A história do monumento que “andou” pela cidade e hoje não pode ser acessado

A proclamação da independência do Brasil aconteceu antes dos primeiros imigrantes sírios e libaneses chegarem a São Paulo. Mas, quando das comemorações de seu centenário, essa colônia, já estabelecida, decidiu doar à cidade um monumento que foi inaugurado em um local e hoje ocupa outra praça da capital. Entenda essa história.

Como todos sabem (ou deveriam saber), o dia 7 de setembro do ano de 1882 é o marco simbólico da Independência do Brasil.O dia em que o príncipe regente, Dom Pedro I, rompeu relações com Portugal e, se não consolidando com um único ato a independência do país (já que o processo foi efetivamente mais complexo), deu caráter oficial ao rompimento com a coroa portuguesa.

Há registros da presença de árabes no Brasil colônia, mas estes eram imigrantes esporádicos e não faziam parte das levas migratórias que aconteceriam a partir da segunda metade do Século XIX.

Se também não há um rigor na precisão da chegada dos primeiros imigrantes sírios e libaneses na capital paulista, fato é que, à medida que a população imigrante aumentava, igualmente aumentava sua influência econômica, social e mesmo política a partir dos anos 1880.

Muitas destas pessoas prosperaram e enriqueceram em São Paulo formando um grupo influente na capital. Sempre lembramos que Rizkallah Jorge, fundador da Casa da Boia, foi um destes imigrantes que aqui construíram um legado.

No momento em que São Paulo se preparava para as comemorações do centenário da independência, esses imigrantes decidiram marcar a data por meio da doação de um monumento imponente para a cidade.

Um monumento para celebrar a independência…

Ettore Ximenes. Autor do Monumento Amizade Sírio-Libanesa.
Ettore Ximenes. Autor do Monumento Amizade Sírio-Libanesa.

A proximidade do centenário da proclamação da independência movimentou São Paulo, local dos fatos do 7 de setembro.

Já em 1869, o comendador Jerônimo José de Mesquita dirigiu à Câmara Municipal de São Paulo um ofício ressaltando a “necessidade de erigir-se nas margens do Ipiranga um monumento que mostre aos vindouros o logar onde se soltou o glorioso grito – Independência ou Morte” (Centro de Memória da Câmara Municipal de São Paulo, 23.04.1869, p.114).

Mas entre idas e vindas, foi apenas a partir de 1881 que o projeto ganhou forma com o desenho de Thomaz Gaudêncio Bezzi e, em 1884, foi iniciada a construção do monumento sob a supervisão do italiano Luiz Pucci.

As obras se encerraram em 15 de novembro de 1890, no primeiro aniversário da República. Cinco anos mais tarde, foi criado o Museu de Ciências Naturais, que se transformou no Museu Paulista.

Em 1909, o paisagista belga Arsênio Puttemans executou os jardins ao redor do edifício. Este desenho de jardim foi substituído, provavelmente na década de 1920, pelo paisagismo do alemão Reynaldo Dierberger, desenho que se mantém, em sua maior parte, até os dias atuais.

A edificação principal seria acrescida anos depois de um “Monumento à Independência”.

Em 1917, o Governo do Estado de São Paulo organizou um concurso, aberto à participação de artistas brasileiros e estrangeiros que apresentaram projetos e maquetes. O conjunto de maquetes foi exposto no Palácio das Indústrias e o projeto vencedor foi o do artista italiano Ettore Ximenes (1855 – 1926), cuja aprovação não teve a unanimidade da comissão, que estranhou a ausência de elementos mais representativos do fato histórico brasileiro a ser perpetuado.

O projeto de Ximenes foi então alterado, e sua construção incluiu episódios e personalidades vinculados ao processo da independência. Embora ainda não finalizado por completo, foi inaugurado em 7 de setembro de 1922, ficando totalmente pronto somente quatro anos depois.

… e outro para marcar o legado sírio-libanês

Dentro das várias comemorações propostas para o centenário, Ettore Ximenes foi convidado a elaborar mais um monumento para a cidade, desta vez encomendado por um grupo de imigrantes sírios e libaneses.

Liderada por Basílio Jafet, foi criada uma Comissão para a Homenagem Sírio-libanesa ao Centenário da Independência, com o intuito de perpetuar e propagar a identidade étnica da comunidade em São Paulo. O financiamento do trabalho se deu a partir de assinaturas anuais correspondentes a 120 e 2.400 selos entregues junto de um talão assinado pelo tesoureiro da comissão.

Recibo de subscrição de Rizkallah Jorge à construção do monumento.
Recibo de subscrição de Rizkallah Jorge à construção do monumento.

