Antes da era da medicação em escala industrial, diagnósticos precisos, acesso à medicina, pelo SUS e planos de saúde privados, um profissional que unia conhecimento científico, empreendedorismo e grandes doses de empatia fazia as vezes de médico e prescritor de medicamentos. Seus comércios, nascidos no centro de São Paulo, marcam a história da venda de medicamentos no Brasil.
A palavra botica deriva do grego apotheke, que significava depósito, armazém. A botica (ou apoteca) surge como um estabelecimento fixo para venda de medicamentos, na Europa medieval. Foram famosas as boticas dos cônegos regrantes de Santo Agostinho, as dos Dominicanos e as dos padres da Companhia de Jesus.

Foram os padres desta ordem religiosa que primeiramente perambularam pelas terras recém “descobertas” pelos portugueses, lá pelos idos de 1.500 e foram eles que instalaram as primeiras boticas da colônia, na Bahia, Olinda, Recife, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo.
A botica do colégio jesuíta de Salvador, por exemplo, teve importância especial por se tornar um centro distribuidor para as demais, tanto na Bahia como em outras províncias.
As boticas dos colégios jesuítas disponibilizavam seus produtos gratuitamente ao público, salvo para aqueles com melhores condições financeiras e que podiam comprar.
Eram igualmente muito conceituadas as boticas dos hospitais militares. No Império, foi criada a botica do Hospital da Marinha da Província da Bahia que funcionou no Arsenal da Marinha. Além de manipular e fornecer os medicamentos para os enfermos, a botica provia também os navios da Armada da Estação Naval e os navios que ali aportavam.
A botica, e consequentemente o boticário, tiveram papel fundamental no Brasil colonial, tanto que o ensino médico no Brasil teve início na extinta enfermaria-botica do Colégio de Jesus na Bahia.
Nestes estabelecimentos se praticou a ciência, a arte da manipulação dos químicos e o comércio, juntando num mesmo local pesquisa, conhecimento ancestral e vocação comercial.
O panorama da medicação no início do Século XX
No Império, a elaboração de medicamentos e a administração das farmácias não eram exclusividade dos farmacêuticos diplomados nas faculdades de medicina. Os práticos tinham licença para exercer estas funções até 1884. A única faculdade de farmácia era a de Ouro Preto e, mesmo assim, até 1883, seu diploma só era reconhecido nos limites da província mineira.

A partir de 1891, a Constituição Republicana estabeleceu um sistema educacional descentralizado, com isso o ensino farmacêutico estendeu-se a outros estados. Neste contexto, em plena força econômica do poder cafeeiro, a Sociedade Farmacêutica de São Paulo, fundada em 1894, criou a Escola Livre de Farmácia, em 1898, o mesmo ano de fundação da Casa da Boia.
Inaugurada em 1899, era uma instituição de caráter privado, mas contava com o financiamento do governo estadual. Era a principal instituição de ensino na área médica de São Paulo até a criação da Faculdade de Medicina do Estado, em 1912.
A partir desta data passou a denominar-se Escola de Farmácia e Odontologia de São Paulo. Em 1934 foi anexada à Universidade de São Paulo e em 1962 ocorreu a separação dos cursos farmacêuticos e odontológicos, quando foi criada a Faculdade de Farmácia e Bioquímica.
A transição das boticas coloniais para as farmácias modernas no centro de São Paulo reflete a urbanização acelerada e a industrialização do início do século XX. Originalmente, as boticas eram estabelecimentos onde o boticário detinha o monopólio do saber, manipulando fórmulas personalizadas a partir de matérias-primas naturais.
Com o avanço da química e a chegada de imigrantes europeus em sua maioria, essas casas evoluíram para as pharmacias (escritas com “ph”), que passaram a vender também os primeiros medicamentos industrializados, além de agora manipular os compostos químicos importados.
Até meados do século XIX, o boticário muitas vezes diagnosticava e prescrevia. No início do século XX, com a criação de órgãos de vigilância sanitária, as funções foram estritamente separadas: o médico prescrevia e o farmacêutico (agora diplomado) aviava (manipulava) a receita.
O cenário farmacêutico de São Paulo à época era uma mistura de saberes tradicionais com a chegada de inovações químicas industriais. A transição das antigas boticas para as farmácias modernas trouxe produtos que se tornaram ícones culturais e a necessidade de uma formação profissional rigorosa.
De remédios populares aos primeiros industrializados estrangeiros

