Empreendedorismo, as feiras mundiais e os prêmios da Casa da Boia

Em 5 de outubro é comemorado no Brasil, o dia do empreendedor. Empreender está literalmente no DNA da Casa da Boia e os esforços de seu fundador, Rizkallah Jorge Tahan, renderam prêmios mundiais à empresa logo em seus primeiros anos.

Já falamos sobre a trajetória de nosso fundador, que, deixando a Síria, em 1895, com apenas 26 anos e o saber técnico da manipulação do cobre, “atravessou o mundo” para empreender na América, àquela época uma terra muito distante e pouco conhecida no oriente, região de origem de Rizkallah Jorge.

Rizkallah Jorge deixou a Síria para empreender no Brasil em 1895.
Rizkallah Jorge deixou a Síria para empreender no Brasil em 1895.

O que aconteceu posteriormente também é conhecido. Aqui chegando, após três anos trabalhando como empregado em uma pequena metalúrgica no centro de São Paulo, Rizkallah fundou sua empresa, no ano de 1898. A Rizkallah Jorge e Cia (posteriormente Rizkallah Jorge e Filhos) se tornou a Casa da Boia, a mais tradicional empresa de produtos de cobre e material hidráulico de São Paulo.

Nesta trajetória, Rizkallah Jorge sempre confiou naquilo que fazia e na qualidade dos produtos que a empresa fabricava. Tando que não exitava em levar esses produtos ao conhecimento de todos não apenas nas vitrines de sua loja, na rua Florêncio de Abreu, mas também nas oportunidades que enxergava de divulgá-los em nível mundial.

Hoje, quase 130 anos após a fundação da Casa da Boia, um celular e uma conta em rede social são suficientes para fazer qualquer pessoa ou produto ser conhecido com uma rapidez impressionante. Viralizar, na linguagem contemporânea.

Mas há mais de cem anos, esse processo não era nada fácil, muito menos rápido.

Estratégias locais

Para o empreendedor Rizkallah Jorge era óbvio que, localmente, adotasse estratégias para destacar seu negócio. Quando construiu o sobrado nº 123 da rua Florêncio de Abreu, para ser a fábrica de seus produtos, a loja onde os vendia e também a residência de sua família, adotou estratégias interessantes de comunicação.

Logo na fachada, a representação gigante do produto-líder da empresa. A boia de caixa d’água ocupava (e ocupa) grande parte da área da fachada, logo acima da porta de entrada.

"Executa-se qualquer trabalho pertencente a esta arte". Assim, Rizkallah definia a abrangência do negócio que fundou.
“Executa-se qualquer trabalho pertencente a esta arte”. Assim, Rizkallah definia a abrangência do negócio que fundou.

Interessante notar que, em uma época em que a maioria moradores da cidade, consumidores em potencial, não eram alfabetizados (segundo Histórico Demográfico do Município de São Paulo, 34,5% da população em 1920 sabia ler e escrever), ter a representação da boia na fachada ajudava, em muito, a destacar o comércio dos demais.

 Outro aspecto importante que demonstra o espírito empreendedor de Rizkallah Jorge está ainda grafado em uma das vigas de sustentação do sobrado, hoje um pouco discreta, mas não menos significativa, a frase que definia bem se negócio: “Executa-se qualquer trabalho pertencente a esta arte”.

Rizkallah Jorge não se limitava a realizar apenas o estritamente comercial, aquilo que mais vendia. Preocupava-se em atender seu cliente de forma personalizada, fidelizando seu público à medida que este encontrava no local, a solução para problemas específicos.

O catálogo comercial da empresa já trazia referência aos prêmios recebidos em 1908 e 1911.
O catálogo comercial da empresa já trazia referência aos prêmios recebidos em 1908 e 1911.

Esta estratégia, inclusive, ajudou a consolidar a fama da loja. Por décadas a Casa da Boia era referência em produtos que “não se encontrava em lugar nenhum”.

Naturalmente o empreendedor usava a mídia da época para anunciar seus produtos, basicamente os jornais (como o anúncio publicado no Correio Paulistano dos anos 1910 reproduzido aqui), ou os almanaques comerciais (uma espécie de guia, um catálogo impresso das empresas de uma localidade).

Uma outra estratégia de Rizkallah sutilmente inserida em seu próprio catálogo comercial, editado também no início do Século XX, nos leva ao assunto principal deste post.

Dentre as informações da capa de seu catálogo, as frases “Premiada com o Grande Prêmio na Exposição Nacional de 1908” e “Medalha de Ouro – Exposição de Turim de 1911”.

As grandiosidade das exposições mundiais

Voltemos ao Século XIX. O mundo vivenciava as transformações trazidas pela descobertas científicas em todos os aspectos da sociedade, que, por sua vez, impactavam na medicina, no saneamento, na construção civil, na metalurgia, na eletricidade, na confecção, nas comunicações, nos transportes, enfim, em todos os aspectos da vida da humanidade do período.

Havia muito conhecimento a compartilhar. As nações viviam a expansão industrial e propagar o que de melhor se produzia em cada país representava não apenas projeção comercial, como importância geopolítica.

Neste cenário surgiram as exposições mundiais, ou exposições universais.

Quando, hoje, a gente pensa em uma exposição mundial, nos vem à cabeça algo como ocupar um espaço de exposições, como o Anhembi, o São Paulo Expo, nele montar estandes mais ou menos padronizados para um evento de três, cinco ou uma semana duração, que vai trazer alguns milhares de pessoas.

Esqueça essa imagem por completo.

As exposições mundiais do Séc. XX e início do Século XX eram eventos gigantescos. Impensáveis, talvez, nos dias de hoje.

