A história da primeira maternidade paulistana

No próximo domingo, 10 de maio, comemora-se o Dia das Mães e hoje, em pleno Século XXI o tema é amplamente discutido na sociedade, inclusive, com as mães tendo dezenas de opções de escolha de hospitais e maternidades para este momento tão importante, um cenário muito diferente da São Paulo do Séc. XIX que só teria uma maternidade a partir de 1894.

O silêncio tenso e respeitoso, quando não temeroso, imperava nos quartos simples das casas de taipa da população mais simples, nos cortiços dos imigrantes ou até mesmo nas casas luxuosas dos mais ricos. Junto da mãe em trabalho de parto, não um médico, mas, via de regra, uma “parteira”, “aparadeira” ou “comadre”, mulheres que assistiam as mães, seja no trabalho de parto em si e nos cuidados pré e pós-parto, quanto em outras circunstâncias, como também nos abortos.

O nascimento foi, até o Séc. XIX, um acontecimento íntimo e perigoso, para o bebê e para a mãe.

No livro “Ao Sul do Corpo”, publicado em 1993, a historiadora Mary del Priore relata que no Brasil colonial, o parto era um evento de mulheres. Quando havia dificuldades, no entanto, ele passava a contar com a participação da vizinhança, tornando-se um evento coletivo.

Segundo del Priore, as mulheres se valiam de rezas, benzimentos, de instrumentos do mundo doméstico, como a bacia e a tesoura, para cortar o cordão umbilical, a garrafa de cachaça para limpar a tesoura, azeite, óleo ou banha para as massagens. Circunscrito ao âmbito domiciliar e culturalmente  imerso em tradições, rituais e crenças, todo o processo do parto e do nascimento era atendido pela parteira.

Anúncio do Correio Paulistano, em 1870 oferece os servis de parteira. Algo comum no Séc. XIX.
Anúncio do Correio Paulistano, em 1870 oferece os servis de parteira. Algo comum no Séc. XIX.

No século 18, segundo a autora, surgiu aquela que é considerada por historiadores como a primeira professora de obstetrícia da história: a francesa Angélique du Coudray (1712-1794), conhecida como Madame du Coudray.

Em 1759 du Coudray foi designada pelo rei Luís 15 para ensinar o ofício de parteira a mulheres de toda a França, viajando  pelo interior do país de 1760 a 1783, período em que, estima-se, tenha treinado milhares de mulheres.

Ela também criou o primeiro manequim obstétrico em tamanho real. A boneca de pano permitia às parteiras aprendizes praticarem e aprenderem sobre anatomia.

A professora da Universidade Federal de Minas Gerais e autora do livro “Parteiras: Escola de Mulheres”, Anayansi Correa Brenes, conta que a preocupação com a mortalidade no nascimento, manifestada pelo rei francês marca, na história, a “entrada” do Estado no âmbito do parto.

Quando a medicina passou a se interessar pelos partos as parteiras passaram a ser profissionais de "fraca inteligência", conforme descrito no Correio Paulistano de 1862.
Quando a medicina passou a se interessar pelos partos as parteiras passaram a ser profissionais de “fraca inteligência”, conforme descrito no Correio Paulistano de 1862.

A metodologia de ensino de Madame du Coudray chegou ao Rio de Janeiro, Capital do Império Português e já no início do século 19, parteiras formadas, e a partir de então, remuneradas, começaram a atuar na cidade.  

Conhecida como a primeira parteira graduada da então capital, Madame Durocher (1809-1893), se formou no curso de parteira da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1834 e se tornou a primeira mulher a integrar a Academia Nacional de Medicina.

Na passagem do século 18 para o 19, a regulamentação de diversas profissões abalou as práticas tradicionais, como a das parteiras.

“Várias profissões tradicionais – que eram mais arte do que profissão – foram abaladas naquele momento, (que iniciou) um certo controle do Estado sobre as profissões”, diz Anayansi Brenes.

Foi neste contexto que aproximaram-se as funções de “cirurgião” e “médico”, cujas atuações, até então, eram distintas, porém, majoritariamente exercidas por homens.

