Palácio das Indústrias. De orgulho da produção paulista a difusor lúdico da ciência

No início do século XX, São Paulo vivia o auge da economia cafeeira, que gerava o capital necessário para a diversificação econômica e o crescimento de um forte parque industrial. Para mostrar ao país que o estado não era “apenas” um produtor rural, o governo idealiza a construção de um local em que a produção industrial da cidade poderia ser divulgada, propagando a imagem de cidade do futuro.

A preocupação do poder público de colocar São Paulo dentro dos moldes de modernidade já existia desde o século XIX. 

O primeiro movimento de iniciativas de urbanização da cidade ocorreu sob a gestão de João Teodoro, presidente da província entre 1872 e 1875. Segundo o arquiteto, urbanista e professor Benedito Lima de Toledo, o urbanismo nasce em São Paulo na Várzea do Carmo, já que a necessidade de uma intervenção na área era considerada urgente devido às constantes inundações do rio Tamanduateí.

As mudanças que começam a ser implementadas recriam o espaço urbano de São Paulo. Além do incremento dos serviços e infra-estrutura, os crescimentos demográfico e físico demandam a alteração nas formas de construção e ocupação do espaço.

O alargamento de ruas, construção de parques e bulevares eram prova da riqueza e espírito moderno que São Paulo queria mostrar possuir. 

A região da Várzea do Carmo era extremamente alagadiça e problemática e Antônio Prado (prefeito entre 1899 e 1911) resgata a idéia de João Teodoro para transformá-la em um parque, algo que só viria a ganhar força sob gestão de Raymundo da Silva Duprat (prefeito entre 1911 e 1914), apoiado pelas ideias de Joseph Bouvard, urbanista que havia ajudado a idealizar a reforma de Paris.

Este projeto de melhoramentos para a cidade de São Paulo contava com a participação dos governos do Estado e do Município. Englobava a reforma de todo o centro e a reconfiguração urbana que “a intensidade e o progresso de São Paulo exigiam”.

Entre as transformações enumeradas no Relatório apresentado pela Secretária da Agricultura, Comércio e Indústria de 1910, estavam o alargamento da Rua Líbero Badaró, a abertura de uma avenida com jardins laterais no Vale do Anhangabaú, a construção de um viaduto na Rua Boa Vista e melhoramentos no Viaduto do Chá.

Projeto de Bouvard para o Parque Dom Pedro II.
Projeto de Bouvard para o Parque Dom Pedro II.

Em passagem pelo Brasil, Joseph Bouvard foi convidado pela Câmara Municipal para dar seu parecer sobre o projeto e sugeriu, além das alterações propostas, o prolongamento da Rua D. José de Barros, alterações nas ruas Líbero Badaró e Formosa e o projeto de um parque a ser criado na Várzea do Carmo.

Em 1911, a Prefeitura cede parte do terreno da Várzea para um projeto que parte do então presidente do Estado, Albuquerque Lins, para a construção de um pavilhão que abrigasse exposições que representassem o desenvolvimento econômico do Estado.

Este “Palácio” serviria de espaço para que a população entrasse em contato com as últimas novidades da tecnologia e com as conquistas materiais do Estado.

A princípio, a idéia era que o Palácio servisse de sede para o “Museu Commercial”. Segundo o Relatório de Pádua Salles, a exposição de produtos do Estado seria permanente, sendo que exposições periódicas também aconteceriam no edifício. O Museu exibiria “matérias primas exportáveis, produtos agrícolas de interesse para o mercado estrangeiro como café, algodão, tabaco, cereais e farinhas.

Para além disso, o pavilhão é parte do discurso cosmopolita e moderno que se impõe, onde São Paulo é a cidade da fruição, da contemplação. Servia como referência visual para a cidade uma vez que trazia em sua arquitetura símbolos da nova dinâmica que a cidade almejava. Ele criava representações e forjava esta nova identidade de São Paulo.

O conceito por trás do Palácio era o de “civilizar” a cidade”, demonstrando que São Paulo não era apenas o “celeiro do Brasil”, mas também seu motor fabril.

