Paulista 900. 60 anos de um ícone paulistano.

Desde seu nascimento a  Avenida Paulista viu surgir edificações emblemáticas, como os casarões da elite econômica e posteriormente os grandes edifícios residenciais e comerciais. Há 60 anos, um de seus prédios mais conhecidos era inaugurado, resultado de uma história que une tragédia, herança e altruísmo.

O avião que, na queda, vitmou o jornalista Cásper Líbero.
O avião que, na queda, vitmou o jornalista Cásper Líbero.

No dia 27 de agosto de 1943, como fazia costumeiramente, o avião Junkers Ju 52, prefixo PP-SPD (batizado Cidade de São Paulo), da companhia aérea VASP, decolou do aeroporto de Congonhas rumo ao Rio de Janeiro.

A viagem seguiu normalmente até a capital fluminense, onde o tempo não estava muito bom. Uma primeira tentativa de aproximação ao Aeroporto Santos Dumont, foi abortada pelo piloto, Romeu Fávero, pois havia muita neblina na Baía da Guanabara.

Na segunda tentativa de pouso, uma das asas da aeronave bateu no edifício da Escola Naval da Marinha, que fica ao lado da pista do aeroporto.

Desgovernada, a aeronave acabou caindo no mar, afundando em poucos minutos e matando 15 dos seus 18 ocupantes.

Dentre os mortos no acidente, o então arcebispo de São Paulo, Dom José Gaspar, e o jornalista Cásper Líbero.

Com a tragédia daquele dia, iniciou-se a história de um edifício que, tão logo construído, entrou para o patrimônio imaterial e afetivo da cidade.

A Fundação Cásper Líbero

Em jornalista Cásper Líbero.

Nascido em Bragança Paulista, interior de São Paulo, em 2 de março de 1889, Cásper Líbero se tornou um homem visionário.

Aos 19 anos, formou-se bacharel em Ciência Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e logo ocupou o cargo de Procurador da Fazenda do Governo do Mato Grosso. 

Aos 21 anos, retornando a São Paulo e com a experiência de ter sido também responsável pela sucursal do jornal “O Estado de São Paulo” na então capital brasileira, o Rio de Janeiro, decidiu criar a primeira agência de notícias 100% nacional, a Americana.

Alguns anos depois, ao saber que Antônio Augusto de Covello, o terceiro dono do jornal “A Gazeta” estava vendendo o periódico, decidiu adquirir o jornal. Assim, com 29 anos, em 14 de julho de 1918, tornou-se proprietário e diretor do jornal “A Gazeta”, transformando a publicação em um dos maiores órgãos de imprensa da época.

Carro de distribuição do jornal A Gazeta.
Carro de distribuição do jornal A Gazeta.

Apaixonado por esportes, foi o idealizador da “A Gazeta Esportiva”, publicada inicialmente como coluna, posteriormente suplemento do veículo, e depois de maneira independente, sendo considerado o jornal mais completo de esportes da América Latina.

O jornalista e empresário seguia sua carreira e comandava seus negócios de forma próspera, até o acidente aéreo que o vitimou.

Cásper Líbero não tinha herdeiros: não era casado e seus dois irmãos não necessitavam de seus recursos. Em testamento, determinou a criação de uma fundação que administrasse seu patrimônio.

Desta forma, já no ano seguinte a seu falecimento, nascia a Fundação Cásper Líbero, que inaugurou, em 10 de agosto de 1944, a primeira faculdade de jornalismo do Brasil. Nos seus primeiros anos, a escola tinha como endereço o Palácio da Imprensa, no centro da capital paulista.

Uma nova e ousada sede

Anúnco da Light ressaltando a dimensão da obra.
Anúnco da Light ressaltando a dimensão da obra.

No final da década de 1950, a Fundação Cásper Líbero adquiriu o terreno onde se erguia o antigo casarão do cafeicultor Horácio Espíndola, mais ou menos no meio da Avenida Paulista. 

A escolha deste endereço foi estratégica. Era o ponto mais alto da topografia da cidade e oferecia as condições perfeitas para a propagação de sinais da Rádio Gazeta.

