Há exatos cem anos, São Paulo inaugurava uma nova forma de geração e distribuição de energia elétrica. Entrava em operação a Usina Hidrelétrica de Cubatão. Uma obra monumental da engenharia que garantiu o pioneirismo da cidade na industrialização brasileira.
A São Paulo pré-ciclo do café e mesmo durante os anos em que o produto agrícola produzido no estado, representava a maior riqueza paulista, era uma cidade relativamente simples, circunscrita às residências e comércios do chamado triângulo central e aos estabelecimentos rurais em seu entorno.
Até meados do Século XIX, aquela que viria a ser a maior cidade do Brasil, vivia às escuras após o pôr do sol.
Quem necessitasse sair de sua casa após o escurecer tinha que levar sua própria tocha ou lamparina, isso até por volta de 1820. Foi só a partir de 1929 que a municipalidade instalou os primeiros lampiões de iluminação pública (eram 24, exatamente) distribuídos pela área central.
Eles eram alimentados por óleos inflamáveis (óleo de mamona ou de baleia). Já por volta de 1860 o óleo passou a ser substituído pelo querosene, que era mais estável, produzindo uma melhor iluminação.
Foi um sistema de transição, pois logo a San Paulo Gas Company seria criada para produzir gás e com ele melhorar a iluminação pública.

Quando o sistema a gás estreou em 1872 (com a presença do Imperador Dom Pedro II), a prefeitura acendeu de uma só vez 550 lampiões a gás, o que mudou drasticamente a dinâmica noturna da capital, tirando-a definitivamente da penumbra colonial.
Porém, a geração de gás era um processo extremamente poluente, pois ele era obtido a partir da queima da hulha (carvão vegetal) em usinas, cuja principal era o complexo do Gasômetro, inaugurado em 1890, que armazenava a matéria prima e o gás produzido, além de realizar a queima da hulha e a produção do gás em si.
Neste momento da urbanização paulistana, avizinhava-se o Século XX e uma nova tecnologia se expandia em todo o mundo. A eletricidade.
Expansão industrial pressiona por nova matriz energética
O intertítulo acima parece se referir a algo que vivemos hoje, mas essa demanda é do início do Século XX.
Enquanto a cidade de São Paulo não era mais do que um entreposto comercial de café, a iluminação a gás, ou mesmo a energia elétrica fornecida pela primeira usina implantada pela Light and Power Company, em Santana do Parnaíba eram suficientes para atender a demanda da população.
Mas, em São Paulo daquela época tudo acontecia muito rápido, principalmente o crescimento industrial que se sucedeu à derrocada do ciclo econômico do café, a partir dos anos 1920.
Quando o principal produto agrícola do estado perdeu valor com a crise econômica e com a superprodução, os produtores que não faliram migraram o capital para investir na indústria. Some-se a eles uma leva de imigrantes empreendedores, uma população operária crescente e chegamos à necessidade energética para suprir o transporte, as moradias, a construção civíl, e, principalmente as novas indústrias que surgiam na capital.
O gás não supria essa demanda e nem a Usina Hidrelétrica de Santana do Parnaíba. Corriam os anos 1920 e era preciso encontrar uma solução para aumentar a oferta de energia para a capital.
Além deste quadro, os anos de 1924 e 1925 foram marcados por uma grande seca na capital, obrigando a Light a implantar um racionamento de energia na cidade.
Algo precisava ser feito. E urgentemente.

Foi então que aparece a figura do engenheiro norte-americano Asa White Kenney Billings, que à época liderava projetos na Light. É dele a concepção de um ousado projeto para geração de energia que envolvia a construção de uma usina no litoral e a completa mudança do sistema hídrico da zona sul da capital para obter a água necessária para esta usina.
Billings enxergava no desnível de mais de 700 metros existente entre o planalto em que São Paulo se localiza e a cidade de Cubatão, a condição ideal para que a queda de grandes volumes de água entre as duas cidades impulsionasse os motores de uma usina hidrelétrica na cidade litorânea.
Mas havia um problema a solucionar… Nenhum rio de São Paulo corria em direção ao mar. Todos corriam em direção ao interior, para desaguar na bacia do Rio Paraná.
Billings então veio com uma proposta ousada: “Invertemos o curso do Rio Pinheiros, construímos um grande reservatório no topo da Serra do Mar e fazemos com que toda essa água deságue no litoral”. Simples… no papel.
Por mais complexa e ousada que tenha sido a ideia, o fato é que São Paulo “bancou” a aposta.
O plano de Billings e a Usina Henry Borden

Para o sistema funcionar, o plano do engenheiro precisava inverter o curso natural do Pinheiros. Para isso, dois foram os pilares da estratégia.
A retificação do Rio Pinheiros, transformando seu curso natural cheio de curvas e várzeas em um canal retilíneo e profundo e a construção de usinas de elevação.
Como a água não corre “ladeira acima” por conta própria, foram construídas duas grandes usinas elevatórias na capital. A Usina Elevatória de Traição, que transpõe a água do canal inferior para o canal superior do Pinheiros e a Usina Elevatória de Pedreira, que bombeia a água do Rio Pinheiros diretamente para dentro da Represa Billings.
Aliás, a represa, que tem esse nome, obviamente, em homenagem ao engenheiro, à época de sua formação, chamava-se Reservatório do Rio Grande, pois era formada pelo represamento do rio de mesmo nome, também pelas águas do Pinheiros e outros afluentes menores.
Ela passou a se chamar Billings apenas em 1949, após o falecimento do engenheiro.