Cartaz de divulgação da Exposição Universal de Paris, 1889.
Cartaz de divulgação da Exposição Universal de Paris, 1889.

Eventos que ocupavam, ou melhor, eventos que urbanizam áreas inteiras nos locais onde eram realizados. Os “estandes” dos países eram pavilhões inteiramente construídos para o evento. Pavilhões compostos por edificações, por palácios, literalmente falando.

Essas exposições duravam não dias, mas meses, atraíam não milhares, mas milhões de pessoas.

A primeira exposição mundial aconteceu em 1851, em Londres, no famoso The Crystal Palace, uma edificação de  nada menos do que 92 mil metros quadrados que abrigou 14 mil expositores de vários países.

Anos depois, em 1889, Paris sediou a Exposição Mundial, e uma das estruturas construídas para a área expositiva foi, nada menos, do que a Torre Eiffel. Entre maio e outubro daquele ano a exposição recebeu cerca de 32 milhões de pessoas. Sim, você não leu errado. 32 milhões.

Só para subir na recente torre Eiffel, 12.000 pessoas por dia encaravam longas filas.

Nesta exposição os países levaram cerca de 62.000 expositores.

Os dados acima, que se repetiram e se ampliaram a cada nova exposição mostram que para uma empresa, participar de uma mostra com este impacto, já era algo grandioso. Ser premiada, então, pela qualidade de seus produtos, representava algo extraordinário. 

A Casa da Boia não apenas participou de exposições regionais e mundiais, como foi premiada em duas delas. 

Rio de Janeiro, em 1908

Pavilhões dos estados na Exposição Nacional de 1908.
Pavilhões dos estados na Exposição Nacional de 1908.

No Rio de Janeiro, em 1908, foi realizada a “Exposição comemorativa do centenário da Abertura dos Portos”.

A Exposição foi até então a maior celebração do comércio e desenvolvimento industrial que exibiu um “inventário” do Brasil através dos produtos industriais, agrícolas, pastoris e artísticos.

Para cada uma destas áreas do desenvolvimento foi construída uma edificação que, não à toa, levou o nome de “palácio” pois suas dimensões, arquitetura e luxo faziam jus ao nome.

A exposição comportou o Palácio da Indústria, o Palácio dos Estados, o Pavilhão do Distrito Federal e os pavilhões de São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Santa Catarina.

Também mostrou a modernização dos novos serviços públicos municipais e federais, entre eles o Pavilhão do Corpo de Bombeiros, o Pavilhão dos Telégrafos e Correios, o Jardim Botânico, o Pavilhão do Café e Cacau e a Inspetoria de Matas e Jardins.

O único país estrangeiro participante foi Portugal, que construiu o Palácio Manuelino e um segundo pavilhão menor chamado Anexo Belas Artes.

A exposição aconteceu na região da Urca (Praia Vermelha), no Rio de Janeiro, de de 11 de agosto a 15 novembro de 1908.

Diploma recebido pela Casa da Boia em 1908, no Rio de Janeiro…

Após o encerramento da Exposição, todos os prédios foram demolidos, com exceção do Palácio dos Estados (hoje o  Museu de Ciências da Terra e do Pavilhão das Máquinas, que atualmente integra o conjunto de imóveis do Centro de Artes e Letras da Unirio.

Foi na Exposição Nacional que a Casa da Boia obteve o “Grande Prêmio”, conferido pelo “Juri Superior” do evento.

A exposição de Turim

O segundo prêmio de relevância internacional da Casa da Boia foi obtido na “Esposizione internazionale dell’Industria e del Lavoro”, a Exposição Mundial realizada na cidade de Turim, Itália, em 1911.

A participação do Brasil na Exposição Universal de Turim foi estratégica. O país buscou consolidar sua imagem no exterior não apenas como um grande exportador de matérias-primas, mas também como uma nação que caminhava rumo à modernidade e ao desenvolvimento científico.

Inaugurado em 23 de julho de 1911, o pavilhão do Brasil foi uma das estruturas mais marcantes às margens do Rio Pó.

Projetado pelo engenheiro Manoel Antonio de Moraes Rego, o complexo ocupava uma área expressiva de 8.000 metros quadrados e era composto por três edifícios interligados ao longo de 150 metros.

... e o recebido na Itália, em 1911.
… e o recebido na Itália, em 1911.

Alinhado ao tema de indústria e trabalho, o Brasil levou à Europa o que havia de mais forte em sua economia da época. Ao lado de instituições como o Instituto Butantan, e dentre os cerca de 3.000 expositores brasileiros na exposição, a Casa da Boia recebeu o “Diploma de Medalha de Ouro”, pelo conjunto de peças que levou à mostra.

As atitudes de Rizkallah Jorge nos anos em que esteve à frente da empresa que fundou legaram uma história de pioneirismo, coragem e empreendedorismo a seus sucessores (seus filhos, em primeiro momento, seus netos, posteriormente) e hoje ao descendente direto a gerir o negócio, o também neto Mario Rizkallah.

Cada uma dessas lideranças, a seu tempo, deram continuidade a uma história que se aproxima de seus 130 anos.

Fontes:

https://www.serasaexperian.com.br/conteudos/dia-do-empreendedor

https://apexbrasil.com.br/content/expoosaka/br/pt/historias-da-expo.html

https://journals.openedition.org/confins/71100

https://uspdigital.usp.br/janus/componente/catalogoDisciplinasInicial.jsf?action=3&sgldis=FLH5523

https://otis.libguides.com/world_fairs/timeline

https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=11621

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