Nascido como jardim botânico, por determinação da Coroa Portuguesa, o atual Parque Jardim da Luz foi o primeiro espaço de lazer planejado da cidade. De ares aristocráticos, passando por sua decadência e um esforço grande de revitalização, o espaço que completou duzentos anos de história, resiste na região central da cidade.
Já abordamos em diversas postagens que São Paulo se tornou “outra cidade” à medida que a riqueza das plantações de café criava fortunas e influenciava o urbanismo da Vila de Piratininga.
Até meados do Séc. XVIII praticamente não havia nem na administração imperial, nem na cabeça das pessoas que moravam na capital o conceito de uma área urbana exclusivamente destinada ao lazer, à contemplação, ao passeio.
Tudo era “utilitário”. Edificações, ruas, largos, praças. Existiam na geografia urbana como caminhos, passagens, pontos de parada de charretes, chafarizes… sempre um espaço que atendia alguma necessidade de deslocamento, comércio, serviço ou moradia.
O conceito de espaço público urbano no Brasil foi “importado” da Europa, onde, por sinal, nasceu elitista.
Os primeiros parques remontam à antiga Pérsia, onde jardins cercados eram construídos junto a palácios e utilizados como áreas de caça e espaço de convivência da elite.
Esses jardins serviram de modelo para as vilas renascentistas na Europa que também eram usadas pela realiza e a elite burguesa para a caça, a jardinagem e o lazer dos nobres, portanto, de acesso bastante restrito.
O conceito de parque urbano moderno, ou seja, um espaço verde planejado, financiado com dinheiro público e destinado ao lazer de todas as classes sociais, nasceu em meados do século XIX como uma resposta direta à Revolução Industrial.
As cidades industriais inglesas cresceram rápido demais, tornando-se poluídas e insalubres. Os médicos e urbanistas da época (movimento higienista) começaram a recomendar “pulmões verdes” para que a classe trabalhadora pudesse respirar ar puro. Foi a partir deste momento que os parques passaram a ser considerados no planejamento urbano.
Ordem Régia abriu caminho para o Jardim da Luz

No Brasil colônia, antes (e mesmo depois) da família real portuguesa se mudar para nossas terras, o rei tinha o poder de emitir “Ordens Régias”, ou “Cartas Régias”.
Eram determinações reais com força de lei e deveriam ser rigorosamente cumpridas pelos representantes de Portugal aqui no Brasil.
No final do Século XVIII, tentativas para a criação de jardins botânicos no Brasil foram feitas.
A primeira foi efetivada com o Jardim Botânico do Pará, cuja criação foi ordenada por Carta Régia de D. Maria I, de 4 de novembro de 1796 e cuja instalação foi determinada em 1798.
Em 19 de novembro do mesmo ano, o capitão-general Bernardo José de Lorena recebeu por Aviso Régio a ordem para a criação de um Horto Botânico na cidade de São Paulo e nomeou para diretor e inspetor do empreendimento, o sargento-mor António Marques da Silva.
No dia 28 de setembro de 1799, foram concedidas no Bairro da Luz, “vinte datas de terra com restada de 273 braças (600,60 metros) contadas desde os muros do padre Capelão até o ângulo defronte ao Espaldão (contraforte do aterrado de Santana) (…)”
Segundo postagem sobre o local no site Moyart, as obras para a construção do Jardim da Luz começaram em 1799, porém, sua execução se prolongou por vários anos, principalmente, pela falta de água na área.
Isso acontecia porque o abastecimento de água, até chegar à área da Luz, realizava um grande percurso a céu aberto, ficava sujeito à contaminação e desvios de curso (por exemplo, para abastecer chácaras e fazendas) até chegar ao Jardim.
O caminho da água começava no Rio Saracura Grande (hoje, Avenida 9 de Julho), e finalizava o abastecimento no Jardim Botânico (Jardim da Luz).
Com isso a água que conseguia alcançar o seu destino chegava em quantidade reduzida, suja e não era suficiente para o funcionamento do Horto Botânico.
O espaço foi inaugurado, incompleto, apenas em 1825, de acordo com o livro O jardim da luz e os desdobramentos da urbanização paulistana, de Maurício Rodrigues de Rezende.
Segundo o autor, já na sua inauguração o local passou a ser chamado de “jardim” e não mais “horto”, pois, devido aos problemas de abastecimento de água, era inviável a criação de um horto, já que não havia irrigação suficiente para as árvores e plantas.
Local teve início conturbado
A inauguração do espaço de forma incompleta fez o presidente da província, Lucas Antônio Monteiro de Barros, deliberar que os trabalhos no local prosseguissem, nomeando para diretor do projeto o marechal José Arouche Toledo Redonque ficou pouco tempo no cargo, sendo substituído por Antônio Maria Quartim.
Como relata o artigo do Moyart, poucos anos depois da inauguração parcial, o local já encontrava problemas de abandono e falta de fiscalização.
No dia 6 de março de 1830, José Carlos Pereira de Almeida Torres, então, no cargo de presidente provincial, ao visitar o jardim, constatou que:
“o local fora ‘transformado em pasto de gado, visto que encontrou, soltos, dentro do mesmo jardim, oito bois de carro e um cavalo, que soube pertencerem a um jardineiro alemão que ali não se achava; que foi informado de que o abuso datava já de muito tempo e que no lugar onde estavam os bois, se havia feito uma plantação de capim à custa da Fazenda Pública, tendo encontrado três mulheres sem fazerem nada e observou estarem trabalhando ou enchendo o tempo, três estrangeiros que ganhavam cada um 420 réis por dia e um escravo da nação, sem que tivesse quem os inspecionasse e dirigisse’. O resultado dessa inspeção foi a dispensa do jardineiro que ganhava 25$000 mensais aliado ao fato do mesmo produzir carvão e mandá-lo vender na cidade.“