Assinaram a cota máxima Nami, Benjamin, Basílio, João, Chedid e Nagib Jafet. O fundador da Casa da Boia, Rizkallah Jorge e seu filho Jorge Rizkallah, também subscreveram o máximo valor. (O Centenário da Independência. O Estado de São Paulo, p.6. 28 nov. 1917).

Em agosto de 1919 ocorreu uma segunda subscrição dos selos, novamente com os membros da família Jafet adquirindo 2.400 selos cada, e outros nomes como Salim Simão com uma cota de 7.200 selos (Homenagem dos syrios ao Brasil. Correio Paulistano. p. 8. 05 ago. 1918).

A historiadora Renata Geraissati, responsável pelo acervo documental da Casa da Boia e pesquisadora da imigração sírio-libanesa em São Paulo, comenta que “um dos principais objetivos empreendidos na construção deste monumento é representado na sua localização inicial que expressava o anseio da comunidade em demonstrar que haviam se tornado ‘brasileiros’. Colocá-lo no Parque Dom Pedro II, então uma das regiões mais simbólicas da cidade, representava, portanto, uma ação permeada de intencionalidade”, afirma Renata.

O imponente monumento no Parque Dom Pedro II, em frente ao Palácio das Indústrias.
O imponente monumento no Parque Dom Pedro II, em frente ao Palácio das Indústrias.

O imponente monumento, com 16 metros de altura, é composto por uma torre de bronze e granito, dividido em quatro seções que visavam demonstrar as contribuições sírias à cultura mundial.

Na interpretação do historiador Jeffrey Lesser as cenas retratadas constroem a narrativa de como a grandeza síria transformou o mundo, em última análise, permitindo que o Brasil fosse descoberto e prosperasse, visto que na parte inferior do monumento estão retratados os fenícios como pioneiros da navegação, a descoberta das Ilhas Canárias por Haitam I, o ensino do alfabeto e a entrada dos sírios no Brasil, representando o setor que os deu prosperidade (A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. LESSER, 2001. p. 106).

O topo do monumento é composto de três figuras em tamanho natural: duas femininas, uma representando a República Brasileira, a outra, uma moça síria e um homem, representando um guerreiro indígena. Segundo a interpretação de alguns autores, as figuras podem ser compreendidas como “irmãos que compõem a população brasileira”.

Simbolicamente o monumento pretendia traduzir a mensagem de que brasileiros natos (o indígena) e os imigrantes a jovem síria) caminhavam juntos na construção do Brasil (a terceira figura).

O monumento foi tema de crônica do poeta modernista Guilherme de Almeida, em dois artigos publicados no Jornal o Estado de São Paulo, entre 1927 e 1928.

Em parte do primeiro artigo o poeta diz “… há algum tempo pessoas que passavam em frente ao Palácio das Indústrias estranhavam ver ali uma armação de madeira coberta de pano branco esticado, velando um pedestal importante de granito rosa.

Reportagem de meia página do Estado de São Paulo sobre a inauguração, em 1928.
Reportagem de meia página do Estado de São Paulo sobre a inauguração, em 1928.

Há a propósito, palpites, apostas, discussões, profecias, polêmicas e até mesmo brigas. Eu, de minha parte, confesso que estou desconcertado. Não posso fazer a mínima ideia do que se está preparando ali. Tenho observado, naquele lugar, certas coisas que só servem para me desorientar e inquietar.

Enormes caixões de madeira chegam ali quase que diariamente: são abertos, tiram-se lhes de dentro grandes peças de bronze que imediatamente são guindadas para trás do veleiro intrigante. Pelas partes desconexas que até agora, a muito custo, consegui lobrigar, sou incapaz de imaginar o todo…”

O modernista, após ter presenciado a inauguração do monumento e finalmente ter compreendido seu significado, voltou a se referir a ele na crônica intitulada “Monumento”:

“Depois da passagem do primeiro centenário da nossa emancipação política, há já seis anos, São Paulo ganhou uma porção de presentes. Alguns bons, dignos, apresentáveis, que a gente põe logo na sala de visitas ou no living-room… No nosso salão estão: o monumento do Ipiranga, o de Carlos Gomes, este da colônia síria, o Índio Pescador, “Eu sou Ubirajara”, a “Eva”, de Brecheret…”

O monumento foi inaugurado publicamente com atraso, apenas em 1928, em frente ao Palácio das Indústrias, onde hoje está o Museu Catavento. A cerimônia de sua inauguração incluiu uma parada com mais de dois mil soldados, o discurso do prefeito, de vereadores, membros da comunidade sírio-libanesa e uma banda tocando os hinos do Brasil, da Síria e do Líbano

Os principais jornais da cidade noticiaram o fato com grandes matérias como o Estado de São Paulo, no texto “Homengagem Syria. Inaugura-se, hoje, o monumento offerecido pela colonia syrio-libaneza ao Brasil”, de 3 de maio de 1928.