Os cirurgiões passaram a se interessar nessa época pela atividade do parto, segundo relata Brenes. Com a atuação deles, passou a se configurar uma disputa entre as duas classes, conflito que teria reverberações imediatas no Rio de Janeiro: a disputa entre médicos e parteiras, que, vale destacar, ganham força novamente atualmente, com movimentos que visam incluir essa profissional no momento do parto. A profissão de Doula foi recém-regulamentada no Brasil (Lei 15.381/26).

No século 19, entretanto, começaram a ser criadas especialidades médicas voltadas à mulher e suas funções reprodutivas, como a ginecologia e a obstetrícia.

O contexto do surgimento da primeira maternidade de São Paulo

Neste contexto, se destaca a figura do médico Braulio Gomes.

Bráulio Gomes teve um papel importante na criação da Escola Livre de Pharmacia de São Paulo, cuja fundação contou com sua influência política e profissional.

Além de ser clínico em Campinas e sócio benemérito do Liceu de Artes e Ofícios, ele foi membro da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e vereador pelo PRP. 

O médico Bráulio Gomes, principal articulardor da primeira maternidade da cidade.
O médico Bráulio Gomes, principal articulardor da primeira maternidade da cidade.

Sua atuação política e seu prestígio ajudaram na criação da Escola e da Maternidade de São Paulo. 

A história que se conta, sem qualquer comprovação, é que andando pelas ruas de São Paulo, o médico viu uma mulher dando à luz na calçada e a ajudou em seu parto, tendo inclusive levado mãe e recém-nascido para sua casa.

Esta teria sido a motivação principal para que o cientista criasse a primeira maternidade da capital paulista, no ano de 1894.

Entretanto, para além de uma narrativa romântica da criação da maternidade, havia um contexto social e urbanístico mais complexo na cidade.

Vivíamos o ciclo econômico do café, e na intelectualidade, na elite econômica e política, o desejo de construção de uma cidade moderna, cosmopolita, motor da industrialização que também se aproximava.

Partos em cortiços, ou no meio da rua não combinavam com este ideal de cidade. A taxa de mortalidade durante o parto era alta em todo o país e isso contrapunha o interesse no povoamento do extenso território e a constituição e fortalecimento da nação. 

Para enfrentar este problema, algumas das sugestões dos médicos foram a institucionalização de maternidades para cuidar das mães e dos recém-nascidos e a formação de profissionais obstétricos.

Foi neste contexto que Bráulio Gomes se empenhou em reunir um grupo de senhoras para incentivá-las ao acolhimento de mulheres desassistidas. 

Foi então criada a Associação Beneficente e Protetora das Mulheres Desamparadas (1894-1917), tendo como provedora Francisca de Campos, esposa do então presidente do Estado de São Paulo, Bernardino de Campos. 

Matéria de "O Estado de São Paulo", de setembro de 1894 relata visita à maternidade que seria inaugurada.
Matéria de “O Estado de São Paulo”, de setembro de 1894 relata visita à maternidade que seria inaugurada.

Esta foi a primeira maternidade de São Paulo. Sua denominação foi posteriormente alterada para Associação Beneficente das Mulheres Pobres e mais tarde, Associação Maternidade de São Paulo.

Era, assim, em seus anos iniciais, uma instituição privada. Os que podiam, pagavam por seus serviços, mas as mães carentes encontravam abrigo na maternidade. 

Essa característica acabou por classificá-la como entidade filantrópica, por oferecer esta ala específica mantida por doações e convênios com o setor público e a parte privada, financiada por seus próprios usuários.

Pioneirismo de mais de 100 anos…

A Maternidade São Paulo Iniciou suas atividades na rua Antônio Prado (atual rua  Bráulio Gomes) e durante a gestão de Maria Rennotte recebeu como doação da Baronesa de Limeira, um prédio na Rua Santa Ifigênia, para onde se mudou, ainda em condições não muito ideais de atuação.

Tanto que, em 1900, devido a um surto de febre puerperal causada por estreptococos presentes nas mãos, instrumentos e vestimentas não higienizadas corretamente, a maternidade precisou melhorar seu atendimento e assim transferiu-se para outro endereço, na rua Brigadeiro Tobias, também no centro.

