No dia 1º de maio é celebrado ao redor do mundo o Dia do Trabalho, ou Dia do Trabalhador. Premissa fundamental do sistema capitalista, o trabalho impacta toda a humanidade e, a exemplo de outras localidades, em São Paulo, foi determinante para o urbanismo. Ergueu bairros, desviou rios, moldou avenidas, criou equipamentos de lazer e traçou o destino de milhões.
Antes da Revolução Industrial, na segunda metade do Século XVIII, a vida seguia em outro rítmo. O da produção quase artesanal, o da agricultura, o das pequenas fábricas, dos “armarinhos”, que comercializavam de tudo um pouco e dos poucos serviços.
O modo de produção acelerado inaugurado na Inglaterra ainda não chegara ao Brasil. E demoraria mais um bocado de anos para isso.
A São Paulo da primeira metade do Século XIX era essa. A cidade que era basicamente um ponto de apoio entre o interior, onde se plantava o café depois que as lavouras do Vale do Paraíba se esgotaram e o Porto de Santos, de onde partiam as mercadorias para o interior.
Foi a lavoura do café que primeiramente começou a moldar os contornos de uma nova São Paulo.
A implantação da ferrovia Santos-Jundiaí, inaugurada em 1867, pode ser considerada um marco dessa fase de mudanças. Com a expansão dos trilhos pela área do planalto a partir do topo da Serra do Mar, os primeiros adensamentos urbanos começaram a se formar em seu entorno, ocupando as áreas de chácaras e várzeas.

Um marco desta fase é a Hospedaria dos Imigrantes, inaugurada em 1887 no Brás, para servir como um ponto de acolhida e encaminhamento dos trabalhadores que vinham, principalmente da Europa, para trabalhar nas lavouras de café.
A ferrovia que transportava os grãos de café do interior para Santos e de lá levava os produtos importados de volta, também propiciava o crescimento urbano ao longo de seu traçado, e por uma lógica muito simples. Implantar uma fábrica nas proximidades dos trilhos facilitava o abastecimento desta indústria e o escoamento de sua produção.
Antes das fábricas, os bairros que hoje conhecemos na capital como densamente urbanizados tinham características rurais: Mooca e Brás eram áreas de “terras baixas” (várzeas do Rio Tamanduateí). Consistiam em grandes chácaras de gado e pomares. O Brás era também um caminho de tropeiros que vinham do Rio de Janeiro.
O Bom Retiro era uma região de lazer das elites, com chácaras de veraneio. Aliás, o nome “Bom Retiro” vem justamente dessa função de refúgio afastado do centro.
Barra Funda e Água Branca eram várzeas pantanosas do Rio Tietê, consideradas áreas insalubres e desvalorizadas, onde o gado pastava antes de ser levado ao matadouro.
É a partir dos anos 1890 que São Paulo, em função de suas indústrias, começa a ganhar uma feição urbana.

No final do Século XIX os irmãos Jafet, de origem libanesa, estabeleceram sua fiação no bairro do Ipiranga, transformando o que era um local até então puramente histórico e pouco habitado em um polo têxtil.
Com a inauguração da Fiação, Tecelagem e Estamparia Ypiranga Jafet S.A. veio também o progresso da família e do bairro.
Um primeiro lote de 6 mil metros quadrados, entre as ruas Manifesto, dos Patriotas, Sorocabanos e Agostinho Gomes foi sendo ampliado com novas aquisições até ocupar uma área de 100 mil metros quadrados na região. Era uma instalação completa, englobando todas as etapas de fabricação dos tecidos.
Com terrenos baratos, pouco valorizados à época, a presença da indústria dos Jafet foi também desenvolvendo o mercado imobiliário da região.
Não apenas os operários da indústria, que adquiriam lotes e construíam seus sobrados, como “investidores”, ou “especuladores” imobiliários passaram a construir habitações para alugar para estes operários, desenvolvendo uma cadeia de outros serviços.
Esse processo se repetiu em outros bairros, mas o Ipiranga teve uma particularidade.
Os irmãos Jafet decidiram construir suas mansões no próprio bairro, diferentemente de outros empresários que, ao enriquecerem, buscavam áreas mais nobres como a avenida Paulista, Campos Elíseos e Higienópolis.
Essa ocupação legou à cidade belas residências, dentre as quais, o Palacete dos Cedros, uma enorme mansão na Rua Bom Pastor, próximo ao Museu do Ipiranga, onde funciona hoje uma casa de eventos.
Cotonifício Crespi expande a Mooca