Entregue enfim à cidade, o monumento parecia estar definitivamente integrado ao significativo espaço do Parque Dom Pedro, em frente ao Palácio das Indústrias, igualmente um símbolo do progresso da nação. Lá ficou, imponente, por décadas.

60 anos depois o monumento muda para novo endereço…

Passadas quase seis décadas de sua inauguração,o Parque Dom Pedro II já havia sofrido uma série de intervenções urbanísticas que retiraram do espaço a conotação do que, de fato, seria um parque. Havia se tornado uma porção de terra mal cuidada cercada por grandes avenidas.

Diante disso a Univinco – União dos Lojistas da Rua 25 de Março, preocupada com a invisibilidade (e a vulnerabilidade do monumento), no degradado espaço que ocupava, se mobilizou para pleitear junto à prefeitura que o monumento fosse trasladado para outro espaço da cidade.

E da Foha de São Paulo, quando da reinauguração, em 1988.
E da Foha de São Paulo, quando da reinauguração, em 1988.

O grupo desejava que o monumento fosse instalado junto à Rua 25 de Março, mais precisamente, na Praça Ragueb Chohfi.

A prefeitura concordou com a demanda e em 1987 o monumento começou a ser retirado do Parque Dom Pedro II para o novo local.

Os custos desta mudança, orçados à época em Cz$ 18 milhões (R$ 3,5 milhões aproximadamente), foram bancados pela Cia Têxtil Ragueb Chohfi, tradicional loja da rua, fundada pelo imigrante sírio de mesmo nome, falecido em 1983.

O trabalho em si foi realizado pela empresa Belas Artes Rio Restaurações, que também realizou a restauração do monumento.

Foi finalmente inaugurado em seu novo espaço em 26 de março de 1988, agora mais próximo das ruas tradicionalmente ligadas à imigração síria e libanesa, com igual pompa e circunstância, inclusive com a presença do então prefeito Jânio Quadros.

… e hoje não pode ser acessado

Em 1922 o objetivo dos imigrantes sírios e libaneses ao doar o monumento ao município era retribuir aquilo que São Paulo lhes proporcionou, ao mesmo tempo marcar sua presença no território paulistano, a medida da visibilidade da obra.

Em 1988, justamente por considerarem que a obra não cumpria esse objetivo os membros da comunidade a trouxeram para mais próximo de onde pudesse ser melhor compreendida.

Em 2026, ela não pode mais ser acessada. Pela população. O que não impede a depredação constante da obra, que já teve inúmeras peças de bronze roubadas e encontra-se em péssimo estado de conservação.

Assim como tem feito com outras praças (públicas, ressalte-se) a Prefeitura de São Paulo gradeou a praça Ragueb Chohfi, impedindo que a população circule por esse espaço público.

E esta não é a única. Sem discussão com a sociedade, sob a justificativa genérica de promover melhorias e segurança, equipamentos públicos como a Praça da Sé, a Praça do Pôr do Sol, a Praça Victor Civita, o próprio Largo São Bento, entre outras, estão passando por cercamento que bloqueiam parcial ou totalmente o acesso da população a estes espaços, que por definição deveriam ser espaços de convivência, abertos permanentemente, públicos e de circulação irrestrita.

Praça Ragueb Chohfi atualmente. Gradeada e sem circulação de pessoas.
Praça Ragueb Chohfi atualmente. Gradeada e sem circulação de pessoas.

A atitude tem provocado embate entre prefeitura, ministério público, outras entidades e associações de moradores, sem que a municipalidade apresente qualquer plano para restabelecer os espaços públicos à cidade como legalmente deveriam ser.

Vale lembrar que há uma diferença entre praças e parques. Estes, sim, tem a previsão legal de horário de funcionamento e controle de acesso. Diferente das praças.

Enquanto não se tem clareza sobre a legitimidade da municipalidade em impedir o acesso da população à praças públicas, o símbolo da amizade entre sírios-libaneses e o Brasil, assim como outros monumentos significativos para a história de São Paulo, continuaram sendo depredados, sem cumprir o objetivo de preservar a memória da cidade e de seus cidadãos. Infelizmente.

Fontes:

https://spcuriosos.com.br/personagens/sem-pe-nem-cabeca-o-monumento-a-amizade-sirio-libanes/

https://acervodigital.unesp.br/handle/unesp/378641

https://casadaboiacultural.com.br/editoriais/a-historia-do-monumento-amizade-sirio-libanesa/

https://artebrasileiros.com.br/opiniao/guilherme-de-almeida-parque-d-pedro/

https://www.instagram.com/reels/DLadW9EonB8

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