Em 1902 a maternidade adquiriu um terreno na rua Frei Caneca, próximo à Avenida Paulista, e ali se instalou definitivamente.

Em março de 1904, foi construído o primeiro pavilhão para as parturientes sem condições financeiras, melhorando a condição de atendimento dessas mães. Em 1911 foi inaugurado o pavilhão das parturientes pagantes, chamadas de “pensionistas”. 

Matéria curiosa de 1895 relata o movimento da maternidade no dia 31 de agosto.
Matéria curiosa de 1895 relata o movimento da maternidade no dia 31 de agosto.

Como forma de viabilizar economicamente a instituição, em 1920, na esquina da rua Antônio Carlos com a Frei Caneca foi erguido um edifício com apartamentos residenciais para locação, e assim obter renda para a instituição, mas seis anos depois, em 1926, ele foi adaptado para receber os familiares das parturientes que vinham do interior.

Ainda no início do século XX, dois outros prédios foram erguidos: um abrigava  a cirurgia geral e a ginecologia e outro recebia parturientes que ali se hospedavam.

O complexo da Rua Frei Caneca, possuía 19 mil metros quadrados, e seu edifício principal contava com 15 pavimentos Chegou a possuir 400 leitos, 1.200 servidores e realizar mais de 1.000 partos por mês.

Não resistiu a novos modelos de negócios

Pioneira no atendimento das parturientes, a Maternidade São Paulo não conseguiu acompanhar o ritmo de crescimento da cidade, naturalmente, e foi assistindo outras surgirem na capital, principalmente quando os custos da prestação de serviços começaram a crescer demais para entidades particulares, mas com caráter também beneficente, como era o caso da Maternidade.

Embora na década de 60 fosse reconhecida internacionalmente pela qualidade de seus serviços como UTI neonatal e ultrassom (o primeiro de São Paulo) além de circuito interno de televisão, por meio do qual era possível assistir a partos e cirurgias, a instituição começou a enfrentar problemas financeiros.

Segundo Luiz Antonio Pardo, ex-diretor clínico e técnico da maternidade, as dificuldades começaram em função da vinculação dos pagamentos à tabela de honorários hospitalares e médicos do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), criado em 1964. 

A  tabela do instituto foi considerada atraente na época, pois estava atrelada ao salário mínimo. Em 1975, entretanto, o governo congelou os repasses por três anos. “E só voltaram a corrigir o valor em 1978, com valores cada vez mais irrisórios”.

Ao contrário da Maternidade São Paulo, a maioria das instituições privadas deixaram de atender o sistema público, focando no atendimento particular e por meio de convênios.

O edifício principal da maternidade, no final dos anos 1990. Pouco antes de seu fechamento.
O edifício principal da maternidade, no final dos anos 1990. Pouco antes de seu fechamento.

Já em 1995, o complexo da maternidade foi reduzido a quatro andares, diminuindo muito o ritmo de suas atividades.

Em 1998 a Associação Maternidade de São Paulo passou a ser denominada Associação Hospitalar Maternidade São Paulo, e formou uma parceria com a Unimed São Paulo, para implantar serviços importantes para o pronto atendimento, o que deu um fôlego renovado à instituição.

Mas em 2001, por conta de dificuldades financeiras, a maternidade já acumulava uma dívida de mais de R$ 4 milhões e assim, após 109 anos de atividades, a Maternidade São Paulo acabou fechando suas portas em 2003.

Suas instalações foram leiloadas no início de 2006, tendo sido arrematadas pela empresa Casablanc Representações e Participações Ltda, por mais de R$ 18 milhões. As edificações do terreno foram demolidas em 2014 e até hoje o terreno permanece sem ocupação.

Os registros de nascimento, prontuários e documentos da mais antiga maternidade estão atualmente sob guarda do Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Fontes:

https://info.fcf.usp.br/?page_id=10962

https://clinicacemep.com.br/como-e-quando-partos-passaram-a-ser-feitos-por-medicos/

https://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Jornal&id=1115

https://laboratoriogoes.com.br/glossario/historia-evolucao-convenios-medicos-brasil/

https://www.sesc.com.br/noticias/noticias-institucional/maternidades-ja-fizeram-parte-do-sesc/

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