Talvez muitos leitores deste post nem saibam exatamente o que é um bonde, ou tem a referência de que era um transporte usado pelos “velhos”. Hoje desaparecidos da cidade, os bondes foram fundamentais para seu crescimento e ocuparam a paisagem urbana da capital por nada menos do que, exatos, 96 anos!
A cidade essencialmente rural, que era São Paulo até o início do Séc. XIX, a partir dos anos 1870, para usar um marco temporal aproximado, começa a vivenciar o crescimento impulsionado pelo ciclo do café.
A capital paulistana, até então uma pacata vila restrita ao chamado triângulo central, vê chegar a São Paulo Railway (1867), a primeira ferrovia do estado, que ligou as cidades de Santos e Jundiaí, as pontas de escoamento e de produção do grão.
No caminho dos trilhos surgiam as estações, como a própria Estação da Luz, a primeira, do mesmo ano de 1867 e por meio delas, também, os paulistanos começaram a ter contato com cada vez mais estrangeiros, de passagem para as lavouras.
Poucos anos mais tarde a superprodução cafeeira e a abolição da escravidão (1888) liberaram capitais e criaram um mercado consumidor assalariado. A chegada em massa de imigrantes europeus antes destinada ao trabalho nas fazendas passou a formar a base da classe operária e em menor número, empresarial na cidade.
Resultado? Crescimento populacional e novas demandas em todas as áreas para atender essa população crescente. De forma muito simplista e resumida, foi desta maneira que as indústrias começaram a ocupar as margens da linha férrea formando os primeiros bairros paulistanos.
Nem todos os operários moravam próximos às novas indústrias e o transporte de massa, até então algo inexistente na cidade começou a ser uma necessidade e uma oportunidade e foi assim que surgiram as primeiras iniciativas de criação de estruturas para transportar essa população que só crescia.

Em 1872, mais precisamente no dia 27 de março daquele ano, circulou o primeiro veículo de uma novidade que acompanharia o crescimento da cidade por quase um século. O bonde movido a tração animal.
A Companhia Carris de Ferro foi a primeira a operar e também a desenvolver linhas de bonde na capital, a partir daquela data. A viagem inaugural de 27 de março foi feita entre a Rua do Carmo e a Estação da Luz, passando pelo centro da cidade.
Os primeiros veículos, importados dos Estados Unidos, eram compactos, abertos e rapidamente se popularizaram, mas esse sistema inicial, tinha características limitadoras.
O serviço esbarrava na falta de flexibilidade das operações, já que o bonde não fazia curvas acentuadas e era obrigado a ir e vir na mesma linha de trilhos. Este primeiro bonde, movido a tração animal, tinha a frente e a traseira iguais e, ao chegar ao ponto final, os passageiros viravam os encostos dos bancos, para que os próximos pudessem seguir viagem de frente para o destino.

No começo da operação da Companhia Carris de Ferro a frota era tímida: a cidade começou a operar com cerca de 10 a 15 bondes importados dos Estados Unidos e pouco mais de 60 mulas, mas, à medida da expansão acelerada da cidade, o sistema cresceu vertiginosamente.
Por volta de 1890 São Paulo já contava com mais de 100 bondes circulando e uma “frota viva” de mais de 1.000 mulas e burros trabalhando em revezamento.
Os animais trabalhavam em duplas ou parelhas de quatro (nas ladeiras) e precisavam ser levados constantemente para as cocheiras para poder descansar.
Aliás, vale lembrar que o sistema exigia uma logística complexa de guarda dos bondes e dos animais.

