Infância de lata. Os brinquedos de metal no início do Século XX

Quem acompanha nosso blog sabe que a Casa da Boia foi pioneira na manipulação do cobre em São Paulo, mas os brinquedos não estavam entre as centenas de produtos fabricados. Feitos predominantemente de lata, estes objetos de desejo das crianças da época surgiram também por meio da atuação de imigrantes e divertiram gerações.

As crianças da São Paulo colonial tinham, por assim dizer, o maior quintal que a capital paulista já viu. Os pequenos indígenas e os filhos dos colonizadores, tinham literalmente, a floresta como espaço de diversão. Galhos, pedras, folhas, penas de pássaro e tudo o que se via pela frente eram matéria-prima para a construção de brinquedos rudimentares.

Avancemos para o início do século XX. O plástico era um material em desenvolvimento inicial. O cobre, um metal nobre, caro. A metalurgia nascente da época utilizava principalmente as folhas de flandres (chapas finas de aço revestidas de estanho em ambas as faces, usadas amplamente para fabricar latas diversas, que eram então a base das embalagens de praticamente todos os produtos da época. 

Inicialmente as folhas não eram a principal matéria prima dos brinquedos do início do século. Consta que a primeira fábrica de brinquedos de São Paulo teria sido a de Alcides H. Pertica, que produzia seus brinquedos em madeira e vime, na Rua Líbero Badaró em 1901.

Logo da Fabrica de Brinquedos Ypiranga, uma das pioneiras na cidade.
Logo da Fabrica de Brinquedos Ypiranga, uma das pioneiras na cidade.

Apesar da iniciativa, no início do século XX, grande parte dos brinquedos disponíveis era importada da Europa.

Nas vitrines requintadas das lojas da Rua São Bento, Direita e da Barão de Itapetininga, a elite paulistana admirava os trenzinhos de lata à corda e as bonecas de porcelana trazidos da Alemanha e da França.

No entanto, as dificuldades de importação trazidas pela Primeira Guerra Mundial e o avanço da industrialização paulista mudaram esse cenário.

O aproveitamento de matérias-primas locais deu origem a uma produção nacional pioneira: sobras de chapas metálicas usadas na indústria de alimentos passaram a ser cortadas, dobradas e litografadas para virar brinquedo.

Com a expansão do uso do flandres na indústria, e, consequentemente, a sobra de material usado nas embalagens, metalúrgicas da época enxergaram a possibilidade de produzir brinquedos em escala com essas folhas, fáceis de manipular.

Entre outros pioneiros de São Paulo na fabricação de brinquedos utilizando a folha de flandres como matéria-prima, estavam a Fábrica de Brinquedos Ypiranga, firma de Alexandre Bitincof, fundada na Rua Paulo Bregaro, 341; a Fábrica Cândido Barboza, na Rua dos Donatários, 49, na Mooca; a Elemer Vass & Cia. que, a partir de 1934 produziu brinquedos de folha de flandres em estabelecimento da Rua Major Diogo; as Indústrias Reunidas Manfredi, com instalações no Brás; a Grande Fábrica de Brinquedos Sansão, de Luiz Sansone na Rua Margarida, 369 na Barra Funda e a Fábrica de Brinquedos de Oronzo Scattone, na Avenida Celso Garcia.

Metalma

Apesas destas pequenas fábricas a produção de brinquedos delata ganhou escala pela ação do empresário Francisco Matarazzo, em sua Metalúrgica Matarazzo.

Fundada em 1917 pelo imigrante italiano, foi logo passada (em 1922) por herança para o genro e para o sobrinho do empresário (Júlio Pignatari e Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo), quando passou a se chamar Pignatarari, Matarazzo e Cia.

Caminão da Metalúrgica Matarazzo, a Metalma.
Caminão da Metalúrgica Matarazzo, a Metalma.

Em 1935, a empresa foi desmembrada e Ciccillo tornou-se o único proprietário da agora Metalma – Metalúrgica Matarazzo. Suas instalações ocupavam uma grande área na na Rua Carneiro Leão, nº 147 no Brás, não muito longe da Casa da Boia.

A metalúrgica já era a maior fornecedora de embalagens de flandres para a indústria paulista e, desta forma, com a enorme quantidade de material residual de sua produção, não teve dificuldade em estruturar a fabricação de uma grande linha de brinquedos de lata.

Os meninos tinham como objeto de desejo, carrinhos, ônibus, trens elétricos ou à corda, navios e aviões, enquanto mini-cozinhas, máquinas de costura, jogos de bules e xícaras, casinhas de bonecas e seus móveis encantavam as meninas.

Carrinho de praia produzido pela Metalma.
Carrinho de praia produzido pela Metalma.

Embora itens “neutros” como instrumentos musicais, baldes e pazinhas para praia também fossem fabricados, a produção dos brinquedos da época reproduzia a mentalidade de divisão de gênero, muito antes da temática ser uma preocupação da sociedade.

A partir dos anos de 1950, com o avanço da tendência de especialização das indústrias, a seção de brinquedos da Metalúrgica Matarazzo foi deixada em segundo plano pelos acionistas da empresa, que priorizaram a produção de bens de maior rentabilidade. 

A mudança abriu espaço para a ascensão de novas indústrias especializadas em brinquedos, como Estrela, Atma, e a Trol, apesar da produção de brinquedos da Metalma, ainda que em menor escala, ter se estendido até o início da década de 1970.

Os brinquedos Metalma, muitas décadas depois, se tornaram objeto de desejo de saudosistas e colecionadores.

