Da taipa ao modernismo paulista. Os estilos arquitetônicos do centro de São Paulo

No caminhar rápido característico de quem circula pelo centro de São Paulo quase nunca cabe um olhar mais atencioso aos belos edifícios da região. Mas, quando sobram alguns segundos para nos dedicarmos a apreciar esses prédios, uma profusão de estilos se manifesta diante de nossos olhos.

Na visão geral do centro, uma variedade de estilos.
Na visão geral do centro, uma variedade de estilos.

Observar os edifícios do centro histórico de São Paulo significa apreciar camadas de tempo expressas em fachadas, portais, vitrais, esquadrias e traços arquitetônicos distintos, que conferem a cada edificação uma identidade própria, bastante diferente do que se observa hoje como tendência na arquitetura dos novos edifícios, principalmente os residenciais, cujas características são replicadas em projetos, senão idênticos, muito parecidos, por toda a cidade. Uma forma de diminuir custos de construção e maximizar o lucro na comercialização.

Parede de taipa no Solar da Marquesa.
Parede de taipa no Solar da Marquesa.

Longe de nos aprofundarmos em análises para as quais nos falta competência, este post tem o objetivo de apenas revisitar um período de grandes transformações urbanas, quando o as construções exibiam “personalidades” muito próprias e materializadas em diferentes estilos arquitetônicos que convivem, indistintos, aos nossos olhos leigos, nos prédios da região central.

Da taipa de pilão, técnica construtiva utilizada em paredes e muros no período colonial, quase nada resta no centro da capital paulista.

No complexo histórico do Pátio do Colégio, preserva-se uma parede original em taipa de pilão datada da segunda metade do século XVI (por volta de 1585), que já é a terceira configuração do colégio jesuíta em torno do qual a cidade cresceu. É considerado o vestígio construtivo mais antigo da cidade. 

Ao contrário do que muita gente pensa, a igreja e o restante do prédio atual são reconstruções modernas baseadas no traço histórico do período colonial.

Próximo do Pátio do Colégio, o Solar da Marquesa, edificação que teria sido formada a partir de quatro casas na Rua do Carmo, entre 1739 e 1754, também guarda a memória da taipa de pilão em suas paredes.  

Casarão Marieta Teixeira de Carvalho, ao lado da Casa da Boia.
Casarão Marieta Teixeira de Carvalho, ao lado da Casa da Boia.

Bem ao lado da Casa da Boia, na Rua Florêncio de Abreu, resiste (pois está em péssimo estado de conservação), a antiga residência do Senador Carlos Teixeira de Carvalho, herdada por sua filha, Marieta Teixeira de Carvalho, que dá hoje nome ao local. 

Construído a partir de 1878 e inaugurado em 1884, o casarão representa a arquitetura das residências urbanas da classe alta paulistana na segunda metade do século XIX. É a última casa em taipa francesa (técnica posterior à taipa de pilão) da cidade.

A taipa de pilão caracterizou todas as construções paulistas dos séculos 16, 17, 18 e primeira metade do 19, mas, literalmente, sucumbiu às mudanças trazidas pela proximidade do Século XX.

No pós-colonial, a era do ecletismo…

Lembremos. As últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX foram marcadas por progressos da ciência que impactaram todas as áreas da humanidade.

A humanidade saía do artesanal para o industrial, acelerando o desenvolvimento urbano como nunca antes. 

A arquitetura e a construção civil não escaparam deste processo. Novas técnicas construtivas passaram a usar o tijolo e as armações em ferro, e o desenvolvimento da hidráulica propiciou edificações cada vez mais altas. A influência dos imigrantes e dos brasileiros que voltavam de seus estudos na europa trouxeram para a arquitetura novos ares.

O Mercado Municipal (em construção), edifício de estilo eclético.
O Mercado Municipal (em construção), edifício de estilo eclético.

Para ostentar a imagem de uma nova metrópole “europeizada”, a elite e os governantes da época promoveram uma verdadeira “limpeza estética”. A arquitetura colonial de taipa passou a ser vista como símbolo de um passado “atrasado” e foi sistematicamente demolida.

Já abordamos em posts anteriores a influência dos arquitetos do período, como Samuel das Neves, Domiziano Rossi, Felisberto Ranzini, Ricardo Severo, Arnaldo Villares e, principalmente, Ramos de Azevedo, que foi o maior nome de um estilo arquitetônico utilizado amplamente no final do Séc. XIX: o Ecletismo.

Junto destes nomes famosos, um sem-número de mestres construtores, principalmente italianos, que chegaram à São Paulo junto com a ferrovia, foram responsáveis por uma nova onda de edifícios construídos neste estilo arquitetônico.

O ecletismo consolidou-se na Europa na segunda metade do século XIX, impulsionado pelos novos materiais da Revolução Industrial, como o ferro e o vidro.

Ganhou força em São Paulo a partir da década de 1890, impulsionado pelo enriquecimento do café e o desejo de uma cidade “nova”.

Em uma definição bastante simplificada, se caracterizava pela mistura deliberada de diferentes estilos arquitetônicos do passado (como o clássico, gótico, renascentista, barroco e neoclássico) em uma única obra ou projeto.

…estilo de nosso sobrado-sede

O sobrado eclético da Casa da Boia ao lado do Edifício São Bento, em estilo moderno.
O sobrado eclético da Casa da Boia ao lado do Edifício São Bento, em estilo moderno.

O edifício-sede da Casa da Boia é um sobrado em estilo eclético, construído na primeira década do Séc. XX.

Embora nossa empresa tenha sido fundada pelo Imigrante Rizkallah Jorge Tahan, em 1898, foi só 11 anos após o início de suas atividades que a Casa da Boia contaria com uma sede que abrigou a produção e a loja no andar térreo e a residência de família Rizkallah no andar superior.

