, com centenas de obras icônicas. Ramos de Azevedo contou com inúmeros profissionais apoiando seus projetos, tema que já abordamos aqui no Blog. Dentre eles Felisberto Ranzini, uma personalidade discreta mas de fundamental importância no período.

Na postagem “Ramos de Azevedo e seus colaboradores” abordamos alguns dos nomes  que ajudaram o famoso arquiteto e seu escritório a alcançar a fama que nenhum outro do período alcançou (e olha que outros importantes profissionais atuaram na arquitetura do período de forma muito importante).

Nosso post de hoje trata de uma destas pessoas, que, não apenas colaborou com Ramos de Azevedo, mas teve fundamental importância em seus projetos mesmo após a morte do famoso arquiteto e até o fim de sua vida, deixando um legado para a cidade que se pode ver em obras arquitetônicas e artísticas: Felisberto Ranzini.

Felisberto Ranzini.
Felisberto Ranzini

Italiano, nascido em San Benedetto Po, na região da Lombardia, em 1881, chegou criança à São Paulo, junto com os pais, no ano de 1888.

Estudou e formou-se no Liceu Coração de Jesus e, posteriormente, ingressou no Liceu de Artes e Ofícios, onde foi aluno do arquiteto Domiziano Rossi, que, por sua vez, integrava o escritório de Ramos de Azevedo.

Ao notar o talento do jovem o convidou para trabalhar no escritório, no ano de 1908, na seção de desenho e composição arquitetônica, então chefiada por Rossi.

Ranzini, trabalhando com Ramos de Azevedo, participou das principais realizações do escritório e fez de sua maior marca o Estilo Florentino, que teve por maior referência a arquitetura Toscana, da Idade Média ao Renascentismo, com direito à liberdade do ecletismo brasileiro. 

Projetos marcantes de Ranzini

Palácio dos Correios.
Palácio dos Correios.

O Escritório de Ramos de Azevedo se notabilizou pela construção de inúmeros edifícios hoje históricos na capital, identificados com o nome do arquiteto. Mas vários deles tiveram o protagonismo de seus projetos aos arquitetos associados ou contratados pelo escritório, como o caso de Felisberto Ranzini.

A maioria de seus projetos paulistanos foi desenvolvida coletivamente dentro do escritório, mas ele assina ou liderou a composição das fachadas e ornamentos de edifícios históricos altamente icônicos na capital.

Mercado Municipal de São Paulo.
Mercado Municipal de São Paulo.

No Mercado Municipal de São Paulo, o “Mercadão”, embora a concepção estrutural e a planta geral tenham sido obra do escritório, Ranzini foi o responsável direto por desenhar e “vestir” as imponentes fachadas ecléticas com suas marcantes colunas e respectivos acabamentos.

O Palácio dos Correios: Inaugurado em 1922 no Vale do Anhangabaú, teve seu projeto arquitetônico principal assinado por Domiziano Rossi e Felisberto Ranzini. O edifício foi um dos últimos projetos do mentor de Ranzini que faleceu em outubro daquele ano.

Por essa razão, Ranzini assumiu o desenvolvimento e o detalhamento do projeto arquitetônico do Palácio da Justiça, na Praça da Sé, logo após o falecimento de Domiziano Rossi.

Na Faculdade de Direito da USP (no Largo de São Francisco) Ranzini colaborou ativamente no desenho e nos detalhes de composição do edifício conhecido como “arcada”, justamente porque o projeto arquitetônico propunha manter as colunas e arcos que sustentavam o antigo convento franciscano que existia no local.

Arcadas do Largo São Francisco.
Arcadas do Largo São Francisco.

Quando o prédio foi reconstruído nos anos 1930, essa estrutura foi preservada, mantendo o tradicional Pátio das Arcadas.

Outro projeto de Ranzini, dentro do escritório de Ramos de Azevedo, foi o Edifício da Bolsa de Mercadorias, construído no Centro Histórico em 1933, já no período em que o escritório estava em transição para tornar-se “Severo e Villares”.

Nesta década de 1930, Ranzini já ocupava no escritório de Ramos de Azevedo a direção da seção de desenho e composição arquitetônica, cargo que assumiu em 1920, após o falecimento de Domiziano Rossi e no qual se aposentou no escritório (já Severo e Villares) em 1946.

Uma deferência especial

Outra obra de grande significado para a cidade de São Paulo, levada a termo por Ranzini foi a residência projetada para a filha de Ramos de Azevedo, Lúcia Lacaze Ramos de Azevedo e seu marido Ernesto Dias de Castro.

Conhecida hoje como a Casa das Rosas, a mansão na Avenida Paulista foi projetada pelo Escritório Técnico Ramos de Azevedo e construída entre 1927 e 1935, sob a supervisão direta do engenheiro Felisberto Ranzini.

Casa das Rosas, último imóvel remanescente em boas condições da primeira fase da Av. Paulista.
Casa das Rosas, último imóvel remanescente em boas condições da primeira fase da Av. Paulista.

Por 51 anos, a residência foi habitada pela família, composta pelo casal, seus dois filhos – Laura Dias de Castro e Ernesto Dias de Castro Filho –  e, mais tarde, pela nora, Anna Rosa Menezes de Castro, sendo esta a última a deixar o casarão, em 1986.

Em estilo eclético, o casarão possui cerca de trinta cômodos, distribuídos em quatro pavimentos.

A construção foi feita em alvenaria de tijolos e revestida com materiais nobres e finamente trabalhados. Nas áreas sociais, se destacam os pisos marchetados em madeira e em mármore. Nas áreas de serviço, os pisos hidráulicos de variados motivos e cores chamam a atenção, além dos azulejos que revestem as paredes e o teto da cozinha. 

