Deu saudade. Empresas icônicas de São Paulo que deixaram de existir

Na próxima semana a Casa da Boia 128 anos de atividades, um feito que menos de duzentas, das cerca de 15 milhões de empresas do Brasil pode comemorar. Se com persistência, dedicação, qualidade e capacidade de adaptação chegamos a quase 130 anos, muitas marcas e empresas icônicas de São Paulo, encerraram suas atividades muito antes disso.

São Paulo, anos 1900. Os paulistanos que frequentavam o centro da cidade encontravam um comércio dinâmico, mas formado por centenas de pequenas lojas, muitas especializadas, que vendiam determinado tipo de produto ou ofereciam determinado tipo de serviço.

Gigante do varejo hoje é marca de pouca expressão.
Gigante do varejo hoje é marca de pouca expressão.

Mas, em 1913, os irmãos ingleses Walter e Herbert Mappin fundaram na capital aquela que seria considerada a primeira “loja de departamentos”, ou seja, um local em que se poderia achar de tudo um pouco. Uma novidade para a época.

O Mappin, nascido como uma loja para o público feminino se expandiu e passou a vender de roupas a eletrodomésticos, de utensílios para cozinha até jóias.

A loja não foi apenas a pioneira neste tipo de comercialização, também inovou ao trazer um salão de chá onde a elite paulistana se encontrava no prédio da rua 15 de novembro.

A empresa tinha um foco claro. Atender a elite. Tanto que até orquestra ao vivo oferecia no famoso salão de chá. 

Foi também nas suas dependências, agora um novo edifício na Praça do Patriarca, que São Paulo assistiu ao seu primeiro desfile de moda, em 1926.

 Veio a crise mundial de 1929/30 que derrubou as vendas de café em todo o mundo e “quebrou” a elite econômica baseada na produção do grão.

Nesse contexto, em 1936, o Mappin passou a ocupar o icônico edifício João Brícola, em frente ao Teatro Municipal, agora com um foco mais abrangente, menos elitizado.

A estratégia levou a empresa a ser uma das maiores (senão a maior) e com certeza a mais famosa loja de departamentos da cidade. Mas, insatisfeitos com a perda de prestígio, os irmãos Walter e Herbert Mappin venderam sua participação na empresa para outros sócios ingleses.

A loja permaneceu sob controle de empresários estrangeiros até 1950, quando foi comprada pelo advogado e comerciante de café Alberto José Alves. 

A empresa se tornou sinônimo de loja de departamentos e abriu mais de dez filiais, com mais de dez mil funcionários. Uma pesquisa realizada em meados da década de 80 revelou que 97% dos paulistanos conheciam o Mappin.

Na década de 1990, o Mappin foi vendido para o empresário Ricardo Mansur e uma série de fatores, como alto endividamento, mudanças no perfil econômico brasileiro e até mesmo acusações de gestão fraudulenta por parte de Mansur levaram os fornecedores a pedir a falência da empresa, o que de fato aconteceu em 29 de julho de 1999.

A marca Mappin hoje pertence ao grupo Marabraz e desde 2019 opera apenas no ambiente virtual.

O Jumbo e a Eletroradiobraz

A Eletroradiobraz nasceu nos anos 40, no Bairro do Brás, inicialmente como um ponto de consertos de rádios e pequenos eletrodomésticos, como ferro de passar, liquidificadores entre outros. Foi criada pelos imigrantes Ayme Taub e sua esposa Anita Taub.

Um dos filhos do Casal, Carlos Taub procurou diversificar o negócio de seu pai dando início a venda de eletrodomésticos e em seguida confecções, um negócio que se mostrou promissor.

A loja de consertos deu lugar no mesmo endereço a um prédio de sete andares que passou a abrigar uma moderna loja tipo magazine, assim como era o Mappin.

No final dos anos 1960, entretanto, os paulistanos acostumados a comprar seus alimentos em feiras livres e pequenas quitandas, começavam a descobrir uma nova forma de se abastecer, o supermercado, que já existia em alguns pontos da cidade.

Carlos Taub enxergou ali mais uma oportunidade de negócios e em 1971 a Eletroradiobraz inaugurou o seu primeiro hipermercado com a denominação de “Baleia” no Bairro da Água Branca.

O Jumbo e a Eletro se uniram na décad de 1970 formando a primeira rede de hipermercados.
O Jumbo e a Eletro se uniram na década de 1970 formando a primeira rede de hipermercados.

A definição de Hiper para aquela época procurava convencer o público que em único ponto de venda se podia encontrar “do alfinete ao avião”. 

O nome “Baleia” foi escolhido porque já existia o “Jumbo” um elefante, marca do primeiro hipermercado do Brasil, pertencente ao grupo Pão de Açúcar,  inaugurado em Santo André, também em 1971.