Nesse período, as farmácias vendiam desde fórmulas manipuladas na hora até os primeiros medicamentos com marca registrada, muitos dos quais prometiam curas abrangentes e tomaram conta do imaginário popular.
Criado em 1910 pelo farmacêutico Cândido Fontoura, em São Paulo, o Biotônico Fontoura tornou-se um dos fortificantes mais famosos do Brasil, usado para combater a anemia e a falta de apetite. Amplamente oferecido pelas mães às crianças.
Havia a crença que Biotônico Fontoura com ovo de pata era um verdadeiro fortificante do sistema imunológico. Atire o primeiro ovo de pata aquele que, com mais de 70 anos não tomou esse elixir caseiro!
Outro produto industrial lançado à época foi a “Emulsão Scott”, um óleo de fígado de bacalhau extremamente popular para fortalecer crianças e prevenir o raquitismo, reconhecido por seu logotipo de um pescador com um peixe nas costas.

O Bromil, um xarope para tosse que utilizava campanhas publicitárias inovadoras em revistas e bondes, era conhecido como o “amigo do peito”.
É desta época o famoso Regulador Xavier, que promete regular o ciclo menstrual, a pomada Minâncora, o Pó Granado, o Leite de Magnésia de Phillips.
E vale lembrar do Rhum Creosotado, que tinha uma curiosa campanha comercial nos bondes da cidade:
“Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite. Salvou-o o Rhum Creosotado”.
Foi nas primeiras décadas do Século. XX que desembarcaram nas “pharmacias” medicamentos até hoje famosos, como a Aspirina (alemã) e o Melhoral (americano).
Ao Veado D’ouro a pioneira
Não era a única no centro, ao contrário, havia dezenas de boticas na região central no início do Séc. XX, mas a “Botica ao Veado D’ouro” marcou a história do centro de São Paulo por 150 anos, desde sua fundação por imigrantes alemães até seu fechamento em meio a um escândalo farmacêutico.

Em 1853, São Paulo contava com apenas uma ou duas boticas. Foi nesse período que o farmacêutico alemão Phillip Gustav Schaumann chegou ao Brasil.
Ficou por um tempo em Santos e depois seguiu para Campinas onde ficou amigo de Gustavo Gravenhorst. Lá abriram uma casa de secos e molhados, onde vendiam também alguns medicamentos manipulados.
Gravenhorst mudou-se para São Paulo e abriu uma casa de papéis, livros e outras miudezas. Schaumann chegou pouco depois e em 12 de maio de 1858 tornou-se sócio da loja, pensando em formar uma farmácia de alto padrão, já que havia somente quatro farmacêuticos em toda a cidade, que contava com cerca de 30 mil habitantes.
Neste mesmo ano Gravenhorst segue em viagem para a Alemanha para adquirir os equipamentos necessários à montagem da botica, mas acabou falecendo lá e Schaumann comprou a parte do antigo sócio, rebatizando a botica com o nome de “Ao Veado D’Ouro”.
O nome era uma referência ao brasão de seus antepassados, tanto que, de fato, ele colocou a escultura de um veado no frontispício da loja, que ficava na Rua São Bento (assim como Rizkallah Jorge fez com a boia em seu estabelecimento).
O veado dourado ficou lá até que em maio de 1871, Schaumann, que morava no próprio sobrado, desceu para abrir a loja e viu que ele tinha sumido.

O empresário desconfiou que aquilo era obra dos estudantes da Academia de Direito do Largo de São Francisco, e assim mandou publicar anúncios nos jornais Diário de São Paulo e Correio Paulistano, com o seguinte texto:
“Veado – O abaixo assignado offerece ao ilm. sr. ladrão a quantia de 50$000 dinheiro à vista pelo veado que lhe roubou; e no caso de se realizar este negócio, promete, debaixo de sua palavra de honra, não denuncia-lo às autoridades. Gustavo Schaumann”
Deve ter funcionado porque logo a estátua voltou ao seu lugar!
Gustav Schaumann aposentou-se e voltou para a Alemanha em 1887, deixando a botica aos cuidados de seu filho, Henrique Schumann.
Em 1905, Alfredo Thiele se tornou o novo responsável pela empresa, até vender a farmácia a outros colaboradores.
No decorrer do Séc. XX a botica teve vários donos, mas sempre permaneceu na Rua São Bento, até que seus últimos proprietários se envolveram em um escândalo de falsificação de medicamentos.