Rizkallah Jorge não economizou na nova residência. Ergueu um sobrado ricamente ornamentado em sua fachada, que apresentava elementos da cultura árabe e ocidental, como a data da edificação, expressa em algarismos romanos e árabes.

Detalhe do sobrado que evidenciam o ecletismo.
Detalhe do sobrado que evidenciam o ecletismo.

Gradis delicados, com inspiração orgânica, típicos da Belle Époque, contrastam com o uso do granito nos acessos à loja. 

Figuras de aspecto mitológico se destacam junto à representação de uma mulher segurando uma engrenagem, indicando que ali funcionava uma indústria e uma rica ornamentação decorativa que emoldura as sacadas e janelas mostram que o projeto (cuja autoria é desconhecida) reuniu todas as características do ecletismo.

Outras edificações da Rua Florêncio de Abreu também ostentavam estes indicativos do estilo arquitetônico, algumas ainda podem ser vistas, mas, infelizmente, sem o rigor da conservação do sobrado da Casa da Boia.

Ao contrário do que aconteceu com as edificações coloniais, São Paulo preserva essa memória arquitetônica em muitos edifícios icônicos da região central.

O Palácio das Indústrias (Museu Catavento), o Mercado Municipal, o Theatro Municipal, o Palacete Tereza Toledo Lara (onde funciona a famosa casa de espetáculos “Casa da Francisca”), o edifício Martinelli, as estações da Luz e Júlio Prestes, são apenas alguns destes imóveis.

Corria o tempo rapidamente na São Paulo daqueles tempos e a verticalização do centro começava de forma acentuada já na década de 1930. Com ela, a introdução de um novo estilo arquitetônico, o Art Déco.

O Art Déco do Edifício Banco de São Paulo.
O Art Déco do Edifício Banco de São Paulo.

Esta nova forma de pensar a arquitetura ganhou o mundo a partir da Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas em Paris (1925). Refletia o fascínio pela era industrial, a velocidade, a aviação, a geometria e os arranha-céus.

Dominou os projetos a partir da década de 1930, acompanhando o processo de verticalização e a consolidação de São Paulo como pólo industrial do Brasil.

São representantes deste estilo ícones da cidade, como o Edifício Altino Arantes (que abriga o Farol Santander), o Edifício Banco de São Paulo, a Biblioteca Mário de Andrade e o Viaduto do Chá.

O modernismo chega ao centro

A partir dos anos 1940 e 1950, essa sequência de estilos ornamentais dos edifícios do centro deu lugar a novas edificações caracterizadas pelo Modernismo. 

O estilo teve como característica o uso de materiais como concreto, aço e vidro em desenhos que privilegiam as linhas retas, “limpas”, sem os ornamentos de fachada que caracterizavam as arquiteturas anteriores. 

Detalhe das linhas modernas do Copan.
Detalhe das linhas modernas do Copan.

Um dos precursores da escola, o franco-suíço Le Corbusier, estabeleceu cinco princípios para a arquitetura modernista: fachada livre, janelas amplas (para aumentar a luminosidade do ambiente), pilotis, com criação de vãos livres no térreo, terraços-jardim, para o lazer dos moradores e planta livre, permitindo integração entre os cômodos e flexibilidade interna.

Nomes como Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha, Rino Levi, Álvaro Vital Brasil e Ademar Marinho, além de Oscar Niemeyer, foram expoentes deste movimento que, pode-se dizer, foi o último a trazer um grande número de novas edificações para o centro da capital.

São remanescentes do modernismo, entre outros, o Edifício Esther, na Praça da República, o Edifício Itália, e o Copan, na avenida Ipiranga e a Galeria Metrópole, também na República.

Naturalmente outros estilos sucederam o modernismo na arquitetura, mas, saturado em edificações e sem a dinâmica do “derrubar e erguer outro no lugar” o centro até observou o surgimento de construções brutalistas, como as estações de Metrô, por exemplo, mas a região é, mesmo, marcada pela concentração de edifícios ds estilos anteriores. 

E para saber um pouco mais…

Leitura relevante para compreender as mudanças do centro. O livro de Benetido Lima de Toledo.
Leitura relevante para compreender as mudanças do centro. O livro de Benetido Lima de Toledo.

É claro que a melhor forma de observar essa mistura de estilos é realizando uma longa caminhada pelo centro, onde todos esses edifícios podem ser observados em bom estado de conservação, mas há também uma obra fundamental para compreender esse processo de mudança acelerada que o centro viveu no Século XX.

No livro “São Paulo, três cidades em um século”, o arquiteto e professor da USP Benedito Lima de Toledo (falecido em julho de 2019), mostra como a capital paulista se reinventou radicalmente ao longo de um século (1867–1966), transformando-se de um acanhado núcleo colonial de taipa, passando pela opulenta metrópole do café, até consolidar sua identidade como a capital verticalizada dos dias atuais.

Fontes:

https://www.pateodocollegio.com.br/itens/oficina-de-taipa-de-pil%C3%A3o

https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.115/2

https://vejasp.abril.com.br/cidades/centro-sao-paulo-predios-modernistas

https://www.citas.com.br/blog/arquitetura-no-centro-de-sao-paulo-conheca-os-estilos-ecletico-e-art-deco?srsltid=AU7gw4WYACtYHotvALAmFLGJI-XRPdOrrIWu9MUnfQJG7WCNpWmk29c2

https://prefeitura.sp.gov.br/w/servico/arquitetura-no-centro-historico

https://www.citas.com.br/blog/arquitetura-brasileira-no-centro-de-sao-paulo-1900-1930?srsltid=AU7gw4XSrMC8O6qTbqEmAo8madxFhFQgm9_EbKtRBQ5Ei5PBWYw1wstR

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