Em 1896 o imigrante italiano Rodolfo Crespi fundou seu cotonifício (fábrica especializada na produção de tecidos de algodão) em uma área próxima às ruas Javari e Taquari.
Antes da chegada da fábrica pioneira, a Mooca era uma vasta planície usada como passagem para a região da Sé. Assim como aconteceu com o Ipiranga, o bairro começou a se desenvolver a partir do estabelecimento dos trabalhadores do cotonifício ao seu redor.
Cortado pela ferrovia, a Mooca foi uma das regiões que mais cresceram em razão da presença de trabalhadores na cidade, até porque concentrou grandes indústrias em seu entorno.
A Cia Antarctica Paulista instalou o seu complexo industrial ali, no início do Séc. XX. A Fábrica de Calçados Clark, a mais moderna do país, também lá se instalou em 1904. A Alpargatas foi para o bairro em 1907, Padaria Irmãos Di Cunto no final do Século XIX, a Lorenzetti em 1923…
Todas essas indústrias ajudaram a desenvolver a região, mas o legado mais “afetuoso” dessa era industrial foi deixado mesmo pelo Cotonifício Crespi, ou melhor, por seus trabalhadores.
No ano de 1924 um grupo de trabalhadores da indústria Crespi fundou o “Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube”, na rua Javari. Alguns anos depois, por sugestão do próprio Rodolfo Crespi, torcedor da Juventus de Turim, o time foi rebatizado como “Juventus”.
Crespi foi tão ligado ao clube que, em 1925 ele mesmo financiou a construção do estádio que levaria seu nome: “Estádio Conde Rodolfo Crespi”.
Mais conhecido como Estádio da Rua Javari ou apenas Javari, o estádio é um patrimônio paulistano. Literalmente. É tombado, desde 2019, pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).
E as Indústrias Matarazzo, a Água Branca

Região de córregos e rios o bairro localizado entre a Lapa e a Barra funda herda seu nome do córrego Água Branca, que nasce nas proximidades do Parque Fernando Costa e corre, ora canalizado, ora a céu aberto em direção ao Tietê.
Um pouco mais ao centro da capital, no circuito ferroviário da Estação Júlio Prestes / Estação da Luz, as linhas férreas da São Paulo Railway e da Estrada de Ferro Sorocabana corriam paralelas e com pontos de interligação entre elas.
Esta facilidade logística foi um dos fatores que levou o empresário Francisco Matarazzo a instalar nos terrenos pouco valorizados da Água Branca as suas indústrias.
No entorno das “Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo” cresceram os bairros da Água Branca, Lapa e Barra Funda.
Em seu auge, o complexo de empresas de Matarazzo contava com cerca de 30.000 funcionários. Estima-se que 6% da população ativa da cidade de São Paulo naquele período trabalhava para o complexo.
Mais uma vez, assim como no Ipiranga e na Mooca, o desenvolvimento da região se deu a partir da demanda por moradias dos empregados da Indústria.
A greve de 1917 e as vilas operárias

Não é difícil supor as condições de trabalho naquele período de recente industrialização, com leis trabalhistas escassas, fiscalização inexistente e o poder do capital ditando o ritmo da oferta de trabalho.
A expansão industrial não ocorreu sem uma crescente insatisfação dos trabalhadores. Experiências de movimentos de reivindicação de direitos, representadas nos movimentos grevistas explodiam na Europa e Estados Unidos no pós-Primeira Guerra Mundial e esses ares de insatisfação não demoraram a chegar também nas linhas de produção da capital paulista.
Em 1917 as tensões já estavam estabelecidas entre operários e patrões, quando, durante uma manifestação na capital paulista, um trabalhador da fábrica Mariângela, pertencente ao grupo Matarazzo, foi morto pela polícia.
A morte do sapateiro José Martinez, em 9 de julho de 1917, gerou grande comoção, com seu funeral transformando-se em uma passeata massiva de 10 mil pessoas até o Cemitério do Araçá.
Indignados os operários da indústria têxtil Cotonifício Crespi entraram em greve, e logo foram seguidos por outras fábricas e bairros operários. Três dias depois, mais de 70 mil trabalhadores já aderiam à greve.
Armazéns foram saqueados, bondes e outros veículos foram incendiados e barricadas foram erguidas em meio às ruas. O movimento foi tão grande que o empresariado teve que se sentar à mesa de negociações com os grevistas e ao final, prometeram elevar os salários em 20%, não demitir os grevistas, respeitar o direito de associação dos empregados e “melhorar as condições morais, materiais e econômicas do operariado”. O poder público anunciou que libertaria os grevistas presos.
Dentre as “lições” do episódio, uma sutileza foi percebida pelos empresários. Que os trabalhadores seriam menos suscetíveis à greve se tivessem um relacionamento melhor com as empresas em que trabalhavam.
A Vila Maria Zélia