As principais garagens, estações e estábulos (onde ficavam as mulas) dos bondes de tração animal ficavam localizados na Rua Barão de Limeira (Depósito de Carros), na Rua Voluntários da Pátria (Santana) e em um grande complexo na região da Avenida Domingos de Moraes, cruzamento com a Rua Vergueiro.
Os animais e bondes partiam e retornavam diariamente para as estações de transbordo, como a Estação da Luz, Largo do Rosário (atual Praça Antônio Prado) e Largo São Bento.
A CVP é criada
Em 1889 é criada a Companhia Viação Paulista (CVP), a partir da fusão de várias empresas pioneiras, incluindo a Companhia Carris de Ferro de São Paulo, a Tramway de Santo Amaro e a Companhia Paulista de Transportes.
A Viação Paulista monopolizou o transporte na capital expandindo as linhas, mas enfrentou um período de transição difícil com essa expansão.
Lembremos que a cidade de São Paulo é cheia de colinas, subidas e ladeiras íngremes. Instalar os trilhos e, pior, exigir “performance” das mulas que puxavam os bondes não era tarefa fácil.
Devido a problemas financeiros que não permitiram investimento na velocidade necessária e a consequente má fama do serviço (cujas iniciais C.V.P. foram apelidadas pela população como “Cada Vez Pior”) a companhia não resistiu ao “lobby” de uma outra empresa disposta a entrar no lucrativo mercado de transporte.
Assim, em 1899 a companhia canadense Light, que acabara de receber autorização para operar no Brasil, fundou a São Paulo Tramway, Light and Power Company e adquiriu as concessões das linhas de bonde da Companhia Paulista.
Com a entrada da Light o sistema se expande

A entrada dos canadenses representou uma mudança radical no serviço de transporte por bondes. O principal negócio da Light era o de geração de energia elétrica, não necessariamente os serviços de transporte, mas, porque não unir as duas coisas?
Assim é que a Light passou a eletrificar as linhas e no dia 7 de maio de 1900, foi inaugurada a primeira linha de bonde elétrico da cidade, a Linha Barra Funda, que ligava o Largo de São Bento (Aqui ao lado da Casa da Boia) ao fim da Rua Barão de Limeira, nos limites do bairro da Barra Funda.
A partir daí o crescimento deu-se em escala geométrica: nos anos 30 a cidade já contava com 160 km de trilhos que ligavam a cidade de norte a sul e de leste a oeste, integrando esses veículos aos trens da Ferrovia Santos-Jundiaí, expandindo a integração da cidade.

Um dos grandes responsáveis por essa expansão foi o prefeito da capital entre 1899 e 1911, Antonio Prado. Fazendeiro e empresário, Antonio da Silva Prado era um apaixonado por inovações, principalmente por trens e eletricidade.
Ele foi uma das autoridades que estiveram na viagem inaugural do bonde elétrico, chegando a conduzir o veículo em alguns momentos.
Os bondes continuaram a formar o principal sistema de transporte coletivo da cidade nas décadas seguintes, mas, para os executivos da Light, o serviço já não lhes rendia os lucros dos anos iniciais.
A fim de resolver o impasse, em 1947 foi criada a Companhia Metropolitana de de Transportes Coletivos – CMTC, que municipalizou o sistema, “recomprando” a frota da Light e operando suas linhas.

A CMTC herdou um sistema de bondes já envelhecido e deficitário. Tentou modernizar trazendo os famosos bondes Camarão, assim chamado por causa de sua cor vermelha. A ele seguiu-se o bonde Gilda, nome derivado de um grande sucesso do cinema na época, o filme “Gilda”.
Importado, o novo bonde, com bancos estofados e acabamento refinado, circulava nas linhas que passavam pelos bairros mais elegantes da Cidade.
Esse bonde era fechado, com portas acionadas pelo motorneiro, (como era chamado o condutor), e tinha janelas envidraçadas. Nesse modelo também foi instalada a catraca, que registrava o número de passageiros transportados. Os bondes antigos eram abertos e alguns passageiros entravam e saíam sem pagar passagem.
Surgem os ônibus e os trólebus
Já estávamos nos anos 1950 e o Brasil (e São Paulo foi na mesma linha) adotou um modelo desenvolvimentista baseado no transporte rodoviário.
O lobby da indústria automobilística, a pavimentação asfáltica (priorizando o automóvel e o ônibus a diesel) e a visão de que o bonde era “antiquado e lento” enfraqueceram o sistema.
Não que os ônibus fossem exatamente uma novidade. Segundo matéria do jornalista Adamo Bazani, publicada no portal da Rede CBN, os bondes já conviviam com os ônibus desde as primeiras décadas do Séc. XX.