Ramos de Azevedo é escolhido para erguer o Palácio

O magestoso edifício em estilo eclético desejava transmitir uma imagem de pujança e modernidade.
O magestoso edifício em estilo eclético desejava transmitir uma imagem de pujança e modernidade.

A municipalidade convidou o escritório do arquiteto Ramos de Azevedo para projetar o local. Domiziano Rossi e Ricardo Severo foram os arquitetos responsáveis pelo projeto, executado entre 1911 e 1924 pelo escritório de Azevedo.

Rossi trouxe a influência do ecletismo italiano, enquanto Severo focava na solidez e ornamentação.

Segundo a pesquisadora  Paula Coelho Magalhães de Lima, em artigo intitulado “A exposição de 1917 no Palácio das Industrias em São Paulo”, o local guarda o aspecto robusto das fortalezas toscanas do século XIV, porém com detalhes decorativos típicos dos palácios da primeira Renascença florentina. As linhas do desenho convergem todas para a esguia torre encimada por um farol elétrico que faz alusão à modernidade, entrando em conflito com as referências mouriscas da fachada e à própria existência de um claustro, típico da arquitetura religiosa.

A ornamentação de sua fachada é carregada de símbolos e representações da modernidade e, principalmente, da pujança paulista. Ela está repleta de alegorias com temas mitológicos, brasões das cidades cafeeiras, e alusões ao progresso e ao trabalho. 

Detalhe das esculturas, vitrais, bacões e soluções ecléticas do edifício.
Detalhe das esculturas, vitrais, bacões e soluções ecléticas do edifício.

Boa parte das ornamentações, lustres e esculturas foram fornecidas pelo Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.

Além de toda a decoração celebrando o esforço e pujança paulistas, o Palácio ainda contava em seu projeto original com três faróis elétricos que fariam alusão à Modernidade. O maior destes faróis está em um globo, no topo da torre e serviria de referência visual para os habitantes da cidade à noite.

A eletricidade, como força motora da modernidade, serviria como um lembrete simbólico da proeminência paulista, do progresso e do triunfo da indústria.

A exposição de 1917

A iniciativa para a realização de uma exposição industrial (a primeira de grande porte na cidade) parte do próprio prefeito Washington Luís, que no decreto nº 209 de 30 de abril de 1917, propõe à Câmara realização de eventos anuais que fomentassem a indústria. O projeto foi aprovado pela Câmara Municipal em 2 de Julho de 1917 e estabelecendo a realização anual, sempre no mês de setembro, de uma exposição de produtos industriais do Município no Palácio das Indústrias, que seria cedido pelo Governo do Estado.

Para a realização do evento, a parte que estava concluída da edificação (andar térreo, galerias laterais e claustro) foi dividida da seguinte maneira: marmoraria, maquinismos, artigos em metal, couros, louças esmaltadas, artefatos em alumínio, cerâmica, vidros, cristais, aparelhos de iluminação, embarcações e veículos, cofres, esquadria, cordas, graxas e pomadas, tintas, artefatos de borracha, papel e cartonagem, artigos elétricos, fumos e cigarros, e “vitreaux” no claustro.

No Salão A: produtos químicos e farmacêuticos, perfumaria, brinquedos, pentes, botões, tornearia, tapeçaria, móveis, bilhares, fitilhos, aparelhos fotográficos, camas de ferro, instrumentos musicais e esculturas em madeira.

Produtos alimentícios, cervejas, licores, vinhos, xaropes, águas minerais, biscoitos, bombons, chocolates, amidos, refinação e moagem, massas e objetos de uso doméstico ficaram no Salão B.

Cerca de 160 expositores que tinham fábricas na cidade de São Paulo participaram da mostra, dentre eles a Casa da Boia.

Os vários usos da edificação

Sessão da Câmara Municipal no chamado "Salão Azul".
Sessão da Câmara Municipal no chamado “Salão Azul”.

O Palácio das Indústria, entre 1924, ano de sua conclusão até 1947, foi sede de inúmeras exposições industriais e agrícolas, função para a qual havia sido construído.

Entre os anos de 1937 e 1945 o Brasil viveu um período de exceção democrática, quando Getúlio Vargas exerceu a presidência de forma ditatorial, o chamado “Estado Novo”.