Na década de 1850, o Conselheiro José Antonio Saraiva informou em um de seus relatório à Assembleia, que adquirira mudas, plantas exóticas e flores, oriundas do Rio de Janeiro, para o Jardim da Luz e que três quartos da área estavam plantados, mas que precisava de mais verba para a contratação de trabalhadores, e que, além de pessoal para prosseguir com o projeto, também necessitava de água.
Essa questão do abastecimento de água do Jardim da Luz só seria solucionada quase quarenta anos depois da inauguração do local.
Em 1861 o local passou a ser abastecido com as águas armazenadas no Reservatório da Consolação, que guardava as águas do Saracura.
De lá, elas corriam pela Consolação, passavam pelo Viaduto do Chá, região da Santa Ifigênia e rua Cásper Líbero, até chegar no Jardim da Luz.
Modificações consideráveis são realizadas no jardim

Em 1860, por ordem do governo do Estado, parte do terreno do Jardim da Luz foi entregue à Cia Inglesa para a construção de uma estação de trem da São Paulo Railway, que posteriormente virou a Estação da Luz.
O uso desta parte do terreno acabou modificando a simetria do parque, forçando a destruição de várias árvores e plantas originais.
Posteriormente, outros terrenos do parque foram cedidos para a construção do Liceu de Artes e Ofícios, hoje Pinacoteca.
Em 1869 o parque passou por uma grande reforma. Foram construídas as paredes do lago, assim como a modificação do encanamento.
O Jardim da Luz ainda ganhou um Observatório Meteorológico em 1874, uma torre de cerca de 20 metros de altura conhecida como Canudo de João Teodoro, então presidente da província.
Foi durante a presidência de João Teodoro que o jardim recebeu novas árvores e flores, encomendadas do Rio de Janeiro, e um lago com o formato da Cruz de Malta foi construído com novas esculturas, quatro delas representando as estações do ano e, uma outra, representando Vênus.

O local recebeu equipamentos de iluminação (com 135 combustores a gás) e o ponto final da primeira linha de bonde de tração animal, ligando a Praça da Sé à Estação da Luz, em 1872.
Com a transferência da administração do local do estado para o município, em 1893, o então prefeito, Antonio da Silva Prado, nomeou Antonio Etzel como administrador do Jardim, cargo que ocupou até sua morte, em 1930.
Etzel desenhou um novo traçado ao Jardim, com uma rua circular contendo grandes gramados e adornado com jaqueiras; árvores antigas foram reaproveitadas, criando alguns bosques. Também nesse período foi implantado no local, um mini zoológico.
O espaço do jardim foi reduzido, novamente, em 1895, com a doação de parte do terreno para a construção da Escola Modelo Prudente de Moraes.
Modernidade e decadência chegam no Séc. XX
Segundo o historiador Antônio Rodrigues, em seu livro “História da cidade de São Paulo através de suas ruas”, “o Jardim da Luz sofreu uma grande transformação.
“O prefeito Antônio Prado achou-o muito provinciano, e então o Jardim passou a ter canteiros artísticos, à moda inglesa, ostentando flores mais aristocráticas, aves, etc.