A escadaria principal, em mármore branco com corrimão em madeira e ferro ornado, e o vitral produzido pela renomada Casa Conrado impactam quem adentra o casarão.

O jardim da área externa, em estilo francês, apresenta canteiros em formato geométrico, além de uma fonte d’água central. Junto às famosas rosas (que deram o nome ao imóvel), outras espécies também compõem o espaço verde, com destaque para os ipês, pitangueiras, abacateiro e mangueira.

A Casa das Rosas foi tombada pelo o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) em 1985 e, pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo (Conpresp), em 1990.

Em 1991, após negociação entre os então proprietários e o governo do estado de São Paulo, a Casa das Rosas abriu as portas para o público, com uma programação artística. Desde então, diversas iniciativas culturais passaram a ocupar a edificação e, em 2004, o espaço foi reorientado como “Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura”.

É praticamente o último imóvel remanescente da primeira fase da Avenida, quando a elite econômica da cidade ocupava a avenida com seus grandes palacetes em imensos terrenos, que deram lugar a centenas de edifícios.

Muito além do escritório de Ramos de Azevedo

Morro de Santa Tereza. Óleo sobre Tela de Felisberto Ranzini.
Morro de Santa Tereza. Óleo sobre Tela de Felisberto Ranzini.

Reduzir a importância de Felisberto Ranzini apenas a sua atuação no escritório de Ramos de Azevedo seria deixar de considerar sua relevância acadêmica e para as artes plásticas do período.

Concomitante a seu trabalho no escritório de arquitetura Ranzini foi um dedicado professor, exercendo papel fundamental na formação de novas gerações de artistas e arquitetos.

Entre 1921 e 1949, lecionou arquitetura na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Também foi professor no Liceu de Artes e Ofícios e na Escola de Belas-Artes de São Paulo. Sua metodologia incentivava a criatividade e a experimentação, sempre com foco na excelência técnica e em uma abordagem humanista.

Ranzini também se expressou por meio da pintura, talvez um contraponto à sua atividade de desenho técnico, tinha predileção por retratar paisagens, em óleo e aquarela.

Expôs suas pinturas em diversas mostras e salões de arte, como a Exposição de Belas-Artes em São Paulo (1911/1912), a Exposição de Belas-Artes Muse Italiche (1928) e o IX Salão Paulista de Belas Artes – São Paulo. em 1943, além de mostras individuais em galerias paulistanas.

Até hoje é possível encontrar obras do autor no catálogo de galerias.

Museu do Livro Esquecido

Residência de Morro de Santa Tereza. Óleo sobre Tela de Felisberto Ranzini, em excelente estado de conservação.
Residência de Felisberto Ranzini, em excelente estado de conservação.

Felisberto Ranzine expressou sua criatividade e talento fundamentalmente por meio do desenho. Seja na sua atuação profissional, seja na sua verve artística, por isso é curioso que o mais recente legado de sua trajetória profissional e, neste caso, pessoal na cidade de São Paulo, tenha se tornado um espaço dedicado à celebração do livro.

O Museu do Livro Esquecido é um espaço cultural dedicado à história do livro físico, da tipografia e à preservação de obras e autores que foram deixados de lado pela história literária.

Conta com cerca de 3.000 a 5.000 itens, incluindo primeiras edições de obras clássicas e exemplares acadêmicos que ilustram a evolução da imprensa desde Gutenberg e seu título curioso tem o objetivo de “resgatar” a história de obras e autores “esquecidos” no contexto da literatura.

Criado de forma particular em 17 de agosto de 2024, o museu se liga à história de Felisberto Ranzini pelo fato de que está instalado em sua antiga residência, na Rua Santa Luzia, 31, bairro da Liberdade, região central da cidade. 

Ranzini adquiriu o terreno de Elvira Giubergia, para erguer sua residência. Ironicamente, não se sabe ao certo a data do projeto, que leva apenas a sua assinatura e a identificação da disposição dos cômodos, mas pode-se supor a data de conclusão das obras pelo registro em seu frontão: 1924.

A família morou por décadas no imóvel e os netos do arquiteto, Renzo Emiliano Ranzini e Lello Sisto Ranzini, foram os últimos a ocupar o imóvel, até 2006, quando venderam a propriedade para um grupo de sócios que a tornou em centro cultural esporádico, conhecido como “Casa Ranzini” e focado em história da arquitetura, promovendo oficinas e exposições de arte e fotografia.

Em 2021, ela foi adquirida por outro grupo de sócios que ali instalaram o projeto do Museu do Livro Esquecido.

Assim como aconteceu na Casa da Boia, pelo fato da família ter ocupado o imóvel por tantas décadas, ele se encontra ainda em bom estado de conservação, e mantido em grande parte com suas características originias.

O imóvel foi tombado pelo CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico em julho de 2015 e pelo CONPRESP  – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo em novembro do mesmo ano.

Fontes:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Domiziano_Rossi

https://www.acervos.fau.usp.br/item/13669

https://legislacao.prefeitura.sp.gov.br/resolucao-secretaria-municipal-da-cultuura-conpre-15-de-15-de-agosto-de-2015

https://historiadesaopaulo.blogspot.com/2012/11/rua-felisberto-ranzini.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/Resid%C3%AAncia_de_Felizberto_Ranzini

https://www.guiadasartes.com.br/felisberto-ranzine/quem-foi

https://arquivo.arq.br/profissionais/felisberto-ranzini

https://www.ipatrimonio.org/sao-paulo-residencia-felizberto-ranzini/#!/map=38329&loc=-23.554998359144165,-46.643571853637695,15

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