Concomitantemente às obras na capital paulista, em Cubatão, cidade litorânea de São Paulo, eram realizadas as obras da Usina de Cubatão, um projeto que passava longe de ser simples de ser executado.
A construção da usina hidrelétrica de Cubatão representou uma obra inédita na engenharia do país e de alto custo financeiro.
Existia ainda previamente o problema da malária como impedimento à permanência dos trabalhadores na Serra, cujo local era conhecido pelos engenheiros como Mar Morto, considerado absolutamente inapropriado para qualquer empreendimento.
A Light, entretanto, conseguiu convencer seus acionistas a investir no plano. A contratação do sanitarista Arthur Leiva, que havia tratado de endemias durante a construção do canal do Panamá, permitiu o combate à malária, possibilitando que os trabalhadores se instalassem na região.

As obras de construção da usina se iniciaram em abril de 1925 e apenas dezoito meses depois, em 10 de outubro de 1926, as primeiras duas turbinas (com capacidade de 44,347 kW) começaram a produzir energia. Ao longo dos anos, a Usina de Cubatão foi constantemente ampliada, com a construção de novas adutoras.
Por cerca de duas décadas a Usina foi a principal fornecedora de energia para a cidade de São Paulo e, por isso mesmo, se tornou um local estratégico durante o levante armado que os paulistas empreenderam contra o governo de Getúlio Vargas, em 1932.
Durante a chamada Revolução Constitucionalista de 1932, forças da aviação federal chegaram a atacar a usina, defendida em terra com artilharia antiaérea. Mesmo tendo sido danificada em alguns momentos, ela não deixou São Paulo às escuras, como pretendiam as tropas federais.

O episódio, somado à necessidade de ampliação da oferta de energia, moveu a Light a mais uma ousada obra, a construção de novas instalações, mas, desta vez não a céu aberto e sim encravada na escarpa da Serra do Mar.
Em meados de 1950, a cidade de São Paulo começava a enfrentar um novo racionamento de energia, afetando a população e a indústria. O aumento da demanda de energia elétrica era fruto direto do crescimento do parque industrial paulistano.
Os estudos realizados revelaram que as condições geológicas da Serra do Mar eram favoráveis à construção de uma usina subterrânea, sendo o seu custo de construção menor do que pela superfície. E assim foi feito

As obras se iniciaram em setembro de 1952, em duas frentes: a construção da usina e o aumento das reservas de água da Represa Billings. Foram escavados na rocha, a partir do alto da Serra, em direção a Cubatão, um túnel com blindagem em aço com 1.506 metros de comprimento e 3,25 metros de diâmetro interno, por onde passou a descer as águas do Reservatório do Rio das Pedras. O túnel termina numa enorme caverna, onde estão seis grupos geradores e suas turbinas.
Em 1961, com a conclusão das obras, a potência combinada das instalações da Usina de Cubatão supria nada menos do que aproximadamente 14% da potência energética instalada no Brasil e 80 a 90% da produção total de energia do Estado de São Paulo. Era, simplesmente, o maior conjunto gerador em operação no Brasil.
Inaugurada como Usina de Cubatão, a partir de fevereiro de 1964, a hidrelétrica passou a se chamar Henry Borden, em homenagem ao executivo canadense que presidiu a Canadian Brazilian Services e a própria Brazilian Traction, Light and Power Company de 1946 a 1963.
A vila operária e as funções atuais da Usina
A construção e operação de um complexo daquela magnitude em meio ao sopé da Serra do Mar, região desabitada, pantanosa e afetada por doenças exigiu a criação de uma estrutura habitacional e de apoio completa, que ficou conhecida como a Vila Operária da Usina Henry Borden (ou Vila Light).

O que começou como acampamento temporário para os milhares de operários na década de 1920 evoluiu para uma vila planejada nas décadas seguintes com um conjunto de mais de 160 casas residenciais nos anos 1940.
A comunidade operária contava com infraestrutura avançada para a época, como vias asfaltadas, saneamento, casas confortáveis para funcionários e engenheiros, escola para os filhos dos trabalhadores, posto médico, áreas de lazer e comércio.
Por estar espremida entre a barreira da Serra do Mar e os rios de Cubatão, a vila gerou uma identidade cultural muito forte e isolada. As famílias que lá viviam compartilhavam uma rotina voltada estritamente à manutenção e à guarda de um dos maiores patrimônios estratégicos do país.
Vale lembrar que a vila ainda existe! Nela ainda moram funcionários da usina, da ativa ou aposentados. É uma vila particular, pertencente à usina e administrada pela Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE).
Grande parte de suas casas ainda mantêm a arquitetura original dos anos 1920/1930, quando foram construídas.
Com a integração do país por meio de linhas de transmissão e usinas espalhadas por todo o território nacional, a capital paulista hoje não é mais dependente exclusivamente da geração de energia da Usina Henry Borden.
Integrada ao chamado Sistema Interligado Nacional (SIN), a energia da capital (e de toda a região sul/sudeste) é gerada, principalmente, pelas Hidrelétricas de Itaipu e as grandes usinas do Rio Paraná (como Ilha Solteira e Porto Primavera).
Isso não significa que a Usina Henry Borden tenha perdido função. Com 14 grupos geradores e 889 MW de capacidade total, a Henry Borden atua hoje no Sistema Interligado Nacional como uma reserva estratégica de segurança e religamento emergencial (chamada tecnicamente black start).
Em caso de alguma falha grave no Sistema Nacional a centenária Usina de Cubatão entra imediatamente no sistema fornecendo energia para a cidade, exatamente como fez, pela primeira vez, naquele 10 de outubro de 1926, há 100 anos.

Fontes:
https://centenariohenryborden.emae.com.br
https://pt.wikipedia.org/wiki/Usina_Henry_Borden
https://emae.com.br/usina-heny-borden
https://www.energiaesaneamento.org.br/conheca-a-historia-da-hidreletrica-henry-borden/