No ano de 1998, segundo investigações, a Botica produziu cerca de um milhão e trezentos mil comprimidos de placebo (medicamento sem efeito), o que não é necessariamente crime, pois o placebo é usado em pesquisas científicas. Mas no caso da “Veado D’Ouro” a produção de quantidade tão grande não poderia ter sido feita, pois não era uma indústria.
Além do mais, os compradores dos comprimidos estavam embalando ele como se fosse o medicamento verdadeiro Androcur.
Apesar dos donos da empresa terem alegado que não eram responsáveis pelo uso após a produção, a desculpa não colou, e o processo culminou na condenação dos proprietários (que lembremos não tinham nenhuma relação com os fundadores) acabando por encerrar de forma melancólica uma história que ficou marcada na memória paulistana.
Berço de gigantes
O centro de São Paulo abrigou não apenas estes pioneiros da era das boticas, mas viu nascer duas empresas que se tornaram gigantes do ramo, ambas na rua José Bonifácio.

Em 28 de março de 1935, dois pequenos grupos de farmácias familiares do Estado de São Paulo: a Drogaria Bráulio e a Drogaria Brasi,decidiram unir esforços, formando uma nova empresal. Dois anos depois, em 1937, adotaram o conceito de rede ao se juntar a outras drogarias da época: Amarante, Ypiranga, Morse, Orion, Sul América e Araújo. Nascia estas fusões a “Drogasil”, que pouco a pouco ampliou sua presença no interior paulista, chegando também a outros Estados.
Em 1952, a Drogasil abriu seu próprio laboratório, produzindo medicamentos, cremes e outros produtos exclusivos. Em 1977, a rede abriu o capital, sendo a primeira empresa do varejo farmacêutico brasileiro a ter suas ações negociadas na Bolsa de Valores.
Mais recentemente se fundiu com a Droga Raia, fundando a RD e ampliando a atuação do grupo para 16 estados, com mais de 1400 lojas.

Em 1943, na mesma Rua José Bonifácio, o farmacêutico e empreendedor Thomaz de Carvalho montou uma drogaria. Na época, as drogarias trabalhavam com venda por atacado e farmácias no varejo, realizando também a manipulação de receituários.
O fundador percebeu que muitas pessoas iam até sua drogaria, que tinha o nome da cidade na qual foi fundada, “Drogaria São Paulo”, querendo comprar remédios no varejo.
Assim, colocou na entrada do depósito um balcão, passando a oferecer as duas modalidades comerciais: atacado e varejo. A ideia deu tão certo que, no mesmo ano, duas novas filiais foram inauguradas nos mesmos moldes. Uma em Santos, litoral paulista, e outra na Sé, região central. Já no ano de 1949 inaugurou a sua filial na Liberdade, a maior da empresa na época, com 1000 metros quadrados.
A rede continuou seu processo de crescimento ao longo dos anos e novos conceitos de comércio foram implantados, como as lojas com autosserviço, o plantão noturno e o lançamento da carteira de desconto para aposentados.
Do centro, a rede se espalhou pelos bairros da cidade e pelo Brasil. Atualmente, a Drogaria São Paulo (que também não pertence mais aos descendentes do fundador) tem aproximadamente 900 lojas.
Das boticas coloniais ao início das grandes redes farmacêuticas a história do comércio de medicamentos no Brasil passa pelas ruas do centro da capital paulista.
Fontes:
https://www.youtube.com/watch?v=TsBxBIyPYJU&t=8s
https://www.gazetasp.com.br/gazeta-mais/curiosidades/botica-ao-veado/1150150
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ao_Veado_d%27Ouro
https://fernandosantiago.com.br/cap2.pdf
https://vejasp.abril.com.br/coluna/memoria/medicamentos-antigos



