Como o Rio de Janeiro e São Paulo vivenciaram a Revolta da Vacina

Um dos mais emblemáticos momentos históricos do início do Séc. XX, acontecido no Rio de Janeiro, impactou a saúde pública em todo o Brasil. Em São Paulo, diferenças significativas em relação à condução das políticas de saúde garantiram a adequação da cidade e seus moradores ao novo modelo de saúde pública baseado nas inovações científicas.

Já abordamos em várias postagens as questões multifacetadas que envolviam a vida na virada do século XIX para o século XX. Evolução dos costumes sociais, urbanização, fluxo migratório, industrialização, alterações profundas nos ciclos econômicos (do café para a indústria) e a aceleração das descobertas científicas em todas as áreas do conhecimento.

As diferentes regiões do Brasil lidavam de forma diferente com cada uma dessas variáveis e, embora distantes apenas cerca de 400 km entre si, São Paulo e Rio de Janeiro viviam realidades bem diferentes em relação às questões de saúde pública.

A capital brasileira (o Rio de Janeiro) era diretamente influenciada pelo presidente Rodrigues Alves e seu Diretor-Geral de Saúde Pública, o médico Oswaldo Cruz e sofreu uma reforma urbana autoritária, assim como políticas impositivas na contenção do surto de varíola que assolava a cidade.

Já São Paulo vinha construindo um modelo focado na pesquisa científica e na criação de uma rede de contenção de doenças, até porque já havia sofrido com surtos de febre amarela em Santos e Campinas, nos anos 1890.

A Revolta da Vacina

Cortiço "Cabeça de Porco", no Rio de Janeiro, foi derrubado para a construção da Avenida Central.
Cortiço “Cabeça de Porco”, no Rio de Janeiro, foi derrubado para a construção da Avenida Central.

O contexto da chamada Revolta da Vacina, talvez possa ser abordado muito mais pela ótica dos acontecimentos políticos do que necessariamente pela “ignorância” da população de então.

O Rio de Janeiro do início do século XX, assim como São Paulo, passava por profundas transformações, principalmente urbanísticas.

Logo no início do século o prefeito Pereira Passos havia implementado uma política higienista, expulsando literalmente a população pobre do centro da capital, que vivia em cortiços, com a destruição destes imóveis, política que ficou conhecida como “Bota-Abaixo”.

Obrigada a ocupar os morros distantes do centro, grande parte da população já estava bastante insatisfeita com o poder público quando o surto de doenças como a febre amarela, a peste bubônica e a varíola passaram a assolar o Rio.

Insuflados pelos senadores os jornais atacavam constantemente Oswaldo Cruz e a vacinação obrigatória.
Insuflados pelos senadores os jornais atacavam constantemente Oswaldo Cruz e a vacinação obrigatória.

Diante da gravidade da situação o paulista Oswaldo Cruz, ardoroso defensor da vacinação como método para conter esses surtos conseguiu que o poder público instituísse a vacinação obrigatória (lei nº 1.261, de 31 de outubro de 1904), que previa até mesmo multas para quem não se vacinasse.

A população já descontente com o que acontecera pouco antes como o “bota-abaixo” imediatamente já se mostrou contra a medida.

Ainda mais quando parte dos senadores também se colocaram contra a vacinação, com os mais variados argumentos.

Abuso do poder público, inviolabilidade do lar, até mesmo a moralidade (homens aplicando vacina no braço de mulheres) eram usados como preceitos para inflamar a desconfiança da população.

Criação da Liga Contra a Vacinação.
Criação da Liga Contra a Vacinação.

Políticos da oposição, militares e monarquistas usaram a insatisfação popular como combustível para tentar desestabilizar o governo do presidente Rodrigues Alves e um dos caminhos escolhidos foram as “fake news”, um século antes do termo ser popularizado.

Sob influência política a Imprensa publicava charges satíricas e artigos violentos criticando a “ditadura sanitária”, aumentando o pânico e incitando a população à desobediência civil.

Tanto foi feito que a desobediência de fato aconteceu

A Liga Contra a Vacina Obrigatória foi a principal articulação política por trás da Revolta da Vacina. Foi criada pelo senador republicano Lauro Sodré, em 5 de novembro de 1904 e agia em diversas frentes incitando a população contra a vacinação.

A gota d’água para a Revolta da Vacina iniciar foi a aprovação da lei nº 1.261 em 31 de outubro de 1904 que tornava obrigatória a exigência de comprovantes de vacinação contra a varíola para a realização de matrículas nas escolas, obtenção de empregos autorização para viagens e certidões de casamentos. A medida previa também o pagamento de multas para quem resistisse à vacinação.

Bonde vandallizado no centro do Rio.

A partir de então a cidade mergulhou no caos. Entre os dias 10 a 15 de novembro, o conflito tomou ares de guerra civil, com bondes sendo depredados, lampiões da iluminação pública destruídos, prédios incendiados, barricadas pelas ruas, troca de tiros com as forças do governo, mortes em combate, prisões e até mesmo tentativa de golpe militar para derrubar o presidente, sufocada com bombardeio de navios da Marinha e ação das tropas do exército.