Segundo o livro “Av. Paulista, 900: a história da TV Gazeta”, de autoria de Elmo Francfort, publicado em 2010 pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, o projeto original do edifício era extremamente arrojado:

“O sonho (era) de criar um grande centro cultural, instalado no maior prédio do mundo, transformar-se-ia na maior construção em concreto armado. Seu tamanho? Nada menos que 220 metros de altura, ficando a 1.018 metros do nível do mar. Isso equivaleria a um edifício de 72 andares. Sem contar os 30 metros da futura antena da TV Gazeta, planejada no decorrer da construção”.

Em construção, o edifício contava com a bandeira paulista na fachada.
Em construção, o edifício contava com a bandeira paulista na fachada.

“O projeto ganhou um nome-slogan: Uma luz sobre São Paulo. Os habitantes de todas as cidades paulistas podiam se tornar patronos do prédio, colaborando financeiramente com a sua construção. Em troca, teriam descontos no centro cultural a ser construído”.

A ideia inicial dos gestores da fundação era por demais ousada e um novo projeto estrutural e arquitetônico do edifício que seria erguido no local ficou a cargo do engenheiro e arquiteto José Carlos de Figueiredo Ferraz (que mais tarde viria a ser prefeito de São Paulo entre 1971 e 1973). 

A execução da obra, que começou em 1958, foi conduzida pela Companhia Construtora Nacional S.A., sob supervisão técnica do engenheiro Ayr Albuquerque.

Mesmo não sendo “o maior prédio do mundo” soluções inovadoras em concreto protendido garantiram grandes vãos livres no piso térreo, onde se encontra até hoje um imponente painel decorativo em azulejos e mosaicos projetado pelo historiador e arquiteto Carlos Lemos.

A engenharia envolvida e a magnitude da obra eram notórias, ainda mais porque já se tinha em mente neste novo projeto que o edifício deveria ser forte o suficiente para comportar mais uma enorme torre de transmissão em seu topo.

O famoso painel seria concluído em 1978.

Uma curiosidade é que o icônico painel de concreto da fachada do edifício, onde se vê a palavra “Gazeta” não existia no projeto original.

Quando de sua inauguração, em 1966, o frontispício do edifício exibia uma enorme bandeira do estado de São Paulo. O grande painel que seria a marca do edifício foi adicionado a ele na década de 1970, sendo inaugurado em 18 de dezembro de 1978.

O complexo cultural da Fundação Cásper Líbero dentro do novo edifício era composto por salas de cinema distribuídas em diferentes níveis do prédio: o Gazetinha (subsolo), o Gazeta (térreo) e o Gazetão (localizado em um andar acima, focado em grandes bilheterias e sucessos comerciais).

O Cine Gazeta, a partir de 2002 foi remodelado e virou o Teatro Gazeta e os demais espaços foram mantidos como sala de cinema, mas reinaugurados em 2005 como Reserva Cultural, com foco em cinema de arte e produções independentes, integrando salas modernas, bistrô e livraria, mantendo viva a tradição cinéfila da Avenida Paulista.

A TV Gazeta e a torre que marcou a paisagem paulistana

 A primeira torre do edifício.
A primeira torre do edifício.

Após muita negociação entre os gestores da Fundação Cásper Líbero e os governos federais a partir dos anos 1950, finalmente foi concedida à Fundação a outorga para exploração de um canal de televisão na capital paulista.

Esta outorga previa que as transmissões deveriam começar até 23 de junho 1969. Embora a Fundação ainda não estivesse pronta para iniciar as transmissões, para que fosse cumprida a exigência, na tarde deste último dia do prazo para sua instalação, a TV Gazeta iniciou sua primeira transmissão experimental com slides de São Paulo, ao som da canção “Sá Marina”, interpretada por Wilson Simonal.

A inauguração oficial da TV Gazeta ocorreu na noite de 25 de janeiro de 1970, aniversário de 416 anos da capital paulista, com imagens do alto do Edifício Gazeta acompanhadas por uma locução com a história da Fundação e do jornalista Cásper Líbero. A primeira exibição do canal foi um filme sobre a missão espacial Apollo 11, cedido pela NASA.

E a torre que virou cartão-postal da cidade.
E a torre que virou cartão-postal da cidade.