O seu coreto data de 1902, com projeto do engenheiro Maximiliano Hehl (o mesmo que projetou a Catedral da Sé).
Num recanto do Jardim viam-se dois cedros, procedentes da floresta de Bussaco, nos arredores de Coimbra, e ali plantados em 1910; também nesse ano foi inaugurado o busto de Giuseppe Garibaldi, em um dos lados da avenida principal do Jardim“.
Em 1901 foram construídas a Casa do Administrador e a Casa de Chá, que tornou-se o ponto de encontro da elite paulistana.
O Jardim da Luz funcionou como jardim zoológico durante algum tempo, até que na década de 1930 os animais existentes foram removidos e distribuídos para outras instituições em São Paulo, entre eles o Parque da Água Branca (estação experimental da Secretaria da Agricultura).
As estufas de plantas também foram retiradas do Jardim e enviadas para o viveiro Manequinho Lopes, no Parque Ibirapuera.
É importante lembrar que o Jardim da Luz estava inserido em uma região então nobre da cidade de São Paulo no início do Século XX. Próximo aos Campos Elíseos, onde ficava a sede da administração estadual, cercado pelas chácaras e casarões dos barões de café, com hotéis e estabelecimentos comerciais de luxo em seu entorno e cercado de locais frequentado pela elite paulistana.
Entretanto já no final dos anos 1920, essa elite havia migrado para locais como a planejada Avenida Paulista, ou outros bairros, como Higienópolis, isso quando muitos destes “barões do café” não haviam quebrado com a superprodução do grão e a crise mundial de 1929, abandonando seus imóveis na região.
O fato é que o entorno do Jardim e ele próprio foram se degradando a partir de 1930 e ao longo de todo o século XX.
Até o ano de 1999 o primeiro jardim público paulistano não havia passado por qualquer manutenção profunda quanto mais uma restauração.
Séc. XXI. Nova vida ao local

Finalmente, no último ano do Século XX uma restauração conduzida pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente de São Paulo (SVMA) revitalizou estruturas do Jardim, como a gruta, os coretos, o sistema hidráulico e os espelhos d’água.
Segundo a SVMA, todo o projeto foi baseado nos registros históricos do “Guia Botânico da Praça da República e do Jardim da Luz”, escrito por Alfred Usteri, em 1919.
Com a restauração o Jardim voltou a atrair pessoas, ainda mais quando entre os anos 2000 e 2010, o fortalecimento das instituições culturais do entorno e ações de zeladoria trouxeram para o local uma programação frequente de atividades.
O espaço segue recebendo investimentos de manutenção. Segundo a SVMA os recursos destinados pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente passaram de 1,24 milhão de reais em 2021 para 1,58 milhão de reais em 2025, aplicados em poda, limpeza, recuperação de canteiros, conservação de equipamentos e vigilância.

Atualmente a flora do Jardim da Luz reúne 192 espécies de árvores, incluindo andá-açu, pau-brasil, pinheiro-do-paraná e palmito-jussara, todas ameaçadas de extinção.
Entre as palmeiras, gimnospermas, guatambus e alecrins-de-campinas, destaca-se o roseiral que leva ao lago.
A fauna conta com 98 espécies registradas em 2021, sendo 80 de aves, como martim-pescador-grande, socó-dorminhoco, carcará, irerê, papagaio e diversas espécies de beija-flor.
Sua localização em área densamente urbanizada transforma o parque em ponto de descanso para aves florestais que cruzam a metrópole, entre elas o tucano-de-bico-verde.
Peixes como carpas, tilápias e acarás, além de cágados-pescoço-de-cobra, compõem o ambiente aquático.
Aliás, vale registrar que o Jardim da Luz possuí, sob sua gruta artificial, o primeiro aquário da cidade (atualmente fechado por tempo indeterminado para obras).
O conjunto arquitetônico restaurado inclui a Casa de Chá, os coretos, a Casa do Administrador, a gruta e mais de 30 esculturas.
Fazendo limite com a Pinacoteca do Estado, o parque compõem quase uma extensão expositiva, com suas dezenas de obras, preservando o traçado que se adaptou à chegada da Estação da Luz e ao desenvolvimento das instituições culturais do entorno.
O Parque Jardim da Luz funciona de terça a domingo, das 6h às 18h. Às segundas-feiras, o local fica fechado para manutenção.
Fica na Praça da Luz, s/n – Bom Retiro, São Paulo – SP, com fácil acesso pela Estação Luz, linha azul do Metrô.
Entrada gratuita
Fontes:
https://moyarte.com.br/centro-de-sao-paulo/verbetes/J/jardim-da-luz.html
https://onofftransportes.com.br/blog/aquario-subterraneo-em-sao-paulo/
https://moyarte.com.br/centro-de-sao-paulo/verbetes/J/jardim-da-luz-diana-e-aquario-subterraneo.html
https://saopaulosecreto.com/jardim-da-luz-parque-mais-antigo-sao-paulo-centro-historico/