Nesse contexto, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo ficou fechada e quando a normalidade política retorna, o prédio em que funcionou até 1937, na praça João Mendes, havia sido demolido para a construção do viaduto Dona Paulina. 

A escolha de uma nova sede recaiu no Palácio das Indústrias, que então passou a ser sede da Assembleia Legislativa.

A primeira sessão realizada no Palácio das Indústrias foi em 14 de março de 1947 e a Assembleia ocupou o prédio até o ano de 1968, quando a ALESP se mudou para o edifício construído nas proximidades do Parque do Ibirapuera.

O edifício foi então ocupado pela Secretaria da Segurança Pública, entre 1970 e 1991. A partir de 1992 ele passa a ser sede da Prefeitura de São Paulo. Ali trabalharam os prefeitos e prefeitas Luiza Erundina, Paulo Maluf, Celso Pitta e Marta Suplicy.

Em janeiro de 2004 a prefeitura inaugura nova sede no edifício Altino Arantes, no Viaduto do Chá e o prédio do Palácio das indústrias fica vazio, até que entre os anos de 2007 e 2009 passa por uma restauração completa.

Instalações do Museu Catavento, que devolveu ao espaço sua função original.
Instalações do Museu Catavento, que devolveu ao espaço sua função original.

O Governo do Estado de São Paulo instalou no prédio, naquele ano, o Museu Catavento, um espaço interativo de ciências e tecnologia, focado na divulgação científica de maneira lúdica, atraente e acessível para crianças, jovens e adultos.

Com a ocupação do prédio pelo Museu Catavento, as funções originais do edifício acabam sendo restabelecidas, de certa forma. Se originalmente nasceu como um espaço para a indústria paulista mostrar suas conquistas, hoje, igualmente, é território de contato com a ciência.

A edificação é tombada pelo CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo desde 1982 e pelo CONPRESP – Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, desde 1981.

A relação indireta do Palácio das Indústrias com Rizkallah Jorge

Ainda que Ernesto de Castro, genro e associado de Ramos de Azevedo, proprietário de uma casa importadora com seu nome, tenha sido um dos principais clientes da Casa da Boia no período, não há indicativo de que o Palácio das Indústrias tenha tido materiais da empresa empregados em sua construção.

Mas, indiretamente, Rizkallah Jorge, fundador da Casa da Boia, teve uma relação com o conjunto arquitetônico do entorno.

Explicamos.

Em 1922, quando o Palácio das Indústrias estava quase concluído, a comunidade Sírio Libanesa da cidade de São Paulo estava focada em oferecer para a cidade um monumento comemorativo do centenário da independência do Brasil.

Vários membros da comunidade contribuíram financeiramente e politicamente para viabilizar o monumento. Rizkallah Jorge se empenhou pessoalmente para que ele fosse construído e a iniciativa da comunidade resultou na instalação deste monumento no Parque Dom Pedro, bem em frente ao Palácio das Indústrias.

Recibo de doação de Rizkallah Jorge para o monumento Amizade Sírio Libanesa.
Recibo de doação de Rizkallah Jorge para o monumento Amizade Sírio Libanesa.

Essa história você pode conhecer em detalhes no editorial “A história do monumento Amizade Sírio Libanesa”, mas a gente já adianta que assinaram a cota máxima de contribuição membros da família Jafet: Nami, Benjamin, Basílio, João, Chedid e Nagib Jafet. Além deles, o fundador da Casa da Boia, Rizkallah Jorge e seu filho Jorge Rizkallah.

Embora previsto para 1922 o monumento foi inaugurado publicamente em 1928 em frente ao Palácio das Indústrias, sua cerimônia incluiu uma parada com mais de dois mil soldados, o discurso do prefeito, de vereadores e uma banda tocando os Hinos do Brasil, da Síria e do Líbano.

Sessenta anos depois, em 1988, a União dos Lojistas da 25 de Março solicitou sua transferência para uma área fortemente relacionada com a colônia sírio-libanesa em São Paulo, a Praça Ragueb Chohfi, na entrada da rua 25 de Março, onde se encontra instalado até hoje.

Monumento Amizade Sírio Libanesa, em frente ao Palácio das Indústrias.
Monumento Amizade Sírio Libanesa, em frente ao Palácio das Indústrias.

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