No dia 16 de novembro o presidente Rodrigues Alves decreta estado de sítio e revoga a obrigatoriedade da vacinação. Com isso, o movimento popular também começou a se desarticular e a situação foi sendo controlada.

Em São Paulo o período foi menos tenso

Distante do centro de decisões do poder federal e motivada por motivos bastante práticos, a política de enfrentamento às doenças do período e as campanhas de vacinação encontraram mais apoio da população.

A economia cafeeira dependia fundamentalmente da força de trabalho imigrante, e a ocorrência de surtos de febre amarela (como os que devastaram Santos e Campinas nos anos 1890) ou de peste bubônica era vista como uma ameaça econômica fatal. 

Em São Paulo, panfleto educativo sobre a eliminação de mosquitos.
Em São Paulo, panfleto educativo sobre a eliminação de mosquitos.

São Paulo precisava garantir que a província fosse “salubre” para o imigrante europeu que sustentava sua economia, assim, em terras paulistas não aconteceram as campanhas difamatórias por parte dos políticos ou da maioria da imprensa.

Não houve a imposição da vacina, mas o incentivo a ela. A experiência dos surtos do fim do século XIX facilitou a aceitação da ciência pela maioria da população.

O médico Emílio Ribas assumiu a Diretoria do Serviço Sanitário de São Paulo em 1898 e para provar que a febre amarela era transmitida pelo mosquito aedes aegypti e não por “miasmata” ou contato pessoal, junto com outros médicos se deixaram picar por mosquitos infectados em experimentos e a difusão dessas experiências ajudava na conscientização da população.

Diferente do Rio, Ribas apostou muito em campanhas de esclarecimento e no saneamento das habitações antes de medidas puramente impositivas.

Sede do Instituto Serumtheraphico, precursor do Butantan.
Sede do Instituto Serumtheraphico, precursor do Butantan.

Quando a peste bubônica ameaçou o porto de Santos em 1899, o governo paulista comprou a Fazenda Butantan para produzir o soro anti pestilencial.

Sob o comando de Vital Brazil, o instituto nasceu dessa urgência sanitária. Em 1904, quando os cariocas eram bombardeados com “fake news”, o Butantan já estava em pleno funcionamento, expandindo suas pesquisas científicas para além dos soros ofídicos, focando em vacinas que logo abasteceriam não só o estado, quanto o país.

Vale lembrar que São Paulo tinha também, desde 1892, um Instituto Bacteriológico, cujos serviços de pesquisa se mantinham-se estritamente afinados aos objetivos de saúde coletiva, particularmente ao modelo sanitário desenvolvido por Emílio Ribas.

Nesta época (1893-1908), o Instituto Bacteriológico foi dirigido pelo próprio Adolpho Lutz, que exercia as atividades laboratoriais e ainda as “missões científicas”, que consistiam de trabalhos de campo exploratórios para elucidação da epidemiologia de doenças emergentes ou crônicas, como febre amarela, cólera, peste e das “febres paulistas”.

Instituto Bacteriológico.
Instituto Bacteriológico.

O instituto, que mais tarde seria chamado de Instituto Adolfo Lutz, foi pioneiro em identificar os focos das epidemias no estado, dando o suporte científico para as ações de Emílio Ribas.

Fundada um pouco depois deste período conturbado, a Faculdade de Medicina, inaugurada pelo “Dr. Arnaldo”, que dá nome à avenida em que até hoje se situa,  pode ser considerada como o último pilar desse processo de consolidação de São Paulo como um polo de excelência médica e científica no início do século, reagindo à escassez de profissionais qualificados para lidar com a saúde pública nas décadas anteriores.

A Casa da Boia neste contexto

Fundamentado nas descobertas científicas e nos processos de urbanização regida por leis e códigos sanitários, o crescimento “oficial” da cidade (oficial, pois nas periferias distantes o progresso demorou a chegar) foi um momento histórico bastante favorável ao desenvolvimento da Casa da Boia.

Quando chegou ao Brasil, em 1895, Rizkallah Jorge trazia consigo o conhecimento técnico da manipulação do cobre e produzia de forma hábil utensílios para o espaço doméstico, na empresa que fundou três anos depois, em 1898.

A “Rizkallah Jorge e Cia” se beneficiou do crescimento da cidade à medida que São Paulo passou a demandar cada vez mais produtos de infra-estrutura ligados ao metal (veja nosso post “Os metais na São Paulo do Início do Século XX”.

De uma produção artesanal de objetos decorativos a empresa adequou sua produção para atender a demanda por tubos, conexões, torneiras, válvulas, filtros, sifões e toda uma linha extensa de metais para atender as necessidades sanitárias do período.

A empresa foi também fornecedora de materiais para o “Instituto Serumtheraphico”, precursor do Instituto Butantan.

O belo sobrado erguido por Rizkallah Jorge na Rua Florêncio de Abreu, 123, passou a ser conhecido como a “casa da boia”, em razão da introdução na cidade deste importante instrumento de controle de fluxo de água que foi fundamental para as edificações da “nova e moderna” São Paulo.

Detalhe de livro-caixa da Casa da Boia com registro de venda para o Instituto Serumtheraphico.
Detalhe de livro-caixa da Casa da Boia com registro de venda para o Instituto Serumtheraphico.

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