Não se pode afirmar ser este apenas o motivo que levou o Industrial Jorge Street a construir uma vila de casas para os operários de sua fábrica, a Companhia Nacional de Tecidos de Juta, até porque a construção do local, que ficou conhecido como Vila Maria Zélia, foi iniciada em 1912 e coincidentemente inaugurada em 1917, mas, ao oferecer um local estruturado para moradia, com acesso a comércio e serviços para seus funcionários, Street obtivera a simpatia dos trabalhadores e sobre eles um amplo controle social.
Street parecia ter de fato uma preocupação social com seus empregados, posto que projetou e edificou uma vila com 198 casas equipadas, dotadas de acesso à rede de esgotos, com eletricidade e suporte de serviços como escola para meninos e meninas, capela, armazém e áreas de convivência.
As casas eram alugadas aos operários, que tinham o valor descontado de seus salários e a vila funcionava como uma “mini cidade”.
Não vamos nos ater aos detalhes pois em breve traremos uma postagem específica sobre suas características, história, significado e o legado desta primeira vila operária para a cidade, mas ela ajuda a ilustrar a relação intrínseca entre o desenvolvimento industrial e a urbanização paulistana.
A Vila Economizadora

Um pouco diferente do conceito da Vila Maria Zélia foi a Vila Economizadora, localizada no bairro da Luz.
Foi construída por um empreendedor, o imigrante italiano Antônio Bocchini.
A vila era organizada em seis quadras com imóveis térreos, com fachadas ornamentadas construídas por mão de obra de imigrantes alemães e italianos.
A diferença em relação à vila concebida por Jorge Street é que a Economizadora foi erguida por Bocchini com recursos da Sociedade Mútua Economizadora Paulista.
Esta sociedade era formada por um grupo de investidores que se cotizaram para justamente empreender no mercado imobiliário, construindo moradias para lucrar com os aluguéis.
A Vila fica entre a Avenida do Estado e a Rua São Caetano (também conhecida como rua das noivas) e engloba cinco ruas: Rua Doutor Luiz Piza, Rua Professor Leôncio Gurgel, Rua Doutor Cláudio de Souza, Rua Economizadora e Rua Euricles Félix de Matos — e os nomes de cada uma das vias são os dos sócios da companhia de empréstimos que financiaram a construção.
Esses conjuntos de casas bem construídas, diferente dos cortiços que eram a habitação mais usual da classe de mais baixa renda, atraíram uma grande massa da classe trabalhadora, que não dispunha de recursos financeiros para financiar a compra de sua casa própria. Assim, a preços baixos, os imóveis começaram a ser rapidamente alugados por operários de mão-de-obra qualificada, principalmente imigrantes italianos.
E a lógica do transporte na urbanização

Essas experiências pioneiras se repetiram pela cidade ao longo do Século XX. Bairros inteiros ou conjuntos residenciais foram erguidos na capital em torno das indústrias e seus trabalhadores.
Com a mudança do perfil econômico da capital, com o êxodo das indústrias para áreas mais baratas e a criação de pólos de serviços como a região da Faria Lima, Vila Olímpia, a própria Avenida Paulista, a chegada do Metrô e sua expansão mais recente e as novas regras de zoneamento da capital, hoje a arquitetura da capital não se guia mais pelas necessidades dos trabalhadores da indústria.
A “locomotiva industrial” do Brasil, como chegou a ser chamada a cidade, hoje se pauta pela lógica do mercado imobiliário e pela logística do transporte.
Se no início do Século XX as áreas em torno das indústrias eram baratas e com farta oferta de terrenos e imóveis, ironicamente o crescimento econômico da cidade empurrou o trabalhador para cada vez mais distante de seu local de trabalho.
Morar próximo ao Metrô, aos corredores de ônibus ou ter acesso fácil às grandes avenidas são necessidades da classe trabalhadora. A cidade, viva, se transforma, ainda em razão da força de trabalho.
Fontes:
https://vejasp.abril.com.br/coluna/memoria/familia-jafet-cento-e-trinta-anos-imigracao
https://www.stavale.com/acervo/tecelagem.htm
https://institutobixiga.com.br/vilas-operarias-o-dominio-da-fabrica-na-paisagem-urbana-de-sao-paulo