Ainda segundo o texto, os anos de 1923 e 1924 foram marcados por uma enorme seca que comprometeu a geração de energia nas usinas hidrelétricas e a Light & Power Co., e a própria companhia aderiu aos ônibus para complementar o serviço por trilhos que estava prejudicado por essa razão.
Em 1946, surgiu no sistema de transporte paulistano o trólebus, fabricado nos Estados Unidos.
Para quem talvez não saiba, o trólebus era um ônibus com motor elétrico alimentado por um sistema aéreo de cabos eletrificados.
Duas longas hastes metálicas que se projetavam do trólebus se mantinham em contato permanente com a rede elétrica, fazendo o veículo ser acionado.
Em 1957, a CMTC já operava 75 veículos, acompanhando a expansão do serviço.
Ainda assim, foi só a partir da metade dos anos 50 que a estrutura dos bondes foi sendo desmontada de forma definitiva. Afinal, exigiam a manutenção de vias exclusivas, com trilhos “ocupando” um espaço que os ônibus poderiam compartilhar com os automóveis.
E o bonde se recolhe em definitivo
O primeiro ônibus movido a diesel na capital surgiu no ano de 1968, coincidindo com o encerramento do sistema de bondes.
Matéria publicada no portal “Mobilize Brasil” conta como foi que no dia 27 de março de 1968, o serviço que começara no mesmo dia e mês, em 1872, se encerrou na capital, após 96 anos:

“Em 27 de março de 1968, o motorneiro Francisco Lourenço Ferreira se arrumava pela última vez para o trabalho que teve durante quase toda a vida.
A postos, Francisco ouviu do prefeito Faria Lima a ordem: ‘Toca o bonde!’”.
Chegada a hora, um comboio de 12 bondes partiu da Vila Mariana próximo de onde fica o Instituto Biológico, em direção ao ponto final da última linha em operação: Santo Amaro.
Em cada um dos 12 últimos bondes uma faixa de pano era celebrada pelos políticos que acompanharam a viagem final e os cidadãos mais progressistas.
As mesmas faixas, entretanto, provocaram lágrimas naqueles que acompanharam a história do primeiro sistema de transporte coletivo de São Paulo:
“Adeus, Nasce a Nova São Paulo˝

Para quem quiser conhecer um pouco mais desta história e dos demais modais de transporte público da cidade, uma excelente oportunidade é visitar o Museu dos Transportes Públicos Gaetano Ferolla.
Mantido pela Prefeitura de São Paulo, o espaço é rico em acervo documental, livros, objetos e fotografias.
Além disso mantém um acervo de muitos veículos usados no transporte de paulistanos, desde os bondes de tração animal, passando pelos primeiros trólebus e ônibus de São Paulo.
Museu dos Transportes Públicos Gaetano Ferolla
Av. Cruzeiro do Sul, 780 – Canindé (Próximo à estação Armênia do Metrô)
Funcionamento: Aberto de terça a domingo, das 9h às 17h.
Agendamento de visitas monitoradas para escolas pelo telefone: (11) 3315-8884.
Entrada gratuita
Fontes:
https://www.sptrans.com.br/mtp
https://prefeitura.sp.gov.br/web/comunicacao/w/noticias/110576
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?tag=bonde-a-tracao-animal
https://www.saopaulo.sp.leg.br/memoria/especial/bonde-saudoso-paulistano/
https://www.saopaulo.sp.leg.br/memoria/especial/bonde-saudoso-paulistano/
https://viatrolebus.com.br/2020/03/o-ultimo-dia-em-que-o-bonde-operou-em-sao-paulo