As transmissões da Gazeta já eram feitas a partir de uma torre no topo do edifício, mas ainda não a enorme torre que seria inaugurada anos depois e marcaria a partir de então a paisagem paulistana.

Desenhada e projetada pelo arquiteto italiano Gian Carlo Gasperini, a torre da TV Gazeta tem 85 metros e foi inaugurada em 21 de abril de 1983, melhorando o sinal da TV.

Uma curiosidade é que a Fundação Cásper Líbero, em um acordo operacional com a TV Globo, compartilhou a torre para a propagação do sinal das duas emissoras (Gazeta e Globo).

A TV Globo São Paulo utilizou essa torre desde sua inauguração até 2017, quando passou a utilizar o sinal digital, ao invés do analógico.

Atualmente a torre concentra o sinal dos veículos do grupo Gazeta apenas (rádio e TV).

Uma história de pioneirismo na TV…

As pioneiras Claudete Troiano e Ione Borges.

Em seu edifício-sede a Fundação Cásper Líbero instalou toda sua estrutura de jornal, rádio e da TV e, embora nunca tenha conseguido atingir uma audiência como a da TV Globo, por exemplo, a Gazeta foi responsável por inovações de linguagem e pelo lançamento de programas, jornalistas e apresentadores que fizeram história na TV brasileira.

A TV Gazeta criou o conceito de debate esportivo televisivo com o programa “Mesa Redonda”, de 1970 e lançou o conceito de programas voltados ao público feminino com o “Mulheres”, de 1980, com Claudete Troiano e Ione Borges.

Foi na emissora que o apresentador Fausto Silva iniciou o programa “Perdidos na Noite”, que marcou época pelo clima de improviso total e a presença de grandes bandas do rock nacional dos anos 80.

O boneco Capivara e o apresentador Beto Rivera, do "Clip Trip".
O boneco Capivara e o apresentador Beto Rivera, do “Clip Trip”.

Inovou também ao dedicar grande parte da programação ao público jovem com programas como o “Olhar Eletrônico”, (1983), de produção de Fernando Meirelles e Marcelo Tas, e o “TV Mix”, de 1987, com Serginho Groisman e Astrid Fontenelle. O programa “Clip Trip” foi pioneiro na exibição de videoclipes musicais, antes da chegada da MTV.

Nomes como Clodovil Hernandes e Ronnie Von tiveram seus programas de entrevistas e entretenimento na emissora.

Essa inclinação à experimentação da TV Gazeta em muito se deve à faculdade de comunicação da Fundação mas também às aspirações do jornalista Cásper Líbero, também um entusiasta dos eventos esportivos que marcaram a emissora.

…e na Corrida de São Silvestre

Idealizada por Cásper Líbero, a São Silvestre completa 101 anos em 2026.
Idealizada por Cásper Líbero, a São Silvestre completa 101 anos em 2026.

Em 1924, Cásper Líbero acompanhou uma corrida noturna em Paris, na França, na qual os participantes carregavam tochas acesas durante o percurso. Inspirado nessa experiência decidiu criar uma prova de corrida para ser realizada no último dia do ano e já em 1925 aconteceu a primeira edição.

A partir da construção do Edifício Gazeta, o local passou a ser o ponto de largada e chegada da corrida, até o ano de 2011, quando a chegada passou a ser feita no Ibirapuera, em frente ao Mausoléu dos Revolucionários de 1932, local onde se encontram depositados os restos mortais de Cásper Líbero. 

Mas, essa mudança causou polêmica e já no ano seguinte, a corrida voltou a terminar em frente ao prédio da Gazeta, ainda que tenha sido obrigada a se transferir para a parte da manhã, para evitar o conflito logístico com a festa de Réveillon da avenida.

Fontes:

Fontes:

https://serieavenidapaulista.com.br/2022/02/06/o-edificio-gazeta-onde-era-o-casarao-de-horacio-espindola/

https://arquivo.arq.br/projetos/edificio-gazeta

https://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_C%C3%A1sper_L%C3%ADbero

https://pt.wikipedia.org/wiki/TV_Gazeta

https://fcl.com.br/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Queda_do_Junkers_PP-SPD_Cidade_de_S%C3%A3o_Paulo

https://fcl.com.br/casper-libero/

https://reservacultural.com.br/sao-paulo/

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