Este último passo da Eletroradiobraz parece ter sido, como dizem, maior do que as próprias pernas e o grupo acumulou muitas dívidas em um curto espaço de tempo.

Foi vendido em 1976 para o Pão de Açúcar, dando origem a uma rede de lojas conhecidas como “Jumbo Eletro”.

No final dos anos 1980, o grupo Pão de Açúcar criou a marca Extra e gradualmente foi substituindo as lojas Jumbo Eletro pela nova marca, tirando de circulação o simpático logo da baleia e do elefante.

Lojas Brasileiras

Criada em 1944 por Adolfo Basbaum, imigrante judeu vindo da Polônia, a Lobras nasceu com a proposta de vender produtos variados, a preços acessíveis, para a classe média emergente.

O modelo era o da loja de departamentos multifuncional, inspirado no sucesso da Lojas Americanas, criada alguns anos antes.

Lojas Brasileiras chegaram a ser concorrentes diretas das Lojas Americanas.
Lojas Brasileiras chegaram a ser concorrentes diretas das Lojas Americanas.

Deu certo: a marca se espalhou por ao menos 20 estados, com forte presença em centros urbanos e foco em produtos de giro rápido — de material escolar a brinquedos, de utensílios domésticos a roupas e eletrodomésticos.

A “Lobras” como ficou conhecida, chegou ao auge nos anos 1970, com mais de 300 unidades e campanhas fortes em datas estratégicas como volta às aulas e Natal.

Era um nome familiar nas grandes cidades e competia de igual para igual com a Americanas pela mente (e o bolso) do consumidor popular.

Mas o modelo se apoiava em alta rotatividade de estoque, margens baixas e uma gestão altamente centralizada. Nos anos de hiperinflação, isso funcionou bem. 

Controlada pela família Goldfarb (também dona das Lojas Marisa), desde o início dos anos 80,  a Lobras chegou a abrir capital nos anos seguintes. Ao longo do tempo, no entanto, foi sendo deixada de lado frente ao crescimento da própria Marisa.

Com o Plano Real, em 1994, o controle de preços inflacionados, reduziu as margens, os importados inundaram o mercado, e a concorrência se sofisticou. A Lojas Brasileiras não acompanhou essas mudanças e encerrou suas atividades no mesmo ano do Mappin.

Casas Buri 

Fundada em 1942 por Mário Bussab e Paulo Ribeiro, as Casas Buri comercializavam roupas de cama, banho e mesa, tecidos em geral, além de televisores e eletrodomésticos. 

As sílabas iniciais dos dois sobrenomes dos fundadores, Bussab e Ribeiro, formam o nome da empresa.

Casas Buri tinham Silvio Santos como garoto-propaganda.
Casas Buri tinham Silvio Santos como garoto-propaganda.

Nos anos 1970, as Casas Buri chegaram a ter 300 lojas espalhadas por todo o Brasil. Nessa época a Buri era a principal concorrente da Casas Pernambucanas no comércio de confecções e produtos de cama, mesa e banho.

Mas a partir dos anos 1980 a empresa abandonou esse mercado e passou a atuar na linha de eletrodomésticos e utilidades para o lar, o que se mostrou um erro estratégico, pois o público que comprava artigos de cama, mesa e banho, não necessariamente consumia eletrônicos com a mesma velocidade.

As vendas foram diminuindo e a rede fechou mais da metade de suas lojas no decorrer da década de 80.

A mudança não deu certo e a rede começou a minguar, até chegar às 114 lojas em abril de 1992.

As Casas Buri tiveram um garoto-propaganda famoso. Nada menos do que Silvio Santos, que em seu programa dominical ajudou a popularizar a rede com o jingle “Todo o dia é dia de oferta na Buri”. O apresentador cantava e soletrava o nome da empresa em seu programa dominical, impulsionando as vendas no crediário.

Mesmo com o representante famoso as Casas Buri venderem seu controle acionário para o Ponto Frio, em 1992 e, as poucas lojas que restavam da rede passaram à bandeira do novo proprietário.

Grupo Sérgio

Houve um tempo… muito tempo… em que restaurante era restaurante. Você chegava, escolhia o seu prato no cardápio, aproveitava sua refeição e ia embora. Assim era também com as pizzarias, até o pizzaiolo Sérgio Ricardo Della Crocci, abrir a primeira unidade do “Grupo Sérgio”, no Pari, bairro central da capital paulista.

Sérgio Crocci introduiu o conceito de rodízio de pizzas.
Sérgio Crocci introduiu o conceito de rodízio de pizzas.