Basta uma rápida busca na internet para encontrar antigos brinquedos de lata da metalúrgica à venda com valores bastante consideráveis, mostrando a persistência da memória afetiva de um produto que nasceu praticamente junto com a revolução industrial, na Europa.

Os Tin Toys

Em 1815 a França desenvolveu uma técnica de cortar, moldar e prender a folha de lata, conferindo a elas variados formatos. Prensas cunhavam dezenas de partes a partir de uma simples folha e sistema de encaixe e solda dava forma detalhada aos brinquedos. 

Rapidamente a Alemanha dominou esse processo, que ganhou escala industrial na fabricação de “tin toys” (brinquedos de lata) já que eram muito leves e fáceis de trabalhar com máquinas para produção em série. 

Um "Tin Toy" alemão do século XIX.
Um “Tin Toy” alemão do século XIX.

Essa manufatura, por assim dizer, “inaugurou” o conceito de reciclagem na França e Alemanha,onde os catadores de latas das embalagens descartadas já começavam a ganhar dinheiro com a procura da matéria prima no lixo. 

Latas descartáveis eram fundidas pelos fabricantes, e o metal transformado nas  folhas de flandres originava os brinquedos.

Entre 1895 e 1914 a crescente produção da indústria de brinquedo de lata acompanhou e refletiu a evolução nos meios de transportes e costumes, produzindo das carruagens aos automóveis, ônibus, bondes, primeiros aviões, trens e tanques armados.

As empresas Alemãs exportavam para o mundo todo, e foram incorporando novas técnicas de pinturas, por imersão ou com spray, com detalhes pintados a mão, esmaltadas, stencil, transferidor de impressão, até que por volta de 1880 a litografia offset foi introduzida, tornando a produção ainda mais rápida e barata. 

Os chamados penny toys, geralmente com tamanho até 10 cm, custavam um penny (um centavo),  e eram usados como troco nas padarias ou vendidos na rua.

Infância além dos brinquedos de lata

Se as crianças da época desejavam os chamativos brinquedos de metal, eles, entretanto, não eram acessíveis a todas, cotidianamente. Pais mais ricos podiam comprá-los com mais facilidade, pais de outras camadas sociais, reservavam suas economias para datas especiais, como aniversário dos filhos ou então o Natal. O dia das crianças, embora estabelecido por decreto do presidente Artur Bernardes, em 1924, não tinha o apelo comercial que tem hoje.

Jogo industrializado "5 Marias" inspirado na versão com saquinhos de feijão.
Jogo industrializado “5 Marias” inspirado na versão com saquinhos de feijão.

Com poucos recursos, sem celular e internet, mas com espaço e imaginação de sobra, as crianças do início do Século XX não dispunham apenas dos brinquedos de lata industrializados. Qualquer “coisa” virava brinquedo.

O telefone de lata e barbante, (duas pequenas latas eram unidas pelo barbante), era o “meio de comunicação” dos pequenos. Com uma folha de jornal e uma linha se fazia a pipa “capucheta” para ser empinada nos campos. Feijões colocados em saquinhos de tecido serviam para o jogo das cinco marias ou “jogo de pedrinhas”, muito popular entre as meninas.

Quando as ruas passaram a ter calçamento, os carrinhos feitos com rolimãs e pranchas de madeira viraram febre entre meninos e meninas (principalmente nos bairros com ladeiras).

Petecas feitas com sacos de areia e penas de aves garantiam a diversão em grupo, assim como as cantigas de roda, que misturavam tradição oral europeia e indígena, entretiam crianças nas vilas em que ao final do dia os adultos espalhavam cadeiras nas calçadas para conversar.

Quando o futebol começa a se popularizar, qualquer objeto redondo servia para improvisar uma bola, e quando não disponível, a famosa “bola de meia”, feita com tecidos que recheavam uma meia garantia as partidas nos incontáveis campinhos das periferias.

Do flandres ao retorno do alumínio

Carrinho de lata da Metalma.
Carrinho de lata da Metalma.

Se no início do século os brinquedos de metal eram os que representavam o padrão tecnológico da indústria e a partir da década de 1950 o plástico se tornou o padrão, um negócio bilionário do ramo de brinquedos passou pelos usos destas matérias-primas e hoje voltou a utilizar o metal como principal componente.

São os automóveis em miniatura, cuja coleção mais famosa são os “Hot Wheels”.

A febre de se miniaturizar automóveis reais começou junto com o desenvolvimento da indústria automobilística nos Estados Unidos.

Empresas como  a Aurora Plastics Corporation passaram a investir em máquinas injetoras de plástico para criar suas miniaturas.

Entre 1959 e 1963, a Aurora produziu 1 milhão e meio de carrinhos neste sistema. Em 1968 foi criada a linha Hot Wheels, pela Mattel, que hoje fabrica suas miniaturas em uma liga metálica de alumínio e zinco.

Aproximadamente 300 milhões de carrinhos são produzidos anualmente pelas fábricas da Mattel apenas na linha Hot Wheels.

Fontes:

https://jornal.usp.br/cultura/livro-investiga-o-brinquedo-na-industrializacao-paulistana/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Metalma

https://museudosbrinquedos.wordpress.com/2010/01/22/a-reciclagem-comecou-no-final-do-sec-xix-com-brinquedos-de-lata/

https://www.facebook.com/groups/memoriaspaulistas/posts/8620384054674675

https://www.plastico.com.br/origem-do-plastico

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