De grupo, mesmo, só o nome, pois era a primeira e única pizzaria da cidade a propor uma inovação. Por um valor equivalente ao de uma meia pizza, você poderia comer tantos pedaços quanto quisesse.

Se você pensou em “rodízio de pizza” acertou em cheio.

Em 1976, aquilo foi uma grande novidade, que atraiu jovens com pouco dinheiro e famílias grandes de trabalhadores simples, que, em uma pizzaria tradicional gastariam o que tinham e o que não tinham.

A ideia deu tão certo que em dois anos o Grupo Sérgio (agora sim) já tinha cinco restaurantes espalhados pela cidade.

Você até pode pensar que é pouco, mas, pense que, por exemplo, a loja da avenida Radial Leste, próximo ao Metrô Belém acomodava nada menos do que 1.000 pessoas sentadas.

Mas, o pioneirismo do empresário Sérgio Della Crocci foi também a razão de seu fim.

Depois de mais de dez anos de sucesso absoluto, o que era novidade foi perdendo o fôlego e o público começou a debandar. Em meados dos anos 1980, as redes de fast-food proliferaram pela cidade, gerando inúmeras novas opções de “lazer gastronômico”.

Com tanta concorrência, o Grupo Sérgio encerrou suas atividades no início dos anos 1990.

G.Aronson

Quem frequentou o centro de São Paulo entre as décadas de 1960 e 1990 possivelmente cruzou com o imigrante Girz Aronson pessoalmente recebendo os clientes na pequena loja da rua Conselheiro Crispiniano, a sede de uma rede que nasceu em 1944 para ser representante de vendas de uma empresa carioca de casacos de pele. 

O simpático Girz Aronson era figura presente na loja da Conselheiro Crispiniano.
O simpático Girz Aronson era figura presente na loja da Conselheiro Crispiniano.

Em 1960, o empreendedor abriu uma loja especializada em produtos infantis, a “Gurilândia” e algum tempo depois entrou no ramo de eletrodomésticos.

A G. Aronson “a inimiga número 1 dos preços altos”, chegou a ter 34 lojas (inclusive algumas em shopping centers de São Paulo) e mil funcionários, mas também sucumbiu às profundas mudanças na economia nos anos 1990.

Em janeiro de 1998 a empresa pediu sua segunda concordata, estabelecendo negociações com os fornecedores. Devia na época 65 milhões.

Aronson passou ainda por uma provação pessoal no mesmo ano. Já com mais de 80 anos, foi sequestrado próximo à sua loja, tendo sido libertado 14 dias depois apó o pagamento de um resgate de mais de cem mil reais.

Em junho de 1999 a justiça paulista determinou a falência da G.Aronson. Desgostoso com o curso da empresa que conduzia com empenho pessoal, Girz Aronson faleceu em 2008.

Eataly

De templo da gastronomia a dark Kitchen. A Eataly durou apenas dez anos.
De templo da gastronomia a dark kitchen. A Eataly durou apenas dez anos.

No ano de 2015 o grupo italiano Eataly, abriu na avenida Juscelino Kubitschek o que foi considerado o templo da gastronomia na cidade e mesmo no Brasil.

Em um espaço de 4,5 mil metros quadrados reuniu restaurantes temáticos, mercado de produtos importados, padaria, açougue e uma escola de culinária.

Trouxe para a cidade o conceito de “comer, comprar e aprender”, focando em ingredientes artesanais e alta qualidade de produtos e experiências.

Tinha tudo para ser um sucesso, assim como o são outras empresas, como o Empório Santa Luzia, por exemplo. Mas algo não aconteceu com se previa.

Em 2022 o grupo SouthRock, operador de marcas como Starbucks no Brasil, adquiriu a operação do Eataly, e já no ano seguinte, começou a apresentar problemas de gestão e caixa, culminando em um processo de recuperação judicial.

Isso impactou as operações da Eataly, e mesmo após a empresa se desvincular da SouthRock as relações com a matriz italiana ficaram estremecidas.

Após um processo judicial sigiloso, em 2025 a Eataly Brasil perdeu o direito de uso da marca e o espaço passou a ser chamado de JK Food Market, alterando seu foco para um modelo de dark kitchens e delivery com forte redução de sua operação presencial.

Estas histórias são um recorte de tantas outras semelhantes. A lista é grande. Mesbla, Sears, Piter, Pakalolo, HiFi Discos, Livraria Cultura…empresas que nascem, crescem e em algum momento, desaparecem. Algo normal no curso da história e dos negócios.

E se nesta postagem nos dedicamos à saudade de marcas e empresas que fizeram parte da nossa memória, na próxima semana nosso tema será a longevidade…

Casa da Boia, 128 anos, uma reflexão sobre os caminhos e pessoas que nos trouxeram até o século XXI em plena atividade.

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